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O MST e o debate sobre a reforma agrária na Constituinte de 1987/1988

Capítulo 3: Formação Política no MST na década de 1980

4.2 Principais momentos do debate nacional sobre a Reforma Agrária na década de 1980

4.2.3 O MST e o debate sobre a reforma agrária na Constituinte de 1987/1988

À Constituinte foi atribuído papel significativo, por parte dos Sem Terra, como um momento importante da definição dos rumos da Reforma Agrária. Em 1985 foi preparada uma cartilha para o estudo do tema. Tratou-se de um texto organizado pela Secretaria Nacional do Movimento Sem Terra, para atender às necessidades de formação das lideranças. Sobre este documento o MST (1985, p. 2) afirma: “Não é a ‘receita’ do que é certo e do que é errado. São comentários da realidade histórica, e de nossa realidade política, para ajudar a debater, discutir e deputados, de milhares de trabalhadores rurais organizados pelo Movimento do Trabalhadores Sem Terra e pela Contag.

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Logo após o fracasso do plano José Gomes da Silva escreveu um livro contando essa experiência e com revolta e certo ressentimento afirmou: “Ponderamos hoje, menos de dois anos passado, todos esses dispositivos da “Proposta”, não se pode deixar de fazer duas reflexões: a primeira refere-se ao sonho inocente que acalentaram aquelas pessoas que acreditaram ser possível fazer mudanças na sociedade mediante o consentimento e concessões das classes dominantes; a outra vai por conta da injustiça que outros cometeram contra a ‘Proposta’, taxando-a de tímida, conservadora e outras coisas mais.” (SILVA, 1987, p. 65)

141 compreender qual o melhor caminho que a classe trabalhadora deve decidir tomar no atual momento político do país.” A cartilha discute o histórico das Constituições no Brasil e os motivos que ensejam a formulação de uma nova113, bem como traz propostas de luta para a Constituinte, a partir dos interesses dos trabalhadores rurais Sem Terra. A principal proposta presente na cartilha diz respeito a se empenhar para a eleição de deputados constituintes favoráveis às lutas dos trabalhadores e para formulação de projetos que respondam aos seus anseios:

Ao aceitar o desafio de uma luta como a da CONSTITUINTE, que terá vários combatentes – eleger seus Deputados, defender as propostas na discussão – a classe trabalhadora deve organizar-se e mobilizar suas forças para fazer crescer seu peso, nas lutas diretas nas ruas, nas fábricas, na conquista da terra. (MST, 1985, p. 25, 26)

Nas eleições dos deputados estaduais, houve intenso empenho do MST para a eleição de candidatos do PT ligados a luta pela terra, como aparece no JST nº 57. O Movimento fez campanha favorável a nomes como: Adão Preto (RS), Luci Terezinha Choinaski (SC), Pedro Tonelli (PR) e Valdir Ganzer (PA), os quais saíram vitoriosos. No entanto, o perfil político dos congressistas pesou fortemente para os interesses ligados ao latifúndio, com a presença de grande número de políticos ligados à UDR. Conforme Plínio Moraes (1987, p. 21), que publicou uma análise sobre os congressistas eleitos, na Revista da ABRA:

(...) das diversas listas apresentadas pelos movimentos populares e sindical de trabalhadores rurais, poucos foram eleitos. A CPT, o CIMI, o Movimento dos Trabalhadores Sem Terra e a Contag apresentaram diversos nomes que tinham apoio às casas legislativas estaduais e federais, e o resultado deixou a desejar.

O resultado das eleições logo imbuíram o Movimento de um grande pessimismo com relação aos resultados que poderiam ser alcançados na Constituição para o avanço da Reforma Agrária:

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Sobre os motivos que ensejam a constituinte: “O Brasil é como um barco. Hoje, as classes dominantes continuam com o leme desse barco em suas mãos, mas estão tentando fazer uma Travessia: cruzar de um regime militar para uma “democracia” de uma minoria que detém o poder econômico. Mas quem rema esse barco somos nós, os trabalhadores. O barco não chegará em lugar algum sem a força dos trabalhadores. (...) Assim, como todo barco tem uma carta geográfica para poder navegar, assim o país está precisando de uma constituição para determinar os rumos que a sociedade irá tomar. (...) OU seja, para qualquer problema que os trabalhadores (os remadores) levantam, eles,

