• Nenhum resultado encontrado

PARTE I: Aprender línguas estrangeiras no panorama atual

gerais 9 dos utilizadores ou aprendentes de línguas [que] incluem o conhecimento declarativo (saber), a competência de realização (saber-fazer), competência existencial

1.1 Pluri, multi e intercultural: uma definição de conceitos

You can never understand one language until you understand at least two. John Searle

Quando se aborda a questão da interculturalidade, podem surgir alguns conceitos em paralelo como o de plurilinguismo e pluriculturalismo, o de multilinguismo, multiculturalismo, transculturalismo e, finalmente, interculturalismo/interculturalidade que convém explicitar.

Segundo o QECR (Conselho da Europa, 2001), os dois primeiros conceitos referidos relacionam-se com a diversidade linguística e cultural europeia. O plurilinguismo refere-se ao domínio de diferentes línguas por parte de um indivíduo e à coexistência de várias línguas numa dada sociedade. Articulado com este conceito, o pluriculturalismo dá conta de uma capacidade de o indivíduo se identificar e participar numa pluralidade de culturas, na qual o indivíduo mantém a sua identidade cultural. (Council of Europe, 2008). Confrontados com os conceitos de multilinguismo e multiculturalismo, o QECR (Conselho da Europa: p.23) declara que

nos últimos anos, o conceito de plurilinguismo ganhou importância na abordagem da aprendizagem de línguas feita pelo Conselho da Europa. Assim, distingue-se ‘plurilinguismo’ de ‘multilinguismo’, que é entendido como o conhecimento de um certo número de línguas ou a coexistência de diferentes línguas numa dada sociedade. […] A abordagem plurilinguística ultrapassa esta perspectiva e acentua o facto de que, à medida que a experiência pessoal de um indivíduo no seu contexto cultural se expande, da língua falada em casa para a da sociedade em geral e, depois, para as línguas de outros povos (aprendidas na escola, na universidade ou por experiência directa), essas línguas e culturas não ficam armazenadas em compartimentos mentais rigorosamente separados; pelo contrário, constrói-se uma competência comunicativa, para a qual contribuem todo o conhecimento e toda a experiência das línguas e na qual as línguas se inter-relacionam e interagem.

Nesta citação, destaca-se a interação de várias línguas em detrimento da mera justaposição linguística, caraterística do multilinguismo; o multiculturalismo prevê a coexistência de múltiplas culturas no mesmo espaço geográfico, contribuindo de alguma forma para uma influência na mundividência do Eu, ao invés do pluriculturalismo e plurilinguismo. Este último, de acordo com o White Paper, refere-se à capacidade de usar mais do que uma língua ou variedade linguística, reconhecendo a importância da intercompreensão para estabelecer uma ponte linguística com o Outro (COE, 2008). Assim, o multiculturalismo, tal como nos dizem Reis e Brock (2010: p. 78)

«refere-se à coexistência enriquecedora de diversos pontos de vista, interpretações, visões, atitudes, provenientes de diferentes bagagens culturais». Adotando um posicionamento intelectual aberto e flexível, baseado no respeito às diversidades e na rejeição de todo preconceito, o multiculturalismo incentiva o indivíduo a transcender os horizontes de sua formação cultural, permitindo que ele veja, sinta e interprete por meio de outras apreciações culturais.

O pluriculturalismo valoriza as diferentes culturas e as suas diferenças, denotando um certo caráter estático quando comparado com o interculturalismo que se interessa mais na procura das semelhanças entre as culturas, favorecendo a interação e a cooperação entre as culturas (Conselho da Europa, 2008).

O QECR (Conselho da Europa, 2001) corrobora que

a competência plurilingue e pluricultural 10 é a capacidade para utilizar as línguas para comunicar na interacção cultural, na qual o indivíduo, na sua qualidade de actor social, possui proficiência em várias línguas, em diferentes níveis, bem como

10

Destacado original

experiência de várias culturas. Considera-se que não se trata da sobreposição ou da justaposição de competências distintas, mas sim de uma competência complexa ou até compósita à qual o utilizador pode recorrer.

