COMPONENTES DA COMPETÊNCIA SOCIOCULTURAL Celce-Murcia et al (1995)
TIPOS DE MODELO DA CC
1.5 Reflexão sobre os modelos comunicativos interculturais
Após a apresentação de vários modelos ao serviço da promoção da competência comunicativa intercultural na aula de LE, gostaríamos de resumir a sua tipologia para efetuarmos uma comparação entre si (quadro 4).
Quadro 4: Quadro recapitulativo da tipologia dos modelos da competência comunicativa intercultural
De acordo com a taxonomia de Spitzberg e Chagnon (2009), o modelo da terceira cultura é o único que reúne todas as caraterísticas.
Consideramos que os modelos de Byram (1997) e de Deardorff (2006) são os mais semelhantes (quadro 5).
Autor Competências
Byram (1997) - Conhecimento de Si e do Outro ("savoir")
- Atitudes de abertura, curiosidade e disponibilidade para suspender a descrença ("savoir être")
- Capacidades de interpretar e relacionar ("savoir comprendre")
- Capacidades de descoberta e de interação ("savoir aprendre/faire")
- Consciência cultural crítica ("savoir s’engager")
Deardorff (2006) - Respeito, abertura, curiosidade e tolerância (atitudes) - Conhecimento da sua própria cultura e da do Outro - Consciência sociolinguística e cultural
- Ouvir, observar, interpretar, analisar, avaliar e relacionar (capacidades/estratégias)
- Adaptabilidade, flexibilidade, visão etnorelativista, empatia
Quadro 5: Paralelismo dos modelos da competência comunicativa intercultural de Byram (1997) e
Deardorff (2006, 2009)
Os aspetos partilhados por ambos os modelos são o desenvolvimento da competência existencial e as capacidades de interpretação e relacionamento.
Consideramos que o modelo de Byram (1997) relaciona mais diretamente as competências específicas do desenvolvimento da competência comunicativa intercultural com as competências gerais preconizadas pelo QECR (Conselho da Europa, 2001), apesar de no modelo de Deardorff essa correlação também existir, se bem que de uma forma menos percetível.
Por outro lado, os modelos de Kramsch (1993) e Bennett (1993) demonstram o seu potencial, nomeadamente, no entendimento da criação do «terceiro espaço», consciencializando o professor e o próprio aprendente de como os fatores de ordem individual influenciam essa interação e as estratégias necessárias para lidar com a diminuição da distância cultural e a fundação de um espaço comum; em relação a Bennett (1993), a sua escala de sensibilidade cultural poder servir o propósito do professor em diagnosticar os níveis em que se encontram os aprendentes no início de
um curso em termos de conhecimento "mind set"; capacidades "skill set" e atitudes "heart set". Em termos processuais, o modelo proposto por Boecker e Jäger (2006) é o que melhor espelha a forma como o aprendente manipula os constantes (re)ajustamentos na promoção da competência comunicativa intercultural. Neste sentido, como nos diz Bizarro (2006: p. 58),
Para que haja compreensão de um modelo novo ou mobilização de um conceito pelo aprendente, deve ser transformado o conjunto da sua estrutura mental. O seu quadro de questionamento é reformulado; a sua grelha de referências amplamente reelaborada. Estes mecanismos nunca são imediatos, passando por fases de conflitos ou de interferências. Tudo é, pois, questão de aproximação, de implicação, de confrontação, de descontextualização, de interconexão, de ruptura, de alternância, de emergência, de recuo e, sobretudo, de mobilização. (Gaonac'h org. 1990b)
Igualmente no nosso entender, apesar de o modelo do arco-íris representar a panóplia de fatores e variáveis que intervêm no processo comunicativo intercultural e os seus fundamentos teóricos subjacentes como a teoria dos sistemas, a teoria da construção social da realidade, a teoria da aprendizagem social, a teoria da identidade social, a teoria da gestão identitária e a teoria de gestão da ansiedade/incerteza (Kupka, Everett & Wildermuth, 2007), consideramo-lo demasiado complexo para ser adotado como exemplo a seguir na aula de língua estrangeira, na medida em que consiste em dez competências, nomeadamente, a competência em LE, a distância cultural, a consciência de si próprio, o conhecimento cultural, as capacidades, a motivação, a adequação e a eficácia, a influência do contexto e a afinidade intercultural. A exequibilidade deste modelo em contexto de sala de aula exigiria que cada aula e as atividades propostas se dedicassem individualmente a cada uma das dez competências previamente enunciadas, o que nos parece inviável nas condições de ensino-aprendizagem em que vivemos. Não nos detivemos também sobre os modelos de Hamilton, Richardson e Shuford (1998) e Ting-Toomey e Kurogi (1998) por considerarmos que se aplicam mais ao contexto da exploração das relações interculturais num contexto profissional do que escolar ou académico.
A esquematização do desenvolvimento da competência comunicativa intercultural que consideramos mais exequível de ser aplicada ao ensino-aprendizagem de LE é a que se
encontra representada na figura 34 na medida em que combina elementos dos vários modelos previamente apresentados e, portanto, torna-se, no na nossa ótica, a forma mais holística de trabalhar a competência comunicativa intercultural na aula de LE.
Figura 34: A súmula da competência comunicativa intercultural
Fonte: Lundgren (2009: p.4)
Este esquema da autoria de Lundgren (2009) resume as componentes previamente referidas ao longo do capítulo que interagem e convergem para formar a competência comunicativa intercultural (assinalada como X no diagrama), a saber, as macro- capacidades linguísticas (a compreensão escrita e oral, assim como a produção escrita e oral) e as diferenças de registo de língua quer da própria língua (L1) quer da língua estrangeira (L2); os aspetos da baixa e da alta cultura quer da cultura materna (C1) quer da cultura estrangeira (C2) e uma fusão das competências preconizadas por Byram (1997), Deardorff (2006) e Bennett (1993).
Tendo em mente estes princípios, o próximo capítulo ocupar-se-á, com mais pormenor, da aplicação pedagógica desta competência na aula de LE.
Resumo do capítulo 1:
Este capítulo debruçou-se sobre a importância da educação intercultural no panorama da sociedade atual globalizada e em constante mudança. A aprendizagem de línguas estrangeiras é uma mais-valia preconizada pelo QECR (Conselho da Europa, 2001) nos conceitos de competência plurilingue, pluricultural e intercultural. Também foi explorada a relação entre língua e cultura e possíveis formas da sua abordagem na aula de LE. Relativamente à competência comunicativa intercultural, foram descritos alguns modelos de comunicação intercultural à luz dos princípios do QECR (Conselho da Europa, 2001), enfatizando a afinidade dos modelos de Byram (1997) e Deardorff (2006, 2009), o enfoque nas estratégias comunicativas (Kramsch, 1993), o dignóstico intercultural em termos declarativos, operativos e afetivos (Bennett, 1993) e processuais (Boecker & Jäger), cuja epítome holística fica bem patente na configuração de Lundgren (2009).