Décadas antes da conceituação foucaultiana de poder, levada ao conhecimento do grande público por meio da célebre obra “Vigiar e Punir”, o escritor tcheco Franz Kafka já retratava em sua obra amicrofísica5
da qual falava o filósofo francês. Em histórias como “A Metamorfose”, “Um Artista da Fome”, “O Veredicto”, “Na Colônia Penal”, “O Castelo” e “O Processo”, pode-se contemplar o poder como estudado por Foucault: sendo praticado no interior dos diversos segmentos da sociedade. É que o poder, em Kafka, longe de ser uma via de mão única, pressupõe a atuação consciente e voluntária dos dois polos antagônicos de qualquer relação e pode ser visto, por exemplo, na opressão exercida pelo pai sobre o filho ou pelo filho sobre o pai, nas uniões pessoais ou profissionais que sobressaíam da gravura com uma corporeidade excessiva, sentados os dois em posição demasiado ereta e, em consequência da falsa perspectiva, só se voltavam um para o outro com dificuldade. K. não continuou a folhear, abriu somente a página de rosto do segundo Livro; era um romance com o título: Os tormentos que Grete teve de sofrer com seu marido Hans”.
5 Nas palavras do próprio Michel Foucault, “[...] o estudo desta microfísica supõe que o
poder nela exercido não seja concebido como uma propriedade, mas como uma estratégia, que seus efeitos de dominação não sejam atribuídos a uma “apropriação”, mas a disposições, a manobras, a táticas, a técnicas, a funcionamentos; que se desvende nele antes uma rede de relações sempre tensas, sempre em atividade, que um privilégio que se pudesse deter; que lhe seja dado como modelo antes a batalha perpétua que o contrato que faz uma cessão ou a conquista que se apodera de um domínio. Temos em suma que admitir que esse poder se exerce mais que se possui, que não é o “privilégio” adquirido ou conservado da classe dominante, mas o efeito de conjunto de suas posições estratégicas – efeito manifestado e às vezes reconduzido pela posição dos que são dominados. Esse poder, por outro lado, não se aplica pura e simplesmente como uma obrigação ou uma proibição, aos que ‘não têm’; ele os investe, passa por eles e através deles; apoia-se neles, do mesmo modo que eles, em sua luta contra esse poder, apoiam-se por sua vez nos pontos em que ele os alcança”.
A culpa de Josef K. || || 69 se formam por mútuo interesse, nas mais corriqueiras trocas de favores, nas influências que determinados indivíduos exercem sobre outros nas pequenas ou grandes decisões a serem tomadas no dia a dia, nas relações sexuais que se praticam etc.
Durval Muniz de Albuquerque Júnior enxergou essa relação entre a literatura de Kafka e a filosofia de Foucault:
Nas histórias de Kafka, podemos visualizar o funcionamento daquela microfísica do poder da qual Foucault nos deu a descrição histórica. Poder que atua tanto de forma ascendente, como descendente. Poder que, embora se cristalize em insti- tuições como o tribunal, não existe fora das relações sociais, sendo imanente a elas. O poder como exercício, não como coisa. O poder que circula em todas as direções, que é prática produtora de sentido, que se inscreve nos corpos, que os torna sujeitos e que os assujeita. As engrenagens em que se vêem presas, são as maquinações do poder. Porque este maquina, no sentido de produzir conexões e desarticulações, continuidades e rupturas, fluxos e cortes. [...] Nos escritos de Kafka a questão do poder aparece descrita em práticas como as de erguer e abaixar a cabeça, olhar ou não nos olhos ou no rosto. (ALBUQUERQUE JÚNIOR, 2004, p. 22-23).