142 Não podemos ter a ilusão de que vamos conseguir fazer as nossas leis na Constituinte. 80% dos deputados são exploradores e da classe dominante e farão leis contra os lavradores. Também não podemos ter a ilusão de que, mesmo conseguindo fazer passar algumas leis que queremos, de que isso vai melhorar a vida dos trabalhadores e resolver nossos problemas. Mesmo quando existe lei a favor do povo, o governo nunca aplica. (JST N. 62, p. 2)

(...) Só a UDR tem 60 constituintes, a Seita Moon 38, e os Evangélicos 30. Além disso, 72% dos constituintes são grandes proprietários e 67% já foram da Arena. Por isso, não é por acaso que a proposta de lei, aprovada até agora, mostra-se pior que o Estatuto da Terra feito pelos militares em 64. Dá para ver que a burguesia lavou a égua nessa Constituinte. (JST, Nº 64, p. 2)

Apesar das poucas perspectivas que a Constituinte apresentava à Reforma Agrária, ela era vista como um momento importante para ajudar a conscientizar o povo, para fortalecer as mobilizações no sentido de pressionar os deputados em Brasília: “Além dos abaixo-assinados, devemos nos preparar para mobilizar o povo, fazendo concentrações, passeatas e preparando a grande caravana dos rurais à Brasília. Essa mobilização vai ser uma escola política para nossas bases, para nossos companheiros. (...)” (JST, Nº 62, p. 2)114

De fato, o que ocorreu foi um significativo recuo. A Constituição de 1988 criou ainda maiores obstáculos legais para a realização da reforma agrária, retrocedendo em relação às conquistas anteriores, já que na Constituição de 1946 que introduziu a idéia de função social da terra no seu artigo 147: “O uso da propriedade será condicionado ao bem-estar social”, impunha menores restrições a sua aplicação do que a Constituição de 1988115. E mesmo em relação ao Estatuto Terra, houve uma involução116:

os que controlam o Leme, afirmam que é preciso esperar a CONSTITUINTE de 1986 para fazer as mudanças necessárias.” (MST, 1985, p. 18, 19)

114 Um momento importante de participação popular nas lutas ocorreu por meio das “Emendas Populares”. As

emendas Populares referentes à questão agrária foram patrocinadas pela CNRA e pelo MST/CUT/CPT. Juntas elas tiveram 1.201.400 assinaturas, superada apenas pela emenda para a manutenção do sistema SESC-SENAC-SESI- SENAI. No entanto, a efetividade dessas emendas para a elaboração da Constituição foi nula, uma vez que as idéias nelas defendidas não foram incorporadas. (SILVA, 1989)

115 A parte referente à Reforma Agrária está contida entre os artigos 184 e 191, no Título VII, Capítulo III, intitulado:

“Da política agrícola e fundiária e da reforma agrária.”.

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“ (...) a nova CF não diminuiu o terrível fosso que separa o sem-terra acampado debaixo de uma lona do seu algoz da UDR. Pelo contrário, a Carta de 1988 aprofundou o buraco da desigualdade, impedindo, definitivamente, que a questão agrária brasileira pudesse ser resolvida por via pacífica. Ao manter no segundo turno praticamente tudo o que foi aprovado na primeira rodada de votações, inclusive o malfadado inciso que isenta de desapropriação a chamada ‘propriedade produtiva’, a ANC retrocedeu aos idos de 1946.” (SILVA, 1989, p. 199)

143 Com a redemocratização e a elaboração de uma nova Constituição em 1988, o princípio da função social da propriedade rural do Estatuto da Terra foi levado para a nova Carta (artigos 184 e 186). Porém, tal expediente, ao invés de dinamizar o processo de reforma agrária que vinha se arrastando, constituiu-se em mais um bloqueio. Minuciosa e detalhista, absorvendo dispositivos inteiros da lei ordinária que já vigorava, até mesmo os de natureza processual, a nova Carta fez depender sua aplicação de regulamentação por lei complementar. Pelo Estatuto da Terra, o poder público desapropriava, garantia a posse e a única coisa que se reclamava, depois, era o justo preço da indenização; pela Constituição de 88, o expropriado podia questionar o ato até mesmo do presidente da República. (SILVA, 1997, p. 22)

