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3 PERFIL TELEVISIVO: A INTERATIVIDADE MULTIMÍDIA

3.5 O processo da interatividade

“(...) O termo ‘interatividade’ em geral ressalta a participação ativa do beneficiário de uma transação de informação” (LÉVY, 1999, p. 79). O termo interatividade, de acordo com Lévy, transmite uma ideia de participação dos telespectadores. A forma é classificada como sempre ativa. Para o autor, não é correto definir um receptor como passivo, a menos que esteja morto, como ressalta no trecho acima. Sentado em seu sofá, em frente à televisão, mesmo sem participar de forma direta, decodifica e interpreta a informação transmitida. Isso evidencia a sua interatividade com o telejornal. A maneira como entende e aceita os fatos

nunca será igual à de seu amigo, na casa ao lado, por exemplo. Mesmo assistindo ao mesmo telejornal, ambos poderão formar uma percepção diferente sobre o assunto.

A interação apresentada atualmente pela TV, mais forte do que nunca neste período, sempre foi buscada pelo público. Inicialmente, as cartas representavam a vontade de fazer parte de uma produção. Com o tempo, o telefone e o e-mail tomaram esse lugar, mas o veículo televisivo apenas tomou frente nessa troca de informações, de sugestões, de participação, em meados da década de 90. A necessidade de oferecer algo novo ao telespectador foi aliada da Rede Globo no programa chamado Você Decide. A produção contava com uma história apresentada ao público. Na sequência, quem decidia o final dela era o telespectador, por meio de ligações. A opção que atendesse a escolha do público era exibida no último bloco do programa. Com esse formato diferenciado, o Você Decide fazia com que o telespectador participasse durante a história, votando pelo final preferido, como também prendia a atenção do povo durante toda a exibição da produção.

Outro programa que serve como exemplo quando falamos em interatividade é o Intercine. Diferente do Você Decide, aquele ainda está no ar. Também da Rede Globo, a emissora escolhe dois filmes e os divulga durante os intervalos do programa anterior. Neste período, o telespectador pode votar, por meio de ligações, o título a que quer assistir. Aproximando o público da televisão, exemplos como esses servem para mostrar como a relação entre a mídia e o telespectador vem de anos atrás e continua até hoje em algumas produções.

Instigando o telespectador a fazer uso de outros sentidos, de outras mídias, a televisão consegue alcançar um grau de interação satisfatório com o público. Isso faz com que ele se transforme, encontrando alternativas atraentes para unir à opção. De acordo com Souza, um forte exemplo que prova o desenvolvimento e exigência de outros sentidos para o entendimento de uma informação é a internet. Ela amplia as necessidades. Para navegar em determinado site, o telespectador necessita da visão, audição, tato e também do sentido interno dos movimentos do corpo, a sinestesia.

Um grande avanço é percebido nos programas atuais de interatividade por consequência da significativa emergência das novas tecnologias no contexto atual de comunicação. A multimídia, desconhecida até a segunda metade do século XX, se fortificou, tornando-se convergência entre vários meios tecnológicos. Para que o público interaja entre si e também com os meios de comunicação, é severo afirmar que o uso assíduo da interatividade influencia e acarreta no aumento de formas multimídias para o telespectador participar, da forma que ele desenvolva a interação cada vez mais, tendo várias opções.

Até hoje tivemos muitos produtos com a estrutura de árvore, o multimídia linear, que reproduz um livro, que apenas conta histórias. Este tipo de estrutura já está ultrapassada. No presente só se pode adquirir (receber) a informação, o saber. A grande evolução é ter a experiência, o que é diferente de ter (receber) a informação. O próximo passo da criação será o conhecimento, a participação na elaboração do conteúdo, em sistemas que são muito abertos, o que dará a oportunidade de o usuário ter sua própria experiência de conteúdo, única. Hoje você pode escolher um caminho entre os possíveis, mas são sempre os mesmos caminhos (KAPELIAN, 1998 apud SILVA, 2009, p. 43).

Segundo Kapelian, a referência que faz à estrutura ultrapassada está voltada ao receptor que não recebe apenas a informação para consumir, para saber, se inteirar do fato, mas está relacionada à evolução do processo de criação. Antes, o telespectador tinha apenas uma informação, geralmente o básico, o que ele já recebia, agora tem um contato maior com o conhecimento, por meio da participação, da elaboração do conteúdo que será divulgado, repassado, ou transmitido. Com isso, o público acaba tendo acesso a um conhecimento único. Cada nova participação, interação, é uma nova experiência, uma vivência diferente.

