• Nenhum resultado encontrado

2.4 O SISTEMA INTERNACIONAL DE PROPRIEDADE INTELECTUAL: DA CUP AO

proteção patentária em boa parte do mundo ocidental, tornando-se elemento balizador das relações entre agentes econômicos no comércio internacional.

Ainda que o objetivo inicial das negociações fosse a construção de uma legislação que regulasse uniformemente a propriedade industrial a nível internacional, logo se percebeu que a conjuntura político-econômica do último quartel do século XIX — caracterizada por rivalidades e equilíbrios entre as principais potências industriais do período — não permitiria o estabelecimento de um texto que atendesse a todos os diversificados interesses em jogo. O direcionamento das discussões era determinado pelas controvérsias entre as nações concorrentes — mais precisamente França, Alemanha, Estados Unidos, Canadá, Grã-Bretanha, Bélgica, Suíça e Áustria —, sendo em função de suas disputas por mercados configurada a dinâmica das negociações diplomáticas. Fracassada a tentativa inicial de unificação da legislação patentária, o que acabou prevalecendo foi a ratificação da vontade soberana das nações, resguardando-se o direito de cada país regular a concessão de privilégios de acordo com suas próprias necessidades e interesses.140 Em suma, foram estabelecidos pelo

“Acordo de Paris” somente princípios gerais que deveriam ser seguidos pelas legislações nacionais, ou seja, disposições genéricas e flexíveis que padronizavam minimamente o funcionamento da proteção patentária internacionalmente.141 Estes princípios legais estabelecidos pelo texto original da CUP mantêm-se até nossos dias, sendo os seguintes seus elementos essenciais: tratamento nacional, direito de prioridade e independência das patentes.

O primeiro consiste na impossibilidade de diferenciação de tratamento entre nacionais e estrangeiros no processo de concessão de privilégios, significando que qualquer país signatário deve dispensar tratamento igualitário entre residentes e não-residentes. O segundo,

140 Ver CRUZ FILHO, Murillo F. Patentes e Marcas: o Brasil na Convenção de Paris..., p. 2.

141 O prevalecimento do princípio da soberania das nações, defendido principalmente pela França, fez com que a maior parte dos países industrializados que vinham participando das negociações desde seu início não assinasse a Convenção em seu momento inicial. Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha e Áustria, por exemplo, só adeririam ao acordo posteriormente, a partir das gradativas revisões efetuadas no texto do tratado, permitindo uma relativa acomodação das principais divergências existentes.

doravante identificado como prioridade unionista, estabelece a salvaguarda da novidade da invenção, por determinado espaço de tempo, em qualquer país signatário, o que significa dizer que, dentro de um período estabelecido, o depositante de uma patente em um dos países signatários tem prioridade de depósito em todos os outros países da União sem que seja perdido o requisito da novidade. O último, por sua vez, estabelece que a validade dos depósitos, bem como a vigência e as regras a que se submetem os privilégios ficam restritas aos territórios nacionais.

É importante ressaltar que, da forma como foi concebido, o “Acordo de Paris”, não estabeleceu um conjunto de regras que abrangessem todos os aspectos concernentes ao funcionamento do sistema de proteção à propriedade de bens intangíveis, funcionando dentro de uma lógica de superposição de sistemas nacionais. Com isso, permitiu-se uma considerável margem para que as legislações dos países signatários estabelecessem instrumentais próprios para o tratamento da matéria — ainda que os princípios básicos supracitados devessem obrigatoriamente ser respeitados —, incluindo a imposição de restrições e a utilização de mecanismos de correção de eventuais abusos decorrentes dos privilégios. O tratado, desta forma, não inviabilizava a adoção, pelos signatários, de eventuais salvaguardas a seus interesses econômicos fundamentais, variáveis de acordo com o nível de desenvolvimento de cada país.

Os debates quantos aos principais pontos de divergência entre os membros da CUP permaneceram constantes ao longo do século XX, sujeitando-se o texto original do tratado, em função disso, a sucessivas revisões.142 O que se pode identificar no desenvolvimento histórico da Convenção é a formação de uma tendência de mudança na lógica da estrutura de funcionamento do sistema montada no final do Oitocentos, consubstanciada em um progressivo fortalecimento dos direitos dos titulares dos privilégios e, conseqüentemente, de

142 A efetuação de conferências periódicas de revis ão era prevista pelo artigo 14 do texto da CUP. Foram sete as oportunidades em que tais conferências redundaram em alterações significativas no texto da Convenção: Roma (1886), Bruxelas (1900), Washington (1911), Haia (1925), Londres (1934), Lisboa (1958) e Estocolmo (1967).