Assim, os Sem Terra denunciam:

Em termos gerais, a nova lei representa um recuo à Constituição de 1946 e apenas garante que a propriedade deve ter uma função social. Representa, também, um recuo em relação ao Estatuto da Terra e ao decreto 554 de 1969, pois o Estatuto da Terra defendia a desapropriação de todos os latifúndios, independentemente de sua condição de ‘produtivo ou não’ e garantia, pelo decreto 554, a imissão de posse do Estado em apenas 48 horas. Mesmo que o proprietário recorresse, teria direito apenas à indenização em dinheiro, mas não à irrevogabilidade da desapropriação.”

Pelo artigo 219, fica proibida a desapropriação da propriedade produtiva. Só que o texto não explica quais os critérios que tornam uma propriedade produtiva. Esse foi justamente o golpe da UDR: deixar a definição confusa pois, daqui para diante, em qualquer desapropriação que houver, os fazendeiros vão recorrer à Justiça para provar que a propriedade é produtiva. (...)” (JST, n. 73, p. 3)

Ao final da década pareceu intensificar-se a proximidade do MST com o PT, tal como aparece nos exemplares do Jornal dos Sem Terra.117 Nas eleições de 1988, para as prefeituras e

117 “Percebendo que não bastava fazer greve, organizar ocupações, os trabalhadores sentiram a necessidade de

construir ferramentas mais fortes capazes de construir ferramentas mais fortes capazes de articular todas as forças dos trabalhadores e canaliza-las para o rumo certo. Foi por isso que fundaram a Central Única dos Trabalhadores (CUT) e o Partido dos Trabalhadores (o PT).”

“Vamos fortalecer nossas ferramentas: as associações, os movimentos, nosso sindicato, a Central Única dos Trabalhadores, e o Partido dos Trabalhadores.” (JST, nº 67, p. 20)

“Por isso é que devemos continuar organizando grandes ocupações de terra, ajudando a solidificar a construção da Central Única dos Trabalhadores – CUT e do Partido dos Trabalhadores PT preocupando assim, fortalecer as mobilizações de massa e consolidar a direção política da classe trabalhadora.” – Executiva Nacional do Movimento Sem Terra (JST, nº 68, p. 2)

144 para presidente em 1989, o MST vai conclamar a sua base para o apoio ao Partido, como parte estratégica da luta pela Reforma Agrária:

O MST é um movimento de massas e tem como objetivo principal a luta pela conquista da terra para quem nela trabalha. Por isso, podem e devem participar dele, todos aqueles que são sem terra e estão interessados em conquista-la. (...) Já o Partido Político deve ter um projeto político e um programa de governo para o conjunto da sociedade. (...)

Companheiros, vamos atuar nesse debate e campanha, trabalhando para construir o Partido dos Trabalhadores. Nos empenharemos para construir neste país, o Partido dirigente da classe trabalhadora. (JST, nº72, p. 16)

(...) Devemos entrar de sola na luta política e fortalecer a construção do Partido dos Trabalhadores, elegermos rurais para as prefeituras, conquistar o maior número de vereadores, enfim ganhar espaços para construirmos nosso projeto político. O Partido é a nossa maior ferramenta e através dele podemos manifestar o desejo de uma mudança social. (JST, nº 73 . p.2 )

Jaime Amorim, uma das lideranças do Movimento afirma a importância estratégica do PT para as lutas do MST numa entrevista concedida ao JST:

(...) Nossas ocupações são massivas, assim como nossas manifestações. Temos que canalizar essas lutas para a transformação de toda a sociedade. Nós temos consciência de que o instrumento que nos conduzirá a transformação socialista da sociedade é o partido político. Temos portanto, que fortalecer o PT. Construir um PT forte é a condição estratégica da nossa luta. (Jaime Amorim, JST n. 79, p. 19)