A interatividade no telejornalismo surgiu com a percepção dos telejornais no formato apresentado pelos programas de televisão. O Você Decide e o Intercine foram os precursores do estilo nos anos 90. De lá pra cá, percebendo o sucesso e os resultados, o jornalismo seguiu os mesmos passos, porém colocando voz ativa e participativa ao telespectador dentro dos telejornais. As páginas na internet dos telejornais é um bom exemplo disso. O Jornal do Almoço da RBS TV Santa Rosa, assim como todos os telejornais locais do grupo, coloca à disposição do público as notícias que foram ao ar nas edições anteriores. Normalmente, após o término de uma edição, antes mesmo do fim do dia, a produção já está disponível para quem quiser ver e rever. Os espaços destinados às sugestões de pauta, denúncias, elogios e críticas também contribuem para a evolução e eficácia da interatividade entre telespectador e telejornal.

Imagem 5 / Espaço destinado às edições do Jornal do Almoço de todo Rio Grande do Sul (Fonte: Print Screen site G1)

Imagem 6 / Espaço destinado ao Jornal do Almoço da região de Santa Rosa (Fonte: Print Screen site G1).

Por meio deste espaço no G1, o telejornal local consegue se aproximar mais da comunidade. Dessa forma conhece melhor o seu público, seu perfil. Por meio da interatividade entre o telejornal e o receptor, com as sugestões de pauta, as edições se tornam

mais atrativas. O jornal é feito com o que o público quer ver. A edição das notícias é influenciada por isso, como as demais mudanças, tanto no cenário como na linguagem do telejornalismo, como veremos no próximo capítulo, com uma análise mais aprofundada, desenvolvida na RBS TV Santa Rosa, estudo de caso desta pesquisa.

As alternativas de interatividade são estabelecidas pelos telejornais. Por meio delas, o aumento da audiência surge como resultado. Com matérias do interesse do telespectador, a produção se torna cada vez mais atrativa. Mais pessoas assistirão ao telejornal em busca de informação. Porém, não tem como o veículo escolher seu público por meio da interação, como Azevedo ressalta: “Os jornais e também outros meios não escolhem o seu público, ainda que procurem atingi-lo e adaptar-se a ele” (AZEVEDO, 2004, p. 70). O sucesso de audiência é consequência do esforço em oferecer uma edição bem feita, com diferenciais e participação. Ainda na mesma linha de referência ao resultado positivo da interação entre telejornalismo e telespectador, Rodrigues acrescenta que o público assiste a suas histórias na televisão e acaba se sentindo importante, valorizado: “Na maioria das vezes, os espectadores (telespectadores) veem suas próprias histórias sendo retratadas pela mídia e isso os torna significativos para a sociedade como seres integrantes de um ‘processo histórico’” (RODRIGUES, 2008, p. 4-5).

As ferramentas de interatividade surgiram nos telejornais por meio da iniciativa tomada pelo canal por assinatura Globo News. No dia 15 de outubro de 1996 foi a grande estreia do veículo. Destaca-se por ter sido o pioneiro no Brasil a apresentar, durante um dia inteiro, vinte e quatro horas contínuas, interatividade. O canal proporcionou ao telespectador ações novas, que antes nenhuma televisão tinha feito no país. O telespectador tinha a liberdade de assistir, a hora que quisesse, às edições do chamado Em Cima da Hora. Sempre ao vivo, o telejornal unia notícias brasileiras com informações mundiais em vinte e cinco minutos de transmissão, em vinte e duas edições diárias. O receptor, por meio do canal por assinatura, tinha acesso à grade de programação, juntamente com os destaques de produção, além de notícias diretamente do site da Globo News.

Atualmente, por controle remoto, o assinante pode verificar quais matérias possuem um ícone que indica o conteúdo interativo, dividir a tela da TV e navegar pelas informações que desejar, ao mesmo tempo em que assiste à programação exibida no canal (SOUZA, 2007, p. 43-44).

A introdução da interatividade, por mais que seja um facilitador aos meios de comunicação, também classifica-se com o um transformador, tanto de hábitos, costumes,

como postura. A interação referencia o esquema tradicional e ao mesmo tempo chamado de clássico da comunicação. A ordem estabelecida era entre emissor, mensagem e receptor. Hoje a percepção já é outra. A ordem muda, colocando o receptor onde ele quiser. Um exemplo disso é na produção de um telejornal. Antes o emissor elaborava o conteúdo e transmitia a mensagem que então chegava ao receptor.

