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PRIMEIRA MEMÓRIA DA REVOLUÇÃO RIO-GRANDENSE A

3.1 P agamento da dívida: memória com documentos

Iniciada a publicação em 1880, na Revista do IHGB, a Guerra Civil do Rio Grande do

Sul contou igualmente com uma edição em separado no ano seguinte. No primeiro plano, há a

parte expositiva ou histórica e, no segundo, documentos.503 O livro publicado em 1881, no Rio de Janeiro, tem somente a primeira parte. Não obstante a pequena incongruência no título,

“no” em vez de “do”, que altera a abrangência do conflito, a publicação em separado não

dispensa a força do lugar onde foi apresentada a memória: constou na capa como lida no Instituto Histórico. Não só a editora, Tipografia Universal de Eduardo e Henrique Laemmert,

501

Sessão em 22 de agosto de 1879. RIHGB, t. 42, parte 2, p. 242-244, 1879. A leitura prosseguiu nas sessões posteriores: 12 e 26 de setembro, 7 e 21 de novembro, 5 de dezembro.

502O ato de ler em voz alta para os ouvintes força “o leitor a se tornar mais meticuloso, a ler sem pular e sem voltar a um trecho anterior, fixando o texto por meio de uma certa formalidade ritual.” Ao ler o texto, o autor recobre as palavras com certos sons e interpreta-as com certos gestos, concedendo ao ouvinte a sensação de estar perto das intenções do autor. MANGUEL, A. Uma história da leitura. 2. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2009. p. 146 e 28. Infelizmente as atas das sessões no IHGB não acusam tais indícios, mas creio ser importante não desmerecer a peculiaridade do ato da leitura perante os sócios, incluindo o Imperador.

503

Na Revista do Instituto, a parte expositiva do trabalho está publicada em: RIHGB, t. 43, parte 2, p. 115-364, 1880. A parte documental em: RIHGB, t. 45, parte 2, p. 35-236, 1882; t. 46, parte 2, p. 165-564, 1883; t. 47, parte 2, p. 47-238, 1884. A publicação em separado: ARARIPE, T. de A. Guerra civil no Rio Grande do Sul, memória acompanhada de documentos lida no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. Rio de Janeiro: Tipografia Universal de E. & H. Laemmert, 1881a. Utilizo: ARARIPE, T. de A. Guerra civil no Rio Grande do Sul, memória acompanhada de documentos lida no Instituto Histórico e Geográfico do Brasil. ed. fac. sim. Porto Alegre: CORAG, 1986.

como a placa litográfica foram as mesmas para os artigos na Revista e para o livro. Na parte expositiva, a memória se divide em 35 capítulos, nos quais os títulos são formados por pequenas frases com a ordem dos assuntos tratados.

O capítulo primeiro funcionou como prefácio ou apresentação. Intitulado Observações

acerca da revolução rio-grandense e sobre os documentos a ela referentes, o introito realizou

a apreciação geral do tema e do trabalho efetuado pelo autor (pesquisa, organização, narrativa). A “revolução” no Sul foi periodizada em três épocas segundo os princípios legais de integração ao Império: sedição, rebelião e sujeição. Grande parte do capítulo foi utilizada

para desqualificar o movimento no seu caráter republicano e democrático: “a realidade da cousa bem longe estava de sua epígrafe.”504

Nesse intento, o autor argumentou que o povo não fora o chefe supremo: “nunca a democracia afastou-se mais de um governo do que do da

república do Piratini.” Ela não passou de “fantástica criação de espíritos desejosos de inovações”. A população se deixou dominar pelos chefes revolucionários. Não houve voto

público por eleições regulares. A suposta república foi exclusivamente militar, governada por atos ditatoriais. A população viveu sob o despotismo militar. Do movimento o leitor foi conduzido aos seus artífices: poucos caudilhos.

Nos chefes rebeldes esteve a finalidade do movimento; não a vitória da causa

republicana, mas afetos pessoais: “A rebelião rio-grandense, pois, no nosso modo de pensar,

teve caráter egoístico, e não caráter de patriotismo, em virtude do qual o cidadão guerreia pelo triunfo de princípios reputados como indispensáveis à felicidade geral.”505 Os interesses particulares, os orgulhos pessoais, as condições privadas vantajosas indicavam que a questão de princípios não foi o grande motor da revolução. Os sujeitos envolvidos na luta entre a república e o Império estiveram representados, na introdução, por dois nomes: Bento Gonçalves e o Duque de Caxias. O caudilho rio-grandense foi citado no início da narrativa pelas arbitrariedades na chefia da república, pelo suspeito duelo contra um companheiro de armas e pelas tratativas pessoais e estreitas de paz. Ao passo que o general vitorioso do Império foi enaltecido pelas várias virtudes. O primeiro, como veremos no prosseguimento da intriga, tende a ser apequenado, enquanto o segundo, engrandecido.

