II Parte: O Crivo Institucional
9. Polivalência afetiva e representação séria
Uma semelhança como aquela entre o lobo e o cão, o mais selvagem e o mais domesticado - Platão
A democracia, como método de criação de ordem social (H. Kelsen), retorna como questão complicada agora que o adversário parece perder a face, tornar-se um “inimigo invisível”, pois assim como por vezes lobriga concretizar-se em algum alvo, algum símbolo bem determinado, ora se esfuma, retornando a uma obscuridade estranha em que o vemos
passando por nós, ou seja, em que nos vemos compartilhando com a criação ampliada das
condições de emergência dos adversários que queremos ter em vista (quem não vê hoje que o ataque dos EUA ao Iraque não passa por nosso tanque de gasolina? Por qualquer de nossos objetos de plástico?). Essa condição de autoconfrontação, em que já não podemos mais relegar o rumo das coisas e de nossas vidas ao destino, nem contentar-nos com a eleição de “bodes expiatórios”, totalmente externos, impede também que as pessoas sejam ou não sejam como os discursos encráticos dos administradores de almas gostariam, ou as instituições precisariam – situação ou oposição, de direita ou de esquerda, capitalistas ou proletários, democráticas ou terroristas...
Como observou Beck, o que ocorre hoje é que a ambivalência tornou-se característica, com as pessoas ora sendo revolucionárias, ora ultraconservadoras, ora combatendo a fome do mundo, ora defendendo reservas nacionais de mercado, ora sendo democráticas, ora sendo anarquistas, ora generosas, ora individualistas - e muitas vezes sem querer ou sem saber defendendo propostas que são contraditórias em si mesmas, capazes de favorecer desgraças quanto justamente o mais se queria era fazer o bem.189 Na verdade, diria melhor se dissesse
de uma polivalência, com as pessoas num mesmo movimento passando de uma posição a outra, sendo favoráveis, contrárias, nem isto nem aquilo, um pouco isto e aquilo e assim por diante. Haveríamos que pensar aqui em devires, em encarnações de devires ou de intensidades que freqüentam corpos, e que são eventualmente as mais díspares possíveis, (mesmo que isso pareça indicar uma via pechada de “neo-romântica”, pois sugere querer promover o movimento recusando progredir no conhecimento, se subtraindo da “objetividade” ou dos “objetivos” perseguidos pelas formas de comunicação argumentativas, sejam elas jurídicas, científicas ou crítico-literárias).
Olhe só, descreve-se C. Calligaris [referindo-se a uma “pluralidade que está em todos nós”]; identifico-me com os ecologistas puros e duros (do
Greenpeace aos italianos da Legambiente), mais preocupados com o
planeta do que com as mazelas dos homens. Posso ter um coração caritativo, animado por paixões missionárias contra a fome e as doenças no mundo (do tipo Christiam Aid). E sobra-me uma raiva que deve valer a do movimento anarquista Black Bloc, pedras na mão.190
189 Sob este ponto de vista, um mesmo reclamo popular pela qualidade dos alimentos serve de justificativa para que
empresas européias de alimentos interessadas em se defender da concorrência, exijam de seus governantes, em nome da saúde pública, que produtos africanos - como a castanha e o amendoim - só entrem no país após exames meticulosos de qualidade, p.ex., contra as aflotoxinas -, exames cujos custos, ultra-elevados, praticamente impedem que esses produtos cheguem às prateleiras. Como observou recentemente um jornalista: para evitar a morte improvável de um único europeu por ano devido a essas toxinas, corta-se um segmento de importação inteiro que poderia salvar milhares de vidas africanas da fome...
190 C. Calligaris, Pelas ruas de Gênova, lá vamos nós in FSP, 2.8.2001, p. E8
Essa polivalência ou indefinição, fora de todo limite conceitual estrito, é intolerável ao espírito das organizações democráticas e de seus representantes dotados de vontade judicativa. Para falar pela maioria, e serem ouvidos pela mídia, eles precisam fazer supor que representam posições definidas, um somatório de vontades concordantes totalizadas num consenso, mesmo quando as pessoas que dizem representar estejam completamente divididas ou mais freqüentemente, omissas, indiferentes. Em qualquer caso, votos brancos e nulos, como a negativa em tomar partido, são contados em favor da suposta “vontade geral” que lhes dá mandato e legitimação, mesmo que na base do “quem cala, consente”. As realidades constituintes são conflitivas, implicando relações de força, mas “sabe-se muito bem que o recurso à decisão dos que dizem representar a vontade geral leva a dar força de lei ao interesse do grupo mais forte”.191 A distorção da realidade se dá por um
arredondamento forçado, ou como diz Rancière (op. cit), “uma conta mal feita”.
