Com o propósito de facilitar a reeducação do condenado, foi incluído no Código Penal, pela Lei n° 9.714 de 1998, as penas restritivas de direito.
A proposta é que em vez de aprisionar o condenado, deverá colocá-lo, por exemplo para servir a comunidade. Claro que, deverá ser aplicado quando o crime e as condições subjetivas do condenado assim permitir.
Com efeito, “[...] as penas restritivas de direitos têm por finalidade evitar, nos casos previstos em lei, a imposição da pena privativa de liberdade a indivíduos que revelem condições pessoais favoráveis e tenham sido condenados pela prática de infrações penais de menor gravidade. (AVENA, 2018, p.375).
Tendo em vista que sendo o condenado encarcerado, quando seu crime é de pequena monta, sairá pior do que entrou.
Por isso, foi incluso no Código Penal uma seção para as penas restritivas de direitos. São elas:
a) Prestação pecuniária; b) Perda de bens e valores;
c) Prestação de serviço à comunidade ou a entidades públicas; d) Interdição temporária de direitos;
e) Limitação de fim de semana."
Do mesmo modo, o Código Penal possui outro dispositivo que diz:
Art. 44. As penas restritivas de direitos são autônomas e substituem as privativas de liberdade, quando:
I – aplicada pena privativa de liberdade não superior a quatro anos e o crime não for cometido com violência ou grave ameaça à pessoa ou, qualquer que seja a pena aplicada, se o crime for culposo;
II – o réu não for reincidente em crime doloso;
III – a culpabilidade, os antecedentes, a conduta social e a personalidade do condenado, bem como os motivos e as circunstâncias indicarem que essa substituição seja suficiente (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluída pela Lei n° 9.714/1998).
É certo que este dispositivo traz os requisitos necessários para que se obtenha uma pena restritiva de liberdade em vez da privativa de liberdade.
O autor Adeildo Nunes (2013 apud Nil ardo Carneiro Leão, p.333), em seu livro „Da Execução Penal” destaca cinco pontos positivos para a aplicação da pena restritiva de direitos:
1.Permitem ao condenado permanecer em sociedade com sua família, não perder o trabalho e reparar o dano decorrente de sua conduta.
2.A não utilização do cárcere e, em consequência, impede-se a superlotação e os gastos de manutenção.
3.Permitem a modificação da imagem que tem a sociedade em relação aos que praticam ilícitos penais, ao constatar que os infratores não são, sempre, forçosamente, indivíduos negativos, mas recuperáveis socialmente.
4. Impedem o isolamento produzido na prisão e suas distorções, permitindo ao infrator continuar na sociedade reali ando tarefas normais a que está habituado. 5.Para os que estão acostumados a ouvir a frase “pagar a dívida para com a sociedade”, as penas alternativas tornam essa expressão realidade.
Poderá, ainda, por força do parágrafo § 2°, do artigo 44 do CP, em condenações igual ou inferior a um ano, obter a substituição por multa ou por uma pena restritiva de direitos. Por outro lado, se superior a um ano, a pena privativa de liberdade pode ser substituída por uma restritiva de direitos e multa ou por duas restritivas de direitos (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluída pela Lei n° 9.714/1998).
Ademais, caso o condenado for reincidente, poderá ser aplicado a substituição, desde que em face de condenação anterior, uma vez que não se tenha reincidência no mesmo delito e que seja recomendável (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluída pela Lei n° 9.714/1998).
Haverá a conversão da pena restritiva de direitos em privativa de liberdade quando ocorrer descumprimento injustificado da restrição imposta (obrigatório). “No cálculo da pena privativa de liberdade a executar será deduzido o tempo cumprido da pena restritiva de direitos, respeitado o saldo mínimo de trinta dias de detenção ou reclusão. ” (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluída pela Lei n° 9.714/1998).
Poderá ocorrer, também, a conversão, se sobrevier condenação a pena privativa de liberdade, por outro crime, podendo o juiz, deixar de aplicá-la se for possível ao condenado cumprir a pena substitutiva anterior (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluída pela Lei n° 9.714/1998).
As penas restritivas de direitos serão aplicadas a todos os crimes (artigo 54, CP) e terão a mesma duração da pena privativa de liberdade substituída (artigo 55, CP).
