La force du préjugé. Essai sur le racisme et ses doubles, publicado em 1988
pela Editora La Découverte, casa dos grandes nomes da História e das ciências oriundos de maio de 1968, foi geralmente bem recebido139. Essa recepção favorável
138 Formulando estas últimas perguntas, tentaremos ficar atentos às advertências de Marc Angenot
sobre o pecado de anacronismo em História das Ideias. Quando P.-A. Taguieff publica La force du
préjugé em 1988 na mais famosa editora de esquerda de Paris (La Découverte; antes haviam sido
as edições François Maspero), ainda é um intelectual “de esquerda”, e espera convencer as organizações antirracistas da perspicácia de suas críticas ao estilo de antirracismo praticado por elas.
139 Entre outros, alguns exemplos, Pierre Vidal-Naquet, Marcel Detienne, Moses I. Finley, Jean-Pierre
Vernant, todos historiadores da Antiguidade. Sobre a recepção acadêmica, consultamos as resenhas disponíveis no portal persée.fr, que abriga as versões eletrônicas das principais revistas universitárias e intelectuais francesas. Tivemos assim acesso aos textos de Simone Bonnafous na revista Mots (1988), de Pierre Achard em Langage et Société, de Simon-Nahum Perrine em
Vingtième Siècle, Revue d’Histoire (1988), de Pierre-André Tremblay em Études Internationales
(1989), de Bernard Lamy na Revue Française de Sociologie (1990) e de D. Schnapper na Revue
Française de Science Politique (1991). As resenhas são favoráveis, com a exceção do artigo de
indica per se que o livro respondia a uma necessidade. À época havia-se voltado a
pensar o racismo – um sinal forte que de alguma coisa havia mudado, porque desde
os anos 1933-1945 parecia não haver dúvidas sobre o que significavam racismo e antirracismo. Para entrar diretamente no assunto, o melhor caminho talvez seja partir da tentativa de construção do conceito de racismo. Como, porém, P.-A. Taguieff beneficiou-se da reflexão anterior de três importantes intelectuais, Claude Lévi-Strauss, Colette Guillaumin e Albert Memmi, talvez seja o caso de começar por lembrar as contribuições destes.
1. As contribuições de C. Lévi-Strauss, A. Memmi e C. Guillaumin
Como o lembra o próprio P.-A. Taguieff, o racismo não interessou muito aos intelectuais franceses até os anos 1980. Com a importante exceção de Léon Poliakov e dos historiadores que trabalharam sobre a ideia de raça no contexto do Antigo Regime aristocrático, poucas pesquisas foram feitas sobre o tema na França140. Para pensar o que estava em jogo na proposta do GRECE, isto é, um
racismo sem raça e sem biologia, P.-A. Taguieff teve que se confrontar com três pensamentos decisivos sobre o assunto: as reflexões de Albert Memmi, Colette
140 Mas, fora do mundo acadêmico, a obra militante de Franz Fanon encontrou uma recepção ampla.
Sobre a ideia de raça no Antigo Regime, os livros clássicos são: André Devyver. Le sang épuré. Les
préjugés de race chez les gentilshommes français de l’Ancien Régime (1560-1720). Bruxelas:
Éditions de l’Université de Bruxelles, 1973; e Arlette Jouanna. L’idée de race en France au XVIe
siècle et au début du XVIIe siècle. Montpellier: Université Paul Valéry, 1981. Consultamos o artigo
de Pierre H. Boulle “François Bernier and the Origins of the Modern Concept of Race”. In: Sue Peabody; Tyler Stovall (eds.). The Color of Liberty. Histories of Race in France. Durham/Londres: Duke University Press, 2003. A essas referências é importante acrescentar a obra de Octave Mannoni, psicanalista e militante antirracista. A falta de interesse pelo tema da raça e do racismo aparece na primeira página do livro dirigido por Herrick Chapman e Laura L. Frader. Race in France.
Interdisciplinary Perspectives on the Politics of Difference. Nova York/Oxford: Berghahn Books, 2004:
“American scholars have often been struck by the absence in France of race as a category of analysis, or likewise its rarity as a subject for serious historical and sociological examination” (p. 1). O nome de P.-A. Taguieff volta várias vezes nas notas desse livro, que junta vários artigos de diversos pesquisadores norte-americanos. Vale a pena notar no subtítulo a palavra “diferença”. Uma observação semelhante sobre o pequeno desenvolvimento da pesquisa francesa sobre o racismo, desta vez por parte dos historiadores, encontra-se no artigo do conceituado historiador Claude Liauzu, “Jalons pour une histoire des sciences sociales face au racisme”. In: Cahiers de la
Méditerranée, 61, 2000 (texto publicado depois em Colonisations, migrations, racismes: Histoires d’un passeur de civilisations. Paris: Syllepse, 2009).
