e relações de cuidado
2 Meus caminhos
2.2 O postinho e seu cotidiano
O “postinho”, terminologia nativa, faz parte da Unidade de Saúde da Família (USF) de Costinha,4 o que significa dizer que a equipe de profissionais dessa unidade é responsável por assistir os moradores da Guia. Na prática, a médica vai ao postinho uma vez a cada 15 dias, no turno da manhã. Nos demais dias, salvo algumas exceções, o posto fica fechado e a médica atende na unidade de Costinha ou realiza atividades educativas (palestras, reuniões etc.), de acordo com a agenda da Secretaria da Saúde do município.
No “dia da médica”, como os moradores dizem, existe uma dinâmica especial na comunidade. A sala de espera está sempre movimentada, mas existe um vai e vem, já que todos estão muito próximos de suas residências. Ao longo do tempo fui conhecendo as usuárias e os usuários da unidade de saúde e suas relações de parentesco. O público era predominantemente feminino, mulheres na faixa etária entre 25 e 70 e tantos anos, e crianças, de ambos os sexos. Era comum chegarem duas mulheres, que podiam ser mãe e filha, sogra e nora, irmãs ou cunhadas, com duas ou mais crianças, e dividirem os cuidados com as crias. Algumas vezes, passado algum tempo, chegava uma terceira que “rendia” uma delas, a qual ia embora, provavelmente para dar conta de outro compromisso. Percebíamos que existia um compartilhamento das demandas e estratégias para equacionar as necessidades dentro das possibilidades de cada uma.
Não foram necessárias muitas visitas para confirmar alguns dados já registrados pela literatura: o espaço de saúde é um espaço predominantemente feminino, tanto quando falamos das profissionais como quando falamos das usuárias (entre outros, Nascimento, 2014). São cuidadoras oficiais e cuidadoras não profissionais que concretizam as ações de cuidado.
Apesar de estar interessada em entender os cuidados com os idosos e as idosas, fui percebendo ao longo do trabalho de campo que essas práticas são bastante pulverizadas e não seguem um sentido único. Presenciei filhas com suas mães idosas, preocupadas com os exames ou se comprometendo em acompanhá-las para realizar algum procedimento em Cabedelo ou João Pessoa; escutei uma nora
4 O município de Lucena dispõe de quatro unidades de saúde da família (USF): uma
no Bairro Novo, uma em Fagundes, uma em Ponta de Lucena e uma em Costinha, à qual o “postinho” da Guia está vinculado.
contando que todos os dias dava injeção na sogra, que era diabética, pois só ela tinha coragem para fazê-lo; mas também observei idosas acompanhando suas filhas e netos e sendo aquela que ajudava a acalmar ou conter as crianças quando estas estavam mais agitadas. Também observei mulheres jovens, grávidas, acompanhadas de suas mães, além de inúmeras outras histórias que me mostravam que o cuidado era múltiplo e seguia sentidos variados.
Com o tempo fui me dando conta, indo ao encontro de relatos etnográficos (PALOMO, 2008), de que as idosas apareciam mais no lugar de cuidadoras do que no lugar de quem recebe cuidado. Cabe lembrar que eu não estava focando meu olhar em idosos e idosas debilitadxs, que precisavam de auxílio para realizar as atividades da vida diária (AVD).5 Certamente, nesses casos, a dinâmica era outra.
Acompanhei a história de um senhor que cuidava de sua esposa, que estava com Alzheimer, segundo diagnóstico médico, e nesse caso existia um discurso bastante queixoso por parte do marido, que se sentia sobrecarregado com as tarefas domésticas e com a assistência à esposa. Algum tempo depois, ela foi para a casa de uma filha que morava em São Paulo. Não irei me deter nessa história por não ser o foco da discussão neste texto, mas existiu nesse caso uma pressão social, pois o senhor não estava conseguindo dar conta da demanda e os demais familiares achavam que as filhas, que moravam longe, deveriam assumir os cuidados maternos. Nesse caso ficou bastante evidente que existe uma avaliação subjetiva e objetiva na hora de se decidir quem cuida de quem.