Consoante ao Código de Penal, o legislador editou um dispositivo na Lei de Execução Penal que regula a execução dessa pena diversa da privativa de liberdade.
É manifesto saber que as penas restritivas de direitos não admitem a execução provisória da pena, são autônomas, mas dependem da sentença transitada em julgado, para então, serem aplicadas.
Transitada em julgado a sentença que aplicou a pena restritiva de direitos, o Juiz da execução, de ofício ou a requerimento do Ministério Público, promoverá a execução, podendo, para tanto, requisitar, quando necessário, a colaboração de entidades públicas ou solicitá-la a particulares (BRASIL. Lei 7.210/84).
Em razão do artigo 148, da LEP, poderá ser alterada, em qualquer fase da execução, a forma de cumprimento das penas de prestação de serviços e a de limitação de fim de semana, quando necessário ajuste às condições pessoais do condenado.
A propósito, foi instituída a política Nacional de Alternativas Penais, por meio da Portaria 495 de 28 de abril de 2016, “com o objetivo de desenvolver ações, projetos e estratégias voltadas ao enfrentamento do encarceramento em massa e à ampliação da aplicação de alternativas penais à prisão, com enfoque restaurativo, em substituição à privação de liberdade. ”
Vale lembrar que cada legislação especial pode estipular outras penas restritivas de direitos na área em que se encontram e tem a devida competência.
Reparemos que as legislações e doutrinas mais recentes, dão foco as penas alternativas da prisão, principalmente as penas restritivas de liberdade, de forma que são mais benéficas tanto para o condenado quanto ao Estado.
3.7.1 Prestação Pecuniária
A prestação pecuniária é conceituada pelo artigo 45, §§ 1° e 2°, do CP. “Prestação pecuniária consiste no pagamento em dinheiro à vítima, a seus dependentes ou a entidade pública ou privada com destinação social, de importância fixada pelo juiz, não inferior a 1 salário mínimo nem superior a 360 salários mínimos. ”
No §2°, explica que se houver aceitação, a prestação pecuniária pode consistir em prestação de outra nature a. Da mesma maneira “O valor pago será deduzido do montante de eventual condenação em ação de reparação civil, se coincidentes os beneficiários. ” (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluído pela Lei nº 9.714, de 1998)
Para mais, destaco a ementa:
RECURSO ORDINÁRIO EM HABEAS CORPUS. EXECUÇÃO PENAL. PRESTAÇÃO PECUNIÁRIA. RECOLHIMENTO DOS VALORES. APENADO NÃO LOCALIZADO.
CONVERSÃO EM PENA PRIVATIVA DE LIBERDADE. POSSIBILIDADE. RECURSO DESPROVIDO.
1. O descumprimento das penas restritivas de direito acarreta a sua conversão em pena privativa de liberdade, nos termos delineados no art. 44, § 4º, do Código Penal - CP, e art. 51, inc. I, c/c o art.
181, da Lei de Execução Penal - LEP.
Na hipótese dos autos, o apenado não foi localizado nos endereços constantes dos autos, tampouco compareceu à Vara de Execuções Criminais para recolher os valores, após a intimação por edital.
Recurso ordinário em habeas corpus desprovido.
(RHC 92.245/SP, Rel. Ministro JOEL ILAN PACIORNIK, QUINTA TURMA, julgado em 02/10/2018, DJe 15/10/2018)
Por esse motivo, por força da lei, se desobedecer, a pena imposta será convertida em privativa de liberdade. Há controvérsias, porém, tem sido este o entendimento firmado no Superior Tribunal de Justiça.
É relevante dizer que esta pena não está regulamentada na Lei de Execução Penal, visto que foi editada no ano de 1998.
Segundo Brito (2018, p.381) “A destinação natural da prestação pecuniária é a reparação do dano sofrido pela vítima e, excepcionalmente, caso esta não exista ou não precise ser reparada, será as instituições públicas ou privadas. ”
Conforme já mencionado, esta pena tem o fim de ressarcir economicamente o dano causado pelo condenado. Até porque, no país em que vivemos muitas vezes só se aprende quando dói no bolso, e não, quando é trancafiado.
