2. Redes de transmissão da prática artesanal da fabricação entre os são-bentenses
2.3. O processo de fabricação das redes de dormir
As etapas que estão envolvidas dentro da prática da fabricação das redes compõe uma diversificação desde a preparação do fio necessário para a produção até a confecção do pano e sua transformação em rede. Essas etapas têm sua fundamentação estabelecida de acordo com o nível da produção, e com a categoria da mesma. As modificações que ocorreram e ainda ocorrem dentro do processo, estão mais voltadas para a complementação do mesmo com a utilização de aparelhos mais sofisticados para a fabricação, sendo que suas etapas da mesma não mudaram muito desde a década de 1930, com o início da utilização de fios industriais, até fins a década de 1960, com início da utilização dos teares mecânicos.
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Falamos em setor capitalista, pois segundo Rocha, as práticas de produção de redes são tidas como um processo pré-capitalista organizado, que engloba geralmente os membros de uma família, e que, a partir de sua fase manufaturada, passa a empregar e gerar salário, mesmo mantendo seu caráter pré-capitalista.
Atualmente, os níveis de produção, que chegam a adquirir um caráter industrial, tem sido capaz de manter esse processo que se encontra dividido em três fases distintas. A primeira delas corresponde à preparação do fio para a tecelagem. O fio passa por um longo processo de transformação até atingir seu estado final com a tessitura do pano. Segue-se o processo: a urdidura, alvejamento⃰ e tingimento. Na fabricação atual das redes, os fios industrializados são adquiridos dos donos de depósitos de fio, que os recebem diretamente das fiações em cones de papelão, é denominado de “fio cru” por ainda não ter passado por nenhuma etapa de beneficiamento.
Como já vimos anteriormente, durante o início da prática de fabricação de redes esse processo era feito totalmente artesanal, o fio era preparado em casa, desde o descaroçamento do algodão, até a formação do fio em pequenos engenhos de madeira, que afinava o fio, e o concentrava em carreteis para posteriormente serem urdidos. Seguidamente também ocorria o processo de aprimoramento para fortificação do fio como o alvejamento, e de coloração através do tingimento. Somente a partir de 1930 é que alguns grupos que fabricavam redes passaram a adquirir fios industrializados, mas a disseminação não foi rápida, tendo São Bento convivido com o fio artesanal e o fio industrializado até fins da década de 1950 e início da década de 1960.
A urdidura consiste na formação de uma massa de fios verticais da rede, esse fio servirá para a composição do comprimento do produto. Esse processo foi durante um longo tempo, feito através das urdideiras⃰ manuais, uma invenção correspondente a um retângulo composto de quatro traves de madeira, onde são dispostos, na lateral desse retângulo, 24 pinos de madeira ou ferro.
FOTO 03: Processo manual de urdidura do fio.
FONTE: CARNEIRO: Rosalvo Nobre. A indústria têxtil em São Bento – PB: da manufatura à maquinofatura.
O responsável por esse processo, geralmente é chamado de diarista. Como podemos verificar na imagem acima, ele realiza essa etapa em um simples gesto de vai e vem, no qual, vai dispondo nos pinos o conjunto de fios organizados em „24 pernas‟ chamadas de cabrestilho⃰. Esse fio encontra-se em outro equipamento chamado pelos trabalhadores de gaiola⃰. Mais recentemente o processo de urdidura é quase totalmente feito através das urdideiras elétricas, que não mais precisa que o diarista gaste tanta força física no processo de vai e vem, pois a máquina faz toda a operação automaticamente, o diarista só precisa supervisionar o equipamento e emendar os fios na máquina no final de cada operação.
FOTO 04: Utilização da urdideira elétrica para o urdimento do fio
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
O alvejamento consiste no processo de despejar o fio urdido em tanques compostos de água e uma porção de cloro. Os diaristas afirmam que esse processo serve para tornar o fio melhor para a utilização, uma vez que o cloro consome as impurezas do fio, e retiram seu aspecto grosso e áspero.