Na apreciação geral do movimento rio-grandense quanto aos intentos democráticos e republicanos, Araripe contrapôs dois exemplos. Dois movimentos revolucionários: o de 1817 e de 1824 no Norte do Império. Onde especificamente? No Ceará. Lá o primeiro pensamento foi recorrer ao povo. Os governos revolucionários cearenses buscaram legitimação pelas

504 ARARIPE, 1986, p. 4.

eleições populares. Lá o sentimento democrático, aqui a ideia restrita de influência local. Lá o voto popular, aqui o espírito da caudilhagem. Lá o regime civil, aqui o governo militar. Lá olharam para os Estados-Unidos, aqui para os caudilhos do Prata. Como foi grande, de acordo com Araripe, a diferença entre os movimentos no Norte e no Sul. Lá foram suplantados pela força das armas e não cederam, aqui, sem se dar por vencidos, transigiram. O historiador cearense, sem citar o nome do pai, mencionou a experiência democrática no Ceará quanto à escolha do então Presidente da Confederação do Equador.

As considerações sobre a práxis política no Sul estavam acompanhadas de observações jurídicas. Despidos de ideais, os caudilhos mostraram incapacidade de manter a ordem. Apesar das normas legais do Império que vigeram em grande parte da república, a anarquia se fez presente. A violência contra os cidadãos, o confisco da propriedade e a falta de

“aplicadores da lei” foram exemplos do estado de destruição na república dos farrapos. A

visão do historiador-jurisconsulto não se colocou somente sobre os episódios locais. Ela, assim como no primeiro momento historiográfico desta tese, guiou o historiador na sua própria prática. Alencar Araripe começou a situar seu trabalho no Tribunal da História e se deparou com o obstáculo cognitivo da recentidade dos fatos. Não chegou o momento do

“remanso das paixões” para que a História fosse escrita. Era cedo para escrever porque se

corria o risco de “exagerar apologia pela amizade, ou engendrar censuras pelo ódio”. Conforme Araripe, quem escrevia a história antes do tempo se portava como juiz ilegítimo, pois acabava por julgar sem processo regular. O processo deveria ser organizado com depoimentos e documentos. Esse seria o trabalho dos contemporâneos. O historiador no futuro, como juiz, proferiria a sentença.506 Tal entendimento explicaria o livro inconcluso sobre o passado recente do Ceará que o ungiu historiador? Historiador lá, cronista aqui?

O IHGB foi fundado, segundo o autor, com o intuito de não escrever a história, mas sim, coligir documentos a fim de que fosse escrita oportunamente. De acordo com o historiador cearense, essa concepção foi um “lance de sabedoria dos beneméritos fundadores

da nossa corporação”. Tristão de Alencar Araripe se despiria das vestes de juiz e historiador

para labutar como sócio do Instituto na “preparação do processo histórico”; agora, como cronista-advogado. O autor passou, então, a expor os esforços na pesquisa e organização dos documentos, na peregrinação por registros particulares e oficiais, muitos em publicações da imprensa contemporânea de “incontestável autenticidade”. O trabalho divide-se em duas partes: narrativa histórica e documentos. Contudo, foi a exaltação das fontes que retumbou nas palavras iniciais do pesquisador. Os documentos proporcionariam aos leitores as

