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CAPÍTULO II – O terrorismo e o contraterrorismo

1.4 O terrorismo internacional na Europa (2001-2016)

Se para os Estados Unidos da América, o 11/9 de 2001 representou o turning point na forma de encarar e combater o terrorismo, na Europa foi o 11/03 de 2004 (atentados em Madrid), o principal game-changer. Até 2004, a ameaça terrorista era encarada como um problema secundário, mesmo apesar de existirem indícios para uma possível globalização da estratégia de Osama Bin Laden. Até à data, os ataques terroristas eram territorialmente delimitados, confinados “a questões políticas específicas”, apresentando-se como “ameaças isoladas”, explica Carrapiço (2005).

É com o impacto dos atentados na capital espanhola (e também do posterior ataque em Londres em 2005) que a Europa se vê confrontada com a “verdadeira” dimensão da ameaça terrorista. O terrorismo não é apenas uma ameaça de origem exterior (perpetrado por pessoas provenientes de outras áreas geográficas como o MENA) mas também interna, um fenómeno planeado e executado por indivíduos ou comunidades que vivem em território Europeu (Veldhuis e Staun, 2009). Face a este panorama, foram introduzidos nos discursos políticos e académicos novos conceitos como o de “radicalização” ou de “homegrown terrrorism” os quais são associados ao terrorismo de inspiração religiosa, de matriz islamista ou jihadista (Schmid, 2013).

Atualmente, o panorama securitário europeu é agravado pela fluidez do conceito de ameaça (em virtude dos efeitos da globalização e do progresso das TIC) mas também pela crise humanitária migratória do Mediterrâneo a qual, sobretudo após os atentados de 13/11, tem favorecido o triunfo do medo irracional generalizado, potenciado a emergência dos populismos, sentimentos de racismo ou xenófobos bem como aumentado a popularidade dos partidos de extrema-direita.

Os níveis da ameaça securitária (threath levels) diferem entre estados mas, de forma geral, o risco da ocorrência de um ataque terrorista em solo europeu, em 2016, manteve-se elevado, sendo espectável que assim continue. De acordo com o Global Peace Index (GPI) (2016) o mundo não está mais pacífico e a perspetiva futura não é animadora. Pelo contrário, “it’s slightly less peaceful” (menos 2.44% relativamente a 2008), sendo o terrorismo uma das principais causas da deterioração da paz (entre outras como o aumento de refugiados ou dos conflitos internos em resultado da guerra na Síria).

De acordo com o GPI, o número total de vítimas do terrorismo entre 2008 a 2016 aumentou 286%, registando-se entre 2006 e 2014 um aumento alarmante, “de menos de 10.000 para mais de 30.000 vítimas”. Entre 2013 e 2014, a atividade terrorista aumentou 80% (a maior subida desde 1970) e, em 2015, supostamente considerado o segundo ano mais mortífero para os países da OCDE desde 2001 (GTI, 2016), o número total de vítimas do terrorismo baixou no geral 10% (pela primeira vez desde 2010).

Segundo o GTI (2016), as principais áreas regionais mais afetadas pelo terrorismo (isto é, com um maior número de vítimas e de ataques perpetrados) são o MENA, a Ásia do Sul e a África Subsaariana, sendo o Iraque, o Afeganistão, a Nigéria, o Paquistão e a Síria os principais dos 10 países que sofreram um maior impacto da ameaça em termos de perdas humanas, ocupando 72% do total das vítimas em 2015.

Na Europa (Turquia não incluída), o número de vítimas mais do que duplicou nos últimos cinco anos, tendo a maioria dos ataques ocorrido no início de 2016. De acordo com o ranking do GTI, a Ucrânia (11º), a França (29º), a Rússia (30º) e o Reino Unido (34º) figuram entre os principais países europeus que maior impacto sofreram com o terrorismo. Para o GPI (2016: 29), a maioria das vítimas do terrorismo na Europa e na América do Norte desde 2001 foram causadas por ataques de “lobos solitários” nomeadamente perpetrados por indivíduos afetos a ideologias nacionalistas radicais ou “antigovernamentais”.

Ainda assim, a Europa é considerada a região geográfica mais pacífica a nível mundial e, apesar da evolução dramática e da trajetória que não se prevê descendente, o terrorismo está longe de ser a maior causa de perdas humanas, se se considerar as vítimas de catástrofes naturais, de doenças epidémicas, pobreza ou fome. Por exemplo, atualmente estima-se mais de 20 milhões famintos de em África - pelo menos no Sudão do Sul, Somália e Nigéria - a qual, segundo a ONU, enfrenta a “maior crise humanitária desde 1945” (Williams, 2008; SIC Notícias, 2017; BBC, 2017). Isto não significa, no entanto, que a ameaça (real e potencial) do terrorismo deva ser menosprezada. Pelo contrário, não só os

indicadores do GPI e GTI são um sinal de alerta como também a perceção pública não é aquela, o que é uma agravante adicional dado que o terrorismo é psicológico. Aliás, de acordo com o Eurobarometro 432 sobre as perceções de ameaça e segurança na Europa (2016: 6) a principal preocupação em 2015 era ocupada pelo “terrorismo e o extremismo religioso” (49%), seguido da crise económica (27%).

