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Isto assente, importa agora analisar o modo como as responsabilidades parentais são exercidas no nosso ordenamento jurídico.

Pelo caráter prático e quotidiano que assume, analisaremos brevemente o regime legal das responsabilidades parentais, quer na constância do matrimónio, quer em caso de divórcio ou separação judicial de pessoas e bens.

39 Saliente-se, no entanto, que nos termos do art. 1879.º, “[…] ficam desobrigados de prover ao sustento dos filhos e de assumir as despesas

relativas à sua segurança, saúde e educação na medida em que os filhos estejam em condições de suportar, pelo produto do seu trabalho, ou outros rendimentos, aqueles encargos”.

40 Cfr. O Direito…, cit., p. 302. A iniciativa legislativa do nosso ordenamento não ficou indiferente à necessidade de regulamentação desta

obrigação por parte dos pais, de tal sendo comprovativo a aprovação dos seguintes diplomas: Lei n.º 75/98, de 19 de Novembro, (Regime Jurídico da Garantia de Alimentos Devidos a Menores); Decreto-Lei n.º 164/99, de 13 de Maio, (Regulamentação da Garantia de Alimentos Devidos a Menores). Já em sede de cooperação internacional, atente-se nos Decreto - Lei n.º 45 942, de 28 de Setembro de 1964, (Convenção para a Cobrança de Alimentos no Estrangeiro); Decreto - Lei n.º 48 495, de 22 de Julho de 1968, (Convenção Relativa à Lei Aplicável em Matéria de Prestação de Alimentos a Menores); Decreto-Lei n.º 246/71, de 3 de Junho, (Convenção Relativa ao Reconhecimento e Execução de Decisões em Matéria de Prestação de Alimentos a Menores); Decreto n.º 339/75, de 2 de Julho, (Convenção Sobre a Lei Aplicável às Obrigações Alimentares) e Decreto n.º 338/75, de 2 de Julho, (Convenção Sobre o Reconhecimento e Execução de Decisões Relativas a Obrigações Alimentares).

41 Neste sentido, idem, p. 302; João de CASTRO MENDES, Direito da Família, edição revista e ampliada por Miguel Teixeira de Sousa, AAFDL,

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Cumpre desde já destacar que, a acrescer às supra mencionadas alterações

introduzidas pela Lei 61/2008, também nesta matéria o legislador “[…] manifestou vontade de

generalizar o exercício em comum das responsabilidades […]”42.

Relativamente ao exercício na constância do matrimónio, e atentando no disposto nos

arts. 1901.º, e 1902.º, verifica-se que o critério legal é o exercício conjunto, existindo uma

presunção de acordo do outro sempre que um dos progenitores pratique, por si só, um qualquer

ato que integre o exercício das responsabilidades parentais – cfr. art. 1902.º, n.º 2.43

Embora não os excecionando da regra geral do exercício conjunto, a Lei concede uma

especial tutela aos atos que traduzam “questões de particular importância”44, na medida em

que, nestas matérias, não se logrando alcançar um acordo entre os pais, “qualquer um deles pode recorrer ao tribunal, que tentará a conciliação” – art. 1901.º, n.º 2.

Assim, apenas na eventualidade de a algum dos progenitores não ser possível este exercício, em virtude de “ausência, incapacidade ou outro impedimento decretado pelo tribunal” não serão as responsabilidades parentais exercidas em conjunto, antes se concentrando o seu exercício no outro progenitor, em conformidade com o preceituado no art. 1902.º.

Por outro lado, também em sede de divórcio dos progenitores se denota esta preocupação de tutela do exercício conjunto das responsabilidades parentais, porquanto foi expressamente consagrado que relativamente às “questões de particular importância” para a

vida da criança o exercício é comum45, com exceção dos “casos de urgência manifesta, em que

42Vide, Maria Clara SOTTOMAYOR, Regulação..., cit., p. 28; Tomé d’Almeida RAMIÃO, O Divórcio…, cit., pp. 160 ss. Para uma análise mais

detalhada acerca desta manifestação de vontade legislativa, sugerimos a leitura da Exposição de Motivos do Projecto de Lei n.º 509/X (Deputados do PS) – Alterações ao Regime Jurídico do Divórcio.