diminuição das possibilidades de aplicação de medidas restritivas aos DPI pelas legislações nacionais. Tal tendência ganharia contornos mais definidos a cada revisão do texto da CUP, recrudescendo a partir do último quartel do século passado. Podemos considerar como um primeiro fator determinante para o fenômeno as significativas mudanças nos padrões da economia internacional a partir do final da década de 70. É justamente um novo contexto de acirramento da concorrência internacional — assim como cem anos antes — que leva um grupo de países altamente industrializados, capitaneados pelos Estados Unidos, a se voltarem para a propriedade intelectual — ou mais exatamente, para a expansão dos limites dos direitos de propriedade dos detentores de tecnologia — como um instrumento de conquista e preservação de mercados, auferindo vantagens competitivas frente a seus concorrentes internacionais. Configura-se, então, um verdadeiro “consórcio de países ricos”143 em prol de um reordenamento da legislação internacional sobre propriedade intelectual.144 Soma-se a estas questões de natureza econômica uma explícita mudança de paradigma tecnológico no período em questão, cuja expressão é o surgimento de novos setores produtivos alicerçados em padrões técnicos, institucionais e competitivos absolutamente distintos dos existentes em setores mais tradicionais. É este o momento de irrupção e crescimento de atividades extremamente intensivas em tecnologia, com destaque para a informática, comunicação, biotecnologia e farmoquímica (que embora não fosse exatamente um setor novo, apresentava-se sob novas feições). Logo, partindo-apresentava-se do princípio de que todo processo de transformações profundas na base técnica da indústria promove demandas por mudanças na estrutura de apropriação,145 pode-se depreender que a consolidação de uma economia baseada em conhecimento tenha incentivado as pressões dos países centrais por uma adequação do

143 BORGES, Juliano da Silva. Propriedade Intelectual: Ofensiva Revisora e a Nova Lei de Patentes Brasileira. 2000. Dissertação (Mestrado em Ciência Política) — IUPERJ, Rio de Janeiro. p. 31.

144 Deve-se destacar, entretanto, que embora tais países tenham em linhas gerais se alinhado nos principais foros internacionais de debates e deliberações, seus posicionamentos não estavam imunes a eventuais antagonismos.

145 DAL POZ, Maria Ester; BRISOLLA, Sandra de Negraes. Jogos de apropriação de biotecnologias genômicas.

In: XXIII Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica, 2004, Curitiba. Anais do XXIII Simpósio de Gestão da Inovação Tecnológica. São Paulo: Núcleo PGT/USP.

sistema legal de propriedade intelectual ao novo contexto, suscitando-se a criação de barreiras de acesso ao conhecimento e garantia das possibilidades de controle desses novos mercados por parte das principais empresas investidoras.

Em face destes movimentos de transformação da economia internacional, alteram-se as estratégias adotadas pelos “países desenvolvidos” — líderes em inovação e principal detentores da tecnologia disponível no mercado internacional — em suas relações com os

“países em desenvolvimento” no mercado internacional de tecnologia. As primeiras demonstrações de tal fenômeno ocorrem já ao alvorecer dos anos 80 do século passado, por ocasião das conferências de Revisão do Acordo de Paris — Genebra (1980) e Nairóbi (1981)

—, quando as principais potências industriais, sob liderança dos EUA, conseguem brecar uma contratendência política favorável aos interesses dos países periféricos, proposta e defendida por um bloco conhecido como “Grupo dos 77” (no qual o Brasil exercia uma nítida posição de liderança). Vencedora esta primeira estratégia defensiva dos “países ricos”, partem então para um franco avanço rumo ao aprofundamento da estrutura de “proteção” à atividade inventiva: primeiramente, conseguem impor a mudança do foro internacional de negociação e deliberação, que migra do âmbito da Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) para o do Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio (GATT), posteriormente transformado em Organização Mundial de Comércio (OMC). Com isso, favoreceu-se uma ampliação do poder de barganha das potências capitalistas centrais, que, no novo foro, passavam a contar com um conjunto maior de instrumentos de pressão — possibilidades de imposição de sanções em outros setores comerciais, sistema de voto proporcional à força econômica de cada país, etc.

Alcançado este primeiro objetivo, o atendimento de seus interesses se tornaria mais facilmente viabilizado, culminando com o estabelecimento do Acordo sobre Aspectos dos Direitos de Propriedade Intelectual Relacionados ao Comércio (TRIPs), tratado que sintetizaria e consolidaria a antiga tendência de “fortalecimento” dos DPI, restringindo em

grande medida a margem de manobra dos países da periferia capitalista para a adoção de medidas de promoção de políticas de desenvolvimento a partir de flexibilização dos instrumentos de apropriação sobre a tecnologia.