Por suposto, a liberdade democrática, definida como “autonomia”, é aquela que cada um teria “tanto mais quanto maior for a vontade de quem faz as leis de se identificar com a vontade de quem deve obedecer a essas leis”.192 Aspira-se governantes que governem como
filósofos, ou cientistas, seres virtuosos que agiriam não segundo seus próprios interesses, mas de acordo com a vontade e a racionalidade da regra da maioria. Por mais baixa que seja a credibilidade pública numa tal figuração de governante, os representantes (legítimos ou autoproclamados) a encarnam efetivamente, fingindo que sabem o que os outros verdadeiramente querem (“acima e além de suas declarações ou silêncios”, ou seja, entendendo que o que os outros querem é sempre “lacunar”, propondo-se a “completar” o que desejam) ou então criando artifícios para que os outros digam, de uma vez por todas, “o que querem, exatamente?” (subentendendo: “para que possamos controlar direito a satisfação ou frustração de vocês”). Neste nível, em qualquer dos casos, para a “participação política” que concedem ou exigem, é necessário saber de antemão o que se quer, quando de fato, para se querer, simplesmente, isso não é necessário, “basta não gostar da situação e estar decidido a inventar algo diferente”.193
191 F. Châtelet, O . Duhamel, História das idéias políticas, p. 150 192
N. Bobbio, Direito e Estado no pensamento de E. Kant, p. 49
193 C. Calligaris, Pelas ruas de Gênova, lá vamos nós in FSP, 2.8.2001, p. E8
Por isso dissemos da exigência aristotélica de falar “com sentido” e sem contradições194
como um velho artifício democrático, pois qualquer que diga bem ou com clareza o que
quer acaba tendo que se conformar à obrigação de “sustentar seu discurso”, e como “o que
é dito não pode ser retirado”, acaba se comprometendo.195 O jogo de linguagem político
principal é a argumentação, tudo que se diz deve se prestar a uma prova ou uma refutação, é preciso o tempo todo medir com cuidado o que se diz para não “cair em contradição” e emprestar contra-argumentos (e força) aos adversários.
A entrada no jogo das decisões políticas importantes depende do aprendizado “do que quer dizer falar”, isto é, pronunciar a palavra “que provoca o assentimento de todos”, falar por “todos”, com o senso comum e o bom senso. “As argumentações”, diz Habermas, “são formas de comunicação inverossímeis, ou seja, formas de comunicação repletas de pressupostos, verdadeiras ilhas em meio ao mar da praxis”.196 Dominar esses pressupostos,
para não correr o risco de ver o próprio discurso mergulhar num pathos de incompreensão, como se fosse o discurso de um extraterrestre, exige um lento aprendizado, até que se consinta com o meio termo de todas as coisas (Cf. Ética a Nicômaco, de Aristóteles) e se esteja apto para o debate que avança através de posições contrárias, isto é, com o diálogo, com a dialética, com a lógica das decisões coletivas.
194 Cf. B. Cassin, “Fala, se tu é homem”, ou a exclusão transcendental in Ensaios sofísticos, p. 273 e segs. 195
Cf. Aristóteles, Gama, 6, 1011-22
196 J. Habermas, Passado como futuro, p. 106
No plano da racionalidade democrática das assembléias, por princípio, “todos” estão representados, “não há parcela dos sem-parcela”, “todos são iguais” - e é em nome desse todo igualitário pressuposto (feito de muitas pessoas de jure e poucas pessoas de facto) que se fala e se decide. Mas em função de estritos critérios seletivos, entre os quais a posição social e a habilidade argumentativa, o que se vê na realidade é que aí só freqüentam partes da sociedade - maiorias ou minorias, categorias sócio-profissionais, grupos de interesse, etc. - que jamais coincidem com o todo da vontade geral em nome da qual tanto falam. A pressuposição de igualdade de qualquer pessoa com qualquer pessoa se contradiz na medida em que só uns poucos falam em nome de “todos”, ou como observado há muito tempo pelo filósofo, “quase em toda parte, são os abastados que parecem ocupar o lugar das pessoas de bem”.197 O objeto da discussão não condiz com a condição daqueles que o
constituem como objeto, até porque, em geral, são os ricos que falam pelos pobres, os articulados pelos desarticulados, os ilustrados pelos sem ilustração...
