1.3 FERRAMENTAS DA RESPONSABILIDADE SOCIAL EMPRESARIAL
1.3.1 Modelos de Relatórios
1.3.1.1 Os Indicadores Ethos
Antes de pormenorizar os Indicadores Ethos, criados pelo Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social, vale recordar que o uso de ferramentas para a mensuração de
impactos socioambientais teve início no Brasil, em 1997, com a criação do Balanço Social, criado pelo Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase).
O Instituto Ethos, que é uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (Oscip), criado em 1998, promove o conhecimento, fomenta a troca de experiências e desenvolve ferramentas para auxiliar as organizações na adoção de práticas de gestão de forma socialmente responsável e o desenvolvimento sustentável. Ele criou os Indicadores Ethos, em 2000, que vêm sendo constantemente aprimorados. Em 2010, foi lançada a atual geração de indicadores que é fundamentada no conceito de negócios sustentáveis e responsáveis14. Trata- se de um sistema de gestão que apoia as organizações na apropriação da sustentabilidade e da responsabilidade social empresarial. A ferramenta é baseada em métricas, o que permite a comparação com outras organizações, auxiliando na identificação de pontos fortes e fracos e na mitigação de riscos. O questionário apresenta questões de profundidade, questões binárias e questões quantitativas e é agrupado em 4 dimensões: 1) Visão e Estratégia; 2) Governança e Gestão; 3) Social; e 4) Ambiental, que por sua vez, se desdobra em subtemas e, posteriormente, em indicadores. Todas são inspiradas na Norma Brasileira NBR ABNT ISO 2600015, que será
detalhada no item 2.4.
Para o Ethos (2013), a Responsabilidade Social e a Sustentabilidade são conceitos interdependentes e não excludentes:
“Essa visão tem origem nas próprias reflexões que vimos fazendo como organização, buscando integrar os princípios e comportamentos da responsabilidade social com os objetivos para a sustentabilidade. Vivenciamos essas reflexões e buscamos essa integração”.
A Ferramenta atual permite uma maior flexibilização, tendo em vista que as organizações podem selecionar as categorias de indicadores que façam sentido para o seu nível de maturidade, que tenham maior interesse em desenvolver e que possibilitem criar estratégias.
14 Negócio Sustentável e Responsável é a atividade econômica orientada para a geração de valor econômico, financeiro, ético, social e ambiental, cujos resultados são compartilhados com os públicos afetados. Sua produção e comercialização são organizadas de modo a reduzir continuamente o consumo de bens naturais e de serviços ecossistêmicos, a conferir competitividade e continuidade à própria atividade e a promover e mantes o desenvolvimento sustentável da sociedade. (ETHOS, 2013).
15 Segundo o Inmetro (2012), a ISO 26000 sobre responsabilidade social se expressa pelo desejo e pelo propósito das organizações em incorporarem considerações socioambientais em seus processos decisórios e a responsabilizar-se pelos impactos de suas decisões e atividades na sociedade e no meio ambiente. Isso implica um comportamento ético e transparente que contribua para o desenvolvimento sustentável, que esteja em conformidade com as leis aplicáveis e seja consistente com as normas internacionais de comportamento. Também implica que a responsabilidade social esteja integrada em toda a organização, seja praticada em suas relações e leve em conta os interesses das partes interessadas.
Há opção de usar a seleção de indicadores sugerida pelo próprio Instituto, muitas vezes simplificando o processo para as organizações iniciantes. A categoria Básica tem 12 indicadores; a Essencial, 24; a Ampla, 36; e a Abrangente, 47 indicadores. Todos foram desenvolvidos para essa geração de relatórios com ênfase na gestão sustentável e socialmente responsável.
A evolução permitiu a possibilidade de avaliar, de forma exclusiva, os pequenos negócios, denominados Indicadores Ethos-Sebrae16 para Micro e Pequenas Empresas. Além disso, foi desenvolvida uma série de guias temáticos, a partir de um recorte do questionário dos Indicadores Ethos para Negócios Sustentáveis e Responsáveis. A eles foram acrescentados novos indicadores, cujo principal objetivo é aprofundar o tema. Por meio de uma plataforma, o guia temático permite o monitoramento do desempenho das organizações quanto aos compromissos e pactos empresariais, pelo Instituto Ethos e organizações parceiras, mesmo que a organização não tenha assinado os pactos.
Os dois primeiros guias temáticos foram lançados em 2015: Integridade, Prevenção e Combate à Corrupção e Indicadores Ethos – MM36017 para Promoção da Equidade de Gênero.
Em 2016, em parceria com o Centro de Estudos das Relações de Trabalho e Desigualdade (CEERT) foram lançados os Indicadores Ethos – CEERT para a Promoção da Equidade Racial. Em 2017, foram lançados o Indicadores Ethos – Guia Temáticos: Mudança do Clima.
