Data: 30.04.2009 Local: Sede do Valor
Começou no jornalismo aos 14 anos, numa rádio no interior do Rio Grande do Sul, como redator. Trabalhou no Última Hora, no RJ, no Última Hora de PA, (antes de 64).
Em 64, foi preso e em 73, trabalhou numa agência de Publicidade, do Correio do Povo
Trabalhou na sucursal da Veja, em PA, um dos fundadores e chefe da sucursal da Veja, em Porto Alegre e, atuou na Veja em São Paulo até 76.
Trabalhou no Rio como editor de política no O Globo.
Em 79, chefiou a sucursal da Gazeta no Rio e foi correspondente da Gazeta, em Buenos Aires, Voltou, em 1995, para a Gazeta, em São Paulo, onde permaneceu por 6 meses.
Trabalhou como editor executivo do JB no Rio por três anos.
Voltou para a Gazeta como correspondente na Cidade do México; voltou para São Paulo até 2003. Foi para o BNDES como Assessor de Imprensa na gestão do Carlos Lessa e do Guido Mantega (até
o Mantega ir para o Ministério da Fazenda)
Saiu do BNDES e foi par ao Valor, no final de 2006.
Existe alguma diferença nas condições entre o Valor e os demais veículos em que você trabalhou? Paulo – O que eu sinto de diferença no Valor é uma forma de fazer jornalismo com objetividade, como deve ser todo jornalismo, mas sem perder o toque humanístico, onde se prioriza a precisão da informação e se busca transmitir isso para o leitor de uma forma bonita, agradável, para que a Economia não seja um tema pouco amigável para o leitor. É um jornal que tem uma característica importante: um instrumento de trabalho para maioria de seus leitores, mas se a atividade econômica já é uma coisa árida, o jornalismo econômico não deve árido, deve propiciar ao leitor, mesmo que ele só use o jornal para ter dados da economia e em consequência disso desenvolver o seu trabalho, tentar fazer com que isso seja prazeroso. Então, a gente tem aqui no jornal diversas pessoas que têm essa preocupação. Essa é uma coisa importante... não é entre o Valor e outros .... o Valor praticamente não tem concorrente porque a Gazeta está muito sem substância. Então, os nossos concorrentes são as editorias de Economia dos jornais gerais. E aí a gente a obrigação de ser melhor e oferecer uma leitura mais agradável.
Como é a autonomia do jornalista. Como é essa relação... existe algum tipo de interferência? A relação é bastante ... é o lugar mais tranquilo em que eu trabalhei, em termos de interferência dos donos. É claro que não existe em nenhuma empresa uma “carta-branca” dada pelo dono ou pelo acionista, isto em nenhuma empresa. E na empresa jornalística não é diferente: uma carta-branca absoluta, sem condicionalidade. Mas, como os jornalistas daqui, a cúpula da (inaudível),... o pessoal que comanda o Valor tem uma larga tradição, já trabalhou em um ou nos dois desses jornais, têm credibilidade como profissionais, seu relacionamento com os donos é totalmente profissional. E eu diria que passa meses e meses sem ter nenhum tipo de interferência dizendo “faz tal tipo de matéria”. Quando isso existe há um debate sobre o tema. Tem um Conselho Editorial e aí se pergunta que ,,, se constata que o país está vivendo um determinado estágio da economia, como vamos refletir isso... Então, as coisas são assim, elas comungam do debate ... É bastante livre. Por ser um pouco distanciado, os donos estão nos seus próprios veículos. É claro que como nunca se traiu essa confiança até agora, [como] houve essa identificação de propósitos a situação permanece assim e é bastante tranquila. Então profissionalmente... você tem uma forma de ... se você apurar, se preocupar em ouvir os dois lados de qualquer assunto, tentar apurar os fatos com propriedade, é difícil você receber uma ordem de quem
quer que seja dizendo “ignore a realidade e crie coisas que não foram apuradas”. Então, como a gente faz uma apuração muito boa, séria, não há essa interferência. E eu te confesso que não me pareceu que eles tivessem a intenção de fazer isso aqui (o Valor) para interferir do ponto de vista ideológico. Eu vejo outros jornais, outros meios de comunicação, de mídia que têm uma interferência dos donos muito maior que refletem a ideologia dos donos muito mais forte do que o Valor.