Por mais amplo que seja, o sufrágio universal leva a uma poliarquia
eletiva: em nenhum lugar a classe política se identifica com o povo, o
eleito com seu eleitor. Mas, por toda parte, continua a florescer a ilusão de que isso seria possível, de que um bom sistema representativo pode ser medido pela fidelidade do eleito ao corpo eleitoral, inclusive à totalidade do corpo social. Liberais e social-democratas, de boa fé, veriam nessa fidelidade uma espécie de garantia política contra os projetos totalitários, sem perceber que esses se alimentam na mesma fonte. Se se quer melhorar a fidelidade da representação, é o pluralismo que está em jogo: quanto mais o título de habilitação se pretende fundado em representatividade, tanto mais a delegação de poder sobre algo aumenta, tanto mais o poder cresce, torna-se um fim em si mesmo e se concentra. E isso, bem entendido, sem que a infidelidade representativa garanta qualquer garantia democrática... [...] Da militância à profissionalização, a atividade partidária secreta uma elite rapidamente inamovível, desencorajando toda participação popular, de modo que a “estrutura oligárquica do edifício esmaga o princípio democrático fundamental. Inércia das massas e especialização dos chefes se reforçam mutuamente.198
197
in Aristóteles, Constituição de Atenas, Livro IV
198 F. Châtelet e É. Pisier-Kouchner, As concepções políticas do Século XX, pp. 130-131
Há, no dizer de Rancière, “um erro de cálculo da democracia”, “erro fundador da política”, que consiste em identificar o múltiplo ao todo.199 Pois a multiplicidade jamais pode ser
totalizada, e a ambigüidade -, toda diferença que somos à parte toda identidade em que somos convocados, tudo que em nós e de nós permanece fora de qualquer representação -, como um mal radical, faz seu retorno pela porta dos fundos. Para os que estão do lado de dentro, há sempre um resto recalcitrante, que usufrui da liberdade de expressão sem conciliar com o método de criação de ordem social, que contestam.
Nos “movimentos antiglobalização” os ativistas que se tomam por “sérios” tendem a encarar a atenção que os meios de comunicação dão às imagens da violência encenada dos “anarco-punks” e assemelhados como devendo-se ao “espetacularismo” característico da mídia, um fenômeno que essa mesma mídia, como que as solicitando, ajudaria a criar, mas relutam em querer ver que cenas como a de jovens de negro, aparatados, trocando porradas com a polícia, encarnando atos de revolta existencial contra um princípio de realidade e de poder obsoletos - mesmo que só para fazer figuração -, pela força plástica que fabricam são capazes de suscitar devires ativos poderosos, que nos arrastam (muito mais que uma pequena minoria), mesmo que seja por breves momentos e de modo necessariamente ambivalente, para fora de nossa apatia, com eles. Como assentiu o premiê belga Guy Verhofstadt sobre as manifestações de rua em Gotemburgo e Gênova: “Não fosse pela violência gratuita, teríamos a tentação de aplaudir”.200 Não são a solução, podemos não nos
identificar jamais “de cabeça” com seus métodos, e até ter medo deles, mas nem por isso eles deixam de gerar imagens eloqüentes dos sentimentos revoltosos de muita gente, provando a liberdade do indivíduo inflexível e despertando o povo de sua letargia.
