II Parte: O Crivo Institucional
7. Sociedade de risco e ativismo subpolítico
Lá onde está o perigo, cresce também aquilo que salva – Hölderlin
154 R. Robertson, Globalização, p. 112
A noção do mundo em perigo, que chama para a fragilidade de nossa condição humana global, tem penetrado as produções culturais locais enxertando-as com símbolos transculturais. As catástrofes ambientais, os atos terroristas, o aumento da temperatura global, a violência policial, as graves oscilações econômicas, enfim, as imagens de um mundo ameaçado já se incorporaram aos desenhos de pré-escolares mal saídos do estágio gráfico da garatuja. Com discurso preservacionista, os “partidos verdes” - como traduções diretas de um movimento social para uma organização política -, onde atingiram representatividade política, tenderam a conquistar um número de cadeiras cativas nos parlamentos, se revestindo de poder político consolidado. No mesmo espírito, no Parlamento europeu o Rainbow Group preocupa grupos políticos estabelecidos, que passam a ser orientados por seus marketeiros a usar palavras que, por expressarem o oposto da situação de risco, se tornaram lustrosas, como “proteção ambiental”, “paz”, “desenvolvimento sustentável”, “qualidade de vida”... Mas a percepção pública dos riscos tende a se politizar para além da política institucional, mudando o próprio sentido da palavra “risco”.
A experiência política que se associa com a consciência da crise ecológica ou com a vulnerabilidade da vida tende a concluir pela impossibilidade de se continuar externalizando os efeitos colaterais das sociedades industriais, começando assim a pôr em xeque a ordem institucional. Se as instituições da sociedade enfraquecem, tornam-se obsoletas, cidadãos organizados passam a agir para reavivá-las, formando agências intersistêmicas ou parcerias, ou tendem a ultrapassá-las, constituindo grupos de ação e dispositivos de pressão que visam diretamente negociar - ou atingir e ofender - as regras das corporações mundiais, o continuum da destruição lucrativa.
A visão da defesa de programas políticos ativos foi retomada por U. Beck na proporção inversa em que também viu “as instituições afundando em seu próprio sucesso” e se tornando “dependentes dos indivíduos”.155 Com indisfarçada confiança, entre os corolários
do esvaziamento das instituições, Beck acredita em um “renascimento não institucional do político”, ou seja, “o sujeito individual retornando às instituições da sociedade”.156 Ao
imobilismo dos aparatos governamentais e de seus órgãos subsidiários o autor crê que é “perfeitamente capaz de acompanhar a mobilidade dos agentes em todos os níveis da sociedade, ou seja, o fracasso da política com a ativação da subpolítica”.
155
U. Beck, Modernização reflexiva, p. 28
156 U. Beck, Modernização reflexiva, p. 28
O fenômeno social mais assombroso e surpreendente - e talvez o menos compreendido - da década de 1980 foi o inesperado renascimento de uma subjetividade política, dentro e fora das instituições. Neste sentido, não é exagero dizer que os grupos de iniciativa do cidadão tomaram o poder politicamente. Foram eles que colocaram em debate a questão de um mundo em perigo, contra a resistência dos partidos estabelecidos. [...] Os temas do futuro, que agora estão na boca de todos, não se originaram da previsão dos governantes ou das brigas no parlamento - e certamente também não tiveram sua origem nas catedrais do poder do mundo dos negócios, da ciência e do Estado. Foram colocados na agência social em contraposição à resistência concentrada desta ignorância institucionalizada [...] A subpolítica conseguiu uma vitória temática absolutamente improvável.157
Na ausência de uma definição mais clara da subpolítica, Beck pode ilustrá-la através de muitos exemplos de encenações simbólicas em que os grupos de iniciativa cidadã, através de boicotes, obrigaram empresas globais a voltar atrás em suas decisões. “No verão de 95 o
Greenpeace obrigou a multinacional Shell a desistir de afundar uma plataforma petrolífera
no oceano Atlântico”... Os movimentos que conduziram ao fim da intervenção armada no Vietnã, a queda do muro em Berlim, a dissolução do bloco comunista, a queda das ditaduras militares sul-americanas... seriam exemplos de como pessoas que não possuíam mais que uma orientação superficial, extraparlamentar, não vinculadas a classes ou partidos, em muitos casos adversárias entre si ponto de vista programático, chegaram a formar rebeliões inconcebíveis nas teorias e categorias prevalecentes.