43 Todavia, a última parte do normativo excetua desta presunção os atos para os quais “a lei expressamente exija o consentimento de ambos os

progenitores” ou aqueles que configurem “atos de particular importância”.

44 Para um estudo aprofundado acerca da noção de “questões de particular importância” leia-se, entre outros, Hugo Manuel RODRIGUES, Questões

de Particular Importância no Exercício das Responsabilidades Parentais, 1.ª edição, Coimbra, Coimbra Editora, 2011, pp. 123 ss. Fazendo nossas as palavras de HelenaBOLIEIRO e Paulo GUERRA, A Criança…, cit., pp. 196 e 197 (nota 24), podemos tomar como exemplos destas

questões, entre outras, os seguintes: “[d]ecisão sobre intervenções cirúrgicas no filho; [s]aída do filho para o estrangeiro, não em turismo mas em mudança de residência, com algum carácter duradouro; [o]btenção de licença de condução de ciclomotores; [e]scolha de ensino particular ou oficial para a escolaridade do filho; [d]ecisões de administração que envolvam oneração; [e]ducação religiosa do filho (até aos seus 16 anos); [p]rática de actividades desportivas que representem um risco para a saúde do filho; [a]utorização parental para o filho contrair casamento; [o]rientação profissional do filho; [u]so de contracepção ou interrupção de uma gravidez; [p]articipação em programas de televisão que possam ter consequências negativas para o filho”. No mesmo sentido, Tomé d’Almeida RAMIÃO, O Divórcio…, cit., p. 165.

45 Com algumas reservas face à estipulação legal do critério de exercício conjunto, Maria Clara SOTTOMAYOR, Regulação…, cit., p. 284 e pp. 325

ss, defende que a mesma não deve perder de vista o respeito pela autonomia da família e do superior interesse da criança, de forma a que seja reconhecida a possibilidade de homologação de acordos entre ambos os progenitores que fixem o exercício das responsabilidades parentais de modo singular. Nas suas palavras, a previsão deste critério pelo legislador “[…] impõe apenas que, nos casos em que um dos pais o pede contra a vontade do outro, o/a juiz/a investigue qual é a melhor solução para a criança, podendo impor o exercício conjunto contra a vontade de um

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qualquer dos progenitores pode agir sozinho, devendo prestar informações ao outro logo que possível” – cfr. art. 1906.º, n.º 146.

Todavia, e atendendo às particularidades da circunstância em causa, estabelece-se

ainda que no que respeita aos “atos da vida corrente”47 da criança, o exercício é singular,

devendo ser assegurado pelo “progenitor com quem ele [o filho] reside habitualmente, ou ao progenitor com quem ele se encontra temporariamente”. Não obstante, salvaguarda-se que sempre deverão ser levadas em conta as orientações educativas relevantes estabelecidas pelo progenitor com quem a criança habitualmente resida, independentemente daquele com quem se

encontra a dado momento – vide art. 1906.º, n.º 3. Conforme explica TOMÉ D’ALMEIDA RAMIÃO