Para o tingimento utiliza-se um equipamento chamado pelos diaristas de tacho elétrico, nele são colocadas água e tinta e pelo rolo de ferro concentrado acima do tacho o tingidor faz um movimento lateral com a massa de fio já alvejada. Na foto abaixo podemos ver um exemplo de tacho de tingimento mais moderno, o mesmo possui dois rolos para que o fio fique sendo retirado da porção de água e tinta e automaticamente a outra parte que está sendo torcida mergulhe novamente na porção.
No processo artesanal esse tingimento era realizado através da fervura de raízes de plantas que garantiam coloração e o mergulho dos fios em caldeirões para a coloração do mesmo. O advento da manufatura trouxe com ela a ferramenta do tacho de tingimento, no
qual o mais antigo e o mais moderno no mais das vezes encontram disparidades apenas no tamanho do mesmo e na velocidade da rodagem dos rolos.
FOTO 05: Tingimento de fio.
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
Na segunda fase do processo que consiste efetivamente na tecelagem, ocorre à transformação do fio em pano de rede, respectivamente esse processo se dá pela disposição do fio urdido, alvejado e tingido em um rolo de ferro. Os trabalhadores locais chamam esse artifício de “encher a barcada”, esse rolo com fio será acoplado no tear para formar o comprimento do pano da rede. A imagem abaixo demonstra o tecedor fazendo o desenho da rede nos fios que já estão dispostos no rolo, ou seja, nesse caso a barcada⃰ como é chamada, já está cheia. O tecedor apronta o desenho apenas juntando os fios pelas cores os quais seguirão na mesma métrica durante a tessitura do fio.
FOTO 06: Homem fazendo desenho da rede na barcada. (Rolo que será acoplado ao tear).
A etapa posterior consiste no enchimento das espolas. Essa etapa ocorre junto ao tear, por uma máquina chamada espuladeira*, responsável por encher esses carretéis, que depois de preenchidos são adaptadas nas lançadeiras depositadas no tear. Essa etapa é realizada para corresponder ao fornecimento de fios na trama horizontal do pano.
FOTO 07: Espuladeira elétrica.
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
A tecelagem em si, é atualmente realizada por teares mecânicos, que utiliza da presença do tecedor apenas para ligar e desligar a máquina, como também disponibilizar a atenção no mecanismo do tear, observando se a batida está correta; se a lançadeira está sempre bem encaixada; e desligar a máquina rapidamente quando ocorrer o risco de uma eventual falha técnica. Observamos que o modo de manusear os teares diferenciou bastante desde a época na qual a prática de fabricação de redes utilizava do tear de três panos, seguidamente do tear batelão, até se encontrar hoje utilizando os teares mecânicos, como podemos ver na figura a seguir.
FOTO 08: Homem tecendo em tear elétrico.
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro
A terceira fase do processo consiste na transformação do pano em rede, essa fase é também chamada de acabamento, e em sua grande maioria correspondem a uma atividade realizada pela porção feminina ainda existente no processo de fabricação, estas recebem o título de feiteiras. Porém, atualmente essa não é uma regra geral dentro dessa etapa, sendo que uma parcela masculina expressiva também se envolve no processo de acabamento da fabricação das redes.
Dentre suas etapas desta última fase estão presentes a costura, popularmente chamada de (passar o ponto), que consiste em dobrar as extremidades superiores da rede e costura-las utilizando uma máquina de costura. Seguidamente a essa etapa ocorre o torcer ou trançar as cabeças de fio existentes nas extremidades superiores da rede e costurá-las para que posteriormente sejam formadas as argolas por meio do entrançado, as quais receberão os cordões pelos quais as redes serão penduradas.
Podemos ver a seguir uma feiteira passando o ponto de uma rede. O ambiente no qual a imagem foi captada é inteiramente feminino e próximo às residências das mesmas, na zona rural do município. Nesse ambiente elas dividem seus afazeres entre os trabalhos de acabamento e as tarefas domésticas que não são deixadas de lado, tendo que em determinadas horas do dia, se ausentar do local de trabalho para resolver alguma pendência da lida do lar.
FOTO 09: Processo de costura da rede
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FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
Posterior à costura da rede, conforme o modelo de acabamento que a mesma exigir, passará pelo processo popularmente chamado de casear⃰ a rede, que consiste em um processo de costura em volta das cabeças de fio torcidas ou entrançadas, a fim de que nenhum fio se solte comprometendo a qualidade e a beleza da rede.