Paralelamente, devemos também referir a existência de uma competência transcultural que, apesar de não prever a interação das culturas entre si como o multiculturalismo, tem a vantagem de levar o aprendente a procurar um fio condutor através dos “traços universais” ou “valores permanentes” (Reis & Brock, 2010) que perpassam pela sua cultura de origem e as diversas culturas estrangeiras. Com efeito, de acordo com Grant e Portera (2011: p. 35),

as for the terms “trans- and crosscultural,” they define a movement, a crossing-over of frontiers. Like the terms “pluricultural” and “multicultural,” however, they do not imply dialectic movement of reciprocity. Of course, interaction is not excluded by the words pluri-, multi-, trans- or crosscultural; neither is it formulated explicitly nor considered, as with intercultural, part of the underlying concept.

Apesar de os conceitos de “transcultural” e “intercultural” poderem ser encarados como sinónimos, Gudykunst (2000) alerta para o facto de se referirem a questões diferentes, isto é, o primeiro refere-se a uma comparação em termos comportamentais em duas ou mais culturas compartimentadamente, ou seja, a título de exemplo, analisar as formas de tratamento em Portugal e em Espanha, ao passo que o segundo visa a análise de duas ou mais culturas em interação umas com as outras, por exemplo, analisar a forma como um falante português e um espanhol interagem, usando as formas de tratamento. Posto isto, consideramo-las, no geral, o primeiro passo no caminho para o conceito de interculturalismo ou interculturalidade que prevê o acolhimento de diversas culturas no seu seio, analisando as suas similaridades bem como as diferenças para procurar promover uma comparação/ um confronto de cosmovisões, de modo a que o aprendente possa eventualmente mudar as suas mundividências. Com efeito, como nos diz Martins (2003, p. 10) “o “interculturalismo” deve ser entendido, por um lado, como interação, reciprocidade, intercâmbio, abertura, aproximação, convivência e solidariedade efectiva e, por outro lado, como o reconhecimento de valores, modos de vida, costumes, representações simbólicas na mesma cultura ou entre culturas diferentes”. Como podemos constatar, inerente ao diálogo intercultural são as questões do estabelecimento de relações igualitárias entre o Eu e o Outro, o combate à discriminação por meio da

descontrução de preconceitos, estereótipos e conflitos, enfim, o reconhecimento do direito à diferença. Extrapolando as conceções de “multi” e inclusivamente “pluri”, o prefixo “inter” indica precisamente esta questão de relação de reciprocidade patente no diálogo intercultural. Por isso, para Grant e Portera (2011: p. 34),

thus, intercultural, by giving value to the prefi x “inter,” implies interdependence, interaction and exchange. In addition, speaking of culture implies recognition of values, life styles and symbolic representations that individuals and groups refer to in their relationships to others and in their understanding of the world. The term “intercultural” includes the range of interaction happening within a culture as well as between cultures, and this within their changing dimensions in time and space.

O conceito de interculturalidade refere-se à capacidade do indivíduo experienciar a alteridade, adotando o ponto de vista do Outro e mostrando-se disposto, aberto, interessado e curioso. Este processo culminará, consequentemente, numa maior consciência auto-crítica de Si e do crítica do Outro, respeitando-o, embora não necessariamente concordando com ele, agindo como um mediador empático, isto, é, capaz de simultaneamente se afastar e aproximar para captar o Outro e explicar os seus padrões comportamentais (White Paper, 2008). No ensino das línguas estrangeiras, a interculturalidade deve traduzir-se no desenvolvimento de uma competência comunicativa intercultural, de uma consciência linguística e intercultural, inclusivamente de uma competência de aprendizagem e, em última instância, da própria autonomia do aprendente, já que a

competência plurilingue e pluricultural promove também a tomada de consciência linguística e comunicativa, ou seja, activa as estratégias metacognitivas que permitem aos actores sociais tornarem-se mais conscientes e dominarem as suas formas ‘espontâneas’ de lidar com as tarefas, em particular, a sua dimensão linguística (Conselho da Europa: p. 231).