“[s]eguramente que estas orientações se inserem nos actos da vida corrente do filho e, entre estes, destacam-se as orientações educativas mais relevantes, mais importantes, nomeadamente as regras e princípios relacionados com o desenvolvimento da personalidade do filho, do seu carácter, pois que será com o progenitor com quem reside que maior contacto

mantém com o filho, com ele mantém uma relação de maior proximidade […]”48. Assim, as

decisões respeitantes ao dia-a-dia da criança – por exemplo, a escolha das refeições, a autorização para ir a uma festa de aniversário, a escolha do vestuário, etc. – devem ser tomadas pelo progenitor com quem a mesma se encontre a cada momento, desde que as orientações e regras quotidianas estabelecidas pelo progenitor com quem ela reside habitualmente sejam respeitadas – por exemplo, o horário para a criança se deitar, a regularidade com que lhe é

dos pais ou decretar o exercício unilateral consoante o interesse da criança, em cada caso concreto, não significando tal possibilidade a recusa automática de homologação de um acordo de exercício unilateral das responsabilidades”. Pugnando pela mesma tese, Alexandra Viana LOPES, «Divórcio e Responsabilidades Parentais. Algumas reflexões sobre a aplicação do novo regime», Revista do CEJ, 1.º semestre 2009/n.º11, pp. 137 a 178 (pp. 168 - 173); Tomé d’Almeida RAMIÃO, O Divórcio…, cit., p. 163, afirma mesmo estar convicto de que “[…] o regime anterior era

mais equilibrado e adequado, por permitir aos pais estabelecer, por acordo, o exercício conjunto, não podendo ser imposto, regime que, em grande medida, era adotado pelos progenitores, em especial naqueles casos em que ambos os pais mantinham bom relacionamento e queriam continuar a fazer parte da vida dos filhos […]”.

46 A título ilustrativo refira-se a eventualidade de a criança sofrer um acidente e após ter sido conduzida para o hospital, o progenitor em causa ter

de, imediatamente e sem possibilidade de consultar o outro progenitor, autorizar a realização de uma operação cirúrgica por aquela se encontrar perante uma situação-limite, de “vida ou de morte”. Nestes casos, pela manifesta urgência e atendendo também ao superior interesse em causa, a Lei naturalmente prevê a possibilidade de um dos pais tomar a decisão por si só, contando que informe o outro logo que possível.

47 Assim,Alexandra Viana LOPES, «O Divórcio…, cit., p. 169. O conceito de atos da vida corrente tem vindo a ser delimitado negativamente pela

doutrina. Isto é, considerar-se-ão atos da vida corrente todos aqueles que se não incluam no conceito de questões de particular importância, pelo que se impõe uma análise casuística das situações. Neste sentido, Tomé d’Almeida RAMIÃO, O Divórcio…, cit., p. 166, ilustra aquele conceito

como os atos “[…] que se relacionem com o dia a dia do filho […]”, oferecendo, entre outros, exemplos como “[…] as decisões relativas à disciplina, ao tipo de alimentação, dieta, actividades e ocupações dos tempos livres, contactos sociais, cuidados urgentes, levar e ir buscar o filho regularmente à escola, verificar as lições da semana […]”.

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concedida permissão para ingerir fast food, a prática de desportos e atividades extracurriculares, entre outros.

Embora seja este o princípio a seguir nos casos de divórcio, certo é que na eventualidade de o regime conjunto das responsabilidades parentais ser considerado contrário ao superior interesse do filho – conceito cujo conteúdo será, posteriormente, alvo de uma análise mais detalhada –, deverá o juiz atribuir o seu exercício exclusivamente ao progenitor que, de acordo com os critérios de seguida se explanarão, em melhor posição se encontre para

desempenhar as respetivas funções. Verificamos, com TOMÉ D’ALMEIDA RAMIÃO49, que o art.

1906.º, n.º 2, funciona então como uma “cláusula de salvaguarda” daquele interesse.

Em suma, o poder paternal, antes, e as responsabilidades parentais, agora, apresentam- se como um poder-dever/poder funcional dos pais sobre os filhos, no sentido em que consubstanciam um “[…] conjunto de faculdades de conteúdo altruísta que têm de ser exercidas de forma vinculada, de harmonia com a função do direito, consubstanciadas no objectivo primacial de protecção e promoção dos interesses do filho, com vista ao seu desenvolvimento integral”50.