506 Ibid., p. 13.

minudências dos fatos, as peripécias dos acontecimentos, os sobressaltos dos reis e generais, o perigo dos soldados, a agitação do povo. Conhecendo mais minuciosamente as circunstâncias, os leitores julgariam melhor os casos particulares, pois, com o tempo, a fama engrandeceria e desnaturaria muitos episódios.507 No arroubo do pesquisador em acessar o passado recente da província sulina pelas fontes, o autor destacou os documentos aparentemente sem importância quando considerados isolados. A organização e disposição dos documentos em ordem cronológica e temática facilitariam a consulta e a análise e, de acordo com o pesquisador, permitiriam destruir a apreciação dos sucessos ante a distância dos tempos. Estava em jogo a fama de algum herói da província ou movimento? Mesmo diante do árduo trabalho, Araripe ressaltou, em dois momentos, a incompletude de sua pesquisa pela falta de documentos importantes a coligir. Cabe destacar que, na exposição prefacial de Alencar Araripe, a narrativa histórica (lembranças dos sucessos) funcionaria como complemento da parte documental e não o contrário como esperaríamos: “o nosso fim é, com a simples exposição narrativa, dispor o leitor a melhor compreender o valor e significação dos documentos, que, lidos desacompanhados da lembrança dos sucessos, não serão devidamente apreciados.”508 O cerne do trabalho sobre a guerra civil do Rio Grande do Sul estaria nas “peças

instrumentárias”. Tristão de Alencar Araripe reiterou a defesa do caráter processual e não do

julgamento de mérito dos eventos pretéritos e a omissão em expor, no desenvolvimento da narrativa histórica, suas considerações políticas e morais. Entretanto, no capítulo inicial do trabalho, já estava redigido o despacho do historiador-juiz. O julgamento sem apelação foi dado no início do processo.

A narrativa histórica seguiu pelos trinta e quatro capítulos restantes. Até o capítulo XXVI, a narrativa percorreu a ordem cronológica dos acontecimentos. Do capítulo XXVII ao XXXII, houve o exame de questões específicas pelo autor. Funcionando como anexos à narrativa, nos capítulos XXXIII e XXXIV, foram impressas, respectivamente, a tabela detalhada dos combates e a cronologia dos episódios por dia, mês e ano. A “nota

deprecatória” no capítulo final funcionou como posfácio. Estava datada de 25 de julho de

1879 (Rio de Janeiro) e assinada pelo autor. Examinemos a primeira parte do trabalho de Alencar Araripe por blocos, segundo a organização textual dada pelo autor: exposição, análise, apêndice, pós-escrito. Os capítulos, nesta parte expositiva, seguiram a “ordem dos

tempos”, a cronologia do influxo e refluxo revolucionários. Estavam divididos conforme a

visão do autor sobre os acontecimentos na província austral. Seguiram a periodização

507 Ibid., p. 16.

enunciada na introdução (sedição, rebeldia e sujeição): da abdicação do primeiro Imperador do país, afrouxamento do vínculo com a autoridade central, exaltação das ideias democráticas, proclamação da república, reorganização da província, aniquilamento das forças rebeldes e a normalização do regime constitucional com o regresso à união brasileira. A exposição dos fatos ao longo do tempo se deu, concomitantemente, ao longo do espaço com a dinâmica Corte-província. Os acontecimentos no Sul estiveram diretamente ligados ao Centro: “a fim de mostrar a concatenação dos sucessos de uma província com os da História Geral do

Império”.509

No entanto, a tensão espacial na narrativa também colocou o Sul entre o Prata e as demais sublevações no Norte.

Os capítulos foram bem amarrados às partes anteriores e posteriores do texto por meio das locuções “já vimos” e “veremos”. Havia coesão textual na memória do Sul, ao contrário da história do Norte. Não se tratava de uma narrativa vacilante tampouco lacunar, apesar das ressalvas no capítulo introdutório. A deficiência de informações exposta pelo pesquisador foi

suprida pela força do narrador: “é por certo”, “a verdade é”, “tornou-se assim evidente”, “daí

fácil é de ver”, “tão verdade”, “quem apreciar os fatos que temos narrado, certamente achará”,

“tudo mostra”, “é verdade”. O leitor raras vezes foi chamado diretamente ao diálogo. Parte

dos documentos em anexo foi transcrita no corpo do texto; outros, apenas mencionados. O recurso de notas explicativas e documentais, no rodapé dos textos, ancorou e complementou a narrativa, pois as contestações nos campos de batalha passaram, logo a seguir, para as contendas verbais, como o autor sinalizou: fragorosas derrotas transformadas em capitulações, acusações de deslealdade e injustiça para com prisioneiros, pequenas vitórias apregoadas em proporções exageradas. O pesquisador entrou na luta: “nunca exibiram provas”, “jamais

provada por documentos”, “foi tudo isto verdadeira farsa”, “não aparecem provas de acusação”. O autor contestou a tradição por meio de provas e documentos da própria

república. E jogando com documentos e fatos, o tom irônico aflorou em alguns momentos com o uso do ponto de exclamação na narrativa.