Guillaumin e Claude Lévi-Strauss. Quais foram as contribuições desses três autores na formação do modelo teórico de P.-A. Taguieff?
Militante anticolonialista e escritor, Albert Memmi escreveu vários ensaios instigantes sobre o racismo141. Para P.-A. Taguieff, “precisamos homenagear a
lucidez profética de Albert Memmi, cujo ‘tipo ideal’ do racismo, apresentado em sua forma canônica em 1964, incluía duas inovações fundamentais”, isto é, recentrar a análise sobre a diferença (no lugar das ideias de hierarquia e superioridade racial), e ir além da biologia, em direção à cultura142. O racismo era assim pensado por ele,
em 1964, isto é, antes do GRECE, como sobrevalorização da diferença, fora de um contexto racial, e não mais como afirmação de uma hierarquia das raças.
No entanto, P.-A. Taguieff lamenta uma confusão. Com efeito, o racismo pode tomar a forma de uma heterofobia (neologismo devido a Albert Memmi), um ódio à diferença; mas A. Memmi não viu que “existem formas propriamente heterófilas de racismo. O distanciamento que implica toda racialização (recusa do contato, evitação social, angústia da mestiçagem, medo pânico dos “casamentos mistos” e negação de uma descendência mestiça, etc.) pode traduzir-se tanto em uma língua heterófila (elogio da diferença, respeito pela alteridade...) quanto na língua heterofoba”143. Daí esta consequência fundamental, um dos resultados mais
importantes das pesquisas de P.-A. Taguieff:
Se o elogio da diferença pode expressar uma atitude racista tão bem como a recusa da diferença, então a heterofilia e a heterofobia não se opõem, respectivamente, como o antirracismo e o racismo, nem como uma postura “aberta” de
141 Os principais livros de Albert Memmi são Portrait du colonisé, precedido de Portrait du
colonisateur, prefácio de Jean-Paul Sartre. Paris: Corréa, 1957 e Le Racisme. Paris: Gallimard, 1982.
Os livros foram depois republicados em diversas edições pela Editora Gallimard. Ver o artigo sobre Albert Memmi redigido por Alain Policar. In: P.-A. Taguieff (org.). Dictionnaire historique et critique
du racisme. Paris: PUF, 2013, p. 1096-1098. Os principais livros de Albert Memmi foram reunidos
recentemente sob o título Portraits. Paris: CNRS Éditions, 2015. 1964 é a data de publicação de um importante artigo de Albert Memmi, “Essai de définition”, La Nef, N°19-20, setembro-decembro de 1964.
142 P.-A. Taguieff. Les fins de l’antiracisme, op. cit., p. 302.
143 Id., ibid., p. 303. Tendo em vista a importância aqui da palavra “heterófoba” (hostil às diferenças),
esquerda a uma postura “fechada” de direita. O elogio pode valer como instrumento de reprovação, ferramenta de racialização ainda mais eficaz que não se apresenta como tal. Isto é o paradoxo: a invocação do direito à diferença, o chamado ao respeito do outro ou das identidades culturais, a exigência de heterofilia ou de “xenofilia” (Lévinas) podem ser instrumentalizados por atores individuais ou coletivos racistas. Talvez seja a corrupção ideológica de um ideal ético dos mais inquietantes, porque a mais facilmente aceita, das duas últimas décadas144.
Colette Guillaumin foi uma das raras pesquisadoras sobre o tema do racismo nos anos 1960. Teve o mérito, segundo P.-A. Taguieff, de haver entendido que o racismo é sobretudo um essencialismo145. Ele é uma afirmação da diferença, que
pode manifestar-se pelo elogio do grupo diferente, enaltecido por sua diferença, da qual o indivíduo não poderia deixar de participar (daí o essencialismo). Mas, comenta P.-A. Taguieff,
discordamos de sua problemática pela hipótese de que outros tipos de essencialização intervêm no pensamento racista: a essencialização histórica e cultural tem um papel tão importante, e, para nós, infinitamente mais importante na segunda metade do século XX que a essencialização somatobiológica146.
