COMPONENTES DA COMPETÊNCIA SOCIOCULTURAL Celce-Murcia et al (1995)
PRÉ DURANTE PÓS pôr de lado os
2.3 Os estereótipos e o processo de estereotipia
Tolerar apenas é ofender. Johann Wolfgang von Goethe (1833)
Como previamente referido no subcapítulo anterior, os estereótipos são imagens mentais suficientemente potentes para determinarem a forma de pensar e atuar do indivíduo.
Inicialmente introduzido por Lippmann (1922), o conceito de estereótipo foi perspetivado por este autor como uma imagem fixa que limita as perceções do indivíduo. Ao conceito de estereótipo podemos associar os seguintes termos (figura 50):
Figura 50: Definição de estereótipos
Fonte: adaptado de Leyens et al. (1994)
A figura 50 mostra-nos que os estereótipos são uma representação mental formada por imagens fixas preconcebidas com ou sem conhecimento de causa. Esse constructo é geralmente partilhado pelos membros de um dado grupo de pertença. Conscientes ou não, os estereótipos fazem parte de uma função natural da mente humana em simplificar através da categorização e suprageneralização (Leyens et al, 1994).
Desta forma, podemos conceber a formação do estereótipo no entrecruzamento de várias dimensões (figura 51), nomeadamente:
- o indivíduo;
- o grupo;
Figura 51: As dimensões do conceito de estereótipo
Fonte: adaptado de Glăveanu (2007)
Neste esquema (figura 51) podemos constatar que a formação do estereótipo está dependente da forma como o indivíduo perceciona o seu mundo social, das representações sociais e das interações que estabelece com o Outro, sejam dentro da sua comunidade de pertença (microgrupo) ou com o Outro estrangeiro (macrogrupo). A interação entre o indivíduo e o mundo social envolve crenças construídas e moldadas pelas influências do grupo nesse contexto, determinando as suas ações.
Na opinião de Glăveanu (2007), a aceção de estereótipo implica um constructo coletivo e partilhado, isto é, o estereótipo só tem validade se for partilhado por um grupo. Contudo, no nosso entender, concebemos a noção de estereótipo em termos individual e coletivo, como é possível verificar na figura 52.
Figura 52: Conceção de estereótipo a nível individual, micro e macro
Fonte: Glăveanu (2007: p. 2)
Segundo a esquematização representada na figura 52, os níveis de generalização do estereótipo variam do individual, ao microgrupo que implica um núcleo de pessoas bastante diminuto ao ponto de se poderem relacionar diretamente umas com as outras e ao macrogrupo que se relaciona, por exemplo, com os habitantes de uma cidade ou país. Por essa razão, o estereótipo sobre o Outro de um macrogrupo pode ser considerado um estereótipo cultural.
Em suma, nas palavras de Glăveanu (2007: p. 1)
to summarize, stereotypes are defined by their social, shared, generalised, contextual, dual and schematic nature. That is stereotypes are shared beliefs between group / category members about the in or out-group members (both their personality and behaviour – the dual nature) usually formed during the process of social interaction (therefore being contextual). They are schematic (often simple, essentialist) and generalised (describing all members and ignoring individual differences).
Os conceitos de estereótipo e preconceito também são frequentemente assumidos como sinónimos, no entanto distinguem-se pelo facto de no primeiro, como nos diz Babo (2007: p. 287-288)
predomina[r] a dimensão de classificação, pois se trata de um juízo redutor, falseado ou mesmo contraditório, quase sempre depreciativo e feito com desconhecimento de causa, referente a um determinado grupo e seus elementos” funcionando como um “filtro simplificador das relações entre o EU e a complexidade da realidade em que o OUTRO se integra. Constituiria o reflexo de uma tendência universal para agrupar e categorizar os acontecimentos, os objectos e as pessoas, com base em relações de semelhança.
Pelo contrário, o preconceito, em termos afetivos,“encerra uma implicação avaliativa, também ela quase sempre negativa, face a um objecto ou a um grupo” (Babo, 2007: p. 288).
Como já referimos, a generalização de imagens não é necessariamente usada como rotulação do Outro mas também à própria figura do Eu.