Numa das pequenas histórias presentes no volume “Preparações de uma boda na campanha”, Kafka dá uma boa idéia de como funciona o exercício de poder nas relações sociais:
Eu me achava indefeso, em face desse vulto, que estava sentado à mesa, calmo, o olhar fixo na tampa. Dei voltas a seu redor e senti como me estrangulava. Em torno de mim andava um terceiro, que se sentia estrangulado por mim. Em redor do terceiro caminhava um quarto, que se sentia estrangulado por ele. E tudo isso prosseguia até às órbitas dos astros e ainda mais além. Todos sentiam-se agarrados pelo pescoço. (KAFKA, 1988, p. 95).
Foi Elias Canetti quem disse, com muita propriedade, que Kafka era avesso ao exercício de poder porque via nas mais corriqueiras práticas sociais algo de animalesco (CANETTI, p. 95). E tal percepção crítica do poder que o autor tcheco sempre demonstrou, ao que tudo indica, começou a se desenvolver muito cedo. Na “Carta ao Pai”,6 em passagem
6 A “Carta ao Pai”, redigida por Kafka no ano de 1919, foi sempre tratada por seu autor
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que remonta à sua primeira infância, é possível perceber como o jovem Franz se sentia oprimido pelo seu próprio pai:
Uma noite eu choramingava sem parar pedindo água, com certeza não de sede, mas provavelmente em parte para aborrecer, em parte para me distrair. Depois que algumas ameaças severas não tinham adiantado, você me tirou da cama, me levou para a pawlatsche [varanda] e me deixou ali sozinho, por um momento, de camisola de dormir, diante da porta fechada. Não quero dizer que isso não estava certo, talvez então não fosse realmente possível conseguir o sossego noturno de outra maneira; mas quero caracterizar com isso seus recursos educativos e os efeitos que eles tiveram sobre mim. Sem dúvida, a partir daquele momento eu me tornei obediente, mas fiquei internamente lesado. Segundo a minha índole, nunca pude relacionar direito a naturalidade daquele ato inconseqüente de pedir água com o terror extraordinário de ser arrastado para fora. Anos depois eu ainda sofria com a torturante idéia de que o homem gigantesco, meu pai, a última instância, podia vir quase sem motivo me tirar da cama à noite para me levar à pawlatsche e de que eu era para ele, portanto, um nada dessa espécie. (KAFKA, p. 12-13).
Para o filho, a punição paterna foi extremamente severa e, possivelmente, forneceu material para a composição não só do “pai kafkiano” – sempre uma figura severa, teimosa e autoritária, que se assemelhava, muitas vezes, a um verdadeiro ditador7 – como também de
todas as outras instâncias de poder,8 das quais Kafka pessoalmente sempre
procurou se esquivar.
original. Aos trinta e seis anos de idade, Kafka resolveu fazer uma análise de praticamente toda a relação entre pai e filho, desde os primeiros anos dessa convivência. Ali, Kafka caracterizou o pai como um sujeito severo, teimoso e autoritário, que se assemelhava, muitas vezes, a um verdadeiro ditador.
7 Em outra passagem da “Carta ao Pai”, Kafka expõe a imagem que tinha do pai: “Da
sua poltrona você regia o mundo. Sua opinião era certa, todas as outras disparatadas, extravagantes, meshugge [amalucadas], anormais. Tão grande era sua autoconfiança que você não precisava de modo algum ser conseqüente, sem no entanto deixar de ter razão. Podia também ser o caso de você não ter opinião alguma sobre um assunto e, conseqüentemente, todas as opiniões possíveis relativas a ele precisavam ser sem exceção erradas. Você podia, por exemplo, xingar os tchecos, depois os alemães, depois os judeus, na verdade não sob este ou aquele aspecto, mas sob todos, e no final não sobrava mais ninguém além de você. Você assumia para mim o que há de enigmático em todos os tiranos, cujo direito está fundado, não no pensamento, mas na própria pessoa. Pelo menos assim me parecia.
