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Os Símbolos, elos que ligam Religião e Comunicação

No documento Download/Open (páginas 41-46)

Os dicionários, ao definirem a palavra símbolo, nos dizem que são aquilo que, por convenção ou por princípio de analogia formal ou de outra natureza, substitui ou sugere algo. Ou seja, o símbolo seria a representação, ou a materialização de uma ideia. Dentre as definições que encontramos, citaremos a que nos apresenta o Dicionário de Liturgia, pois vemos unidos os significados etimológico, antropológico e religioso, essa união de pensamento nos ajuda em nosso trabalho:

O termo símbolo (grego: symbolon, do verbo symbállo: lançar junto, colocar junto, confrontar), em nível etimológico-semântico primário, indica uma parte, um fragmento que exigia ser completado por outra parte para formar uma realidade completa e funcional. Mas, em sentido antropológico, hoje se fala geralmente de símbolo quando se tem um significante que remete não há um significado preciso, porém sim a outro significante; quando a realidade significada está de certo modo presente, ainda que não de todo comunicada; quando a função simbólica se baseia na própria realidade do significante: não é, pois, convencional nem definida, porém se enraíza na natureza das coisas e do homem e é, exatamente por isso, aberta a perspectivas mais profundas e universais. No campo religioso, o termo símbolo aplica- se tanto às formas concretas mediante as quais determinada religião se explica quando ao modo de conhecer, de intuir e de representar dados próprios da natureza religiosa (DICIONÁRIO DE LITURGIA, 1992, p. 1143).

Diferentemente do que é symbolon, temos o seu oposto diabolos, também do grego, que significa aquilo que divide e que não congrega. Para que os símbolos existam (e façam sentido) é preciso que haja consenso entre os pares, ou na comunidade, de que determinada coisa, ou imagem representada, tenha o mesmo significado.

O filósofo português Miguel Baptista Pereira, ao tratar do significado da palavra símbolo, evoca o antigo pensador grego Heródoto, que viveu no século V a.C.:

Do grego recebemos a palavra symbolon, que significa a coincidência de duas partes, que de novo se reúnem, pois, segundo Heródoto (Historiae VI-86), o símbolo era a coincidência ou reunião harmoniosa das partes de um anel, que dois amigos, antes de se separarem, dividiram entre si, levando cada um a sua parte e com ela a possibilidade de futura coincidência ou encontro de partes, que se tornou sinal externo da amizade, que a separação não aboliu (PEREIRA, 2004, p. 3).

O conceito de Heródoto sobre o significado de símbolo nos parece bastante pertinente. O anel partido (em dois fragmentos) é o símbolo da amizade entre duas pessoas que se separam. Cada amigo carrega consigo uma metade dessa representação, que remete simbolicamente ao amigo ausente. A metade do anel não é o amigo distante, mas é como se fosse, pois produz na memória e nos sentidos a presença do outro. Essa relação simbólica com o objeto, neste caso, a metade do anel, somente é possível graças ao código que foi estabelecido pelas duas partes. Não existe símbolo, que expresse algo, sem que esse código comunicacional não tenha sido acordado entre pares, ou um grupo, seja ele pequeno ou numeroso.

No clássico livro Elementos de Semiologia de Roland Barthes (2003, p. 39- 58), o autor apresenta uma ascendência interpretativa desde o símbolo (sinal) em si até o valor que é conferido a ele: 1- Signo – composto entre um significante e um significado; 2 – Significado – não é uma coisa, mas uma representação psíquica da coisa; 3 – Significante – é um mediador; 4 – Significação – processo que une significante e significado, ato cujo produto é o signo; 5 – Valor – sentido dado e ressignificado.

A interpretação é a medula dorsal da existência do símbolo, sobre isso nos escreve Charles S. Peirce (2005, p. 75), “um símbolo é um signo que perderia o caráter que o torna signo se não houvesse um interpretante”.

Para Geeztz (2015) todo ato humano é simbólico, sendo assim factível de ser interpretado.

A interpretação somente é possível no interior de uma estrutura de significação, ou seja, de uma cultura. Sendo que a comunicação não é sem a cultura e a cultura não pode ser sem a comunicação; ademais, cada uma delas se configura, expressa, reproduz ou se modifica em função da outra (CIBEC, 2008, p. 37, tradução nossa).

A antropologia interpretativa estimula a interpretação e o intercâmbio destes dois fenômenos que, por muito tempo, foram tratados como realidades divorciadas.

No livro La Comunicación antes de Colón (CIBEC, 2008, p. 37,38), são apresentadas algumas suposições de ordem antropológica sobre os processos comunicacionais dos povos pré-colombianos, embora o estudo faça referência aos nossos ancestrais americanos, podemos aplicá-las em âmbito universal dos povos pré-históricos em geral.

Nas doze suposições apresentadas pelo estudo, que elencaremos a seguir, o elemento que ganha destaque na construção deste processo comunicativo é o simbólico. O símbolo unifica a comunicação com a cultura - e podemos acrescentar aqui no aspecto cultural - os elementos religiosos:

- A humana é a única das espécies de animais com capacidade de representação simbólica.

- Esta singular capacidade se deve à possibilidade de codificação, transmissão, intercâmbio, decodificação e armazenamento abstrato de símbolos, é dizer, à comunicação.

- A comunicação é essencialmente simbolização.

- Os símbolos são construções sociais intelectivas comunicáveis por diferentes linguagens.

