3.3 De que valem as luzes da cidade, se no meu caminho a luz é natural
3.3.2 O olhar crítico e o desejo mesmo de mudar
O casal tem a ideia de ter uma própria pousada, mudar para o interior, enfim, fazer as coisas de que gostam. Os planos para conseguir sair da empresa, e mudar radicalmente seu modo de vida, estão associados especialmente à estratégia relacionada ao planejamento familiar. Ele considera que as pessoas são envoltas em uma espécie de ciclo vicioso, cujos estímulos ao alto consumo, ao casamento precoce, ao sexo sem o devido controle de natalidade, são algumas das medidas utilizadas pela sociedade capitalista para garantir que a classe se reproduza de forma passiva, domesticada: “Tem mais, entro mais a fundo, por que na televisão [há] tanto estímulo sobre sexo?”.
Relaciona tal estímulo a uma função social na lógica do capital, como lhe mostra a experiência com colegas na fábrica:
A desculpa dos mais velhos hoje é – eu não saio daqui, porque eu tenho filho pra criar – uma das escolhas que eu fiz, que a gente entrou num acordo, eu falei [refere- se à esposa] se a gente tiver um filho vai ser mais difícil a gente conquistar outras coisas, não só pelo lado profissional, mas pelo pessoal também. O filho é bom, mas vai te prender numa empresa.
Trata-se de mais um elemento entre as estratégias utilizadas por Caíque que reforça a ideia de que seu comportamento é guiado por um jeito de ser e pensar de uma fração da classe trabalhadora que não se rendeu aos encantos da reestruturação produtiva. A experiência vivida por seu pai na empresa lhe possibilitou um olhar crítico aos estímulos dados pela empresa para que ele assumisse o projeto como seu.
Nogueira; Nogueira (2002), em artigo sobre o tema, reflete sobre a importância do controle da natalidade como tendência, o “malthusianismo” nos grupos médios, fenômeno que garante mesmo que de forma inconsciente uma concentração de investimentos. Argumenta que, segundo Bourdieu, a redução do número de filhos, de acordo com as estatísticas, estaria associada a uma vida escolar mais longa. No caso de Caíque, essa redução está a uma maior liberdade para escolhas futuras.
O que eu vejo é assim, muitos deles são pessoas, nem todas, tá, acabam se enfiando em drogas, álcool, cigarro ou acabam se separando. A maioria das pessoas lá se separam e pagam pensão. Então não pode sair da Mercedes. Por que, como é que vai pagar pensão, cuidar do filho? Depois que temos filho, se eu perder o emprego, o que eu vou dar pro meu filho? Muda a posição social, você abaixa a cabeça pra algumas coisas. A vida fica mais difícil pra maioria, porque a pessoa mesmo aposentada ela não sai do emprego, porque ainda tá cuidando dos filhos. São muitos casos lá, eu falei pra ela, se a gente tiver, eu vou ter que ficar lá pra sempre. E você vê que as pessoas entram, casam, têm filho, têm que sustentar uma casa e bloqueiam sonhos, do que ela vinha planejando antes. Às vezes, tá fazendo faculdade, mas não vai conseguir sair, por experiência própria, ela não vai trocar um salário mais alto, por um mais baixo, aí ela fica presa. Aí eu falo, pro pessoal mais jovem, que acabou de entrar: “O que você quer da vida, quer trabalhar aqui ou quer trabalhar fora? Então sai, passa necessidade antes, pra você conquistar alguma coisa lá na frente”. Porque se ele ficar e vê o seu salário subindo, isso te prende. Eu tenho um amigo que se formou comigo no Senai, e quando ele tava ganhando aproximadamente mil e quinhentos reais, ele falou: eu vou sair. E eu falei: “já faz tempo que você deveria ter saído”, porque você arrumar um estágio nesse valor, já é mais difícil. Ele falou: “eu vou sair, porque eu tô quase me formando na faculdade e eu consegui um estágio pra pagar mil reais, não tem possibilidade de efetivação”. Aí eu falei: “e qual que é o problema? Não tem só a Mercedes, você precisa correr atrás do que você quer”. E hoje ele tá muito bem. Aí, assim, a gente vê a trajetória de cada um, ele teve a possibilidade de sair e dar certo, só não dá se a pessoa não quiser.