Geralmente, de acordo com Brunsch (2005) o conceito de esterótipo é usado como referência ao Outro (heteroestereótipo), contudo este conceito também pode ser referenciado ao próprio grupo a que pertence o Eu (autoestereótipo). Com efeito, como nos diz Russell (1999: p. 110-111)
dentro de los estereotipos, podemos distinguir los autoestereotipos, es decir, la visión que los miembros de una cultura tienen de sus propias características nacionales; y los heteroestereotipos, a saber, la visión que tienen los demás, los de fuera, de los rasgos típicos de una cultura y de sus miembros. Estos dos tipos de estereotipos, presentes en todas las culturas, se encuentran abundantemente y como «magnificados» en muchas producciones de los medios de comunicación de masas: publicidad, dibujos satíricos, revistas de actualidad y moda, guías turísticas, telediarios, etc.
Os estereótipos são fenómenos frequentes ao estarem presentes no próprio meio familiar ou profissional, nos meios de comunicação social, na publicidade, enraizados nas lendas populares, entre outros contextos, implantando-se muitas vezes inconscientemente nas mentes dos indivíduos. Esta representação fixa sobre caraterísticas, normas comportamentais de grupos pode corresponder à realidade, ignorando o comportamento individual, a exceção à norma. O conceito de estereótipo sugere uma conotação negativa, muito embora haja estereótipos que assoberbam caraterísticas positivas. O esquema representado na figura 53 mostra-nos precisamente esse aspeto, ou seja, os auto e heteroestereótipos ramificam-se em três tipos:
- normativos / pessoais; - conscientes/ inconscientes; - positivos / negativos.
Figura 53: Taxonomia de estereótipos (adaptado de Brunsch, 2005)
Segundo Brunsch (2005), os estereótipos normativos ocorrem quando se fazem suposições sobre o Outro com base num conhecimento generalizado derivado dos média (televisão, internet, rádio, imprensa, publicidade, entre outros), enquanto os estereótipos pessoais derivam da experiência pessoal do indivíduo e do seu contacto algo limitado com estrangeiros.
Os estereótipos conscientes abrem caminho à sua desconstrução pelo facto de o indivíduo estar automaticamente ciente deles. Neste caso, o aprendente permite uma abertura a novas informações, dando azo a outras interpretações e minimizando a distância entre a sua cultura e a cultura estrangeira. No entanto, acreditamos que o tipo de estereótipo inconsciente ainda é preponderante ao revelar estereótipos fixos suficientemente resistentes a nova informação capaz de os modificar ou, por outro lado, usar essa informação e distorcê-la a seu favor; classificar os membros de uma dada cultura em categorias pré-concebidas que representem o seu todo. Ao contrário dos
estereótipos conscientes, este tipo realça precisamente a distância entre as culturas, maximizando os contrastes e as diferenças.
Os estereótipos positivos assemelham-se de certa forma aos estereótipos conscientes pelo facto de o aprendente tentar reconhecer, em primeiro lugar, o que é idêntico entre as culturas, desde que a base de comparação esteja assente em algo positivo. Isto Brunsch (2005) apelida de «solidarity fallacy». Ao invés, os estereótipos negativos assumem-se como a forma mais impeditiva de conhecer o Outro para se conhecer melhor a si mesmo, na medida em que a base de comparação é sempre negativa em relação ao Outro, sendo perspetivado como o seu lado antagónico.
Desta forma, para a referida autora (2005), o processo de estereotipia em relação ao Outro começa com a categorização de indivíduos, ou seja, os indivíduos são colocados em determinados grupos como, por exemplo, o sexo, a nacionalidade, entre outras variáveis. O estereótipo é estendido a todos os membros dessa categoria, ao ponto de se considerar essas caraterísticas partilhadas pelo grupo estereotipado, ignorando o facto de que, dentro de uma própria cultura existe uma panóplia de subculturas, de indivíduos que não refletem a cultura do grupo dominante ao não incorporarem todas as caraterísticas associadas.
Para Glăveanu (2007), o processo de estereotipia assume a seguinte representação (figura 54):
Figura 54: O processo de estereotipia
Na figura 54 podemos ver que o processo de estereotipia para Glăveanu (2007) se processa num ciclo vicioso bastante complexo. Cada grupo, seja micro ou macro, possui estereótipos sobre si mesmo, mas também atribui estereótipos aos padrões comportamentais do Outro, podendo corresponder à sua própria visão. Entendemos que a projeção do hetereoestereótipo se refere à incidência dos estereótipos do grupo 1 ao grupo 2.