- A base de toda relação social é o intercâmbio simbólico. - Todo comportamento humano é simbólico.

- Todo símbolo é interpretado desde uma estrutura de significação, vale dizer, uma cultura.

- A produção e o manejo de símbolos são um componente central da humanização da espécie.

- O homem é um animal simbólico, um animal comunicante culturalmente condicionado.

- A simbolização não se resume a um único modo de representação.

- A Comunicação define também – junto a outros elementos – a natureza humana.

Depois de destacarmos o símbolo como processo comunicativo, veremos também a relação do símbolo com a cultura religiosa. Sabemos que o pensamento religioso pode se apresentar como concreto, mas sua base é abstrata, pois a fé em si não pode ser apalpada.

A relação (comunicacional) do indivíduo com o metafísico depende da simbologia para materializar o sagrado. O simbólico nasce do imaginário, a relação entre o simbólico e o imaginário é muito discutida por Castoriadis, pois o simbolismo pressupõe a capacidade imaginária:

As profundezas e obscuras relações entre o simbolismo e o imaginário aparecem imediatamente se refletirmos sobre o seguinte fato: o imaginário deve utilizar o simbólico não apenas para ‘exprimir- se’, o que já é óbvio, mas para ‘existir’, para passar do virtual a qualquer coisa a mais (CASTORIADIS, 2010, p. 154).

Castoriadis também faz uma distinção entre o funcional e o poiético, podemos aplicar aqui o seu entendimento sobre o valor poiético da religião na busca de sentido. O poiético como sabemos, nasce da simbologia pura:

Quanto à distinção entre o poiético e o funcional, ela não é difícil de ver. O funcional é tudo aquilo que obedece às necessidades vitais ou físicas e a imposições lógicas. A produção como tal pertence, em geral, ao funcional. Mas os objetivos últimos da produção nunca são “funcionais”, pois não há nenhuma sociedade humana que produza apenas para se conservar. Os cristãos construíram igrejas. Os primitivos muitas vezes pintavam desenhos no corpo ou no rosto. Essas igrejas, pinturas ou desenhos de nada servem, elas pertencem ao poiético. Bem estendido, elas “servem” para muito mais do que ‘servir para alguma coisa’; servem, muito mais importante que todo o resto, para que os humanos possam dar sentido ao mundo e às suas vidas. É este o ‘papel’ do poiético (CASTORIADIS, 2004, p. 149).

No aspecto religioso, a interpretação também é a chave para que uma simbologia adquira sentido:

No campo religioso, o termo símbolo aplica-se tanto às formas concretas mediante as quais determinada religião se explicita quanto ao modo de conhecer, de intuir e de representar dados próprios da experiência religiosa. Nestes símbolos, ainda que muitas vezes se possa reconhecer um substrato antropológico universal, o significado, isto é, o algo a mais, a que remetemos, costuma ser definido, por cada autor, com base na sua interpretação geral do fato religioso; pode, portanto, depender de revelação, da influência social, da emergência de um arquétipo, etc (DICIONÁRIO DE LITURGIA, 1992, p. 1143).

A interpretação de um símbolo, seja ela na esfera religiosa ou não, é muito mais que a abstração ou conceito, também não deveria ser estudada como estímulo e resposta, ou derivada de uma leitura imediata como realidade concreta. Na interpretação de um símbolo, sobretudo religioso, o ser humano ontologicamente se curva nesta interpretação, com sua sensibilidade, imaginação, memória, vontade e intuição. Por essa razão, alguns símbolos nos remetem imediatamente a uma experiência religiosa, mesmo que o símbolo, em si, não esteja apontando para algo religioso.

A forma circular, por exemplo, coloca algumas pessoas (inconscientemente) em sintonia com algo ancestral, remetendo a algo transcendente. A carga genética que carregamos em nosso histórico humano desperta em nós sentimentos e interpretações diante de determinados objetos e símbolos. Estamos falando que existe uma memória genética, e é nesta memória que os símbolos adquirem sentido e nos aproximam de nós mesmos e dos outros.

Edgar Morin chama essa memória “ancestral” de polifonia cognitiva:

O cérebro dispõe de uma memória hereditária bem como de princípios inatos organizadores de conhecimento. Mas desde as primeiras experiências no mundo, o espírito/cérebro adquire uma memória pessoal e integra em si princípios socioculturais de organização e conhecimento. Desde o seu nascimento, o ser humano conhece não só por si, para si, em função de si, mas, também, pela sua família, pela sua tribo, pela sua cultura, pela sua sociedade, para elas em função delas. Assim, o conhecimento de um indivíduo alimenta-se de memória biológica e de memória cultural, associadas em sua própria memória, que obedece a várias entidades de referência, diversamente presentes nela (MORIN, 2005, p. 21).

Essa memória afetiva/hereditária está impregnada em nosso ser, os símbolos não são simplesmente uma criação humana - em um determinado período - de nossa evolução histórica. São muito mais que isso, são formas de comunicar e interpretar os principais dilemas da vida. “As ações simbólicas mais típicas de cada religião estão geralmente ligadas aos momentos-chaves da vida do homem, com referência constitutiva em face dos maiores problemas da existência humana” (DICIONÁRIO DE LITURGIA, 1992, 1143).

Vimos até aqui que o ser humano é comunicação e crença em algo além da matéria, apresentamos os símbolos como elo de aproximação entre o religioso e o comunicacional.

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