Atentemos no quadro I que contempla uma síntese acerca da definição dos vários conceitos previamente referidos, nomeadamente, multilinguismo, multiculturalismo, plurilinguismo, pluriculturalismo, transculturalismo, interculturalismo e interculturalidade.

Multilinguismo Multiculturalismo Plurilinguismo

Justaposição linguística Coexistência de múltiplas culturas no mesmo espaço geográfico

Diversidade linguística e interação de várias línguas

Domínio de diferentes línguas por parte de um indivíduo e coexistência de várias línguas numa dada sociedade

Capacidade de usar mais do que uma língua ou variedade linguística para fins comunicativos,

reconhecendo a importância da intercompreensão para

estabelecer uma ponte linguística com o Outro

Pluriculturalismo Transculturalismo Interculturalismo/ interculturalidade Diversidade cultural Valorização as diferentes culturas e as suas diferenças Capacidade de o indivíduo se identificar e participar numa pluralidade de culturas, na qual o indivíduo mantém a sua identidade cultural

Procura das semelhanças entre as culturas, ignorando a interação e a cooperação entre as culturas Acolhimento de diversas culturas no seu seio Procura das semelhanças entre as culturas, favorecendo a interação e a cooperação entre as culturas Capacidade do indivíduo experienciar a alteridade, adotando o ponto de vista do Outro e mostrando-se disposto, aberto, interessado e curioso. Maior consciência de Si e do Outro.

Dias (2008: p.17-18) chama a nossa atenção para o caráter dinâmico e progressivo das referidas competências, ou seja,

a competência plurilingue e pluricultural é evolutiva e desigual, uma vez que tanto os graus de proficiência como as destrezas, os objectivos e as finalidades comunicativas do falante diferem tanto em função das línguas que fala como das vivências das culturas que lhes estão associadas. Esta competência desigual e compósita é, assim, determinada pelas vivências do sujeito que as gere e que se torna capaz de compreender a legitimidade de outras formas de ver, de estar e de dizer o mundo, enriquecendo-se com essa partilha e podendo agir como mediador. De facto, ao actuar em situações comunicativas e contextos diferenciados, o falante plurilingue poder-se-á tornar um mediador intercultural, capaz de negociar com os interlocutores as representações de ambos, tendo em conta as diferenças e as semelhanças em presença. Será nesta perspectiva que o falante desenvolverá o que Byram definira como competência comunicativa intercultural, ou seja, a capacidade de interagir de modo eficaz com falantes de outras línguas, reconhecendo que cada cultura tem as suas especificidades, o que implicará descentração, relativização e uma negociação que deverá ser favorável a todos os interlocutores.

Por um lado, viver num espaço multicultural onde várias línguas e culturas coexistem não é garantia para o desenvolvimento das referidas competências. Por outro lado, a competência plurilingue e pluricultural, pautada pelo domínio de várias línguas e conhecimento de várias culturas por parte do aprendente, abre caminho para que seja um veículo para a aquisição de novas línguas e experiência de novas culturas, bem como a sua participação adequada em situações de comunicação e interação intercultural, nas quais o aprendente seja capaz de acolher o ponto de vista do Outro e se transformar mediante essa troca. O aprendente deve usar e relacionar esse conhecimento prévio de outras línguas na aprendizagem da nova língua estrangeira. Desta forma, a competência plurilingue e pluricultural denota um caráter evolutivo, à medida que evolui ou regride a par das experiências de caráter pessoal, académico, profissional, religioso, bem como aprendizagens de variados tipos como intercâmbios do aprendente em diversos locais. Com efeito, uma dada cultura não evolui se não contactar com outras culturas (figura 3).