Nitidamente, pela leitura do livro/artigos, existe uma questão basilar que perpassou, ou melhor, amarrou a narrativa: a legalidade. Um eixo de leitura proposto na sistematização das informações colhidas. Esse efeito fez surgir o outro. Da alteridade como fora trabalhada na história do Ceará, o não-civilizado no passado distante e o fora-da-lei no passado recente do sertão nortista, o Conselheiro Araripe passou a abordar os “súditos transviados” do Império da lei no passado recente das campanhas sulinas. Esse outro não surgiu apenas da demarcação dos lados em luta, pelas cores dos uniformes e das bandeiras; o narrador se colocou

509 Ibid., p. 77.

claramente em um deles: “nossa fronteira”, “nossas armas”, “nosso exército”, “nossas forças”.

O homem da lei esteve ao lado da ordem, dos paladinos da causa legal, dos brasileiros. A escolha em qual das hostes se posicionar não impediu que a fraqueza, as dubiedades, as intrigas, as dissensões e as vaidades nas hostes imperiais aparecessem no texto. Foram, entretanto, pequenas falhas da legalidade que ficaram subsumidas nos grandes malefícios dos revolucionários.

Nesses vinte e seis capítulos iniciais, ditos expositivos, três questões são pertinentes para o diálogo com o trabalho anterior de Alencar Araripe: propriedade, povo, família

Alencar. Na abordagem assentada no domínio da lei, a propriedade apareceu pelo desrespeito

pelas forças da anarquia: “A república no intuito de vigorar a sua causa não duvidou de

recorrer aos meios de suprema violência; foi assim, que ela, ao iniciar a sua carreira, decretou

o confisco dos bens particulares.”510

Confisco, corso, roubo, pirataria. Subentendido na narrativa do Norte, em razão do posicionamento do autor na tribuna, o escravo mereceu maior atenção nos relatos sobre a guerra civil no Sul. A escravaria apareceu como recurso eficaz para os rebeldes, ameaçando o direito da propriedade servil garantida pelas leis do Império.511 O povo e sua vontade também constaram na narrativa quando o assunto foram ideias e armas. Nestas, foi o figurante sem rosto e sem nome arregimentado nas forças em guerra. Naquelas, conforme prenunciado no capítulo introdutório, foi o elemento imprescindível para a verdadeira democracia e república; mas só quando estivessem prontos. O Conselheiro, ao entender que uma república deveria ter por base a ilustração do povo, questionou a proclamada no Sul, pois ali grande parte da população não tinha instrução nem “amenidade de

costumes”. O povo era inapto para o regime da democracia.512

Quanto às eleições dos dirigentes e à confecção da Constituição da república, muita coisa se fez “em nome do povo”

e “para representar o povo”. Entretanto, o que houve foi uma república sem a participação

dele. Se o Ceará estava tão longe do Sul justamente pelo apoio popular às contestações verdadeiramente democráticas e republicanas em 1817 e 1824, a “Terra da luz” se aproximou da narrativa sobre os farroupilhas por outro filho da família Alencar. De forma direta, o autor citou o tio falecido, Senador José Martiniano de Alencar, como fonte nos últimos dias do primeiro governo imperial (1831); e de forma indireta na “revolução” da maioridade do Imperador D. Pedro II (1840), no movimento revolucionário nas províncias de São Paulo e Minas Gerais (1842) e no grupo dos “homens notáveis” do Partido Liberal na época.513 Como

510 Ibid., p. 87. 511 Ibid., p. 49-50, 86-87, 121. 512 Ibid., p. 163. 513 Ibid., p. 78, 105, 126, 173.

no primeiro momento historiográfico, o passado liberal voltou a soprar em tempos saquaremas.

Até o capítulo XXVI, a narrativa seguiu a “ordem dos tempos”. A seguir, o autor passou para o que chamou de parte analítica dentro da expositiva. Anteriormente, o intuito de Araripe fora apenas narrativo: “queremos tão somente expor as cousas em rápido sumário e não comentá-las.”514 A partir de então, em seis capítulos o autor examinou algumas questões outrora aventadas, mas que não o foram pela “rapidez da narração”. Tratou-se de uma pausa

analítica para “dar relevo a certas circunstâncias gerais da luta”.515

Esse ato narrativo de reconduzir os leitores para determinados detalhes dos episódios passados sinalizou o quão destoante fora o ocorrido do que parecera ter ocorrido. Na república rio-grandense “havia

mais aparências do que realidade”. A simulação foi uma arma do “arraial ambulante militar”.

