4.5 O CONSUMO DA INFORMAÇÃO
4.5.3 O superestímulo ao consumo
É interessante notar que toda a informação principalmente as que surgem durante as conversas ou são transmitidas pelos veículos de comunicação sempre apelam, de certo modo, a uma tomada de posição do público, instigando as pessoas a tomarem posições, fazerem críticas, comentarem e analisarem os fatos, cada uma de acordo com seus conhecimentos. Já que a informação é a base para nossas relações no trabalho, em casa, na família e com os amigos não resta dúvidas de que a informação é o combustível que move a sociedade atual, porém, o resultado disso pode ser um superestímulo ao consumo - fenômeno que acontece quando a pessoa é levada a agir nos limites máximos de sua capacidade de compreensão.
A palavra estímulo originada do latim stimulu pode ser definida como o ato de incitar, animar, excitar, avivar, despertar a criatividade das pessoas. Quando isso é feito em alta dose em se tratando de informação as pessoas demonstram ter certa necessidade de não só
exagerar na quantidade quanto a acelerar o processo de obtenção da informação. Ao acompanhar as informações e notícias divulgadas pelos veículos de comunicação as pessoas alimentam o que Fidalgo (1996)19 chama de curiosidade informativa definida como o desejo de saber intrínseco à natureza humana que pode levar a pessoa ao superestímulo do consumo de informação porque apresenta as seguintes características:
Atualização: só as últimas notícias satisfazem e, como tal, há que assegurar que as
notícias recebidas sejam as mais recentes, que não haja ainda notícias posteriores. Sendo o fluxo dos acontecimentos incessante, isso obriga a acompanhar esse fluxo, a estar sempre à frente. Um diário não lido, um noticiário não ouvido, significa uma falha de atualização, só reposta com a leitura de um diário ou a audição de um noticiário posteriores.
Totalização: tentativa de captar todas as notícias e, por isso, de seguir todos os ór-
gãos de informação. Há o receio de perder uma notícia. Compram-se diversos jor- nais, quantos mais melhor, se possível todo, e faz-se o zapping à hora dos noticiários entre as diferentes estações de rádio e de televisão. Teme-se que alguma esteja a dar uma notícia não dada pelas outras. Televisões e rádios fazem revistas de imprensa e sínteses das emissões de outras rádios e televisões, jornais fazem apanhados de afirmações feitas no dia anterior em outros jornais, nas rádios e nas televisões.
Novelização: a curiosidade informativa fomenta a expectativa de notícias a partir de
notícias, ao jeito das telenovelas em que se ficam a aguardar os episódios seguintes. Uma notícia de monta leva a desenvolvimentos posteriores, a outras notícias, nomeadamente sobre as reações à primeira. Por outro lado, o interesse de uma notícia é tanto maior quanto melhor for o enredo em que a situa ou que mesmo a
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Antônio Fidalgo Professor da Universidade Beira Interior escreveu um artigo em 1996 titulado como O consumo da informação - Interesse e curiosidade. O conteúdo está disponível no seguinte endereço:
motiva. O valor de uma notícia depende das expectativas criadas ao seu redor. A novelização aguça a curiosidade informativa.
Sensacionalismo: funciona, por sua vez, como o correlato da novelização. Não há
uma boa novela onde não entre o inesperado, o súbito surgir de elementos que alteram o normal desenrolar das coisas. Aliás o que faz de um fato um acontecimento de interesse jornalístico, isto é, o que torna um fato notável, são fatores que o demarcam do decurso trivial dos acontecimentos, fatores como o excesso, a falha e a inversão. O homem que morde o cão são justamente notícia porque rompem imprevistamente a normalidade. A novidade é tanto maior quanto mais inesperada. É a sensação do novo que a curiosidade informativa sempre busca. Na tentativa de satisfazer a curiosidade informativa fica claro que as pessoas acabam por super dosar a quantidade de informações consumidas diariamente. A facilidade em obter informações também contribui para o superestímulo e a ansiedade só aumenta quando há espaços vazios entre o que foi noticiado e o que ainda está por vir. As pessoas estão em busca de informação contínua. O sucesso das cadeias de rádio, televisão e as redes virtuais ao transmitirem continuamente notícias 24 horas do dia está baseado no imperativo da atualização da curiosidade informativa. Não aguardar por um horário para transmitir, mas fazê-lo logo em cima do acontecimento é a única maneira de garantir a perfeita atualização, o acompanhamento passo a passo do que acontece. Quando isso não ocorre às pessoas se vêem sufocadas pelo pela ansiedade que surge em conseqüência da superestimulação que não pode ser descarregada por meio da ação, trata-se então, da ansiedade informativa .
Wurman (1991), um dos maiores arquitetos de informação dos Estados Unidos foi a primeira pessoa a utilizar o termo Ansiedade da informação . Segundo ele a sensação pode ser descrita como o resultado da distância cada vez maior entre o que compreendemos e o que achamos que deveríamos compreender. Somos bombardeados com fatos demais quando o
que queremos é o significado das coisas. O ritmo de vida moderna trabalha contra a idéia de termos tempo para pensar, mas isso parece ficar cada vez mais escasso com tantas responsabilidades, obrigações e cobranças criadas tanto por nós quanto pela sociedade.