1.4.1 O terrorismo islamista ou jihadista

O terrorismo de matriz islamista ou jihadista é a principal preocupação securitária entre os estados membros da União Europeia, a qual foi devidamente percecionada após os referidos atentados de 2004 e 2005. Contudo, a presença desta ameaça na Europa não é um fenómeno moderno, tendo sido “introduzida pelos Egípcios e Argelinos em exílio que continuaram a sua luta nacionalista”. O alcance dos grupos (como o Al-Gama’a ou o GIA), porém, era limitado porque as suas atividades eram confinadas às lutas políticas no Norte de África. Ainda assim, este foi um aspeto importante para “criar um sentido de espiritualidade comum, bem como o desenvolvimento de diversas noções sobre a jihad que, embora tenha levado anos a desenvolver-se enquanto conceito, iria afetar a Europa” (Taarnby, 2007).

Analisando os relatórios TE-SAT, observa-se uma variação na designação e no significado desta ameaça. Entre 2006 a 2010, a designação preferida era a de “islamista”, usada para designar os atos de violência “motivados, em parte ou no seu todo, por uma visão extremista do Islão e cuja violência é vista pelos seus perpetradores como um dever divino ou ato sagrado” (Hoffman [2006] apud TE-SAT, 2007: 10). De 2011 a 2014, é definido o termo “terrorismo de inspiração religiosa” para caracterizar os atos perpetrados por “indivíduos, grupos, networks ou organizações que agem em nome de uma religião para justificar as suas ações”, o qual inclui a al-Qaeda e grupos afiliados (TE-SAT, 2012: 42). É apenas em 2015 que este tipo de terrorismo é designado por “jihadista” pois, no parecer da EUROPOL (TE-SAT, 2016: 53-54), “seria errado associar uma religião praticada por milhares, o Islão, com as atrocidades perpetradas por uns poucos”.

De acordo com último TE-SAT (2016) relativo ao ano de 2015, a ameaça está estreitamente relacionada com o fenómeno dos “foreign terrorist fighters” (FTF), isto é, aos indivíduos que “viajam para outro estado que não o da sua residência a fim de planear ataques terroristas ou receber treino para o efeito” (CSNU, S/RES/2178, 2014). Sublinha Manuel Valls, ex-PM francês, que “a ameaça é pesada e permanente; [é] tanto interna como externa, ignora as fronteiras. Há indivíduos - alguns deles ainda menores - que foram radicalizados e recrutados para combater - que regressaram do Iraque e da Síria e estão

prontos a agir” (Barata, Público, 2016). Estes FTF que regressam ao seu país de origem (returnees) estão no centro das preocupações europeias uma vez que podem replicar as práticas violentas em solo europeu, “via facilitation, fundraising, recruitment and radicalization activities [as well as] role models for future would-be violent jihadists”. A EUROPOL estima que dos 5.000 europeus que viajaram para aqueles países, 1.000 já terão regressado à Europa (Maher, The Conversation, 2017). Os extremistas islamistas em solo europeu - que não tiveram um contacto direto com grupos terroristas - representam também uma ameaça para os EM (TE-SAT, 2016).

Aliada à questão dos FTF, o NCI norte-americano (2017: 223) demonstra também preocupação quanto à comunidade migrante marginalizada que pode ser uma fonte potencial de recrutamento. Para Matos (2016a: 189-192), a presença do terrorismo islamista na Europa está relacionada com a imigração e, particularmente, com a “diáspora da comunidade islâmica” e os programas dos países de acolhimento na União Europeia. Para o autor, a principal preocupação são as células endógenas, ou o terrorismo “homegrown” (cf. glossário): a ameaça é sobretudo interna, proveniente de células que se constituem “no seio de elementos da comunidade muçulmana, radicada em diferentes estados membros”, cujos indivíduos são geralmente imigrantes de 1ª ou 2ª geração, ou já nascidos em solo europeu, ou que se converteram ou têm alguma ligação ao Islão.

A nível estatístico e em comparação ao ano de 2014, o número de ataques jihadistas perpetrados em espaço europeu aumentou de 4 para 17 em 2015 e os ataques em Paris em Janeiro e Novembro desse ano representaram uma “clara mudança” na intenção e capacidade e no modo de atuação dos grupos jihadistas. A maior parte dos ataques cometidos foram perpetrados em nome do ISIS. No entanto, também se observou entre 2014 e 2015 um aumento no número de detenções por atividades terroristas (de 395 para 687), o que ilustra os esforços por parte das instâncias europeias (TE-SAT, 2016: 6-7; 22).