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4 RESULTADOS

4.1 A EDUCAÇÃO ESPECIAL BRASILEIRA (2008-2013) E O DOCENTE

4.1.5 Perfil do docente demandado pela atual PNEEPEI

A atual estrutura organizacional e conceitual da Educação Especial, apesar de apresentar aparentes avanços em relação às estruturas que a precederam, perpetua características e/ou contradições bastante semelhantes às identificadas nas mesmas, a saber:

a) delimita o PAEE ao conjunto de segmentos que tradicionalmente o compôs, negligenciando propostas e recursos para outros segmentos que poderiam demandar AEE, como as pessoas com dificuldades de aprendizagem associadas com causas não orgânicas;

b) não apresenta definições quanto à formação dos profissionais de apoio da Educação Especial e restringe as exigências relacionadas com a formação dos professores de AEE ao mesmo tempo em que amplifica as funções destes professores;

c) delimita um espaço (SRM) para o AEE, diferenciado do utilizado pelos alunos sem necessidades educacionais especiais, preservando a tradicional antinomia entre Educação Especial e Educação Regular;

d) mantém o financiamento público dos serviços prestados por instituições privadas e filantrópicas sem fins lucrativos (sem anunciar formas de fiscalização dos serviços ofertados por estas instituições) e concentra os serviços de AEE nas SRM;

e) enfatiza o desenvolvimento de propostas centradas no desenvolvimento e gestão de recursos pedagógicos acessíveis, em detrimento da dimensão pedagógica da educação dos alunos PAEE;

f) apresenta manuais orientadores do AEE com maior ênfase nos aspectos biológicos, neurológicos, psicológicos, sintomáticos e clínicos dos segmentos que compõe o PAEE, do que em discussões sobre os processos de ensino e aprendizagem relacionados com a Educação Especial e com a Inclusão Escolar.

Tem-se então que, nos documentos oficiais analisados nesta pesquisa, os elementos humanos (público-alvo e profissionais), materiais (espaços, financiamentos e recursos de acessibilidade) e as formas operacionais (o modus operandi) da Educação Especial, que são estrategicamente articulados para a estruturação/padronização da Educação Especial brasileira em uma perspectiva de educação inclusiva, foram modificados com a perpetuação de inúmeros elementos historicamente constituintes da Educação Especial.

Neste cenário, a formação de professores para Educação Especial transitou definitivamente do território das graduações com habilitação em Educação Especial, para os cursos de Pedagogia que formam para múltiplas áreas e, especialmente, para as pós- graduações lato sensu em Educação Especial ou similares. Ora, diante destes dados, pergunta- se: Com suas (des)continuidades em relação a estruturas anteriores a ela, que perfil de profissional é demandado pela atual estrutura organizacional e conceitual de Educação Especial? Que perfil de profissional deve ser buscado pelos cursos de Pedagogia e pelas pós- graduações lato sensu em Educação Especial para atuação com Educação Especial na perspectiva da Educação Inclusiva?

Considerando que, conforme a atual estrutura organizacional e conceitual da Educação Especial, o professor de AEE atuará com todos os segmentos da Educação Especial (não existe a previsão de um profissional para cada segmento PAEE, no contexto do AEE) e terá inúmeras funções (ensino de Libras, Braille, Orientação e Mobilidade e ensino do uso de recursos pedagógicos de baixa e alta tecnologia), em primeiro lugar constata-se a demanda por um profissional multifuncional e multicapacitado. Nesta estrutura, o professor de AEE tem que obrigatoriamente dominar todos os conhecimentos técnicos relacionados com a Educação Especial.

Considerando que o professor de AEE (atuando na SRM) terá como função orientar o professor de Ensino Regular no que concerne às práticas relacionados com o PAEE, constata- se a demanda por um profissional com amplo conhecimento didático-metodológico sobre o ensino dos alunos em questão no contexto da sala de aula regular – e não somente no contexto da educação segregada. Especialmente no caso do Pedagogo, este deve estar preparado para compreender as possíveis especificidades do processo educativo de alunos PAEE que estejam no ensino regular e, para adaptar as práticas que convencionalmente desenvolvia, de forma que sejam acessíveis também a estes alunos.

Considerando que o profissional em questão precisa articular interpretações e avaliações clínicas e pedagógicas de profissionais de diferentes áreas para constituir planos individuais

de AEE para pessoas de qualquer um dos segmentos de alunos PAEE, este profissional tem que estar apto para compreender os termos técnicos e implicações e diagnósticos de profissionais de diferentes áreas.

Considerando ainda que o documento PNEEPEI contrapõe-se ao modelo clínico de Educação Especial e de compreensão da deficiência e apesar dos manuais de Educação Especial elaborados para orientar a atual política contraditoriamente reforçarem o modelo clínico de Educação Especial, acredita-se que o professor em questão deve ter sólida formação no modelo social29 de deficiência, para que não localize os problemas vivenciados pela pessoa com deficiência na própria deficiência ou exclusivamente na pessoa que a vivencia e identifique a necessidade de adaptação de práticas e recursos (desenhos universal) de forma a possibilitar que todos possam ter acesso ao conhecimento.

Diante da importância dada à produção e adaptação de recursos pedagógicos acessíveis de baixa e alta tecnologia para os mais variados segmentos da Educação Especial, o profissional em questão precisa ter desde o domínio de softwares específicos para determinados segmentos da Educação Especial, até a produção de recursos de tecnologia assistiva, tanto para uso no AEE, como para uso no ensino regular.

Tendo em vista a amplitude das funções expressas e dos históricos e milenares preconceitos e estigmas que incidem sobre as pessoas com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento ou com altas habilidades, também acredita-se que o profissional a ser formado para atuação com Educação Especial, na atualidade, deva ser alguém com ampla vivência de interação com os alunos PAEE, submetido a estágios com pessoas de todos os segmentos que compõe o mesmo.

Diante destes atributos inferidos como parte do perfil de professor demandado pela atual estrutura organizacional e conceitual da Educação Especial, pergunta-se: os cursos de pedagogia e de pós-graduação lato sensu em Educação Especial estão organizados de forma a formar profissionais com o perfil composto pelos atributos em questão? Na próxima seção buscar-se-á responder a esta questão.

29 Modelo Social aponta que os problemas vivenciados pelas pessoas com deficiência não decorrem da própria deficiência ou de limitações individuais de qualquer tipo, mas da falta prestação de serviços apropriados e adequados para assegurar que as necessidades das pessoas com deficiência sejam plenamente levadas em conta na organização social (HARLOS, 2012).