Ou seja, na construção do conceito de racismo diferencialista, Colette Guillaumin destaca-se porque viu que o racismo não era prioritariamente vinculado à afirmação de uma hierarquia de “raças”, mas à essencialização do outro em sua diferença. Mas coube a P.-A. Taguieff afirmar que depois de 1945, e ainda mais a partir dos anos 1970, o novo racismo prescindia de toda referência à “raça” ou à biologia. A
144 P.-A. Taguieff. Les fins de l’antiracisme, op. cit.
145 Colette Guillaumin é a autora de uma obra de referência: L’idéologie raciste. Genèse et langage
actuel. Paris/Haia: Mouton et Cie., 1972.
trajetória do GRECE e a de Alain de Benoist testemunhavam que a cultura – uma imaginária cultura europeia suposta com base na obra de G. Dumézil, no caso do GRECE – podia muito bem servir de ferramenta para essencializar o outro.
Alguns anos depois da Segunda Guerra mundial, a intervenção de Claude Lévi-Strauss foi decisiva para desmontar o esquema evolucionista que implicava uma classificação das civilizações em uma escala única, que supostamente media o grau de avanço na direção do progresso147. Algumas décadas depois de Race et
histoire, Claude Lévi-Strauss voltou à questão do racismo e do antirracismo em
intervenções que marcaram o debate público nos anos 1980 – índice de que alguma coisa estava mudando depois do consenso quase universal e universalista dos anos pós-1945148. Lévi-Strauss surpreendeu ao afirmar que o verdadeiro antirracismo
devia tolerar certa dose de xenofobia, legítima, para permitir aos grupos sociais manter sua diferença. Claro, o racismo devia ser combatido, e, por isso, ser mais bem definido: o racismo seria a afirmação da superioridade biológica de um grupo humano, afirmação que autorizaria esse grupo a dirigir, explorar e até destruir outros grupos. O racismo seria um essencialismo biológico149. Concepção restritiva do
racismo, comentou P.-A. Taguieff, com certeza, de inspiração antirracista e proposta por um intelectual livre, sem filiação partidária, porém, instigante: quais grupos sociais, quais diferenças, poderiam legitimamente exigir o respeito de suas particularidades?
A intervenção de Claude Lévi-Strauss ofereceu a P.-A. Taguieff a oportunidade de precisar vários pontos, entre os quais destacam-se os seguintes:
- C. Lévi-Strauss encarna nos anos 1980 um antirracismo sensível à diversidade do mundo, o que P.-A. Taguieff tacha (ver abaixo) de antirracismo
147 O Claude Lévi-Strauss “antirracista” é o autor de um texto fundamental, Race et histoire, publicado
em 1952 sob os auspícios da UNESCO.
148 Ver o prefácio a Le regard éloigné, Plon, Paris, 1983 e a conversa com Didier Eribon, De près et
de loin. Paris: Odile Jacob, 1988.
149 Resumo a argumentação de Cl. Lévi-Strauss em De près et de loin (p. 208), citada por P.-A.
diferencialista. Mas o discurso antirracista diferencialista facilmente pode ser usado
para um fim contrário, racista, como o demonstrou o caso GRECE.
- para P.-A. Taguieff, não se pode reduzir o racismo a uma ideologia. Ele é também atitude, comportamento; nem o reduzir à biologia (ver acima a discussão com Colette Guillaumin).
- enfim, desde 1972 existe na França uma lei proibindo o discurso racista no espaço público. O discurso racista soube adaptar-se e evitar as afirmações explícitas. Daí um ponto muito importante: para P.-A. Taguieff, este discurso racista evoluiu, “as convicções racistas manifestam-se por outras vias, procedem a
contornos, levam a reversões, avançam veladas e enunciam-se com formulações
descaracterizadas”150. O racismo “cultural” – a base de defesa da cultura, e não da
“raça” – é também, muitas vezes, um racismo simbólico, disfarçado, até mesmo de antirracismo: viva a diferença, mas cada um em seu lugar.