Uma pergunta insistente é se a nova estrutura de movimentos dos cidadãos e de associações poderiam convergir com as esferas públicas políticas consolidando uma nova forma social (uma “terceira via”). Como teórico da reestruturação, Beck apostou que sim, que estes “engajamentos múltiplos contraditórios” podem efetivamente afinar-se em torno de alternativas institucionais globais que estarão surgindo com o desmantelamento das instituições estatais-nacionais; procurou ir ao encontro delas, tematizando a “cooperação internacional”, o “estado transnacional e a soberania inclusiva”, a “participação no capital”, a “reorientação da política educacional”, a “aliança em favor da atividade comunitária”...
157 U. Beck, Modernização reflexiva, pp. 30-31
As possibilidades apontadas por Beck (e Giddens), dirigem-se ao plano institucional visando reformá-lo em novas bases, ou seja, os autores reforçam a defesa no sentido da participação representativa, querendo a abertura das mesas de negociação e das agendas empresariais e políticas para os temas que de outro modo seriam desprezados pelos grandes
managers. Embora diferente de uma proposta político-partidária, o sentido de uma
hierarquização de estratos decisórios a ser galgada através da formulação de propostas e da organização “das bases” em torno delas - características da democracia pluralista - continua sendo a referência. Em outros termos, os autores admitem um ativismo subpolítico que converge para uma política em escala planetária, e que atinge sua melhor forma enquanto organizações transnacionais com elevado poder de mobilização e barganha. O raciocínio é que as sociedades dos Estados nacionais certamente não vão desaparecer, ao contrário, eles aumentaram em número e muitos engrossaram suas forças bélicas e de segurança interna, mas os governos se vêem forçados a dividir o cenário das decisões e poderes globais com organizações internacionais, empresas, movimentos políticos e sociais transnacionais. Estaria deixando de haver um único mundo da política conforme um outro mundo político em paralelo vai sendo tramado pelas mais diversas organizações, grupos, atores e indivíduos que fazem e refazem o tecido social. A etapa da política internacional, com predomínio e monopólio dos Estados nacionais no cenário mundial estaria sendo ultrapassada rumo a uma era de “pós-política internacional” (Roseneau). Ou como disse D. Held,
A soberania deve hoje ser compreendida e examinada como um poder cindido, que é percebido de forma parcial por uma série de autores - nacionais, regionais e internacionais - que é ilimitado e acorrentado por essa pluralidade imanente.158
Esta visão do atual estado de coisas quer abrir uma porta diante dos cenários apocalípticos que não cessam de serem feitos, conciliando com as chamadas “teorias da reestruturação” ao mesmo tempo em que, de certo modo, erigindo esse “apocalipse” (enquanto “sociedade de risco”) como a própria porta que teremos que abrir. A distinção não é feita mais em termos de “ricos vencedores” que, precisando cada vez menos dos “pobres perdedores”, inviabilizam toda possibilidade de negociação, entravando o tabuleiro democrático. Também não tenderíamos para um mundo mantido e controlado por um regime totalitário e monopolítico (o “Império”); diferentemente, admite-se que uma maior cooperação contra o unilateralismo dos EUA seria bastante plausível.
158 D. Held apud U. Beck, O que é globalização? P. 77
Presume-se que o plano das negociações continua sendo preservado, porém admitindo-se uma descentralização do jogo político, uma “distribuição policêntrica do poder”, com as “iniciativas de base” retomando nessa jogada um importante papel. Estariam sendo constituídas duas arenas de sociedades globais, uma formada pelas sociedades dos Estados, que continua seguindo as regras da diplomacia e do poder nacional, e outra que forma o “mundo da subpolítica transnacional”, que passa a abrigar uma diversidade de atores com graus variados e variáveis de influência (tão diferentes quanto possam ser a OTAN, a União Européia, o Greenpeace, a Anistia Internacional, a CNBB, o MST, a Yakuza, o cartel de Cali...). Concebe-se assim a idéia de um sistema governado por uma política mundial
policêntrica, na qual nenhum ator isolado tem a última palavra, com todos entrando em
disputa pela realização de seus objetivos, ainda que com chances desiguais de aceitação de suas condições. É o que se poderia chamar de política descentrada ou multipolar, perspectiva que se oferece como alternativa às forças bipolarizantes de uma economia desconectada.
