2.2 Leitura: processo cognitivo
2.2.2 Os esquemas mentais e a compreensão leitora
Para Goodman (1987), a leitura constitui-se um jogo psicolinguístico no qual o leitor reconstrói a mensagem escrita pelo autor, ativando os processos mentais, usando suas experiências e conhecimentos prévios como pistas para confirmar suas predições durante o processamento do texto.
Assim, quando o leitor se depara com o escrito, elementos textuais e contextuais são acionados aos esquemas de memória de forma que garantam a construção de seu significado.
Partindo dessa premissa, a psicologia cognitiva, com base na teoria dos esquemas, procura explicar como estruturamos e armazenamos o conhecimento na mente, como compreendemos e adquirimos novos conhecimentos. Essa teoria tem fornecido subsídios para a compreensão de como ocorre o processo de compreensão da leitura.
A noção de esquema, segundo Colomer e Camps (2002, p.35),
Foi utilizada por psicólogos europeus como Bartlett e Piaget durante os anos 20 e 30 e, mais tarde, já nos anos 70, foi recuperada pela psicologia cognitiva para descrever o processamento de informação. Os esquemas são definidos como estruturas mentais que o sujeito constrói na interação com o ambiente, e que organizam seu conhecimento e o modo de usá-lo. Os esquemas de conhecimento se aplicam a qualquer âmbito de experiência, seja o que estudamos sobre operações matemáticas, seja o que sabemos sobre o funcionamento de um mercado.
Portanto, os esquemas são estruturas mentais, necessárias para o processamento e interpretação de dados sensórios, para a retenção de informação pela memória, para a organização das ações, para a determinação de objetivos maiores e menores.
As estruturas mentais, por sua vez, são constituídas a partir de outras estruturas mais elementares; porém, como afirma Piaget (2009), essas estruturas elementares “não constituem começos absolutos, mas que derivam de outras mais elementares, e assim por diante até o infinito”.
Para Piaget (2009), toda gênese parte de uma estrutura e chega a uma outra estrutura. “[...] toda gênese é um sistema relativamente determinado de transformações, comportando uma história e se conduzindo, de maneira contínua, de um estado A a um estado B, sendo este mais estável que o estado inicial e constituindo seu prolongamento” (p.122).
No caso da leitura, o leitor está sempre formulando hipóteses sobre o texto para compreendê-lo. Essas hipóteses são formadas com base nos esquemas que o leitor tem sobre o assunto, isto é, sobre o que o leitor conhece do assunto tratado no texto. Caso o leitor não tenha esquema nenhum sobre determinado assunto, ou deixe de ativá-los, o texto se tornará incompreensível, o significado não será construído.
Segundo Smith (1989, p. 30), os leitores “desenvolvem e necessitam de um grande número de esquemas espacialmente organizados, relacionados ao modo pelo qual os livros e outros tipos de textos escritos estão organizados”.
Dentre os esquemas necessários à compreensão textual estão os esquemas de gêneros específicos. Por exemplo, os jornais não são estruturados do mesmo modo que os livros e as revistas. A aparência e organização de um livro ou de um jornal podem variar consideravelmente de uma comunidade ou cultura para outra, porque obedecem a especificações convencionais, porém os leitores devem ter esquemas construídos para esses suportes e gêneros textuais que os compõem. Se não tiverem, a compreensão fica comprometida.
O significado do texto depende do conhecimento prévio do leitor, ou seja, da interação de diversos níveis de conhecimento pelo leitor, como os conhecimentos linguístico, textual e de mundo.
O conhecimento linguístico, conhecimento implícito não verbalizado, permite que se fale uma língua, no nosso caso o português, e desempenha papel central no processamento do texto. Ele abrange desde o conhecimento sobre como pronunciar o português, até o conhecimento do vocabulário e regras do uso da língua.
O conhecimento textual refere-se ao conjunto de noções e conceitos sobre o texto: tipos, gêneros, função. Segundo Colomer e Camps (2002), os conhecimentos do leitor sobre os níveis superiores (tipologia, gênero, frases) do texto conduzem à formulação de hipóteses coerentes com os níveis inferiores (palavras, sílabas, letras):
Assim o leitor progride ao longo do texto através da previsão de que seqüências ou frases são esperáveis no que está lendo, as frases orientarão as hipóteses sobre as palavras que têm mais possibilidade de aparecer nesse contexto, as palavras limitarão os morfemas possíveis e estes permitirão antecipar as letras (COLOMER e CAMPS, 2002, p. 37).
Já o conhecimento de mundo ou conhecimento enciclopédico abrange conhecimentos científicos adquiridos formalmente na escola, como os conhecimentos adquiridos informalmente, através de experiências e convívio na sociedade.
