3.1 A TEORIA DAS REPRESENTAÇÕES SOCIAIS
3.1.3 Os conteúdos e os processos de produção das
A permanente interação propiciada no contexto social da doença renal crônica leva as pessoas a teorizar sobre a vida cotidiana, construindo um saber pragmático, que foge dos moldes científicos, formando um corpo de conhecimentos organizado, proveniente destas relações. A partir das informações que circulam no seu cotidiano, buscam criar explicações através das representações sociais. Além disso, segundo Jodelet (2001), criamos representações para sabermos nos comportar frente ao mundo a nossa volta, dominá-lo física e intelectualmente, identificar e resolver problemas. A autora salienta que
[...] frente a este mundo de objetos, pessoas, acontecimentos, ideias, não somos (apenas) automatismo e nem estamos isolados num vazio social:
partilhamos este mundo com os outros, que nos serve de apoio, às vezes de forma convergente, outras pelo conflito, para aprendê-lo, administrá-lo ou enfrentá-lo. Eis porque as representações são sociais e tão importantes na vida cotidiana. (JODELET, 2001, p.177).
Destarte, as representações sociais configuram um sistema de interpretações que regem nossa relação com o mundo, orientando e organizando as condutas e as comunicações sociais. Na concepção de Jodelet (2001, p.5), “as representações sociais podem intervir em processos de difusão/assimilação de conhecimentos, no desenvolvimento individual/coletivo, na definição das identidades pessoais e sociais”.
Sá aponta que
A grande teoria das Representações Sociais aos moldes das proposições originais básicas de Moscovici foi desdobrada em três abordagens complementares: uma liderada por Denise Jodelet, fiel a teoria original; a liderada por Willen Doise, que apresenta a dimensão sociológica das representações sociais e a liderada por Abric, com a dimensão cognitiva estrutural das representações sociais. (SÁ, 1998, p.65).
O autor observa que estas abordagens não são incompatíveis entre si, pois possuem a mesma matriz teórica. Wagner (2000, p.149) ressalta que, numa pesquisa, a representação social pode ter dupla visão, “é concebida como um processo social que envolve comunicação e discurso ao longo do qual os objetos e significados são construídos e elaborados” e as representações são operacionalizadas como “estruturas individuais do conhecimento, símbolos e afetos, distribuídos entre as pessoas, em grupos ou sociedade”.
Entendendo que as representações sociais se constroem na história e que os sujeitos se apropriam do objeto, atribuindo-lhe sentido, pode-se afirmar que há um processo e um movimento de reconstrução contínuo, que as atualiza a partir das informações que vêm de experiências concretas. (MOSCOVICI, 1978).
Além da possibilidade de ser compartilhadas, as representações são coletivamente construídas e com isso determinam comportamentos. Nesse aspecto,
A representação social é uma modalidade de conhecimento particular que tem por função a elaboração de comportamentos e a comunicação entre os indivíduos [...] o dado externo jamais é acabado e único; ele deixa muita liberdade de jogo à atividade mental que se empenha de apreendê-lo. A linguagem aproveita-se disso para circunscrevê-lo, arrastá-lo no fluxo das associações, para impregná-lo de suas metáforas e projetá-lo no verdadeiro espaço, que é simbólico. (MOSCOVICI, 1978, p.26).
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As relações sociais constituem o campo onde estas representações são construídas mediante o processo de comunicação entre as pessoas, visto que compar-tilham ideias, experiências e imagens, o que viabiliza o fortalecimento dos vínculos, tornando estas situações familiares. Articulada a esse processo de comunicação, a produção destas representações também é influenciada pelo comportamento humano, de acordo com a natureza dos estímulos que o cercam, provocando nos indivíduos as respostas a serem divididas com o grupo. (COELHO, SILVA; PADILHA, 2009;
MERCES; ERDMANN, 2010).
Moscovici afirma que a formação de uma representação a partir da experiência ou conhecimento dá-se,
[...] Em primeiro lugar, vinculando-os a um sistema de valores, de noções, de práticas que confere aos indivíduos as formas de se orientarem no meio social e material, e de o denominarem. Em segundo lugar, proporcionando aos membros de uma comunidade como forma de trocas e de códigos para denominar e classificar claramente as partes de seu mundo. (MOSCOVICI, 1978, p.27).
Conforme Moscovici (1978), as representações sociais possuem três dimensões: a informação, o campo de representação ou imagem e a atitude. A informação se relaciona com o sistema de conhecimentos que grupos específicos possuem sobre o fenômeno. Essa informação condiciona o tipo de representação sobre o objeto, por exemplo, a representação social de cuidado com a saúde e a doença para a pessoa renal crônica. Procura identificar as informações que as pessoas/grupos têm sobre o objeto.
O mesmo autor aponta que o campo de representação ou imagem
“[...] remete-nos a ideia de imagem, de modelo social, ao conteúdo concreto e limitado das proposições atinentes a um aspecto preciso do objeto da representação”
(MOSCOVICI, 1978, p.69). Ressalta ainda que as opiniões podem englobar um conjunto de representações, mas isto não quer dizer que este conjunto seja ordenado e estruturado. A noção de representação indica que existe um campo de representação onde houver uma unidade hierarquizada de elementos. (MOSCOVICI, 1978).