Em função dos termos usados no quadro 11, consideramos importante dar exemplos práticos que distinguem os estereótipos simples dos projetados:
TIPO DE ESTEREÓTIPO: EXEMPLO:
Autoestereótipo "Eu acho que os Portugueses são…"
Autoestereótipo projetado "Eu acho que os Espanhóis nos
consideram…"
Heteroestereótipo "Eu acho que os Espanhóis são…"
Heteroestereótipo projetado "Eu acho que os Espanhóis pensam que eles próprios são…"
Quadro 11: Exemplificação de estereótipos simples e projetados
Em termos gerais, podemos resumir que o processo de autoestereotipia ocorre quando o Eu aceita as suprageneralizações formadas e impostas pelo Outro ao ponto de as admitir como verdadeiras. Este facto está relacionado com o princípio da «self-fulfilling prophecy» (Brunsch, 2005) na medida em que, quando o indivíduo pensa que algo é verdade sobre si mesmo, ele tende a comportar-se em conformidade com essa perspetiva, assumindo-o como verdade absoluta na sua própria auto-perceção e na perceção do grupo a que pertence. A nosso ver, esta teoria desempenha um papel importante ao determinar o comportamento dos indivíduos influenciado pela cosmovisão do Outro, podendo gerar implicações positivas ou negativas na sua auto- imagem.
Acreditamos que é inevitável cair em estereótipos. Contudo, o aprendente pode tentar avaliar o tipo de estereótipo que usa e contrariar os estereótipos de tipo inconsciente ou negativo que criam obstáculos à comunicação intercultural. As representações devem ser sujeitas a processo de metamorfose para evitar a cristalização do estereótipo. Assim,
o estereótipo, de acordo com Brunsch (2005), geralmente conotado com uma carga negativa, transformar-se-á num processo positivo e coadjuvante ao processo de comunicação intercultural ao permitir que o Eu se liberte dessas amarras estereotipadas que turvam o seu julgamento para reconhecer melhor o Outro, promovendo outro tipo de interação e mediação, como podemos ver nas estratégias usadas para a (des)construção de estereótipos no quadro 12.
O estereótipo como processo negativo O estereótipo como processo positivo
- Contrastar a cultura de origem e a cultura estrangeira, exaltando a C1;
- Agrupar indivíduos em categorias erróneas sem conhecimento de causa motivado pela cor da pele, forma de vestir, etc.
- Explicar os problemas de comunicação entre a C1 e C2 baseados nas diferenças;
- Avaliar as culturas através de caraterísticas positivas e negativas;
- Generalizar essas caraterísticas a todos os membros desse grupo.
- Não estar disposto a mudar a sua opinião mesmo em função de informação que a refute.
- Ter consciência do uso de
estereótipos;
- Estar ciente do facto de que os estereótipos descrevem uma norma que pode ou não ser partilhada pelo comportamento individual;
- Usar o estereótipo para efeitos descritivos de um grupo sem o julgar como bom ou mau;
- Compreender e agir em conformidade com esse estereótipo prévio numa situação intercultural;
- Utilizar o estereótipo numa fase de elicitação como primeira hipótese sobre um dado grupo sujeito a alterações em função de nova informação ou experiências.
Na aula de LE, o desafio para o professor é transformar os estereótipos dos aprendentes em "metaestereótipos" (Glăveanu, 2007: p. 3) com o objetivo de analisar e refletir "how they are generated, how they function and impact social interactions – and then act accordingly modifying these processes (an awareness and understanding of stereotypes guided by personal experience)."
Encarar o estereótipo na aula de LE como um recurso positivo e favorável à sua própria desconstrução é ir mais além da mera expressão de tolerância, segundo Babo (2007: p. 299) "visivelmente, bem mais restrita do que a alteridade, que envolve a atitude de buscar no pluralismo de valores, de crenças e de culturas do OUTRO um motivo de enriquecimento.”
A par dos estereótipos, os incidentes culturais críticos que advêm de mal-entendidos podendo originar conflitos são fenómenos igualmente fecundos na ótica da comunicação cultural, dos quais o próximo capítulo se irá ocupar.