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CAPÍTULO II NOVAS ALTERNATIVAS DE PRODUÇÃO E A EMERGÊNCIA DE

2.1 Processos Pedagógicos e as Transformações da Cultura Camponesa: diferentes pedagogias

2.1.4 Os movimentos sociais seus discursos e suas práticas

Após o surgimento das primeiras mobilizações de agricultores familiares na região, no final dos anos 70, em torno da crise da suinocultura79, surgiram também as primeiras mobilizações em torno dos problemas específicos que originaram os quatro grandes movimentos sociais que surgiram na região nos anos 80 aos quais já me referi anteriormente (MST, MMA, MAB e oposições sindicais). Gradativamente, estes se converteram em importantes espaços de difusão de um conjunto de idéias, valores e práticas que também passaram a servir de referência à

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As primeiras mobilizações de agricultores familiares na região surgiram em resposta a uma profunda crise que se abateu sobre a suinocultura independente (não integrada às agroindústrias) que foi, durante várias décadas a principal fonte de renda dos agricultores da região. Nesse sistema de produção a definição do que, como e quanto produzir, bem como a definição de para quem vender a produção cabia aos próprios agricultores familiares, sem uma influência direta dos frigoríficos. Da mesma forma, os insumos utilizados na produção eram, de um modo geral, aqueles disponíveis na própria unidade familiar de produção, sendo bem pouco significativa a utilização de insumos de origem industrial. No final dos anos 70, no entanto, essa produção autônoma de suínos entrou em franca decadência pela pressão das grandes agroindústrias que passaram a combatê-la através de diversos mecanismos comerciais e legais. Um dos episódios decisivos, nesse sentido, foi o fenômeno que ficou conhecido como peste suína africada, um suposto surto de uma doença muito grave e contagiosa que teria atingido a região, provocando o fechamento do processo de exportação e mesmo de comercialização nacional do produto, ocasionando grandes perdas para os agricultores. Dados dão conta de que mais da metade dos produtores independentes de suínos abandonou a atividade após esse episódio, cuja existência efetiva nunca foi comprovada. Os dados divulgados na época eram marcados pela imprecisão e por contradições, o que levou os criadores a realizarem grandes manifestações públicas contra a farsa da peste suína africada. Desse modo, o episódio acabou sendo decisivo para o surgimento do processo de mobilização e de reação política registrado na região.

população em questão, podendo, portanto, ser caracterizados como processos pedagógicos, na acepção que aqui vimos trabalhando.

Em primeiro lugar, a percepção e a tematização de cada um dos problemas específicos, em torno dos quais as diferentes identidades foram construídas, suscitou o levantamento e a veiculação de novas informações a respeito de cada uma das questões colocadas (a questão fundiária, a questão das barragens e do projeto energético brasileiro, a questão das mulheres agricultoras e da situação da agricultura familiar, etc.). Um exemplo bem elucidativo dessa produção e veiculação de novas informações e interpretações sobre a realidade foi o levantamento do número de sem terras e de proprietários com terra insuficiente na região de abrangência da diocese de Chapecó, realizado no início da década de 80, por iniciativa da própria diocese. Esse dado novo, articulado com os dados da estrutura fundiária do país80, amplamente divulgados na época, provocou intensas e polêmicas discussões sobre o tema e novos olhares sobre a questão do acesso e da propriedade da terra no país puderam ser construídos.

Outro exemplo eloqüente nessa mesma direção foi a organização de uma expedição que visitou os assentamentos de atingidos por barragens nas regiões norte e centro oeste, organizada pela igreja católica na primeira metade da década de 80 e que possibilitou aos atingidos pelas barragens do Rio Uruguai vislumbrar as possíveis conseqüências sociais da construção de barragens e as perspectivas de futuro que os aguardava. O conhecimento desses fatos acabou sendo altamente mobilizador, predispondo os camponeses para o processo de organização e de

80

A referência feita aqui é sobre o fato da estrutura fundiária do país caracterizar-se pela acentuada concentração das terras agricultáveis nas mãos de um percentual insignificante de proprietários. Essa realidade, que caracterizou toda a história brasileira, acentuou-se nas décadas de 60 e 70 do séc. XX como se pode observar no quadro abaixo, extraído de Silva (1982b, p. 168):

Distribuição das propriedades rurais no Brasil por tamanho e categoria: 1967-78

Nº imóveis (%) Área total (%) Extratos de área total (há) e categoria (a)

1967 1972 1978 1967 1972 1978 Menos de 10 36,4 31,1 28,5 1,7 1,4 1,0 10 a menos de 100 51,0 54,7 55,7 17,0 16,1 13,8 100 a menos de 1.000 11,3 12,7 14,0 32,4 31,2 28,2 1.000 a menos de 10.000 1,3 1,4 1,7 33,1 32,4 32,0 10.000 a menos de 100.000 0,1 0,1 0,1 12,3 14,6 17,5 100.000 e mais (b) - - - 3,5 4,4 7,5 Minifúndio 75,8 72,0 67,3 12,6 12,5 8,8 Empresa rural 2,4 4,8 3,7 4,6 9,7 5,6 Lat. Exploração 21,8 23,2 28,9 76,4 72,9 77,7 Lat. Dimensão (b) - - - 6,4 4,9 7,8

(a) Para efeitos de comparaçãocom anos anteriores, excluiu-se a categoria de projetos fundiários, com 84,808 unidades e área total de 4,12 milhões de hectares, que passou a ser cadastrada a partir de 1978.

(b) O traço (- ) representa frações inferiores a 0,1%

lutas e possibilitando a produção de novas interpretações sobre a realidade enfrentada na região. Por outro lado, o início das mobilizações e a estruturação dos movimentos oportunizaram aos camponeses o contato com representantes de outros segmentos da sociedade e, conseqüentemente, o contato com diferentes visões e diferentes formas de interpretação das relações sociais. Destaque-se, nesse sentido, as novas possibilidades de contato com representantes de diferentes órgão e instâncias do estado, ONGs, lideranças de outras regiões do país e do exterior e de outros segmentos sociais, assessores e outros agentes.

Do mesmo modo, também as mobilizações promovidas pelos movimentos sociais em seu processo de organização como os acampamentos, as caminhadas e romarias, o fechamento de agências bancárias, a interdição de rodovias, as concentrações, as vigílias, a ocupação de escritórios, (do INCRA e da ELETROSUL, especialmente), repartições públicas e canteiros de obras, onde os camponeses passaram dias e noites inteiras, reunidos conversando, discutindo, cantando, repetindo palavras de ordem, discursando ou ouvindo discursos e até mesmo, enfrentado a repressão policial, foram importantes momentos de interação e de contato com novas informações, experiências e interpretações até então inacessíveis. Da mesma forma podem ser vistas as inúmeras reuniões e assembléias realizadas no âmbito de cada movimento ou do seu conjunto.

Ou seja, os próprios movimentos sociais, em si, a partir do momento em que começaram a ser organizados, passaram a ser importantes espaços educativos que viabilizaram a veiculação de informações, a vivência de experiências novas e a realização de processos interativos (POLI, 1995).