Os conhecimentos prévios, quando ativados, possibilitam a construção do sentido do texto pelo leitor. É o conhecimento que o leitor tem sobre o assunto que permite a formulação de hipóteses e a verificação destas durante o processamento do texto. As hipóteses geram expectativas que o leitor procura satisfazer no decorrer da leitura, ou seja,
procura verificá-las. Esse processo de autocontrole através da estratégia de confirmação das hipóteses é a maneira de o leitor demonstrar preocupação com a compreensão do texto. As relações cognitivas significativas utilizadas na interpretação de um texto resultam das representações mentais de conhecimentos e de experiências vivenciadas pelo leitor em práticas sociais de leitura. Como diz Goodman (1987, p. 15),
Toda leitura é interpretação, e o que o leitor é capaz de compreender e de aprender através da leitura depende fortemente daquilo que o leitor conhece e acredita a priori, ou seja, antes da leitura. Diferentes pessoas lendo o mesmo texto apresentarão variações no que se refere à compreensão do mesmo, segundo a natureza de suas contribuições pessoais ao significado. Podem interpretar somente com base do que conhecem.
A maior parte de informações utilizadas na construção do significado do texto pelo leitor é inferida. Na formulação e verificação de hipóteses, o leitor lança mão de informações não explícitas - as inferências.
Essas inferências estão subordinadas às experiências adquiridas anteriormente pelo leitor na interação com diferentes textos escritos em múltiplas situações de leitura, ou seja, para compreender o texto, o leitor articula seus conhecimentos prévios e coloca em ação tudo que sabe sobre o texto para aprender o que ainda não sabe sobre o assunto enfocado. Dessa forma,
A leitura supõe uma certa experiência textual, como o contato e a familiaridade com os diferentes gêneros e estruturas textuais, de forma que o aluno perceba que ler um texto informativo é diferente de ler uma instrução, ler uma notícia é
diferente de ler uma história [...]” (BRASIL/MEC, 2007, p. 25).
Na concepção que entende a leitura como produção de significado “a partir das interações sociais ou relações dialógicas que acontecem entre dois sujeitos – o autor do texto e o leitor” (BRASIL/MEC, 2007, p. 21), esse processo depende fundamentalmente do uso de estratégias cognitivas de leitura, como veremos no exemplo a seguir.
O texto produzido através do reconto de uma narrativa por uma criança de sete anos e nove meses, mostra que se destacam, dentre as operações cognitivas utilizadas por ela na construção do significado do texto, a coordenação de diferentes conhecimentos que possui e o controle das estratégias. Nota-se também seu esforço em manter a coerência do texto e a relação de sua criação com o conto original.
Adri, ao ser solicitado para recontar a história que escutou “O gato pirado”, de Lúcia Reis, iniciou com a seguinte observação: - Vou contar outra, gosto doutra.
O pato ele era novo. Aí cresceu, cresceu. Quando ele foi crescendo, ele trabalhou. Aí ele...é a mesma coisa do gato pirado... ai dormiu pensando que era, que era uma nuvem. Aí se acordou... eu tou muito doido, eu vou tomar, vou beber um pouquinho do meu remédio. Aí, aí, foi dormir pensando que era uma aranha. Aí, aí o... Como é mesmo? Aí ele foi nadar, ele pensava que era um peixe e dormiu. Aí a baleia foi lá e quase comia ele. Fim.
Adri – 7 anos e 9 meses. Junho/2008
No reconto, apesar de criar outra história, a criança optou por, manter a trama da narrativa que ouviu, inclusive fazendo referência a ela, quando diz “é a mesma coisa do
gato pirado”, mantendo os fatos e as sequências dentro do seu encadeamento lógico, com
coerência.
De acordo com Colomer e Camps (2002), as inferências se produzem em todos os níveis do texto, e suas funções podem ser divididas em dois grandes grupos, conforme tragam informação externa ao texto (como conhecimentos relacionados às experiências do leitor) ou conectem elementos em seu interior, como o uso de conectivos. Na frase, por exemplo, “Ele pensava que era um peixe e dormiu.” – que indica a relação de causa e consequência – a primeira ação é anterior à segunda.
O processamento de construção de significado do texto pelo leitor depende, portanto, da sua capacidade de decifrar o texto e de associar experiências e conceitos construídos anteriormente em situações de práticas de leitura. Como afirma Braggio (1992, p. 43),
Ao ler, o indivíduo traz para o ato da leitura seu conhecimento de língua, tomada holisticamente, seu conhecimento do mundo, experiências e crenças, além das estratégias cognitivas requeridas. Desta maneira, postula-se uma compreensão integrada do texto não só trazendo o conhecimento anterior pra o ato de ler, mas retirando do contexto as informações adequadas [...].
Podemos concluir que, a ativação do conhecimento prévio pelo leitor é crucial na busca de coerência do texto. No entanto, as diversas operações mentais somente serão acionadas eficientemente se houver um objetivo de leitura que motive o leitor a persegui-
lo. Quando o objetivo de leitura é plausível, a atividade15 se realiza com possibilidade de sucesso. Como diz Solé (1998, p.42), “para atribuir sentido à realização de uma tarefa, é preciso que se saiba o que deve fazer e o que se pretende para efetuá-la e que a tarefa em si resulte motivadora”.