2.1 Terceiro setor
2.1.2 Terceiro setor e os estudos críticos organizacionais
Esta tese tem a ver com Organizações não Governamentais (ONGs), Fundações, Associações etc., que compõem o chamado “terceiro setor”. O termo “terceiro setor” se explicaria, para diferenciá-lo do Estado (primeiro setor) e do setor privado (segundo setor), como visto inicialmente. Ambos não estariam conseguindo responder às demandas sociais: o primeiro, pela ineficiência; o segundo, porque faz parte da sua natureza visar o lucro.
Essa lacuna seria, assim, ocupada por um “terceiro setor” supostamente acima da sagacidade do setor privado e da incompetência e ineficiência do Estado (FERNANDES, 1994).
As promessas do terceiro setor são muitas, em várias frentes, e se colocam para muitos como uma nova utopia a seguir. Contra as agruras do individualismo, a falta de moralidade política e empresarial, do assistencialismo e a ineficiência da máquina pública se apresentariam o voluntariado, a participação popular, a responsabilidade social corporativa e o gerencialismo na administração pública. Essas novas utopias se constroem ora explicitamente, ora implicitamente em discursos e abordagens sobre o terceiro setor no Brasil (TEODÓSIO; ALVES, 2006).
Sabe-se, porém, que esse glamour do terceiro setor não cabe mais. Estudos como o de Montãno (2002, p. 47) questionaram e desmistificaram o chamado “terceiro setor”, colocando-o dentro da lógica de reestruturação do capital:
[...] por um lado, a diminuição dos custos da atividade social — não pela maior eficiência destas entidades, mas pela verdadeira precarização, focalização e localização destes serviços, pela perda das suas dimensões de universalidade, de não-contratualidade e de direito do cidadão — desonerando o capital. (...) É neste terreno que se inserem as ‘organizações sociais’, o ‘voluntariado’, enfim, o ‘Terceiro Setor’, como fenômeno promovido pelos (e/ou funcional aos planos dos) governos neoliberais, orientados para América Latina no Consenso de Washington.
Teodósio; Alves (2006, p. 10) arrematam dizendo:
Parte da literatura parece conceber as organizações do Terceiro Setor como reino da solidariedade e das relações fraternais entre os homens, denunciando as investidas do pensamento gerencialista no setor como uma “conspiração instrumental”. Outra parte, naturaliza o fenômeno gerencial e/ou organizacional, entendendo a transformação das organizações como um processo evolutivo ahistórico ou atemporal, no qual formas mais arcaicas de organicidade, como as ONGs menos estruturadas supostamente seriam, dariam lugar a organizações dotadas de aparatos e procedimentos de gestão hiper-estruturados. Na verdade, ambas as teorizações são passíveis de duras críticas pela Escola de Frankfurt, sobretudo tomando-se por base as idéias de Habermas, um dos autores que mais se dedica ao estudo da racionalidade. Racionalidade instrumental e comunicativa seriam dois lados de uma mesma moeda, e não esferas excludentes e sem interpenetrações.
Ou seja, não se trata de uma questão maniqueísta de luta entre bem e mal ou se oposição entre racionalidade substantiva e instrumental.
No Brasil, outros estudos críticos sobre o terceiro setor também surgiram na década de 90, refletindo sobre a ingenuidade dos entusiastas do assunto, que viam nas organizações da
sociedade civil resposta para todas as mazelas sociais e econômicas do país (DAVEL; ALCADIPANI, 2003).
Vidal; Moreira; Costa; Almeida (2006) observaram que a orientação por resultados e o consequente funcionalismo da gestão de ONGs na contraordem de uma administração emancipatória, deliberativa e social estão levando as mesmas de um perfil balizado por valores (racionalidade substantiva) para uma atuação mercantil (racionalidade instrumental).
Esse assunto será mais bem tratado numa seção específica sobre a racionalidade das organizações do terceiro setor, mas aqui cabe dizer que, de fato, as organizações são sempre influenciadas, ora pela instrumentalização sob influência da tecnocracia estatal (VIDAL; MOREIRA; COSTA; ALMEIDA, 2006), ora pela lógica de mercado (THOMPSON, 1997).
Para Thompson (1997), a percepção vigente para as ONGs é a de que sua capacidade de pressão e mobilização social, de reivindicação e proposição de novos caminhos, cede lugar à pressão pela profissionalização de sua estrutura e ações, adquirindo um caráter predominante de prestadora de serviços ao Estado e ao Mercado.
A teoria crítica é relevante nessa tese porque pretende, por esse olhar, analisar as ações e motivações (coerência) dos agentes em relação aos seus verdadeiros interesses. São análises inerentemente emancipatórias, com vistas a liberar os atores de qualquer tipo de coerção (inclusive legal) (TENÓRIO, 2002).
A ideia é possibilitar reflexões construtivas sobre a racionalidade das ONGs, questionando as estruturas (inclusive legais, repita-se). Em relação à governança dessas organizações, observe-se o que diz Montaño (2002, p. 51): “As ONGs, quando passam a ser financiadas pelo Estado para desempenhar, de forma terceirizada, as funções a ele atribuídas, não parecem tão fiéis a seu dito caráter ‘não governamental’ e à sua condição de “autogovernada”.
Mutatis mutandis, quando são financiadas por empresas privadas (corporações) para,
de forma terceirizada, desempenhar funções que lhes seriam inerentes por força da sua responsabilidade social, parecem não se manter tão fiéis ao seu dito caráter “sem fins lucrativos” e à sua condição de “autogovernada”.
Segundo Vidal; Moreira; Costa; Almeida (2006), a meta central da teoria crítica nos estudos da organização tem sido criar sociedades e lugares de trabalho livres de dominação, em que todos os membros têm igual oportunidade para contribuir para a produção de sistemas que venham ao encontro das necessidades humanas e conduzam ao progressivo desenvolvimento de todos.
No caso desta tese, é mais do que isso. Não é só uma questão de “produção” ou “dominação” e “poder”. A noção de verdade na Teoria Crítica reside no esforço de desvelar as estruturas de dominação e alienação da realidade. A coerência da racionalidade com a realidade da governança é que será analisada.
Ainda que influenciados por Nietzsche, os pensadores da primeira geração da Escola de Frankfurt, notadamente Adorno e Horkheimer, não abdicam da herança marxista de uma verdade capaz de romper as estruturas de dominação e alienação (TEODÓSIO; ALVES, 2006).
Teodósio; Alves (2006) afirmaram que a produção científica sobre terceiro setor no Brasil, em especial no campo da Administração, no qual é predominante, reproduz essa tendência de messianismo do terceiro setor e merece uma profunda reflexão crítica, que esta tese se propõe a fazer.
A próxima seção trata justamente das pesquisas sobre o terceiro setor, em que se observará que o tema de governança não é tratado, nem mesmo sob a perspectiva funcionalista.