Como é decidida a sua pauta? É você que propõe? Como é?
Se a idéia parte de mim... eu vou e proponho ...tem uma reunião todas as segundas-feiras em que se discutem pautas especiais, da qual participam os editores, os repórteres especiais e a cúpula do jornal. Se a idéia é minha eu proponho e sempre tem uma discussão ... Eu estou fazendo agora uma matéria, que a idéia veio da editora de política que é como os estudantes de Direito estão interpretando, como está repercutindo e entre eles essas divergências no STF. Nem é tanto aquela coisa assim de aparência de dois (inaudível) ... brigando, mas são posturas diferentes; correntes diferentes. Então, uma maior participação do juiz do Supremo em temas que poderão vir a ser objeto de uma decisão que dependa da Justiça. Então, são coisas diferentes que ... eu comecei ontem a fazer. Acabei de fazer uma matéria sobre o Rodoanel que a idéia foi minha: mostrar o
que é o rodoanel.
Qual o critério que você utiliza para propor alguma pauta?
As coisas são meio simples...às vezes estou aqui olhando o jornal e pronto: surge uma idéia. Mas como você sabe quando o assunto interessa para o público do Valor?
As coisas são assim... eu vou lá e proponho. Eu vou lá e digo: o que você acha de fazer uma matéria sobre isso? Daí a gente conversa. “Só que daí eu vou precisar viajar para tal lugar, porque tem-se que avaliar a limitação do orçamento... e no Valor não tem muita. O Valor valoriza muito viagem de repórter.Eu fui à China para fazer uma matéria lá,e ganhei, inclusive o Prêmio Esso com essa matéria na China. Tudo pago pelo Valor. Eu acredito que tenha sido, dos jornalistas brasileiros, um dos únicos que viajou por conta do jornal. Fiquei 21 dias lá, despesas minhas, despesa de duas intérpretes que viajaram comigo. Todas as despesas de hotel, transporte ficou tudo por conta do jornal. Raramente, neste momento, os jornais estão fazendo isso. O Valor não é uma empresa que desperdiça dinheiro, mas administra muito bem as suas oportunidades. Mas a gente também aceita convite e quando faz a convite a gente, no pé da matéria aparece “fulano de tal viajou a convite de tal empresa ou governo”, mas também muita coisa a gente faz por nossa conta. O Valor administra isso de uma forma razoável e tem dado resultado.
Você é prestador de serviço? Sim. Eu sou PJ.
Tem alguma coisa que você gostaria de acrescentar?
Eu já fiz algumas matérias para o EU& sobre cultura e uma delas foi sobre os 40 anos do implante de coração. O único problema que tem realmente quanto ao transplante é a a doação. Quanto à parte econômica, material, técnica, um dos médicos me disse é como amarrar cadarço é tudo muito simples. O problema é ainda o preconceito, as pessoas acharem que estão doando órgãos antes dos entes estarem realmente mortos. Elas não sabem, inclusive que quando alguém sofre um acidente violento e morre, eles tiram todas as entranhas que vão para o lixo. Foi uma matéria interessante. Depois eu fiz uma matéria sobre a última Flip, em Parati. Essas coisas o jornal propicia. E eu percebi que todos os jornalistas que estavam lá das editorias de cultura ou de geral dos outros jornais, tinham uma pauta muito específica. Então ia ficar muito igual: transcrever o que aconteceu no debate mais importante, fazer entrevistas com duas ou três personalidades importantes. Eu procurei descrever toda a festa, juntei tudo, porque uma das coisas importantes que eu acho é que você é o privilegiado: o jornalista consegue estar na porta do Banco Central , quando o BC decide se vai aumentar ou cortar juros; ele consegue estar no campo de futebol, consegue estar na guerra, então, a grande parte dos jornalistas esquece que ele tem que contar aquilo que está acontecendo para o leitor e levar o leitor junto. Então aqui no jornal eu tenho conseguido fazer e se eu não faço melhor é por incompetência e não porque o jornal me negue condições. Para você falar de um congestionamento no cebolão da marginal Tietê, que é uma das
razões porque se está construindo o Rodoanel, é bom você pegar o leitor e falar, vem comigo e vê o que está acontecendo. A televisão tem feito muito pouco isso e no jornal, já que eu estou fazendo essa matéria eu me sinto obrigado a dizer: veja como são as coisas e escrevo isso. Então é uma coisa boa Você gostou de escrever par ao EU&?