Um esboço do quadro político atual foi apresentado por Claus Offe, que referiu-se à “três arenas” justapostas facilmente reconhecíveis, a saber, uma elite política, que leva a termo suas resoluções de dentro do aparelho estatal, uma segunda elite, formada por um grande número de grupos anônimos e de atores coletivos, que influem uns sobre os outros, encontrando afinidades e formando coalizões, e uma terceira arena, situada mais abaixo, “na qual fluxos de comunicação dificilmente palpáveis determinam a forma da cultura política e com a ajuda de definições da realidade rivalizam em torno do que Gramsci chamou de hegemonia cultural - aqui realizam-se as reviravoltas nas tendências do espírito da época”159. Reproduzindo este esquema, Habermas comentou:
A reciprocidade entre as arenas não é fácil de captar. Até agora os desdobramentos parecem ter primazia na arena do meio. Saia como se sair a resposta empírica, agora nosso problema prático deixa-se apreender mais concretamente: todo projeto que quiser redirecionar forças em favor do exercício solidário do governo tem de mobilizar a arena inferior ante as duas de cima.160
159
Grifos nossos
160 J. Habermas, Dossiê Habermas, Cebrap, no. 18, Set/87
Esses “fluxos de comunicação dificilmente palpáveis” que caracterizam a “arena inferior” têm sido um desafio e um aprendizado para muitas organizações que, em busca de
empowerment, procuram conciliar a formulação de propostas a serem encaminhadas ao
“andar superior” com a abertura, na “base”, para novas adesões, procurando coordenar o movimento espontâneo e tateante em busca de uma “melhor expressão” para conjuntos de idéias mesmo que como uma elaboração precária ou provisória. A percepção de que “estamos apenas começando uma batalha longa e dura” é geral entre os ativistas “antiglobalização”.
Entre as principais ONGs que estão tentando captar e promover as idéias gerais que se encontram ainda dissolvidas nos fluxos de comunicação enleados, ocorreram incorporações das primeiras “bandeiras em comum” (como o cancelamento da dívida dos países pobres, a assinatura do Protocolo de Kyoto, a aplicação da taxa Tobin, a eliminação das armas ABC), mas a motivação mais geral da maioria continua sem projeto fechado, ou seja, “é um projeto para o futuro”, no sentido em que só no futuro estará melhor esboçado.
Kirten Moller, diretora da Global Exchange (ONG que diz lutar contra “a política as grandes corporações”) respondeu à pergunta sobre o que a teria levado, juntamente com um grupo de amigos, a fundá-la, dizendo que tinham tentado criar “uma organização que desse meios às pessoas para que elas pudessem se envolver, que fosse divertida, compromissada, não-sectária, e abrangente o suficiente para trazer novas pessoas”.161 Quando lhe
perguntaram se ela esperava que os acontecimentos em Seattle-99 tivessem um impacto tão grande na política mundial ela respondeu que...
De forma alguma.[...] Mas havia tamanho entusiasmo na mobilização toda, tanta vontade de ir para lá, que fui tomada de surpresa pelo grau de solidariedade entre as mais diversas organizações e pela vida do movimento. Acho que ele tem de ser ainda mais profundo, que nesse momento há um lampejo de consciência, mas que ainda não é uma consciência totalmente estabelecida [...] Não temos uma boa análise sistêmica do que é exatamente o problema e como solucioná-lo, que é justamente o que viemos buscar aqui.162
Enquanto permaneçam procurando captar o rumor das ruas e seus reflexos na imprensa talvez a palavra “organizações” não se aplique a muitas ONGs que se nomeiam enquanto tal. Suas estruturas são mínimas, dada a “flexibilidade” extrema para se regular
161
Cf. Rev. Caros Amigos, 8.3.2001, p.18
162 Cf. Rev. Caros Amigos, 8.3.2001, p.18
“amebicamente” às contingências, procurando incorporar – bem humoradamente - esse rumor. É mais bem uma conjunção de heterogêneos do qual uma parte tende a se desprender para, aí então sim, se fortalecer enquanto “organização”. Em busca de
empowerment, buscam financiamentos externos, tendendo a conciliar interesses com
governos e empresários. Muitas ONGs passam a construir marcas e vender serviços (selos verdes, etc), assemelhando-se a empresas, disputando recursos e visibilidade. Umas poucas agências intersistêmicas se projetam, afastando-se de suas “origens” e tendendo a se transformar em “gerências de projetos”, prometendo prêmios a quem consiga converter
comunidades em sociedades, quem tenha a técnica de encaixar relações de vizinhança,
parentesco, amizade em esquemas de representação sistêmica, encarnando, enfim, o “espírito das organizações”.
