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4. INFORMAÇÃO GOVERNAMENTAL E POLÍTICAS DE INFORMAÇÃO

4.3. Políticas de informação e sua interface com o estado

Independente da abordagem adotada para definir políticas de informação, Ribeiro e Andrade (2004) destacam que é fundamental analisá-las tendo como pano de fundo a centralidade do papel do Estado. Caso contrário, tais políticas seriam governadas ou direcionadas pela lógica de mercado. No dizer de Ruediger (2002), uma política de informação não pode se transformar em mercadoria manipulada pelo mercado, pois perderia grande parte de sua utilidade e corresponderia à privatização da esfera pública. Corroborando essa afirmação, Castells (1999), afirma que o mercado exerce papel chave, mas não é capaz sozinho de estabelecer padrões desejáveis de equidade e justiça. De acordo com o autor, cabe

aos governos, em cooperação com a sociedade civil e o próprio mercado, implementar políticas públicas voltadas para a promoção da igualdade, entre elas as políticas de informação.

As políticas públicas de informação devem ser elaboradas, implementadas, monitoradas e avaliadas com participação ativa do Estado. De acordo com a OCDE (2002), é fundamental a existência de uma legislação sólida sobre os fluxos de informação e comunicação entre Estado e sociedade. Ademais, são fundamentais mecanismos institucionais claros que garantam a aplicabilidade da legislação e órgãos e entidades que fiscalizem o cumprimento de metas informacionais previamente estabelecidas.

González de Gomez (1999b) reafirma a centralidade do papel do Estado ao salientar que as políticas de informação são instrumentos efetivos para estabelecer padrões e constrangimentos para o regime de informação vigente. Nesse contexto, é fundamental compreender o significado de regime de informação. Ele é apresentado pela autora como um conjunto de redes formais e informais nas quais ampla gama de informações são geradas, organizadas e transferidas de diferentes produtores para diferentes destinatários e receptores de informação. O processo de transferência é feito utilizando-se diversos meios, canais e organizações. Ou, no dizer de Ribeiro e Andrade (2004), um regime de informação “designa uma morfologia de rede e configura-se por plexos de relações plurais e diversas, intermediárias, interorganizacionais e intersociais” (RIBEIRO e ANDRADE, 2004: 12).

O conceito de regime de informação permite compreender que as relações entre Estado e sociedade, assim como entre os próprios setores governamentais, estão embutidas numa complexa rede de fontes e recursos de informação, infraestruturas tecnológicas, memórias documentais, instrumentos de processamento, culturas profissionais e posições relativas dos atores técnicos e políticos. (GONZÁLEZ de GÓMEZ, 1999a).

A partir da abordagem de regime de informação, a política de informação é compreendida como um conjunto de ações práticas que estabilizam, mantêm ou alteram um regime de informação (RIBEIRO e ANDRADE, 2004). Para González de Gómez (1999b), a política de informação são ações e decisões orientadas a estabelecer bases e padrões para um regime de informação, podendo preservá-lo ou mudá-lo. Elas são expressas por meio de um conjunto de macro ou micro políticas capazes de provocar a passagem de um ambiente informacional complexo e opaco para uma realidade em que é possível identificar princípios, normas, papéis, atores e conflitos, entre outros aspectos.

Ribeiro (2003) apresenta a abordagem de Rowlands (1998) e Rowlands et al. (2002) como elucidativa. Os autores procuram compreender a profusão de definições e a complexidade teórica do tema estabelecendo uma estrutura teórica mínima capaz de fornecer classificação e análise às políticas informacionais. Eles estabelecem um modelo de política de informação, exposto no quadro 5, com ênfase no papel do Estado, já que sua omissão poderia permitir aos interesses econômicos suplantarem os interesses de uma sociedade democrática.

Grupo Tipo de Política da Informação

– sub domínios Descrição

A Protecionismo da Informação Regulamentos e mecanismos que controlam o acesso de informação e publicação na esfera pública (segredo oficial) e em mercados de informação (proteção de dados pessoais) B Mercado da Informação Leis e regulamentos que protegem o investimento na criação

de conteúdo de informação (por exemplo, direitos autorais) e permitem trocas de mercado

C Radiodifusão da Informação Políticas públicas que regulam os meios de comunicação de massa, equilibrando os fatores comerciais com o interesse do cidadão (por exemplo, acesso universal)

D Acesso Público de Informação Oficial

Políticas e regulamentos que moldam o acesso à informação de cidadãos sob a guarda governamental (por exemplo, liberdade de informação)

E Sociedade da Informação e

Infra-Estrutura

Políticas públicas que promovem o investimento (ou encorajam pelo setor privado) na infra-estrutura de informação.

Quadro 5: Política de Informação e Seus Sub-Domínios Fonte: Rowlands, 1998, p. 233; Rowlands et al., 2002, p. 33

Assim sendo, Rowlands et al. (2002) tentam classificar as políticas de informação num quadro bidimensional em que as relações entre sociedade civil e mercado e sociedade civil e Estado possuem interveniência de sólidas políticas públicas e regulamentos.

Ao analisar a proposição de Rowlands et. al. (2002), Ribeiro e Andrade (2004) propõem um conjunto agregado de domínios e subdomínios para política da informação que tem como vetor fundamental a centralidade do papel do Estado. Assim sendo, criam duas dimensões para as políticas de informação. Na primeira encontram-se os assuntos direcionados ao setor privado e que demandam regulação por parte do Estado. Na segunda está o conjunto de assuntos e informações providos diretamente pelos órgãos e pelas entidades governamentais. As autoras destacam, entretanto, que há uma área cinzenta, pois os limites das duas dimensões não são perfeitamente definíveis. O modelo pode ser visto no quadro 6.

Dimensões da

atuação do Estado Sub domínios de Política da Informação Tipos de Política da Informação

Estado Regulador Mercado da Informação

Política internacional de comunicação Regulação contra os crimes praticados através de computadores - informatizados Sociedade da Informação e infra-estrutura Política de informática, telecomunicações e

radiodifusão Radiodifusão e telecomunicações.

Protecionismo da informação Propriedade intelectual Estado Provedor

Acesso à Informação Pública e Governamental (Acesso a informação oficial)

Biblioteca e política de arquivos

Política de disseminação da informação governamental

Política de gestão de recursos da informação governamental

Estado Regulador e provedor

Revelação, confidência e privacidade da informação pessoal.

Quadro 6: Papel do Estado, Política de Informação e Seus Sub-Domínios. Fonte: Ribeiro, Andrade, 2004, p. 31.

Tal modelo é extremamente importante no contexto da tese. Eles permite observar que o acesso à informação pública e governamental torna-se um componente central das políticas informacionais. Por essa classificação, a informação não é entendida simplesmente como mercadoria, mas como força constitutiva da sociedade. Nos dizeres de Gonzalez de Gomez (2002), o subdomínio de acesso à informação governamental é operacionalizado por meio das políticas públicas de acesso à informação pública e governamental e refere-se à obrigatoriedade dos governos de transmitir informação oficial sobre atos, instituindo e consolidando as dimensões informativas e comunicativas do governo (CARNEIRO, 2004).