Araripe advertiu seguidamente para a “fraqueza com aparência de força”. Tal ato de reconduzir o leitor para os fatos, aumentando-lhe as lentes para enxergar a “verdade

histórica”, fez com que o historiador cearense analisasse as seguintes circunstâncias: as causas da prolongada luta; o “valor político” da revolução e os partidos na Corte; os principais fatos

bélicos; os meios empregados por Caxias; os sacrifícios impostos ao Sul pelos revoltosos; os revolucionários ante o Direito Criminal e a Justiça do Império. E foi na análise que surgiu a possibilidade de o autor destacar os juízos políticos e morais. Juízos que tentara omitir na parte anterior do trabalho.

A fim de estudar os motivos da prolongada luta, o primeiro capítulo analítico abarcou os

“meios de vida e ação” da rebeldia no Sul e a capacidade dos generais. A força dos rebeldes

esteve na fraqueza do governo. A ausência de meios pecuniários foi a principal causa de impotência do Império contra a rebelião. Faltaram recursos para aplicar a força da legalidade quando esta foi necessária. Porém, o autor reconheceu os méritos das hostes inimigas, não pelo valor dos soldados, mas pelo “esforço varonil” dos chefes. Antonio Neto, David Canabarro, Bento Gonçalves e Bento Manoel foram os homens da república “dotados de valor

e atividade”.516

Entretanto, ao longo da parte expositiva o nome deste último receberia destaque. Não foi Bento Gonçalves, como chefe ilegítimo, como líder contestado, o personagem revolucionário principal na intriga, mas sim, Bento Manuel. Junto ao seu nome giraram desgostos, divergências, covardia, opróbrios, defecção, abandono, desconfiança, insubordinação, simulação, discórdia, deslealdade, indisciplina, traição. Contrapôs-se às

514

Ibid., p. 160. 515 Ibid., p. 182. 516 Ibid., p. 194-195.

virtudes alheias: a bondade do Imperador e os esforços sinceros dos delegados imperiais. O

“Judas da campanha sulina” foi o rosto da rebeldia: o chefe deles, o que se voltou para o

nosso lado, a arma de Caxias contra os rebeldes, o mal redirecionado contra o outro, o que vencera Bento Gonçalves. Apesar do reconhecimento dos esforços varonis dos chefes farroupilhas por Araripe, ao longo da narrativa a imagem pintada seria outra.

O segundo momento analítico se deteve no “valor político” da revolução rio-grandense ante o governo e o Parlamento imperiais. Abordou-o pelas ações dos governos conservadores

e liberais. Ambos, de acordo com Araripe, nunca deixaram “de cuidar com empenho no acabamento fratricida do Sul”. No entanto, a política conservadora procedera com maior

energia. Se o político saquarema via a força de seu partido nas questões passadas, algum mal- entendido requeria a resposta do historiador. Dizendo-se sabedor de que outrora culparam o Partido Liberal de proteger a causa dos insurgentes, Araripe apontou que nenhum dos partidos pactuou com a rebeldia. Argumentou que houve indivíduos no partido que fraternizaram e desejaram o triunfo dos rebeldes, mas foram poucos e estiveram isolados. Seriam novas referências indiretas ao seu passado liberal ou ao do seu tio?

Esse capítulo analítico sobre o “valor político” retomou, outrossim, a força do “nunca

esqueça” de Martius na sua dissertação. A organicidade das províncias foi reivindicada pelo

historiador cearense quanto ao aspecto da nacionalidade e ao pernicioso exemplo da rebelião

para o esfacelamento da união. Somente as “grandes nacionalidades” eram aptas na busca da “felicidade geral”. A constituição de uma nacionalidade pelo Rio Grande do Sul foi um erro,

pois colocara a pequena agregação fora da “força do progresso” e sob a ação de meios morais e materiais menos valiosos. Se o Império era composto pelo pacto da união, não era lícito a uma pequena parte se insurgir para romper a convenção estatuída pela força: “Erguer-se uma das províncias da união para rompê-la por violência, é proceder contra o Direito e contra a prudência.”517 As sugestões de Martius foram internalizadas como preceito em Araripe: “É para mim dogma de fé política a vantagem da nossa integridade territorial, qualquer que seja