FOTO 10: Feiteira caseando rede.
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
A mamucaba como poderemos ver é um processo realizado em um pequeno tear que servirá para ligar as cabeças de fios torcidas ou trançadas umas às outras. Este processo é seguidamente feito depois que a rede se encontra devidamente caseada. Notamos o local de desenvolvimento desse processo, a calçada, podemos analisar através dela que o modo de fazer a rede ainda mantém diversos aspectos dos meios rudimentares, que exigia um saber específico na confecção e produção das redes. Na representação iconográfica a seguir isso é demonstrado através do local de realização dessa etapa, que mantém um caráter de produção de acordo com o cotidiano daqueles que estão diretamente envolvidos na prática, como também o uso do pequeno e rudimentar tear de madeira que não fora extinto mesmo frente aos avanços tecnológicos que já são distribuídos na fase do acabamento das redes.
FOTO 11: Feiteira fazendo mamucaba manualmente.
O empunhamento⃰, ou como muitos preferem chamar “botar o cordão” é a fase posterior do processo, realizada em um instrumento de madeira chamado “banco de empunhar”. Esse instrumento possui quatro pernas, que sustentam uma haste de madeira horizontal onde são dispostos dois pinos verticalmente. Nessa fase, as cabeças de fio ou argolas, serão introduzidas em cordões de trancelim, os mesmos alinharão os cordões na rede até a formação do punho. Sua realização é geralmente atribuída tanto às feiteiras, quanto a uma parcela de mão de obra masculina.
FOTO 12: Homem empunhando redes.
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
Paralelamente a essa tarefa ocorrerá a colocação do caré⃰, que consiste em um revestimento com fio nas extremidades dos cordões da rede que, vão ser colocadas em armadores para o seu uso.
FOTO 13: Homem fazendo caré.
Ainda nessa fase de acabamento podemos citar algumas etapas que estão mais voltadas para o embelezamento da rede do que para a sua funcionalidade em si, como por exemplo, a colocação de varandas. Estas estão englobadas em uma variedade de formas das mais simples às mais sofisticadas, seu processo artesanal exige esmero e paciência das feiteiras, já que os cordões são colocados um por um, nas duas extremidades laterais da rede, e sendo desenhada em um processo de entrelaçamento de fios.
FOTO 14: Feiteira fazendo varanda artesanal.
FONTE: Joyciana da Silva Medeiros, outubro 2015.
Atualmente já existem máquinas de fazer varanda em São Bento e movimentam uma boa parcela de produtores que procuram aumentar a produção. Tendo em vista que as varandas feitas industrialmente são fabricadas em um número bem maior do que as artesanais, que muitas vezes levam de dois a três dias cada uma para o término da colocação de varanda em uma única rede.
Através da pesquisa aguçada acerca de todo processo da prática de fabricação das redes de dormir, pudemos avaliar neste capítulo que a fabricação de rede ultrapassa o caráter de atividade econômica. Contudo, atinge também uma organização comunitária, pois envolvem de forma direta e indireta todos os trâmites das relações sociais dentro da cidade, seja na família, nos diferentes bairros que abrigam tecelagens e as pequenas concentrações de espaços destinados ao acabamento das redes, seja nas ruas nas quais os coloridos das redes penetram na vivência dos são-bentenses ao desfilar a fase de acabamento pelas calçadas das casas.
O desenvolvimento dessa prática é complexa e desafiadora, uma vez que mesmo com os avanços técnicos que houve ao longo do tempo, a arte de produzir a rede em São Bento com suas particularidades entrelaça o antigo e o novo quando nos deparamos com
mecanismos rudimentares convivendo com os avanços tecnológicos responsáveis por uma maior produção do leito balouçante. O envolvimento da memória e das experiências que fizeram com que a prática se efetivasse ao longo da história, sem perder o jeito são-bentense de ser, sendo até mesmo fácil relacionar a criatura ao criador, quando nos deparamos com as redes espalhadas pelo Brasil a fora.
CAPÍTULO III
3. Memórias enredadas: a modernização na fabricação e seus agentes