O quadro atual das relações entre países centrais e periféricos no mercado internacional de tecnologia, portanto, é em larga medida um reflexo deste conjunto de transformações efetuadas na estrutura de regulação dos DPI.146 Deve-se destacar, entretanto, que as transformações jurídico- institucionais não constituem um elemento único e imediato de causalidade. A conjuntura atual do mercado tecnológico só pode ser compreendida a partir de sua inserção em um quadro muito mais amplo de transformações na própria configuração do modo de produção capitalista, que refletem uma nova correlação entre as forças econômicas internacionalmente dispostas. Esta é uma tarefa que ainda está por se fazer, tendo a ciência histórica, indubitavelmente, muito a contribuir neste sentido.

146 Dentre as principais alterações na legislação internacional de patentes estabelecidas pelo TRIPs figuram a obrigação da extensão do patenteamento a todos os setores industriais, inclusão de softwares, algoritmos e descobertas no universo de objetos patenteáveis, migração do status da patente do “direito de exploração comercial” ao “direito de investigação”, extensão dos prazos das exclusividades, etc. Para uma análise detalhada sobre os dispositivos previstos em TRIPs e suas conseqüências, ver CORIAT, Benjamin. O novo regime global de propriedade intelectual e sua dimensão imperialista: implicações para as relações “norte/sul”. In: BANCO NACIONAL DE DESENVOLVIMENTO ECONÔMICO E SOCIAL (BNDES). Desafio do crescimento. Rio de Janeiro: BNDES, 2005.

3 A CRIAÇÃO DO INPI: PROJETOS E AGENTES ENVOLVIDOS NA CONSTRUÇÃO DE POLÍTICAS PÚBLICAS PARA OS CAMPOS DA PROPRIEDADE INDUSTRIAL E TRANSFERÊNCIA DE TECNOLOGIA

O despertar da década de 70 foi marcado por uma contundente inflexão no tratamento governamental das questões concernentes ao comércio de tecnologia entre o Brasil e o exterior. Como parte de uma ampla estratégia para o desenvolvimento da capacitação científico-tecnológica nacional, empreendeu o regime militar um profundo reordenamento do aparato jurídico- institucional de controle sobre as importações tecnológicas, englobando, entre outras providências, a criação de um novo órgão de propriedade industrial, configurado sob moldes totalmente diferentes de um escritório tradicional de patentes, e uma revisão da legislação vigente. Esta significativa reforma inauguraria uma nova fase política para o setor, caracterizada pela ampliação da esfera de atuação do Estado junto ao mercado tecnológico, fase esta que perduraria até a década de 90, quando a estrutura de controle inaugurada pelo regime militar seria desmontada, atropelada pelo processo de liberalização econômica.

O objetivo deste capítulo é discutir alguns aspectos políticos, econômicos e ideológicos que propiciaram a gênese, maturação e consolidação de um projeto político para o campo da ciência e tecnologia. Dentre as distintas iniciativas envolvidas, enfatizaremos as voltadas para o campo da PI e TT, considerando-o como elemento estratégico em uma política geral de desenvolvimento implementada pelo regime militar brasileiro. Com este intuito, procuraremos primeiramente perceber de que forma o desenvolvimento tecnológico se levantava como questão importante no Brasil pós-guerra, identificando os desdobramentos dos debates estabelecidos entre distintos atores sociais no que tange às relações entre capacitação tecnológica e desenvolvimento industrial. Posteriormente, buscaremos discutir as implicações da questão tecnológica em diferentes esferas do aparelho estatal, com destaque

para as Forças Armadas e o âmbito das relações exteriores, tentando identificar de que maneira uma determinada linha de ação política — baseada em um paradigma desenvolvimentista — teria sido construída ao longo dos anos cinqüenta e sessenta. Propomo-nos, ainda, a examinar a forma como um conjunto determinado de idéias e propostas de ação, representando os interesses e anseios de grupos específicos do empresariado nacional, transformou-se em um projeto político concreto, consubstanciado em um programa específico de políticas públicas implementado a partir do governo Médici (1969-1974). Neste sentido, tentaremos analisar as diferentes forças sociais envolvidas no processo de definição de um tratamento para questão da PI e TT, seus instrumentos e espaços de representação, bem como o desenrolar e os resultados dos embates travados entre interesses divergentes.