Resumindo, P.-A. Taguieff inspirou-se nos trabalhos de Albert Memmi, Colette Guillaumin e Claude Lévi-Strauss para chamar a atenção dos militantes e intelectuais. O racismo, longe de ser um ismo simples e condenado pela História, era mais que uma ideologia, não implicava necessariamente o ódio da diferença,
podia expressar-se nos próprios termos do discurso antirracista, e tinha incentivo
para avançar dissimulado e mascarado. A palavra “racismo” escondia uma realidade muito mais complexa do que se podia imaginar. O racismo não era somente Gobineau ou os nazistas – aliás, cada vez menos se expressava na sua forma “clássica”, dos anos 1870-1945. Na verdade, podia mesmo existir sem o conceito de raça, sem referência à biologia, da mesma forma que existiu antes da invenção da palavra “racismo”. A ideia de um racismo sem raça, cultural e identitário, encontra-se em A. Memmi, e a de um racismo definido pelo essencialismo identitário (versus a ideia de hierarquia das sociedades), em C. Guillaumin.
Foi, porém, P.-A. Taguieff quem chamou a atenção sobre esse racismo estratégico e disfarçado, que se expressava na língua do antirracismo, pelo elogio da diferença; isto, exatamente, no momento em que as diferenças tornam-se valorizadas: diferenças identitárias, culturais, sexuais. O respeito às diferenças talvez seja um dos legados mais durável dos anos 1960 e dos acontecimentos de maio de 1968 na França. Tratava-se de uma tendência largamente compartilhada, mas por isto mesmo não questionada – uma confusão que parecia beneficiar ao Front National, cujos primeiros bons resultados eleitorais foram registrados em 1983-84. Se as identidades devem ser preservadas, resgatadas e defendidas, por que não a identidade francesa? Um novo espaço se abria pelo nacionalismo (lembramos que o nacionalismo francês histórico, o de Maurice Barrès, Charles Maurras e da Action française, difundia uma doutrina de ódio, mas não uma doutrina fundada na biologia – a “raça francesa” era “spiritual”).
Assim, parecia claro no início da década de 1980 que o racismo não era somente, nem principalmente, uma ideologia afirmando a desigualdade das raças. Mas, então, o que era o racismo?151
2. Uma proposta de definição do racismo152
A abordagem é weberiana. P.-A. Taguieff deixa de lado a perspectiva histórica (o estudo das diversas encarnações do racismo na história) e constrói uma
151 Depois de ter redigido isto, aprendemos que Franz Fanon, num texto pouco conhecido de 1956,
“Racismo e cultura”, desenvolveu ideias instigantes sobre a evolução do racismo. No contexto colonial posterior a 1945, o racismo não seria ligado à biologia, e, sim, a negação das culturas dos povos dominados. Ver o livro de Alice Cherki, Frantz Fanon. Portrait, Paris: Le Seuil (points), 2011 (2000), p. 157. O pensamento de Fanon é interessante para nós. De um lado, militante
anticolonialista, não despreza, bem ao contrário, a nação, e espera que nas nações
descolonizadas, “a universalidade se encontra na opção de assumir o relativismo recíproco de culturais diferentes uma vez excluída o estatuto colonial” (Fanon citado por A. Cherki, p. 158). Do outro, a retórico antiocidental possui o grave inconveniente de subestimar a importância do
liberalismo político. Frantz Fanon morreu em 1961, antes de ver uma Argélia independente, porém submetida à ditadura de um partido único.
152 Ver P.-A. Taguieff, “Racisme et anti-racisme: modèles et paradoxes”. In: André Béjin e Julien
Freund (orgs.). Racismes, antiracismes. Paris: Méridiens Klincksieck, 1986; e o Capítulo 8 de La
force du préjugé, “Du racisme: modèles, types idéaux, variantes, paradoxes” (1988). Os dois textos
definição ideal-típica do racismo, “por um inventário sistemático de seus traços definidores”153. Ele não justifica a escolha desses traços, mas nem Max Weber
justifica-os, o que é a raiz de um mal-estar entre os historiadores. Mas a justificação implícita é a da eficácia: o tipo ideal é uma ferramenta que deve ser útil à pesquisa, que deve ajudar na reflexão histórica e filosófica154. No entanto, P.-A. Taguieff
explica em detalhes quais são estes traços. Eles formam um “núcleo ideológico”, definido pelos traços seguintes:
rejeição do universal, categorização fixa dos indivíduos, absolutização das diferenças coletivas, naturalização (biologização ou etnicização) das diferenças, interpretação desigual das diferenças identificadas155.
O ponto instigante dessa construção é a emergência de uma ideia: fundamentalmente, existe não um, mas dois racismos. Os contornos do primeiro aparecem pouco a pouco à medida que se acumulam os quatro primeiros traços. É o racismo diferencialista – os indivíduos racializados são presos em uma diferença da qual nunca saíram, mas uma diferença que não implica necessariamente nem hierarquia de valor entre os grupos, nem discurso negativo sobre estes outros.
