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COMPONENTES DA COMPETÊNCIA SOCIOCULTURAL Celce-Murcia et al (1995)

TIPOS DE MODELO DA CC

1.4.3 O modelo de Byram (1997)

Para Michael Byram (1997), a competência comunicativa intercultural desdobra-se nas competências linguística, sociolinguística e discursiva e nos seguintes saberes, nomeadamente:

- o saber, assemelhando-se à cultura geral, isto é, o conhecimento da estrutura social, dos valores e comportamentos quer do país e da cultura materna (1) quer do país e da cultura alvo (2) e a relação entre ambos;

- o saber-ser/estar, quer dizer, a capacidade de demonstrar interesse, curiosidade, abertura, tolerância de ambiguidade e empatia e em expressar comportamentos e atitudes positivas perante os valores, as disposições e a perspetiva do Outro;

- o saber-aprender/fazer, ou seja, procedimentos relacionados com a interação eficaz com o Outro, mediando entre a cultura 1 e a cultura 2, antecipando/prevendo ou remediando mal-entendidos ou conflitos interculturais;

- o saber-compreender, isto é, a capacidade de reagir positivamente ao modo de vida do Outro, relacionado-o com a sua própria forma de estar e ver o mundo.

O domínio destas competências converge no desenvolvimento da consciência cultural crítica (saber envolver-se) em termos da elaboração de critérios de avaliação referentes às práticas e perspetivas culturais quer de si próprio e do Outro.

Neste modelo, um dos objetivos é promover o falante intercultural, capaz de comunicar apropriadamente na situação mas também apto para estabelecer relações profícuas com os seus interlocutores. Na ótica de Byram (1997:p.9), este indivíduo assume-se como

someone who is able to see relationships between different cultures—both internal and external to a society— and is able to mediate, that is interpret each in terms of the other, either for themselves or for other people. It is also someone who has a critical or analytical understanding of (parts of) their own and other cultures— someone who is conscious of their own perspective, of the way in which their thinking is culturally determined, rather than believing that their understanding and perspective is natural.

Em termos práticos, podemos esquematizar o modelo da comunicação intercultural de Byram (1997) da seguinte forma (figura 25):

Para um aprendente se assumir um falante intercultural, deve manifestar atitudes de curiosidade e abertura, disponibilidade para suspender a descrença sobre outras culturas e as crenças sobre a sua própria cultura; o aprendente deve obter conhecimento tanto do país do interlocutor como também aprofundar o conhecimentos da sua própria cultura; o aprendente deve também desenvolver capacidades que lhe permitam interpretar e relacionar um documento ou evento de uma outra cultura, para explicá-la e relacioná-la com os acontecimentos da sua própria cultura; o aprendente deve favorecer igualmente capacidades de descoberta e interação para adquirir novos conhecimentos de uma cultura e as suas práticas culturais, sendo capaz de operar esses mesmos conhecimentos, atitudes e habilidades sob os constrangimentos da comunicação e interação em tempo real; finalmente, a última fase culmina no alcance da consciência crítica cultural que se assume como uma educação política, isto é, a capacidade de avaliar criticamente baseando-se em práticas e produtos da sua própria cultura e da(s) cultura(s) estrangeira(s). Por conseguinte, consideramos que o modelo apresentado da autoria de Byram (1997) tanto pode ser perspetivado como um modelo de tipo analítico ao identificar as componentes constituintes da CCI como co-orientacional, dando primazia ao conceito de consciência crítica intercultural para o qual convergem as componentes previamente descritas.

Como podemos verificar, o esquema apresentado na figura 26 apresenta cinco saberes que se relacionam com as competências gerais individuais (Conselho da Europa, 2001), nomeadamente:

- o saber ("savoir") inclui o conhecimento do mundo, o conhecimento sociocultural tanto derivados de uma aprendizagem empírica ou de um ambiente formal sobre as seguintes componentes: “a vida quotidiana, as relações interpessoais, os valores e as crenças, as atitudes, a linguagem corporal, as convenções sociais e os comportamentos rituais” Conselho da Europa, 2001: pp. 148-150);

- o saber aprender/ fazer ("savoir apprendre/ faire") é “a capacidade para observar e participar em novas experiências e incorporar o conhecimento novo nos conhecimentos anteriores” (Conselho da Europa, 2001: p. 154), demonstrando disponibilidade para a descoberta e dominando as convenções adequadas na interação com o Outro;

- saber ser e estar ("savoir être") implica os sentimentos de curiosidade, abertura para suspender a (des)crença na própria cultura e na cultura do Outro, descentrando-se da sua

cultura materna, aceitando e minimizando as diferenças e o eventual fosso cultural, assim como prevenindo atitudes de superioridade cultural;

- saber compreender ("savoir comprendre") é a capacidade a partir da qual o aprendente consegue interpretar aspetos da outra cultura e compará-los ou contrastá-los com a sua, bem como explicar um evento da sua cultura materna e relacioná-lo com a cultura estrangeira.

Na confluência de todos os saberes referidos, dá-se a consciência intercultural (figura 14), também denominada por "savoir s’engager" (Byram, 1997), na qual há uma crítica construtiva sobre “o conhecimento, a consciência e a compreensão da relação (semelhanças e diferenças distintivas) entre «o mundo de onde se vem» e «o mundo da comunidade-alvo» (Conselho da Europa, 2001: p. 150), bem como a sugestão de um envolvimento ao aprendente para além do espaço físico da sala de aula que se aproxima de uma participação ativa, inclusivamente de caráter político/interventivo na sociedade.

Figura 26: A tomada de consciência intercultural a partir da convergência dos saberes gerais

Novamente de acordo com o QECR (Conselho da Europa, 2001), quando o aprendente aciona estes saberes, refletindo tanto sobre a sua cultura de origem como sobre a cultura alvo, atingirá os seguintes objetivos (Conselho da Europa, 2001: p. 151):

- a capacidade para estabelecer uma relação entre a cultura de origem e a cultura estrangeira;

- a sensibilidade cultural e a capacidade para identificar e usar estratégias para estabelecer o contacto com gentes de outras culturas;

- a capacidade para desempenhar o papel de intermediário cultural entre a sua própria cultura e a cultura estrangeira e gerir eficazmente as situações de mal-entendidos e de conflitos interculturais;

- a capacidade para ultrapassar as relações estereotipadas.

Neste sentido, a um nível mais individual, a competência comunicativa intercultural assume-se como uma manipulação dos saberes, conhecimentos e capacidades por parte do aprendente para reconhecer a diversidade do Outro, colocando-se no seu lugar e criando empatia com a sua perspetiva no sentido da criação de uma eventual nova identidade, uma espécie de co-construção de uma "terceira cultura" ou "third place" (Carley Dodd, 1998), uma cultura de espaços partilhados, em virtude dessa interação, convertendo-se num mediador intercultural. Dessa forma, a um nível mais geral, a aula de língua estrangeira tem o potencial de se transformar num valioso recurso que promove a convivência pacífica, a democracia e a transformação democrática dos cidadãos aprendentes.