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CAPÍTULO IV – RESISTÊNCIA E CONFORMAÇÃO NA REFORMA E NA

4.2. Plano de Desenvolvimento Institucional do IFSP

As orientações do Ministério da Educação por meio do documento que estabelece as concepções e as diretrizes dos Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia, propõem a construção de uma instituição voltada à intervenção social e caracterizada como pluricurricular e multicampi, oferecendo e articulando educação básica, superior e profissional. Coloca-se como central para as instituições atuar por meio da educação profissional no desenvolvimento local e regional na perspectiva da “inclusão” e da construção da cidadania, como podemos observar no trecho abaixo extraído do documento:

Os Institutos Federais revelam-se valiosos instrumentos para a mudança da qualidade de vida de brasileiros quando reconhecem que o desenvolvimento local, regional ou nacional não pode prescindir do domínio e da produção do conhecimento; revelam-se, portanto, espaços privilegiados para a construção e democratização do conhecimento (BRASIL, 2008, p.13).

Desta forma, os Institutos foram “convocados” a pensar os seus projetos de organização a partir da articulação: educação profissional, desenvolvimento regional e emprego. Muitas destas instituições sistematizaram suas estratégias por meio do Plano de Desenvolvimento Institucional (PDI). Trata-se de um documento elaborado por cada Instituto Federal com o objetivo de definir seus projetos durante o período de cinco anos.

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Faz parte do PDI o projeto político pedagógico da instituição, assim como o projeto de organização didático-pedagógica. O PDI é uma exigência decorrente do Sistema Nacional de Avaliação do Ensino Superior (SINAES) 131 e da lei que institui a Rede Federal de Educação Profissional e Tecnológica132.

A elaboração do PDI previa a participação de toda a comunidade escolar e tinha como prazo para sua conclusão cento e oitenta dias a partir do estabelecimento da Lei nº. 11.892/2008. Claudino Ortigara (2012), em análise de vinte e oito PDIs dos Institutos Federais, afirma que o tempo para a elaboração do documento foi pouco e que a sua elaboração aconteceu de forma apressada (p.201). O autor demonstra que somente dezessete planos possuíam todos os itens demandados pelo Decreto nº. 5.773/2006, que estabeleceu as condições para que as antigas instituições, dentre elas os CEFETs, as Escolas Agrotécnicas e as escolas vinculadas às universidades federais, se transformassem em Instituto Federal. Assim como afirma que dos PDIs analisados onze não fizeram referência a qualquer tipo de participação coletiva.

No IFSP, o PDI (2009-2013) foi realizado a partir de comissões e subcomissões que envolveram todos os campi e todos os segmentos da instituição, professores, funcionários e estudantes. Claudino Ortigara (2012), analisando doze entrevistas com dirigentes e professores do IFSP, também constatou que a construção do PDI foi “democrática e participativa”, mas ressalta que isso não se deu sem disputas internas (p.263).

Nas primeiras páginas do documento, é apresentada como “missão” da instituição a perspectiva de acompanhamento dos “processos de transformação no mundo do ensino, do trabalho e com a perspectiva de diminuição das desigualdades sociais no Brasil, [buscando] construir uma práxis educativa que contribua para a inserção social, a formação integradora e a produção do conhecimento” (PDI-IFSP, 2009-2013, p.23). A “missão do IFSP” enquadra os objetivos da instituição às perspectivas de um projeto nacional de reforma na educação profissional.

A análise apresentada no Plano de Desenvolvimento Institucional tem como ponto de partida os problemas enfrentados pelo Brasil na década de 1990, considerando o

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Lei nº. 10.861, de 14 de abril de 2004.

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processo de reestruturação produtiva e as políticas de caráter neoliberal que foram implantadas no Brasil durante o governo Fernando Henrique Cardoso. Os formuladores do PDI concordam que naquele contexto ocorreu uma forte desconcentração industrial no estado de São Paulo, cuja criação de unidades descentralizadas das instituições de educação profissional estava articulada.