199
J. Rancière, O desentendimento, pp. 24-25
200 G. Vershofstadt apud M. Suplicy, Um outro mundo possível, FSP, 30.10.2011, p. A3
Se para um discurso de organização é preciso que cada ação ou cada asserção seja justificável, certamente ela não poderá ser a comoção efêmera dos devires ativos, que são pré-reflexivos, e em que somos agidos e falados segundo as circunstâncias, mais do que conseguimos premeditar os meios e a forma de nossa ação ou fala. O punk, o terrorista, o bandido...são ditos inimigos da sociedade (como o contrário dos “cidadãos de bem”) mas denotadamente ao nível dos discursos encráticos201, discursos “de consumo” (ideológicos,
institucionais) como os produzidos pelo Estado, pelo jornalismo, pelas escolas, pela TV... Pois amiúde, ao nível do locutório cotidiano, esse consenso em muitos casos desaparece, ou aparece dividido, e o que se vê é muita gente até mesmo torcendo por eles. Ou melhor, a comoção favorável dos simpatizantes (de personagens como o Conselheiro, Hitler ou Bin Laden), é por aquilo que eles circunstancialmente evocam, uma situação que vai além dos atores e das questões em foco, e contra a qual a violência que patrocinam aparece subsumidamente como protesto: contra a fome, o desemprego, o terrorismo de Estado, a indiferença dos ricos...- e mesmo contra a racionalidade calculada dos discursos de organização.
Há sempre algo de sintomático em toda loucura humana, e se admitimos que “nada do que é humano nos é desconhecido” (Marx), todo ato violento “gratuito”, embora injustificável, sói ser explicável, de muitas maneiras, enquanto evento analisador ou presságio, enquanto tomada da palavra pelo impulso, mesmo que jamais de modo exaustivo, e sim através de níveis de aproximação, através de um uso ativo da imaginação. Podemos rejeitá-los, simplesmente, sem tentar compreendê-los, através de um rótulo pejorativo, com o argumento de que “ficam abaixo da crítica” (são “monstruosidades”, “loucuras” non-
senses, fanfarronices...); mas podemos também tomá-los como fenômenos sociais com que
iniciar uma pesquisa, evitando generalizações apressadas e evitando “amaldiçoar aquilo que não compreendemos” (Espinosa).
201
Sobre discurso encrático (ou discurso no poder ou à sombra do poder) e discurso acrático (fora do poder, sem poder ou sob a luz do não-poder), v. R. Barthes, A Divisão das Linguagens, in O rumor da língua , p. 110 e segs
Bem fácil é ligar externamente um nome a um ato, imputar a condição de “irracional” ao outro que nos insulta ou agride, partindo também para a agressão ou aceitando que seja institucionalmente ofendido; mais difícil é desarmar desde o começo a condição do desentendimento de que resultaram gestos cada vez mais enfáticos (já que palavras educadas não adiantaram), descendo ao plano em que a agressão não aparece vindo de fora, bruscamente, mas se iniciando também em nós, provocada por nossa demorada indiferença diante da questão que nos traz o outro, que é forçado a ser mais “eloqüente” para que entremos no seu mérito. Os limites de nosso entendimento geralmente coincidem com os limites de nossa cultura, de modo que cada agressão que nos parece “injustificada”, “irracional”, “terrorista”, bem poderia ser entendida, antes, como golpes lançados contra a cultura que encarnamos, e que nos impede de ouvir e ver o que deveríamos ver e ouvir há tempos. Quando Nietzsche soube que um grupo de punks havia incendiado uma biblioteca em Londres, lamentou copiosamente o fato e escreveu que não tinha vontade alguma de devolver a menor pedra contra esses “profanadores da cultura”, descrevendo-os como “prepostos da culpabilidade universal sobre a qual é preciso meditar muito!”202 O plano em
que a ação dita “terrorista” foi retomada por Nietzsche - a “culpabilidade universal” - não é excludente, nem redutora (seres do “mal” que ameaçam o “bem”), é uma condição encarnada por “todos”. Esta disposição em afirmar até “o mais baixo”, alcançando até o mais cruel e o mais inútil de tudo que é “humano, demasiado humano”, característica do pensamento trágico, encontra que, ao invés de culpar os outros, simplesmente, para uma vingança, trata-se de perceber a Culpa a partir da qual culpamos, nossa negligência ou omissão prejudicial que há muito já vinha constituindo dano.
202 F. Nietzsche apud P. Klossowski, Nietzsche e o círculo vicioso, p. 20
“Afirmar até o mais baixo”, entretanto, não condiz apenas com o “radicalmente baixo”, o apelativo, a violência física descontrolada, mas “o mais baixo” com relação ao nível das condições formais que foram fixadas “para um discurso” (ou seja, para ouvirmos o outro e reconhece-lo como igual). Como no célebre conto de L. F. Veríssimo (“O nariz”), um simples nariz postiço (desses de plástico, com bigode e aro de óculos), um pequeno detalhe material, obstinadamente mantido pelo protagonista, é mais do que suficiente para que nada mais do que diga seja levado a sério, e como no caso, perca toda clientela, afugente os parentes, acabe sendo mandado ao psiquiatra... É óbvio que as interações sociais são presididas por uma gramática que determina o apropriado e o adequado (obviamente posso, em casa, de shorts e sandálias, receber amigos, mas não falar aos alunos nesses trajes em uma sala de aula...). No entanto, em muitas ocasiões, talvez hajam razões para repensarmos essas condições de diálogo como institucionalmente colocadas (e por nós tendentes a serem reproduzidas “no automático”).