3.7.2 Perda de bens e valores
Esta pena restritiva de direitos vem sendo confundida com a perda expressa no artigo 91, II, b, do CP. Porém, a que será explicada é a disposta no §3°, do artigo 45, do CP:
Artigo 45 [caput]
§ 3° A perda de bens e valores pertencentes aos condenados dar-se-á, ressalvada a legislação especial, em favor do Fundo Penitenciário Nacional, e seu valor terá como teto – o que for maior – o montante do prejuízo causado ou do provento obtido pelo agente ou por terceiro, em consequência da prática do crime. (BRASIL. Código Penal, 1940. Incluída pela Lei n° 9.714/1998).
Afirma Avena (2018, p.376) “Majoritariamente, tem-se entendido que sua imposição é restrita aos crimes que tenham causado prejuízo à vítima ou proporcionado vantagem patrimonial ao condenado ou a terceiros, como delitos de furto, estelionato, receptação etc. ”
De resto, como também foi uma norma incluída depois de 1984, a Lei de Execução também não tem formas de cumprimento para tal pena.
3.7.3 Prestação de Serviço à Comunidade
A prestação de Serviço à Comunidade ou a entidades públicas, é fundamentada pela Lei de Execução Penal de 1984 e o Código Penal, incluída no ano de 1998. Dessa maneira usufruímos da legislação de execução da pena e sobre a pena restritiva em si.
Este instituto vem esclarecido no artigo 46, do CP. Será aplicado às condenações superior a seis meses de privativa de liberdade, resumir-se-á na atribuição de tarefas gratuitas ao condenado. As prestações de serviço, acontecerá em entidades assistenciais, hospitais, escolas, orfanatos e outros estabelecimentos análogos, em programas comunitários ou estatais. As tarefas mencionadas acima serão distribuídas conforme as aptidões do condenado devendo ser cumpridas à razão de uma hora de tarefa por dia de condenação, fixadas de modo a não prejudicar a jornada normal de trabalho, conforme estabelece a lei.(BRASIL. Código Penal, 1940. Incluído pela Lei nº 9.714, de 1998)
O Código Penal também estabelece que se houve substituição de pena e esta ser superior a um ano, será facultado ao condenado cumprir a pena substitutiva em menor tempo, nunca inferior à metade da pena privativa de liberdade fixada (artigo 46, §4°, CP).
Mirabete e Fabbrini (2018, p.714) complementam “A reali ação de serviços nessas entidades fará aflorar a sensibilidade do condenado, viabilizando uma tomada de consciência das contingências humanas, das dificuldades de outrem e da sociedade alargando horizontes e impregnando valores. ”
A Lei de Execução Penal ficou com a competência de regrar como será a execução da pena de prestação de serviços. Logo:
Art. 149. Caberá ao Juiz da execução:
I - designar a entidade ou programa comunitário ou estatal, devidamente credenciado ou convencionado, junto ao qual o condenado deverá trabalhar gratuitamente, de acordo com as suas aptidões;
II - determinar a intimação do condenado, cientificando-o da entidade, dias e horário em que deverá cumprir a pena;
III - alterar a forma de execução, a fim de ajustá-la às modificações ocorridas na jornada de trabalho.
§ 1º o trabalho terá a duração de 8 (oito) horas semanais e será realizado aos sábados, domingos e feriados, ou em dias úteis, de modo a não prejudicar a jornada normal de trabalho, nos horários estabelecidos pelo Juiz.
§ 2º A execução terá início a partir da data do primeiro comparecimento.
Art. 150. A entidade beneficiada com a prestação de serviços encaminhará mensalmente, ao Juiz da execução, relatório circunstanciado das atividades do condenado, bem como, a qualquer tempo, comunicação sobre ausência ou falta disciplinar.
Por isto a aplicação da prestação de serviços à comunidade e as entidades públicas, quando permitida, tem grande aplicação. Colocando o indivíduo dentro de um estabelecimento que ele verá outras formas de viver, dificuldades, outras relações pessoais, certamente fará que ele repense, reviva e mude seus pensamentos.
3.7.4 Limitação de Fim de Semana
A pena restritiva de direitos apresentada como limitação de fim de semana está regrada no artigo 48 do CP, incluída pela lei 7.209/84. Consiste “na obrigação de permanecer, aos sábados e domingos, por 5 horas diárias, em casa de albergado ou outro estabelecimento adequado. ” (BRASIL. C digo Penal de 1940. Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984). Estabelece a lei, ainda, no parágrafo único do artigo anterior “Durante a permanência poderão ser ministrados ao condenado cursos e palestras ou atribuídas atividades educativas. ” (BRASIL. Código Penal de 1940. Redação dada pela Lei nº 7.209, de 11.7.1984). A lei de Execução Penal estabelece no mesmo sentindo.