Sim, é ótimo escrever para o EU&
Como é o processo? Qualquer repórter pode propor par ao EU&?
Pode, não tem fronteira.. É claro que tem que falar com o Robinson ou com o Cyro. E às vezes eles percebem ... como agora como esta edição aqui (justiça 30.04), eles resolveram fazer o tema de capa o Judiciário e, como tem uma editora de Legislação, ele pediu para ela fazer um artigo. Essas coisas assim. E tem uma coisa... dificilmente o jornalismo tem um autor único. Tudo é feito em equipe. Claro que tem um momento que é só você e seu computador quando você vai escrever.
O o EU& tem qualidade muito boa, mas quase não tem anúncio. Por que isso acontece?
Eu acho que ... todo o jornalismo cultural no Brasil ... os cadernos ... em todos os jornais que eu trabalhei eu tenho ouvido publicitários que os anunciantes de produtos culturais querem anunciar em revistas, coloridos, com um outro estilo que não é o do jornal. Daí o JB criou a Revista de Domingo, O
Globo criou uma revista de domingo, a Folha tem o seu Serafina [revista mensal] para tentar absorver
esse público para quem esses anúncios coloridos e eles também não aparecem. Então eu acho, da parte dos anunciantes, as agências, elas conhecem pouco o jornal e eles lucram muito mais anunciando na televisão: 20% de muita grana é bem mais do que 20% de pouca grana. E também da parte dos publicitários do jornal. Não é só aqui, mas do meio em geral, os que trabalham... que vão vender essa mídia, também conhecem muito pouco o tema. E vender anúncio em um jornal de economia é um pouco diferente do que vender anúncio para uma revista. Não se aprende isso exatamente numa escola de publicidade essa característica específica de vender anúncio em um jornal de economia. A impressão que dá é que o sujeito que lê o Valor... Os cadernos de economia dos jornais têm pouco anúncio também. Esses leitores parecem que não consomem roupa, não consomem uísque , quando é exatamente o leitor mais requintado, tem mais poder aquisitivo. Mas os publicitários (nem os que trabalham no jornal não conseguem convencer as agências de propaganda conseguem entender isso). Qual é o papel do jornalismo cultural ?
O papel do jornalismo cultural é o papel do jornalismo independente da área: que é democratizar a informação; isso desde o jornalismo esportivo, ao econômico. Eu sei de um fato e quero compartilhar esse fato, independente da área. É claro que o jornalista que faz esporte e ao dar aquela informação sobre o esporte ele contribui para o setor esportivo cresça e haja interesse do leitor. O cultural também, você contribui para melhorar a leitura, para chamar a atenção para uma peça de teatro muito boa, uma música nova para melhorar a cultura.
E o que é cultura?
Cultura não é educação, mas é uma educação requintada em favor do que é bom. O tipo daquelas emoções mais saudáveis para o leitor. É claro que quando eu digo isso que a cultura é uma boa peça de teatro é uma coisa maravilhosa. Outras pessoas podem não ter esse pensamento e achem isso desnecessário. Talvez um médico, um psiquiatra dê para alguém uma pastilha que crie euforia e ele tenha a mesma satisfação de ver uma peça de teatro. Talvez um Shakespeare bem interpretado não venha a agradar .... Então, um compartilhamento também das informações; faz parte da democracia... Só para confirmar: Cultura abrangeria tudo de maneira que pudesse possibilitar ao leitor um crescimento pessoal?
Exatamente. Independente de ser teatro, pode ser o trânsito, pode ser outra coisa, um gol que o “Ronaldo Fenômeno” fez nesse domingo foi de uma plasticidade e de uma beleza e parecia algo que transpõe a fronteira do esporte para ser algo tão lindo como um grande passo de balé. E o principal é a distribuição da informação cada um na sua área e isso dá certa universalidade na sua “solicitação”.