Figura 3: Do pluriculturalismo à interculturalidade

Fonte: Bernaus et al. 2007, p. 12

Para o aprendente desenvolver uma competência plurilingue/ pluricultural é necessário gerir de uma forma equilibrada quatro componentes (figura 4) que interagem entre si numa relação dinâmica e, de acordo com Antunes et al. (2009: p.5),

pressupõe, então, uma comunicação com o Outro no desenvolvimento das necessidades comunicativas específicas de uma interacção que engloba um entendimento da alteridade. Além disso, engloba ainda uma compreensão mútua e um processo de negociação de actos de comunicação de forma a aproximar um determinado sujeito do Outro (cf. Cruz, 2005).

Entende-se por alteridade o reconhecimento da figura do Eu na posição do Outro, um indivíduo com quem o aprendente aprende a se relacionar e a encontrar pontos em comum na sua própria essência (Abdallah-Pretceille, 1992).

Figura 4: Inter-relação das componentes promotoras da competência plurilingue

Fonte: Antunes et al. (2009: p.5)

Ora, a gestão apropriada das várias componentes supracitadas (figura 4) permite que os aprendentes perspetivem inclusivamente “a sua língua materna de modo diferente, uma vez que são mais conscientes metalinguisticamente e mais capazes de resolverem problemas comunicativos, isto é, possuem uma maior flexibilidade cognitiva e consciência metalínguística, e metacomunicativa.” (Antunes, 2009: p.4) Desta forma, um aprendente que aprenda a gerir equilibradamente as subcomponentes da competência plurilingue tornar-se-á, evolutivamente, um comunicador intercultural mais eficaz capaz de “construir a sua identidade cultural e linguística através da integração nessa construção da experiência diversificada do outro; desenvolver a sua capacidade para aprender, através desta mesma experiência diversificada de relacionamento com várias línguas e culturas” (Conselho da Europa, 2001: p.190). A nosso ver, podemos, desta forma, articular a abordagem intercultural com o desenvolvimento da autonomia do aprendente, na medida em que a interação com o Outro deve ser encarada como um processo de auto-regulação, mediação e remediação, pois é no âmbito do processo dialógico e interacional que novos horizontes se abrem, permitindo a co-existência de diferentes perspetivas culturais.

A autonomia de aprendizagem, segundo Bizarro (2006: p. 50-51), postula que o aprendente deve ser

capaz de regular as suas aprendizagens, possuidor de competências e atitudes diversificadas, motivado e interessado na aprendizagem, capaz de enriquecer e avaliar sozinho e/ou com a ajuda de outrem os seus conhecimentos. Com sentido de

responsabilidade e de iniciativa, capaz de escolher os recursos apropriados à construção da sua aprendizagem, aberto à diferença, dialogante e praticando a auto- reflexão sobre o que é, o que sabe, o que faz, bem como sobre o como pode ser, como pode saber e como pode fazer, tendo em vista o auto-conhecimento, mas também a progressão da sua aprendizagem.

Nesta perspetiva, Sudhershan (2012) corrobora que a autonomia é vista como um processo auto-regulatório fruto do resultado de interações sociais em contextos específicos com indivíduos ou recursos mais competentes, implicando uma relação de interdependência caraterizada por uma mudança de crenças no aprendente; responsabilização pelo processo de aprendizagem e uso da língua-alvo e cooperação com os pares em tarefas de aprendizagem. Para além destes aspetos, hoje em dia, no âmbito da aprendizagem de uma língua estrangeira, a primazia é dada ao aluno, agente social de mudança, capaz de interagir adequadamente em variados tipos de contextos. No entanto, esta perspetiva já não é recente, por isso, desenvolveremos a sua evolução no próximo subcapítulo.

1.2 A evolução da competência comunicativa intercultural no ensino-