A realidade apresentada pelo campo me levou a perceber que, para além de quem cuida e quem é cuidado, as estratégias encontradas para a manutenção da vida eram construídas predominantemente pelas mulheres de diferentes gerações. Também fui, com o tempo, percebendo que outros elementos precisavam ser levados em consideração para de fato entender a dinâmica do cuidado, como tempo, recursos, aparatos tecnológicos e o equipamento público de saúde disponível.
Às vezes também via alguns homens, idosos, geralmente com problema de pressão. Apareciam em menor número, às vezes sós, às
5 Esta discussão mereceria um tempo maior, não disponível neste texto. Existe uma
vasta literatura que se detém a estudar as relações entre cuidadores e pessoas que necessitam de ajuda para realizar as atividades da vida diária. Essa literatura mostra que esses cuidados são divididos entre o Estado, a família e o mercado, mas no nosso país a responsabilidade maior fica com as famílias, o que é reafirmado pelos documentos.
vezes acompanhados, mas a permanência na unidade de saúde era mais pontual.
Também pude perceber que o posto era apenas um e não necessariamente o mais importante dos vários momentos que compõem a peregrinação em busca dos cuidados de saúde enfrentada pela população da Guia. As pessoas que tomam medicação controlada ou têm uma doença crônica, por exemplo, vão ao posto principalmente para pegar a receita. O próximo passo é ir à farmácia popular, que fica no centro de Lucena, em busca do remédio gratuito. Isso envolve pelo menos uma manhã ou uma tarde, pois o transporte público passa na comunidade apenas três vezes ao dia. A outra opção é o moto-táxi, mas é bem mais custosa. Quando não encontram o remédio, compram ou deixam de tomar até chegar a próxima consulta, decisão que certamente traz consequências para o seu estado de saúde.
Além de receita para a medicação, a médica é também a intermediária para a solicitação de exames. É ela que assina a requisição, mas é Dalva, a agente comunitária, quem as preenche e encaminha. Exames de sangue, fezes ou urina podem ser feitos em Lucena, mas exames de imagem precisam ser feitos em Cabedelo ou João Pessoa.
Dalva é uma peça chave no funcionamento do postinho. Ela reside na Guia e não apenas conhece todos os moradores como tem relações de parentesco com inúmeros deles. Praticamente sua família toda e também a de seu marido moram ali. Além de ser concursada, o que lhe dá um certo status, é uma pessoa muito “desenrolada”, com iniciativa. Na noite anterior à vinda da médica, ela passa na casa das pessoas que vão ser atendidas, avisando-as. Também é ela que faz o primeiro crivo quando surge um atendimento extra, mas geralmente todos e todas são atendidos. Ela dá conselhos, conhece o nome dos remédios, é uma referência na localidade. Enfim, a efetivação do cuidado depende tanto do sistema oficial de saúde existente no local, da equipe disponível, como dos recursos econômicos e técnicos, do gerenciamento do tempo e das possibilidades de deslocamento. Por outro lado, o cuidado também envolve os integrantes do grupo familiar e as relações de afeto, os conflitos, a circulação da dádiva e as avaliações morais. Existe uma dinâmica permanente de distribuição de tarefas, que são constantemente reorganizadas de acordo com critérios diversos que são acionados em função do tipo de demanda, do grau de proximidade afetiva, das hierarquias e das disponibilidades ou competências de cada um/uma. É uma complexa rede de relações e dispositivos que abrange toda a dinâmica social local.
Outro aspecto que o campo revelou e que merece ser ressaltado foi o fato de as idosas e os idosos se expressarem a partir da lógica da autonomia e da independência. Em muitos momentos, quando tentava puxar o tema do cuidado, era comum idosos e também idosas narrarem situações que diziam respeito a seus cônjuges que já haviam falecido ou que estavam com problemas de saúde. No entanto, com relação a elas ou eles, o discurso que predominava era que não precisavam que ninguém cuidasse, pois tinham toda condição de dar conta da própria vida. O relato a seguir nos fez pensar sobre o discurso de autonomia e independência, bem como nos dispositivos institucionais que demarcam as prioridades e as fragilidades da saúde pública.