8 Embora seja possível afirmar que, em Kafka, a luta contra a opressão nem sempre se dê
A culpa de Josef K. || || 71 Canetti (p. 95) explica que, “porque o objetivo essencial de sua vida consiste na tentativa de esquivar-se de todas as manifestações [do poder], [Kafka] nota-o, percebe-o, define-o ou configura-o em todos aqueles casos que outras pessoas aceitariam como naturais”. Não espanta, portanto, que Kafka, na busca de se esquivar do poder, tenha adquirido hábitos estranhos àqueles com quem ele conviveu: por boa parte de sua vida manteve um regime vegetariano, raramente cumpria imediatamente simples ordens do dia a dia que lhe eram designadas, jamais contraiu matrimônio e nem tampouco teve filhos.
Contudo, a obstinação de Kafka contra o poder quase foi ameaçada quando ele se apaixonou por uma jovem berlinense chamada Felice Bauer, com quem teve um relacionamento amoroso não muito conven- cional. Depois do primeiro encontro, que ocorreu na casa do grande amigo Max Brod,9 os dois namorados mantiveram contato apenas
por correspondência durante muito tempo. Só vieram a se reencontrar pessoalmente muitos meses depois, quando já estavam mutuamente apaixonados. Evidentemente, a distância entre as residências10 influen-
ciou bastante, mas o relacionamento amoroso, que culminou em dois noivados e nenhum casamento, durou por quase cinco anos.
O interessante é que, em algumas das cartas trocadas entre os dois noivos, que foram publicadas em formato de livro após a morte do escritor tcheco, encontram-se fortes indícios de que Kafka à época já era plenamente consciente das relações de poder e, principalmente, das relações de poder inerentes às instituições “casamento” e “família”, pois ele sempre era paciente ao tentar explicar à Felice, de todas as maneiras possíveis e imagináveis, que não suportaria jamais contrair matrimônio e nem tampouco ter filhos com quem quer que fosse, e isso a incluía.11 Kafka chega, em alguns momentos, a
como bem elucidam Gilles Deleuze e Félix Guattari, que todas as instâncias kafkianas de poder desembocam no pai. Para os dois filósofos franceses, “Os juízes, comissários, burocratas, etc. não são substitutos do pai; é antes o pai que é um condensado de todas essas forças, às quais ele próprio se submete e convida seu filho a submeter-se”.
9 Max Brod ficaria muito conhecido, anos depois, por descumprir a promessa que havia
feito de destruir o espólio literário de Kafka.
10 Felice Bauer morou, durante todo o período de troca de cartas com Kafka, em Berlim.
No início da correspondência entre os dois, a família da moça residiu em uma rua chamada Immanuelkirchstrasse. No início do ano de 1913, a família se mudou para a rua Wilmersdorf Strasse. A distância que a separava de Praga era de aproximadamente nove horas de trem.
11 “Devo lhe dizer que não suporto suas cartas diárias, não estou em condições de suportá-
las. Respondo a suas cartas e fico aparentemente tranqüilo na cama, mas de repente palpitações atravessam-me todo o corpo e meu coração só quer você. Como eu lhe pertenço,
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comentar que possui um enorme medo em relação à possível vida conjugal que os dois poderiam vir a ter no futuro. Um eventual casamento, e a consequente e inevitável paternidade, apresentavam-se como uma espécie de pesadelo, embora ele amasse verdadeiramente a noiva. Para Kafka, constituir uma família e ter filhos, transformando-se em marido e pai, significaria imprimir sobre outras pessoas – obviamente na mesma medida em que as outras pessoas imprimiriam também sobre ele – a opressão que ele próprio sofrera durante toda a sua existência e ele não queria carregar consigo essa culpa.
Sim, porque, na lógica kafkiana, qualquer exercício de poder torna culpados ambos os polos da relação: aquele que oprime é culpado, em virtude da dominação e a conseqüente humilhação que imprime; mas também aquele que é oprimido, ou sofre poder, é culpado, na medida em que aceita, consente, é seduzido e conquistado pelo poder. Em suma, não é demasiado dizer que, para Kafka, todo indivíduo envolvido nas relações de poder é culpado.