Os formuladores do PDI tem claro que as leis não são neutras, afirmam que “são deliberações governamentais que dão legalidade aos princípios e aos conceitos ideológicos hegemônicos, implicando decisões no plano das políticas sociais e educacionais” (DE BLASI, 2003, citado por PDI – IFSP 2009-2013, p.76). Partindo desta constatação, elaboram uma análise crítica sobre os “princípios filosóficos e teórico-metodológicos que

norteiam a prática da instituição”, fundamentando-a em Lev Vygotsky (1998), Gaudêncio

Frigotto (2003), Ricardo Antunes (2004), e outros autores.

As análises sobre a educação profissional presentes no PDI demonstram as disputas de concepções no interior do Instituto Federal de São Paulo. Revelando contradições que também estão presentes no desenvolvimento das políticas federais, como no caso da retomada do ensino médio integrado, que inicia com um projeto relacionado a uma perspectiva transformadora e, posteriormente, envereda para um projeto de expansão vinculado ao setor privado e circunscrito às necessidades do projeto neodesenvolvimentista, que entende o desenvolvimento nacional como crescimento econômico. O PRONATEC é sua expressão.

Observamos que enquanto a “missão” do IFSP expressa concordância plena com as diretrizes iniciais do governo federal para a educação profissional, quando a colocamos em face do projeto pedagógico institucional, encontramos elementos que nos indicam resistência a determinadas concepções e diretrizes da política federal.

No projeto pedagógico institucional, quando se trata da inserção regional dos campi, parte-se de uma análise histórica das relações de produção e da territorialização da produção e do capital, fazendo emergir na análise os problemas do “processo de desconcentração territorial da produção da capital para o interior e a centralização do capital na capital [do estado]” (PDI 2009-2013, p.70), indicando que o movimento de “descentralização” do IFSP é parte das estratégias de suporte às indústrias que se deslocam

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da capital para o interior ou para atender às necessidades daquelas empresas que se instalaram diretamente no interior do estado.

Certamente é uma preocupação dos profissionais IFSP inserir os estudantes no mercado de trabalho, atendendo, assim, a necessidade das indústrias e demais setores. Na dinâmica do sistema escolar, o ensino técnico é responsável pela formação da força de trabalho para determinados postos ou para atender áreas do setor produtivo. No entanto, percebemos que outros objetivos apresentados pelas políticas da última década, dentre eles fomentar a emancipação do trabalhador por meio do cooperativismo e/ou da organização de pequenas empresas, é secundário no projeto pedagógico institucional, revelando aspectos contraditórios que emanam da própria política de educação profissional. Não é possível atender num mesmo movimento o crescimento do setor produtivo e o projeto de emancipação dos trabalhadores com trabalho independente e autogestionado.

Claudino Ortigara (2012) aponta em sua análise que há predominância da concepção de formação integral em todos os pontos comuns analisados nos PDIs de vinte e oito IFs. Ao mesmo tempo, quando os PDIs expõem o projeto de novos cursos para as instituições em expansão, predomina o que o autor denomina de “formação funcionalista”, por meio de cursos concomitantes ou subsequentes ao ensino médio, voltados, principalmente, ao atendimento das demandas mais imediatas do mercado de trabalho, o que demonstra uma contradição interna comum no interior dos planos. O autor pondera que um dos fatores que explica o predomínio da “formação funcionalista” foi a permanência das Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Profissional de Nível Técnico (Parecer CNE/CEB nº.16/1999) (p.217).

Com isso, fica a questão, em uma instituição como campus São Paulo do IFSP, cujos estudantes possuem alta probabilidade de adquirirem um emprego após a formação, qual é o lugar do projeto de emancipação e cooperação dos trabalhadores?

Observamos que há divergências entre as concepções e as diretrizes dos Institutos Federais, estabelecidas pelo Ministério da Educação, em especial aquelas oriundas do primeiro governo do Partido dos Trabalhadores e as concepções expressas no Plano de Desenvolvimento Institucional do IFSP. O PDI é um importante instrumento de definição dos objetivos e propostas da escola, portanto, alvo de disputas políticas e ideológicas que

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podem alterar a organização da instituição. Outra questão que emerge da análise do PDI é como o projeto está sendo sustentado e como ele será avaliado pela comunidade ao final de 2013.