A atitude “logra destacar a orientação global do grupo em relação ao objeto da representação social, é a mais frequente das três dimensões e, possivelmente, a que se organiza primeiro” (MOSCOVICI, 1978, p.70-71). O autor afirma que a pessoa se informa e depois adota um posicionamento (positivo/negativo) em relação ao objeto social.
Assim, uma representação expressa a relação de um grupo socialmente valorizado com outro, na medida em que diferencia um grupo de outro, por sua orientação, pelo fato da presença ou ausência da representação, porém, o número de suas dimensões também favorece a relação (MOSCOVICI, 1978). Moscovici (1978) ainda refere que as representações sociais são elaboradas de acordo com dois processos fundamentais: a ancoragem e a objetivação. Define ancorar como classificar e denominar. A ancoragem transforma a ciência em um conhecimento útil para todos. (MOSCOVICI, 1978).
Ancorar é, pois, classificar e dar nome a alguma coisa. Coisas que não são classificadas e que não possuem nomes são estranhas, não existentes e ao mesmo tempo ameaçadoras. Nós experimentamos uma resistência, um distanciamento, quando nós somos capazes de avaliar algo, de descrevê-lo a nós mesmo ou a outras pessoas. O primeiro passo para superar esta resistência, em direção à conciliação de um objeto ou pessoa, acontece quando nós somos capazes de colocar este objeto ou pessoa em uma determinada categoria, de rotulá-lo com um nome conhecido. (MOSCOVICI, 2011, p.61).
Assim, a ancoragem é um processo fundamental na formação da repre-sentação social que implica a atividade de transformar algo não familiar em familiar, e ainda transformar um saber em outro saber. Essa noção sugere afirmar que as representações já estruturadas servem como referência para novas representações.
(TRINDADE; SANTOS; ALMEIDA, 2011).
O contínuo e implacável contato com o novo desencadeia um processo de desacomodação e reacomodação ininterrupta no modo como compreendemos a nós mesmos, nosso mundo e as relações, dando abertura e sentido para novas conformações (AYRES, 2007). Esse pensamento caracteriza-se pela memória e pela presença de posições estabelecidas, aciona mecanismos gerais como classificação, categorização, denominação e procedimentos de explicações que obedecem a uma lógica específica. Diante disso, pode-se pensar que o sistema de representação fornece os meios às balizas pelas quais a ancoragem vai classificar e explicar de maneira familiar. (SÊGA, 2000).
A ancoragem caracteriza o processo de trazer as representações às categorias e imagens diárias, ligando-as a um ponto de referência reconhecível.
Dessa forma, é conferida ao processo de ancoragem a possibilidade de classificar e nomear o conhecimento em categorias já construídas, para ser interpretado, analisado e justificado. Moscovici (1978, p.173) refere que, “mediante o processo de ancoragem, a sociedade converte o objeto num instrumento social, que ela pode dispor [...] colocado numa escala de preferência nas relações sociais existentes”.
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A ancoragem mantém a memória em movimento, está sempre colocando e tirando objetos, pessoas e acontecimentos, que ela classifica de acordo com o tipo e os rotula com um nome. A objetivação tira conceitos e imagens para juntá-los e reproduzi-los no mundo exterior, para tornar as coisas conhecidas a partir do que já é conhecido (MOSCOVICI, 2011). A objetivação seleciona informações e torna concreto aquilo que é abstrato. (TRINDADE; SANTOS; ALMEIDA, 2011).
Moscovici define objetivação como o:
[...] processo de pensamento baseado na memória, que tem como propósito unir ideia de não familiaridade com a realidade, satura o conceito desconhecido da realidade transformando-o em bloco de construção da mesma. Equivale pensar que tendo primeiramente percebido o desconhecido num contexto puramente intelectual e remoto, ele emerge frente a nossos olhos de forma tangível. Materializa ideias e significações estabelecendo uma correspondência entre as palavras. Consiste no fenômeno que transforma algo abstrato em algo quase concreto. (MOSCOVICI, 2011, p.71).
A objetivação, conforme Moscovici (2011, p.71), implica “descobrir a qualidade iônica de uma ideia, ou ser impreciso, é reproduzir um conceito em uma imagem”. Assim, uma ideia mal definida toma forma, aproximando o conceito da imagem. Porque une a ideia de não familiaridade com a realidade em que o sujeito está inserido, o que significa a materialização de uma abstração.
Esta abordagem vem ao encontro da definição de modelo figurativo de Moscovici:
[...] trata-se de uma construção lógica. No real, a estrutura de cada representação nos parece desdobrada, ela tem duas faces tão pouco dissociáveis quanto retro e o verso de uma folha de papel: a face figurativa e face simbólica. Entendendo com isso que a representação transmite a qualquer figura um sentido e a qualquer sentido, uma figura. (MOSCOVICI, 2012, p.60).
Com base na abordagem de Moscovici (2012), o potencial da estrutura da imagem consiste em reproduzir um conceito de modo visível, apesar de nem todas as palavras estarem ligadas às imagens que possam ser acessíveis.
A objetivação e a ancoragem constituem as formas específicas em que as representações estabelecem mediações, tornando quase material a produção simbólica de uma comunidade ou grupo e dando conta da concretude das representações sociais na vida social. As representações sociais, desse modo, emergem como processo que ao mesmo tempo desafia e reproduz, repete e supera, que é formado, mas também forma a vida social de uma comunidade. (JOVCHELOVITCH, 2000).