Atualmente o receptor dá a sugestão de pauta primeiro, quando chega no emissor, ele avalia, vai em busca de um personagem, priorizando o mesmo entre a comunidade local para dar valor à informação, como destacado no capítulo anteriormente, quando classificávamos os critérios na construção da notícia. A partir daí, o receptor tem novamente a mensagem, com a sua sugestão, já podendo retornar ao emissor com uma avaliação do fato.

O emissor não emite mais no sentido que se entende habitualmente. Ele não propõe mais uma mensagem fechada, ao contrário, oferece um leque de possibilidades, que ele coloca no mesmo nível, conferindo a elas um mesmo valor e um mesmo estatuto. O receptor não está mais em posição de recepção clássica. A mensagem só toma todo o seu significado sob a sua intervenção. Ele se torna de certa maneira criador. Enfim a mensagem que agora pode ser recomposta, reorganizada, modificada em permanência sob o impacto cruzado das intervenções do receptor e dos ditames do sistema, perde o seu estatuto de mensagem ‘emitida’. Assim, parece claramente que o esquema clássico da informação que se baseava numa ligação unilateral emissor – mensagem - receptor, se acha mal colocado em situação de interatividade (MARCHAND, 1986 apud SILVA, 2009, p. 2).

Com o uso da interatividade o emissor exerce o papel também de receptor. Com isso, o receptor recebe o mérito de ser também emissor. Isso é consequência de o emissor receber informações e não apenas enviá-las. Assim como com o receptor, que não se contenta em apenas receber, necessita participar, colaborar com a produção. De acordo com Marchand, o consumidor passivo, que antes se apresentava assim, por exigência do mercado e das necessidades apresentadas pela mídia, se torna ativo. No entanto isso só é possível se os meios de se comunicar, de estabelecer sua participação, estiverem ao seu alcance, próximos de sua capacidade.

Conforme Lévy destaca em seu livro “As tecnologias da inteligência: o futuro do pensamento na era da informática”, a relação que existe entre os participantes da comunicação, emissor e receptor, pode ser dividida em grupos. O um-todos, um-um e todos- todos. O rádio e a televisão, por abrangerem um público maior, estão no grupo um-todos. Nesta classificação, o emissor envia mensagens para um número expressivo de receptores passivos. São colocados neste grupo por terem um público que não interage ativamente, somente recebem informações. O um-um permite relação igualitária para ambos envolvidos, como o telefone por exemplo. Os dois lados emitem e recebem. No grupo todos-todos, os

usuários se relacionam uns com os outros, formando um mesmo elo de poder de comunicação, que é o caso da internet, que faz com que todos se relacionem de alguma forma. Por causa da interatividade, foi necessário criar um novo grupo. O um-todos, classificado acima, refere-se ao fato de quando um grupo de telespectadores assiste a um mesmo programa de televisão, podendo interagir por meio de telefonemas ou e-mail, enviando informações para um centro emissor, no caso a produção vista. Porém, a comunicação só existe por causa dos outros dois grupos. Um exemplo forte disso é o programa de entrevistas da Marília Gabriela, “De frente com Gabi”, apresentado no SBT. As perguntas feitas para o entrevistado são parte dela e outra parte recebida de telespectadores.

A timidez dos telejornais começou a ser trabalhada recém agora, na última década. Aos poucos, o jornalismo interativo vai tomando espaço e dando lugar ao telespectador, à sua participação e também opinião. A interatividade, em sua essência, surgiu para contribuir com o telespectador. Sendo fonte e receptor ao mesmo tempo, sente-se valorizado, com voz. Ao mesmo tempo em que o público sai ganhando com as ferramentas interativas propostas pela mídia, os telejornais também são beneficiados. A abrangência aumenta. As informações aumentam. Vídeos, fotos de um fato podem ser enviadas para determinados e-mails. Sugestões de pauta fazem com que a produção evolua em termos de aprendizado. Assuntos que antes não ganhavam destaque, agora, pelo interesse manifestado pelo telespectador, são abordados na programação. Por meio da interatividade, das novas formas de se comunicar, do interesse do público em estar presente na produção, possibilita-se e coincidentemente resulta em uma nova etapa, em uma nova fase histórica não apenas na televisão, como em todos os meios de comunicação.