Várias situações gerais costumam provocar a ansiedade informativa. Os sintomas podem ser descritos como: não compreender a informação, sentir-se assoberbado por seu volume, não saber se certa informação existe, não saber onde encontrá-la, ou até mesmo não ter a chave de acesso para obtê-la o que pode parecer ainda mais frustrante.
Quase todo mundo apresenta um grau de ansiedade de informação. Lemos sem compreender, vemos sem perceber, ouvimos sem escutar. Ela pode ser vivida como momentos de frustração diante de um manual que se recusa a revelar o segredo de como operar um videocassete ou diante de um mapa que não tem nada a ver com a realidade. Pode ocorrer em um coquetel, quando alguém menciona um nome, aparentemente famoso, e a única pessoa que você conhece com tal nome é o seu dentista. Pode manifestar-se também como um mal-estar crônico, um medo generalizado de estarmos prestes a sermos esmagados pelo próprio material que necessitamos dominar para agir neste mundo. (WURMAN, 1991, p.38).
O autor destaca ainda alguns sinais que podem revelar se estamos ou não sofrendo com essa ansiedade. Os comportamentos a seguir, listados por Wurman (1991, p.39) são indicativos de que lidar com a informação talvez seja um problema na vida de milhares de pessoas:
Falar compulsivamente que não consegue se manter atualizado com o que ocorre ao seu redor;
Sentir-se culpado com aquela pilha cada vez mais alta de periódicos à espera de leitura;
Balançar a cabeça compenetradamente quando alguém menciona um livro, um artista ou uma notícia de que você, na verdade, nunca tinha ouvido falar;
Descobrir que é incapaz de explicar algo que pensava ter entendido;
Xingar-se por não ser capaz de seguir as instruções de um manual para montar uma bicicleta;
Recusar-se a comprar um novo eletrodoméstico ou equipamento apenas por medo de não conseguir operá-lo;
Sentir-se deprimido por não saber para que servem todos aqueles botões do seu videocassete;
Comprar aparelhos eletrônicos de alta tecnologia, achando que pode aprender a tecnologia por osmose;
Qualificar um livro genial mesmo sem ter entendido sua resenha, que foi tudo o que você leu a respeito;
Dedicar tempo e atenção às notícias que não tem qualquer impacto em sua vida. Achar que a pessoa ao seu lado está entendendo tudo e você não;
Ficar muito receoso ou encabulado de dizer não sei ;
Chamar de informação alguma coisa que você não compreende.
O bombardeio de informações causado pela mídia, pelas pessoas a nossa volta, pelas conversas, por nosso ambiente de trabalho tende a acelerar o processo de obtenção da informa- ção. Prova disso é a crescente procura pelos cursos de leitura dinâmica. Alguns deles prometem, através de técnicas, aumentar a velocidade de leitura em três vezes de praticamente qualquer pessoa, e alguns leitores dizem ter capacidade de ler literalmente dezenas de milhares de palavras por minuto, afirmativa ainda contestada por muitos especialistas. O fato é que as pessoas travam uma verdadeira batalha diária para absorver tanta informação quanto possível.
Toffler (1970) demonstrou essa preocupação com a aceleração do ritmo com que as mensagens chegam ao indivíduo e a urgência que muitos têm de se comunicar com certa antecedência. Segundo ele, o mar da informação codificada que nos cerca começa a bater em nossos sentidos com uma força e rapidez inéditas e isso ajuda a explicar o senso de urgência nos assuntos do dia-a-dia. As ondas de informação codificada se transformam em violenta ressaca, vindo em movimento cada vez mais rápidos, batendo sobre nós, buscando entrar, por
assim dizer, em nosso sistema nervoso , podendo trazer sérias conseqüências a saúde física e intelectual do indivíduo.
Os estudos sobre o comportamento humano revelam que viver num ambiente em rápida mutação, desconhecido e imprevisível pode provocar apatia - resultado de um processo final de um colapso psicológico. A deterioração mental costuma começar com o cansaço, seguida por confusão e irritabilidade nervosa. A pessoa acaba se tornando hipersensível aos menores estímulos em sua volta. É na verdade um processo de exaustão emocional em que a pessoa pode responder de variadas formas, desde a violência brutal a expressão indiferente.
Quando arquivamos uma imagem, qualquer imagem, fazemos um investimento de energia num padrão organizacional específico do cérebro, de forma definida, talvez até mensurável. Aprender exige energia; reaprender exige ainda mais. todas as pesquisas sobre aprendizado , escreve Harold D. Laswell, de Yale, parecem confirmar o ponto de vista de que energias são usadas para apoiar o conhecimento passado e que novas energias são essenciais para liberar o que já está velho... o que isto, em resumo, significa, é muito simples: há altos custos envolvidos em reaprender. (TOFFLER, 1970, p. 152).
Por viver numa sociedade em que a mudança se acelera, é normal sentir confusão intelectual, mergulhar numa desorientação de valores pessoais de tal forma que as pessoas começam a se auto questionar, sentimentos de ansiedade e medo nos deixam cada vez mais tensos, nos cansamos facilmente e podemos cair doentes. À medida que as pressões aumentam inexoravelmente este estado tenso passa para a irritabilidade, raiva, e algumas vezes, uma violência sem sentido. Acontecimentos mínimos provocam respostas enormes, acontecimentos importantes encontram respostas inadequadas, tudo por conta de um superestímulo de informação que toma conta da atmosfera na qual estamos inseridos.