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CAPÍTULO 1 – O Setor Público, o Desenvolvimento Sustentável e as Compras Públicas

1.1 Origens, conceitos e a abordagem do sistema aberto

A Teoria Geral dos Sistemas (TGS) apregoa que várias estruturas podem ser melhor compreendidas a partir da sua representação por um conjunto de partes inter- relacionadas e interdependentes, de forma não fortuita, que forma um todo com capacidade de adaptação aos ambientes mutáveis (Bertalanffy, 1950, 1972; Checkland & Scholes, 1999) e que atuam juntas para alcançar objetivos comuns (Churchman, 1968).

89 O conjunto de princípios que compõem a TGS (Bertalanffy, 1950) tem utilidade no entendimento de boa parte dos sistemas que se propõem a representar determinada realidade, com aplicações em várias áreas do conhecimento, tais como na Biologia, Administração, Economia e Ecologia (Bertalanffy, 1968), a evidenciar sua perspectiva multidisciplinar (Maciel, 1974). Dessa forma, a TGS se tornou uma referência teórica importante, pois interpreta de maneira peculiar a estrutura e as relações ambientais dos sistemas (Bertalanffy, 1972), inclusive os organizacionais.

A introdução de uma Teoria Geral dos Sistemas é atribuída ao biólogo Ludwig von Bertalanffy. Porém a linha de pensamento do trabalho do biólogo não é nova, dá sequência às ideias de outros cientistas e filósofos clássicos, entre eles Aristóteles, Leibnitz e Kant, que procuravam por uma “filosofia natural” – um conjunto geral de explicações que pudesse descrever, com poucas alterações, qualquer situação observada na natureza (Klir, 1969; Checkland & Scholes, 1999).

Além da proposta de integração do conhecimento entre os vários ramos da Ciência, havia no cerne dos primeiros trabalhos sobre a TGS (por exemplo, em Bertalanffy, 1964; Laszlo, 1972) considerações éticas mais profundas, ao perceberem, já naquela época, que a humanidade poderia estar em eminente risco, devido às crises humanas, sociais e ambientais. Os autores defendiam o desenvolvimento e a aplicação da TGS como uma estratégia/plano de ação para integração das ciências e, assim, evitar esses desastres e alcançar um “mundo melhor” (Pouvreau, 2014; Rosseau, 2015). Nesse ponto, a TGS se aproxima do conceito de desenvolvimento sustentável, elaborado alguns anos mais tarde. A primeira apresentação oral do conceito proposto por Bertalanffy foi feita na cidade de Chicago em 1937, seguido por artigos científicos produzidos entre os anos de 1945 e 1950 (Klir, 1969). As ideias do biólogo foram bem recebidas pelo meio acadêmico, fato que gerou interesse científico e uma série de investigações sobre o tema, seguidas de tentativas e variações sobre o conceito de sistema.

A Teoria Geral dos Sistemas, na visão de Kuhn (1978), lançou as bases para o entendimento contrário à ideia dominante de que cada disciplina científica resolveria seus próprios problemas em torno de pressupostos metodológicos, linguagem própria ou

90 experimentos bem desenvolvidos. Bertalanffy lançou os pressupostos e as orientações basilares da TGS por meio do seguinte raciocínio (Bertalanffy, 1977:62):

a) Há uma tendência geral no sentido da integração nas várias ciências, naturais e sociais;

b) Essa integração parece orientar-se para uma teoria dos sistemas;

c) Essa teoria pode ser uma importante forma para alcançar uma teoria exata nos campos não físicos da ciência;

d) Ao desenvolver princípios unificadores que perpassam verticalmente os universos particulares das diversas ciências, a Teoria nos aproxima do objetivo da unidade da ciência; e

e) Isso pode levar a uma integração muito necessária na educação científica.

O desenvolvimento da TGS trouxe importantes implicações teóricas e uma multiplicidade de aplicações práticas em área distintas que gerou uma série de conceitos relacionados aos sistemas (Rosseau, 2015). Klir (1969), até aquela época, conseguira elencar vinte e quatro definições diferentes para sistemas. Porém, o próprio Bertalanffy (1977) o define como um complexo de elementos em interação ordenada, de forma não fortuita. Já Checkland e Scholes (1999) acrescentam que se trata de um conjunto adaptativo com capacidade de sobrevivência em ambientes mutáveis.

Churchman (1971), em trabalho de investigação científica voltados para a administração e ciências sociais, iniciados no final da década de 60, com o pensamento alinhado ao de Bertalanffy, entende sistemas como um conjunto de partes coordenadas que atuam juntas para alcançar um conjunto de objetivos globais. O autor complementa a definição ao ressaltar que há cinco considerações básicas para o entendimento do significado de um sistema: a) Os objetivos totais e as medidas de rendimento do sistema completo; b) O ambiente do sistema; c) Os recursos do sistema; d) Os componentes, suas atividades, finalidades e medidas de rendimento; e e) A administração do sistema. Organizações levam em conta essas considerações para desenvolver ferramentas específicas para avaliação de suas atividades.

91 A utilização da TGS em várias áreas do conhecimento resultou na fragmentação das ideias originalmente propostas por Bertalanffy (Drack & Apfalter, 2007; Troncale, 2009; Rosseau, 2015). Na década de 80, as citações da Teoria em artigos científicos passaram por um declínio (Provreau & Drack, 2007; Drack & Schwarz, 2010), embora se perceba uma renovação recente do interesse pela utilização da TGS como suporte às pesquisas acadêmicas (Rosseau, 2015).

Na área de Ciências da Administração, as ideias defendidas pela TGS influenciaram teóricos organizacionais, principalmente os da década 60, quando foram desenvolvidas as ideias que classificaram as organizações em empresa mecânica e empresa orgânica (Burns & Stalker, 1961), realizados os estudos sociotécnicos que perceberam a organização em suas interações com o meio ambiente (Emery & Trist, 1965) e apresentados os trabalhos que tinham como pressuposto teórico as organizações como sistemas abertos que devem se adaptar ao ambiente (Woodward, 1968; Lawrence & Lorsh, 1969).

Os sistemas abertos são aqueles cujos elementos constituintes interagem continuamente com o meio externo (Bertalanffy, 1968) e se adaptam em busca de um equilíbrio dinâmico (homeostase). Os sistemas fechados, descritos pela segunda Lei da Termodinâmica, são impermeáveis ao meio e eventualmente chegarão a um estado de equilíbrio em que seus processos findarão (Bertalanffy, 1977). Dito de outra forma:

A intensidade das trocas de matéria, energia e informação entre o sistema e o meio envolvente é variável: se é fraca (ou nula), o sistema é fechado; se é intensa, o sistema é aberto. Um sistema aberto é adaptativo se tiver a capacidade de regulação e controlo para se adequar às mudanças no ambiente, com vista à sobrevivência e ao bom desempenho. A relativa estacionaridade do meio interno face à variação do meio é feita através dum mecanismo assente em interacções circulares negativas, dito homeostasis.

(Capelo & Dias, 2010:97)

Ainda que os primeiros modelos mecanicistas de representação da organização percebessem as organizações como sistemas fechados, prevaleceu a ideia destas como sistemas abertos, pois esse modelo revelou potencialidades, abrangência e flexibilidade (Motta, 1971). Katz e Kahn (1966) não foram os criadores do termo “sistema aberto”, mas o aplicaram às organizações, como um pressuposto básico, adaptando-o à realidade organizacional. Na próxima seção, apresentar-se-á o detalhamento desta aplicação.

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