Até porque é do mesmo escopo, “abaixo da linha crítica”, como espaço de gestação dos sentimentos reativos, e dos atos violentos, que devém também muitas outras formas “positivas” de contestação e de protesto, feitas de idéias igualmente “generalizantes e confusas”, cuja articulação permanece muito aquém do exigido na maioria dos registros institucionais politicamente engajados ou importantes, mas que são “sublimativas”, construtivas, como formas elaboradas por algum tipo de sensibilidade artística, de retrabalho perceptual, de neguentropia cultural (ou seja, de produção de outras ordens). Como, digamos, a encontrada por Renato Russo em Geração Coca-Cola:
Quando nascemos fomos programados A receber o que vocês nos empurraram Com enlatados do USA, das 9 às 6. Desde pequenos nós comemos lixo Comercial e industrial
Mas chegou a nossa vez.
Vamos cuspir de volta o lixo em cima de vocês203
203 R. Russo, Legião Urbana – EMI Music Brasil Ltda, 1994
Uma tal gesticulação revoltosa, embora não se negue o que nela haveria de verdadeiro, é indefensável argumentativamente, é “metafórica”, não poderia como tal ser levada a sério no jogo das decisões democráticas. De um palavrório assim se diz que é caricatura, um
simulacro, um discurso mimético e sedutor, que objetiva aprovação sem passar pela
reflexão lógica, em suma, é um discurso que deve ser isolado em um corpus de gramaticalidade própria definida à parte por exclusão - a retórica, a literatura, as artes.204
Diversas outras formas de expressão são também excluídas de seu significado político para outros registros -, como o da “anarquia”, da “loucura”, do “terror”, etc. – sem poder participar das mesas das decisões politicamente importantes, em que o jogo de linguagem que conta, essencialmente - a argumentação -, é regido por um ordenamento jurídico e uma teoria da verdade cujos princípios são “inegociáveis”.
Tanto quanto o ativismo político, propriamente dito, também o ativismo sub-político (referido por Beck), que não carrega pretensões políticas profissionais, não deixa, em muitos casos, de tentar se definir por exclusão, negando alguma outra parte para poder se afirmar, contrapondo-se ambos ao micropolítico cujo discurso não proposicional é mais aproximado às paixões, ou seja, rejeitando o nível metafórico de expressão ou dos “devires- ativos sem nome” ou só os admitindo para neles selecionar as metáforas ou alegorias que seriam “mais operativas ante os conflitos” e que “mais interessam por sua implicação social”.205
204 No dizer de G. Schröder, o menosprezo do sensível e do singular teria levado a razão moderna a considerar o campo do
estético e a linguagem poética um “quarto de despejo” onde se toleraria empilhar e eventualmente usar instrumentos encostados – a analogia, a metáfora, a matéria lexical e sintática que não estivessem a serviço da transparência da linguagem. G. Schöder, cit. Luiz Costa Lima, Vida e mimesis, p. 115
205 T. Villasante apud E. Teixeira, O Local e o Global, p.19
O que se segrega em qualquer caso, é a experiência singular que os acompanha, experiência ímpar do sentido que enlaça linguagem e corpo, como o que se presenta e se retrai, o não-dito entretanto pensado, muitas coisas que pensamos embora não do mesmo modo que aquelas que sabemos exprimir, um saber silencioso que incide sobre o nada da fala ou a ausência de fala, uma infinidade de micropercepções alucinatórias obscuras e confusas que compõem nossas macropercepções ou apercepções conscientes, claras e distintas.206 É pela segregação dos “devires minoritários de todo mundo” (necessariamente
enleados, recalcitrantes, improváveis) que se atribui voz uma “maioria de ninguém” como
socioleto institucional encrático, é contra essa exclusão constitutiva do discurso majoritário