Ademais, acrescenta que em casos de violência doméstica contra mulher, o juiz poderá determinar o comparecimento obrigatório do agressor a programas de recuperação e reeducação (artigo152, parágrafo único, da LEP)
Declara Brito (2018, p.389 apud DOTTI. Bases e alternativas para o sistema de penas, p.379) “A preferência pela denominação de limitação e não a de prisão de fim de semana foi correta tendo-se em vista que o condenado somente será subtraído do convívio de seus familiares e amigos por breves momentos, o que beneficamente influencia sua personalidade.”
Por força de Lei, caberá ao juiz da execução determinar a intimação do condenado, dando ciência das particularidades que lhe foram impostas. “ A execução terá início a partir da data do primeiro comparecimento. ” (BRASIL. Lei 7.210/84)
Finalmente, “O estabelecimento designado encaminhará, mensalmente, ao Juiz da execução, relatório, bem assim comunicará, a qualquer tempo, a ausência ou falta disciplinar do condenado. ” (Artigo 153, da LEP)
Além do condenado ficar restrito apenas nos finais de semana, ele não é retirado do ambiente familiar, nem das ruas e muito menos dos seus afazeres diários. De forma, que nada leva ele a cometer outras infrações, não o leva a ficar retido em uma prisão de segurança máxima ou fora das ruas, longe da família. Fatores esses essenciais a vida humana, que se retirados sem a devida necessidade, causa grandes perturbações na vida do agente.
3.7.5 Interdição Temporária de direitos
Como o nome já indica é uma restrição de direitos do indivíduo quando este pratica infrações de menor gravidade, e que por essa razão não possui a necessidade de ser encarcerado. Por vezes é mais eficaz e viável a aplicação dessa medida do que de qualquer outra.
O Código Penal determina as opções de interdições de direitos:
Art. 47 [caput]
I - proibição do exercício de cargo, função ou atividade pública, bem como de mandato eletivo;
II - proibição do exercício de profissão, atividade ou ofício que dependam de habilitação especial, de licença ou autorização do poder público;
III - suspensão de autorização ou de habilitação para dirigir veículo. IV – proibição de frequentar determinados lugares.
V - proibição de inscrever-se em concurso, avaliação ou exame públicos.
Considerável dizer que os incisos I e II serão aplicados quando os agentes praticarem abuso de poder, pois, se não assim, não haveria sentido na aplicação desta pena. O mesmo se aplica ao inciso III. O ato praticado e o dano causado devem ser conexos, para então, a devida aplicação da pena de interdição.
Frisa Marcão (2007, p.220 apud Cezar Roberto Bitencourt, 2006, p.143). “Caso contrário, a pena violaria o direito do cidadão de desenvolver livremente a atividade lícita que
eleger, além de ser prejudicial à obtenção de meios para prover o sustento pessoal e de seus familiares. ”
Assim, depois que terminado o cumprimento da pena, volta a exercer as atividades que lhe foram restritas.
A execução da pena de interdição temporária de direitos vem estabelecida nos artigos 154 e 155 da Lei de Execução Penal.
O artigo 154 da LEP, incumbe ao juiz da execução, assim que determinada a intimação, a comunicação à autoridade competente da pena qual aplicou ao condenado.
O § 1º ainda estabelece que na hipótese de pena de interdição do inciso I, a autoridade deverá, em 24 horas, contadas do recebimento do ofício, baixar ato, a partir do qual a execução terá seu início.
Já nas hipóteses dos incisos II e III “o Juízo da execução determinará a apreensão dos documentos, que autorizam o exercício do direito interditado. ” (§2°, art.154, da LEP).
Se contrariadas as restrições impostas, a autoridade deve comunicar imediatamente ao juiz da execução. Da mesma forma, qualquer prejudicado pode dar a ciência ao juiz (art. 155, da LEP).
O descumprimento acarretará a conversão da pena de interdição temporária de direitos em pena privativa de liberdade. O que não é lucrativo ao infrator, visto que com apenas a interdição temporária de direitos, não é lhe causado mal algum, não há malefícios, nem contato com outros condenados ou estabelecimentos penais.