Sua experiência e visão crítica da realidade lhe permitem estabelecer complexas relações entre as tramas da realidade social à qual pertence.
Um primeiro elemento poderia ser descrito sobre o desvelamento da política geracional adotada pela empresa, segundo sua percepção, ou seja, a instituição possibilita que filhos de metalúrgicos assumam sua herança na fábrica, os possibilitando estudo específico, treinamento e uma porta de entrada. Mas sua experiência lhe diz que a empresa lhe reserva um espaço: representar um número e ocupar um lugar na produção. Mensagem esta, que após lida, revela, ao menos a esse jovem, que a empresa não é a “mãe” que alguns trabalhadores pensam ser.
Poderíamos sintetizar um segundo elemento de sua análise: a carreira construída pelos preceitos da meritocracia. Apesar da sedutora promessa de progressão na profissão por meio dos princípios meritocráticos, a relação com seus pares lhe permite ler nas entrelinhas que são outros os mecanismos impulsionadores, da escalada profissional na empresa. Entre eles, um importante propulsor, o apadrinhamento.
As credenciais escolares, por outro lado, seriam um terceiro sinal de que, por mais que esses jovens se esforcem e por mais sofisticadas que sejam suas qualificações, não serão suficientes para os deslocamentos em áreas afins, porque as portas de entrada seriam, segundo
argumenta, diferentes. As mudanças de funções, especialmente as do “chão da fábrica” para as áreas administrativas, são muito raras.
A relação que estabelece entre a dimensão familiar, o número de filhos e a condição de refém a que acabam submetendo-se para manter seus empregos e salários também enriquece a análise e compreensão que esse jovem tem sobre sua vida e suas escolhas para as atividades além do trabalho, assim como suas perspectivas de futuro. Avalia que, para manterem seus empregos, terão de abrir mão da carreira para a qual estão estudando. O sentimento de estar de passagem na fábrica passa a conviver com a necessidade de ali permanecer.
Além das necessidades fomentadas pelas necessidades familiares, a depender das escolhas feitas, Caíque credita ao estímulo exagerado ao consumo outra armadilha que seus companheiros deveriam procurar desvencilhar-se.
Como estabelece associação entre o que a maioria dos trabalhadores na Mercedes vive, no sentido de ficarem sem escolha sobre a decisão de permanecer ou não na empresa, com o estilo de vida que assumem, ao “entrarem na lógica”, ele defende a tese de que deve ser crescente o desapego às coisas materiais e ao consumo daquilo que não é essencial para a vida:
[...] a gente tá passando por umas mudanças agora, que a gente tá vendo algumas atitudes que a gente tem, que a gente não tinha essa informação. Mas hoje a gente quer mudar, alguns pensamentos materialistas, alguns medos, sair para abrir portas pra outras. A gente tá mudando juntos, eu tento ajudar eles [os pais] no que eu posso e eles vão dando a opinião deles, e a gente vai chegando num acordo. Eu achei legal, porque, assim, quando meus pais foram morar no interior eles frequentavam muito a religião, não eram fanáticos, mas eram bem ativos. Faziam parte de vários trabalhos na igreja, foi indo assim, foi se desenvolvendo lá na região, muito bom pra eles, porque ocuparam o tempo deles com as coisas [de] que eles gostavam. Mas, de fora, eu tava vendo que eles estavam caminhando assim se deixando levar pelo grupo. Mas eu não deixava eles acreditarem só naquilo. Meu pai é mais resistente à mudança. Mas sempre assim insegurança como é que vai ser o amanhã. Eu tento ajudar nessa parte... Mesmo agora que a gente não sabia o que ia acontecer na Mercedes, muita gente ali, fala que ali é a última saída da vida deles, não tem uma esperança, a gente fala assim: “não tem a vida pós-Mercedes”. Porque tem a vida antes da Mercedes, que era tudo muito ruim, mas