A interpretação desigual das diferenças (o quinto traço) introduz, porém, um novo elemento. Com efeito, afirmar uma desigualdade é primeiro comparar. Comparar implica reconhecer uma semelhança entre os elementos comparados. Os quatro primeiros traços tinham definido o racismo pela afirmação da diferença; o quinto introduz uma perspectiva universalista, a afirmação de uma identidade comum, porém hierarquizada. O universalismo é, assim, o segundo polo do racismo.
153 Id., ibid., p. 253.
154 Em Essai sur la théorie de la science (1918), Max Weber toma o exemplo do tipo ideal da
“economia urbana” na Idade Média. Os traços constitutivos de uma economia urbana não são uma média dos diversos aspectos da economia das cidades medievais, mas traços significativos selecionados e juntados para formar um modelo abstrato que nunca existiu na realidade.
155 P.-A. Taguieff, “Racisme et anti-racisme: modèles et paradoxes”, op. cit., p. 255-256. O segundo
traço pressupõe o primeiro, o terceiro, os dois primeiros, e assim por diante. O primeiro, porém, não implica o segundo, nem os dois primeiros, o terceiro.
Existem um racismo diferencialista, que se limita aos quatro primeiros traços, e um racismo universalista, que acrescenta a esses traços um quinto. Na realidade histórica, esses dois polos são sempre misturados, embora o nazismo ou o
apartheid sul-africano estejam mais orientados para o primeiro, e a escravidão dos
africanos nas Américas para o segundo, por exemplo. A racialização dos moradores das cidades pelos khmers vermelhos ilustra um caso trágico de racismo, sobretudo diferencialista, levado até suas últimas consequências, isto é, o assassinato em massa de uma população arbitrariamente constituída em um vasto “outro”156.
Qual é a utilidade dessa ferramenta? Se devemos julgar um tipo ideal por sua eficácia, qual é seu interesse? Acrescenta o quê? Ela nos acompanha no caminho de um antirracismo razoável e eficaz; é, porém, mais complexa, porque consciente de que deve lutar não contra um, mas contra dois racismos. A defesa da identidade dos grupos é legítima contra o racismo universalista, mas deve ser articulada aos valores universalistas. Senão, o risco é grande de legitimar todo e qualquer tipo de discursos xenófobos.
Diante da diferença e da universalidade, parece-me, para concluir, que o início do erro é tomar partido em favor de uma, excluindo a outra. Precipitação maximal. Como muitas vezes, a verdade reside no misto [...]. Nas margens da análise fria, é mister continuar a guerra ideológica em duas frentes. De um lado, contra o racismo antropófago, máquina de devorar as diferenças humanas, falso universalismo messiânico atrás do qual sempre se esconde todo imperialismo colonizador, redutor, predador. Do outro lado, diante do racismo mixófobo
[mixophobe], esse falso respeito pelo outro, disfarce das
pulsões de exclusão, dos mitos gêmeos do sangue puro, do povo homogêneo e do corpo nacional são, até o culto à cultura
156 Ben Kiernan, “Sur la notion de génocide”, Le Débat, 104, mar.-abr. 1999, Gallimard. O autor
explica a divisão da sociedade cambojana em três grupos naturalizados pela ideologia, e destinados a conhecer um destino tragicamente distinto. Os “destituídos” (déchus) eram os urbanos e todas as minorias nacionais. Os “candidatos” eram a parte dos cidadãos que podiam ser deixados vivos. Deviam demonstrar que não eram totalmente contaminados pelas ideias “estrangeiras”. O “povo de base” era os habitantes das zonas rurais, com exceção das minorias nacionais (exemplo nosso de racismo diferencialista “espiritual” ou cultural, não biológico).
nacional imaculada, e seu reverso comum: o terror da mestiçagem157.
Eis o primeiro passo na direção da ruptura com as evidências do antirracismo ingênuo: o racismo pode dizer-se em dois sentidos diferentes, não implica necessariamente nem uma hierarquização das culturas, nem uma “negação do outro”. Até mesmo pode muito bem acompanhar-se de um elogio da diferença. Assim, pronunciar um elogio das diferenças não é suficiente para caracterizar um discurso antirracista. O problema do racismo era sério, complexo, e a falta de gosto pelas questões teóricas não era sem consequências, como o demonstrava a impotência das associações antirracistas diante do progresso do Front National.