Ao responderem ao questionário dos Indicadores Ethos, em quaisquer categorias, as organizações têm em suas mãos um autodiagnostico de gestão, sobre o quanto a sustentabilidade e a responsabilidade social têm sido incorporadas, além de auxiliá-las na definição de estratégias, políticas e processos. Vale ressaltar que os Indicadores Ethos não se propõem a medir o desempenho das organizações, muito menos reconhecê-las com sustentáveis ou responsáveis. Ao adotá-los, as organizações também conversam e se integram às Diretrizes do GRI G418 para a Elaboração de Relatos de Sustentabilidade, aos princípios do Pacto Global e à NBR ABNT ISO 26000.
16 Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas.
17 Para potencializar e acelerar essa trajetória, criou-se a Associação Movimento Mulher 360 (MM360), com a missão de contribuir para o empoderamento econômico da mulher brasileira numa visão de 360 graus. Para isso, são desenvolvidas estratégias que promovam o fomento, sistematização e difusão de avanços em políticas e práticas empresariais, com o propósito de informar e engajar toda a comunidade empresarial brasileira e a sociedade em geral. (ETHOS, 2013).
18 A Global Reporting Initiative é uma organização internacional que ajuda empresas, governos e outras instituições a compreender e comunicar o impacto dos negócios em questões críticas de sustentabilidade. Mudanças climáticas, direitos humanos e problemas de corrupção são algumas dessas questões. As diretrizes da GRI – chamadas G4 – na elaboração dos relatórios ajudam a identificar os impactos das operações da organização sobre o meio ambiente, economia e sociedade civil. (CEBDS, 2017).
Segundo o Instituto Ethos, o uso do sistema de Indicadores é exclusivo para as organizações associadas, que podem utilizá-lo na forma individual ou aderir ao Programa de Cadeia de Valor. Há três tipos de modalidade de uso do sistema, que estão diretamente ligadas ao seu acesso de forma limitada ou ilimitada e com mais ou menos funcionalidades.
Atualmente, o Instituto tem aproximadamente 500 empresas associadas. Para a associação, dois fatores são levados em consideração: o tamanho da organização e que tipo de experiência ela quer ter com o Ethos, que se dividem em três categorias: Conexão, Essencial e Vivência. Para cada uma, há valores anuais de contribuições e benefícios diferentes, conforme a tabela a seguir.
Tabela 1 - Valores Anuais para Associação das Empresas ao Instituto Ethos
PROGRAMA DE ASSOCIAÇÃO - INVESTIMENTO ANUAL
FATURAMENTO CONEXÃO ESSENCIAL VIVÊNCIA
MICRO E PEQUENA EMPRESA (até R$ 56 milhões) R$ 2.500,00 R$ 4.200,00 R$ 5.800,00 MÉDIA (R$ 56 milhões a R$ 300 milhões) R$ 9.500,00 R$ 15.000,00 R$ 19.000,00 GRANDE (maior que R$ 300 milhões) R$ 16.000,00 R$ 30.000,00 R$ 48.000,00
Fonte: Instituto Ethos
Segundo o Instituto Ethos, a desassociação19 deve ser solicitada pelo associado, não constando explicitamente nenhuma forma de descredenciamento das signatárias por parte do Ethos. Contudo, é mister descrever a análise dos Indicadores Ethos como ferramenta de gestão
19 Apesar de não ser o foco do presente trabalho, cabe destacar que, conforme consulta à lista de organizações empresariais associadas ao Instituto Ethos, disponível na página eletrônica em 16 de janeiro de 2018, consta a empresa Odebrecht S.A., envolvida na Operação Lava Jato. O presidente da organização, além de diretores e funcionários, responde a processo por lavagem de dinheiro, corrupção ativa e associação criminosa, envolvendo licitações públicas e verba direta para partidos políticos, entre outros crimes. Alguns já foram processados e condenados, pelo menos uma vez; outros, são réus e estão à espera da primeira sentença. Também há funcionários que colaboram com as investigações e ainda não têm acusação formal.
da Responsabilidade Socioambiental Empresarial, desenvolvida por Talita Rosolen (2012, p. 146-147):
Há muitos benefícios na utilização desta ferramenta, principalmente no direcionamento de práticas socioambientais quando a organização se encontra em estágio de aprendizagem em relação à sustentabilidade e precisa se mobilizar para evoluir neste caminho. Neste sentido, os Indicadores Ethos foram essenciais para o desenvolvimento do tema em empresas brasileiras. Tanto por sua abrangência de temas quanto pela acessibilidade a todos os tipos de organização a ferramenta adquiriu força e robustez no ambiente empresarial. Por ser uma ferramenta de autodiagnostico de uso essencialmente interno e para auxiliar a gestão da empresa em relação aos aspectos socioambientais, sua eficácia depende do comprometimento da organização em encarar o processo de preenchimento de forma séria e dar continuidade ao seu desenvolvimento com a elaboração de planos de ação, estabelecimento de metas e monitoramento dos resultados. Somente o fato de utilizar os Indicadores Ethos não significa que a empresa está realmente comprometida com o desenvolvimento sustentável. Por não haver verificação das informações coletadas por parte do Instituto Ethos, tampouco divulgação pública do diagnóstico resultante de sua utilização, não há como garantir sua veracidade e o desenvolvimento de ações efetivas por parte das organizações.