as pessoas viviam da mesma forma, a vida durante a Mercedes, eles classificam assim… eu falo pro meu pai: – Antes da Mercedes, o que você fazia? Ele fala: – Eu trabalhava na roça. – E era ruim? Ele fala assim: – Ah, eu trabalhava, era sofrido. – Mas faltava alguma coisa? [E o pai respondia:] – De vez em quando, faltava. – E na Mercedes? [O pai continuava:] – Também, a mesma coisa. A diferença é que você compra coisas [de] que você não precisa, você faz dívida, aqui você compra uma casa pra você morar, lá você compra um sítio pra você plantar e colher. Quem dá o dinheiro pra você aqui é a Mercedes, é uma troca, você precisa de dinheiro pra se alimentar, e dá o seu tempo e a sua vida pra trabalhar lá, né? E depois as pessoas saem sem rumo, como a gente falou... Se a pessoa gostar, tem que fazer a coisa [de] que ela gosta. Não me arrependo de ter deixado a Contabilidade, porque eu gostaria de fazer outra coisa, se falasse pra mim que você vai fazer um trabalho na natureza, não biologia, eu até vi algum curso, mas é mais na zona rural, interessante, se eu pudesse eu faria, mas
voltado para outras áreas, como Geografia, Geologia, não ficaria aqui pra poder ter vida boa aqui, porque a gente sabe que, empregado por empregado, o que muda é o salário só, não muda a sua posição.
Esse desapego material talvez também possa ser traduzido como signo de um segmento da classe trabalhadora estabelecida, incluída, uma vez que apenas pessoas que se encontram em uma situação econômica razoável, com algumas de suas necessidades fundamentais garantidas, poderiam sentir-se em condições para tal escolha.
Além disso, parece compreender as armadilhas do jogo social no que se refere à necessidade de distinção, como propõe Bourdieu (2007). A busca permanente de sobressair-se através de gestos, ethos, gostos, escolhas. Elevando-se a patamares diferenciados em relação ao status sociais. Caíque aponta em sua análise, que, independente do nível hierárquico ocupado, no fundo nada mais são do que trabalhadores submetendo-se a ordem.
Caíque parece exibir em seus posicionamentos uma resistência e um desejo de ruptura pela via individual, sempre que se refere às redes estabelecidas, sejam elas na empresa, ou no sindicato; parece acreditar que em nenhum desses espaços sociais é possível haver intervenções e espaço para uma postura mais propositiva. Em sua percepção, teria sempre que respeitar a lógica da instituição e submeter sua forma de ser e pensar às imposições desses coletivos.
[...] a gente tava discutindo isso, esses dias, quem institui isso pra gente? A gente tem que se sentir útil pra outra pessoa, não pra nós mesmos, a gente fica buscando a aprovação de outra pessoa, não sei da onde vem isso, é difícil a pessoa dizer assim “vou fazer isto pra mim, porque eu mereço”, hoje é difícil abrir a mente...
Esse jovem é capaz de fazer tais análises, exatamente por ocupar um lugar nesse campo, uma fração da classe que lhe possibilita, ao longo de sua trajetória, um repertório cultural para além dos escolares (BOURDIEU, 2007). Isso não significa, no entanto, que uma série de outros elementos de análise ainda lhe fuja dos olhos, exatamente pelo mesmo motivo. Além disso, como observado no capítulo I, os processos de socialização e a construção das personalidades implicam tensão permanente. Assim como observado no relato de Breno, mas, talvez numa mais forte coloração, as experiências vivenciadas por Caíque evidenciam fortes tensões inerentes às relações sociais nesse processo de individuação.
A relação que Caíque descreve ter com os pais, de “aprenderem juntos”, coisas como se desprenderem das coisas materiais, na fábrica em relação aos colegas e com a esposa, parece revelar de maneira exemplar esse processo de individuação que implica a tensão refletida por Elias; Scoton (2000), de busca de autonomia e a dependência simultânea.