2.1 Terceiro setor
2.2.3 Pesquisas em governança e terceiro setor
Bomfim (2006) mapeou a produção acadêmica sobre a governança no Brasil, no período de 2003 a 2005. Ele observou a prevalência de literatura estrangeira, produzida por autores dos Estados Unidos; já a produção nacional centrava-se na Universidade de São Paulo (USP).
Martins; Hildebrand; Ziviani (2008) levantaram o estado da arte da produção científica sobre governança, com base nos congressos da EnANPAD, no período de 2000 a 2007. Os autores destacaram a preponderância desses estudos na área corporativa de finanças. O mesmo ocorreu com o artigo de Bianchi et al. (2009), que viram preponderância de estudos na área de finanças.
Ribeiro et al. (2012) investigaram a produção científica em governança corporativa e
stakeholders em periódicos internacionais, no período de 1990 a 201,1 e também em teses e
dissertações até 2009 e descobriram que os temas tratados foram: (i) Estrutura de Propriedade; (ii) Estratégia Empresarial; (iii) Desempenho Empresarial e Fundos de Pensão; (iv) Conselho de Administração; e (v) Empresa Familiar.
Mindlin (2009) já afirmava também que o principal mecanismo de eficiência na governança para as ONGs tem a ver com a atuação dos órgãos coletivos de governança como as assembleias, conselhos fiscais e curadores. Mendonça; Machado Filho (2004) também discorreram sobre as questões de governança do terceiro setor, relacionando esses dois itens, de forma a encontrar mecanismos de governança que tenham possibilidade de implantação nesse segmento, para uma gestão e um desempenho social com maior eficiência.
Em seus estudos, Milani; Milani Filho (2011) procuraram comparar as práticas de governança do passado com as que são recomendadas atualmente, tomando como exemplo uma organização francesa de estudos. Tratou-se de trabalho exploratório e com abordagem
qualitativa, mediante pesquisas bibliográfica e documental para a identificação dos itens de governança da instituição já presentes no século XIX, sendo utilizado um conjunto de 24 elementos corporativos recomendados pelo IBGC para essa comparação. Concluiu-se que metade desses elementos já estava integrada à entidade na época, 25% estavam parcialmente presentes e 25% ainda não existiam, o que mostra que a organização já possuía uma base de práticas de governança.
Ecco et al. (2010) analisaram uma entidade sem fins lucrativos, especificamente a existência de conflitos de agência e da governança. Para essa análise, os autores recorreram a estudo de caso em uma organização de educação profissional do estado de Santa Catarina, com a análise de contratos firmados entre as partes principal e agente, conceitos esses presentes em estudos de governança. Os resultados mostraram que os problemas de agência também estão presentes no terceiro setor e que os diferentes níveis de informações destinados a cada um dos stakeholders e gestores (assimetria da informação), bem como a cultura organizacional, dificultam a aplicação dos princípios de governança nesse segmento, visto que atraem os problemas de agência.
Todavia, ainda de acordo com Guimarães (2008), parece existir uma diferença entre o que os associados e conselheiros deveriam fazer e o que realmente fazem. Letts (2005) cita três tipos de problemas que podem ser as causas, sendo eles a falta de esclarecimento sobre a real responsabilidade dos cargos, o desconhecimento do impacto causado e o sentimento de falta de influência nas decisões da organização por parte dos associados e conselheiros. Com isso, aumentam a sua responsabilidade ou trabalham de forma oposta ao que lhes é proposto, gerando conflito nas funções, visualizado pela ambiguidade (incerteza e desconhecimento de seu trabalho) e sobrecarga de papéis (impossibilidade de cumprir com somente um tipo de trabalho).
É fato que a ciência vem avançando nessa área da governança. Ao longo das últimas duas décadas, o interesse por esse tema cresceu tanto que é pesquisado em diversas áreas do conhecimento (RODRIGUES; MALO, 2006). Mas também é fato que há muito pouco escrito sobre governança em ONGs e a maioria dos estudos foca na governança corporativa e não nas ONGs.
Essa última afirmação é corroborada por um levantamento e análise da produção científica no campo dos estudos organizacionais, realizada pelo autor dessa tese, a partir dos artigos publicados nas revistas classificadas como “A2” pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes), que versam prioritariamente sobre o tema de governança em ONGs e que tem seus arquivos disponibilizados em versão eletrônica através da internet.
Nesse levantamento, buscou-se identificar os estudos que traziam no seu título, ou no seu resumo, a convergência entre questões de governança e terceiro setor, incluindo-se também aqueles artigos que tratam de questões que permeiam esses conceitos, ainda que não declinassem claramente ou nomeadamente esses temas.
Encontrados mais de 60 (sessenta) artigos que traziam em seu título ou resumo as palavras “governança”, ou “ONG” ou “terceiro setor”, foi feita a primeira análise dos resumos para extirpar do corpus os artigos que tratavam de governança focada no mercado de capitais, ou em tecnologia da informação, que têm enfoques diferentes e específicos.
Esses recortes conduziram à formação de um corpus de pesquisa constituído por 23 artigos. O corpus da pesquisa foi submetido a uma análise de modo que cada artigo foi lido, observado e classificado de acordo com as seguintes categorias: (i) Artigos sobre Governança em ONGs; (ii) Artigos sobre Governança que podem ter repercussões imediatas em ONGs; e (iii) Artigos sobre ONGs que trazem alguma reflexão sobre a governança.
Viu-se que apenas cinco artigos tratam objetivamente de governança em ONGs, e seus objetos eram: (i) Estruturas de Governança e Empreendedorismo Coletivo, que trata da governança sob a perspectiva da teoria da agência, com foco no construto “empreendedor coletivo”, de Malo (2000); (ii) Governança nas organizações do Terceiro Setor: considerações teóricas, que trata da governança também sob a perspectiva da teoria da agência, com foco na dificuldade de implementação dos mecanismos de governança; (iii) Working on nonprofit
boards: don’t assume the shoe fits, que trata da governança focando na diferença dos
“boards” de ONGs e empresas; (iv) Governança em clubes de futebol, que trata de boas práticas de governança propostas pelo Instituto Brasileiro de Governança Corporativa; e (v) A
study of governance practices in corporate foundations, que trata da adaptação dos
mecanismos de governança às ONGs.
O foco dos artigos publicados na área de governança em ONGs tem sido prioritariamente na perspectiva da teoria da agência, na diferenciação entre ONGs e empresas com finalidade lucrativa e profissionalização. O artigo de Mindlin (2012) sugere, inclusive, a necessidade de se ampliarem os estudos que possam consolidar essas práticas nessas organizações.
Considerando que a literatura acadêmica nacional não possui fartura de artigos sobre governança no terceiro setor, a seção seguinte apresentará objetivamente alguns estudos que estão sendo publicados nos Estados Unidos, não para fundamentar a presente tese, porquanto a coerência com racionalidades próprias prescindiriam dessa apresentação, mas para que o leitor compreenda comparativamente como essas questões têm sido tratadas.