O ponto que gostaríamos de insistir é que, independente destes desenvolvimentos mais ou menos vistosos, sem fazer alarde nem realçar à vista, prosperam modos micropolíticos de envolvimento, multiplicam-se os agenciamentos coletivos de enunciação163 que seguem
princípios que não se deixam representar claramente, e os que chegam a ser formulados são genéricos em demasia, sempre postiços, precários. Nesse nível, microfísico, não é tanto a adesão a princípios de organização que se busca, mas mais bem a contigüidade do desejo das pessoas em torno de questões que estão por serem melhor formuladas. O movimento social assume certas formas organizadas, porém mais aquém multiplicam-se ainda mais as forças em vias de organização, simples aviamentos, que em conjunto não poderiam ser encarados como um “caos” ininteligível de “vozes miúdas” só porque não é possível organizá-las em “discursos fortes” ou em “todos coerentes”: estão aí por serem pensadas e entendidas, mesmo que não possam ser verbalizadas claramente. Para o que é que se orientam? O que é que as estimulam? Quais são suas motivações? Ideais?
Nunca se chega a dizer claramente, não há propósitos definidos, nada é distinto mais do que, como nos dizeres da ativista Möller, “o grau de solidariedade...a vida do movimento...” O propósito de muitas dessas organizações “em vias de formulação”, no limiar em que não chegam a tornar-se “sérias” (formais, burocráticas ou profissionais), poderia ser aproximado aos dizeres de Paul Eluard (Poesie ininterrompue):
163 Cf. G. Deleuze e F. Guattari, Kafka, por uma literatura menor
Prendre forme dans l’informe Prendre empreinte dans le flou Prendre sens dans l’insensé.164
Como agentes racionais que têm em vista a consistência, as ONGs (e coligações assemelhadas) tentam apreender variações culturais impregnadas de globalidade que não possuem um conteúdo ou uma forma determinada (nenhum código restrito), de modo que toda classificação está sempre “deslizando”, exigindo uma “adaptação flexível” delas mesmas enquanto instituições, enquanto invenção de meios. Procuram juntar as pessoas contando com a vontade de expressão e de manifestação delas, promovendo os encontros e propondo formular algumas disposições mais próximas de um consenso, mas quando não se chega a isso, ou sempre que se chega, em geral precariamente, já terá valido o encontro como evento, como motivo para estar-junto. Contam com uma consciência “em processo” ou “em construção” favorecida por um conjunto de mobilizações que vêm conspirando contra o que não se sabe direito, apenas meio confusamente - as “injunções sistêmicas transnacionais”, contra a deterioração da qualidade de vida, a desigualdade social, a favor da paz... Juntas ou separadas, vem formando um vasto e multiforme movimento de pessoas não concernidas por alternativas determinadas, mas às quais só importa o que vão encontrando, aprendendo, e o que outras pessoas também vão, mesmo em contextos muito afastados, “estranhamente indiferentes e, no entanto, muito bem informadas” (Deleuze). A prescritividade nesses agenciamentos é cedida em proveito do encorajamento da vontade de agir, de animar a experimentação engendrando novas formas de envolvimento e de ação, e o que se coloca em seu lugar corresponde mais vezes àquilo que Foucault chamou de “programa vazio” - um apelo retórico que renuncia à proposição de um programa estrito para evitar a normativização que tolheria novas configurações ou novos pontos de partida.165
O moderno protesto radical pode parecer condenado a um significado marginal quando comparado com a eficácia das organizações de massa. Entretanto, tal impotência sempre foi a qualidade inicial de grupos e indivíduos que defendiam os direitos humanos e as metas humanas, além das assim chamadas metas realistas. A fraqueza destes movimentos é talvez um sinal de sua autenticidade. Seu isolamento é talvez um sinal dos esforços desesperados necessários para escapar do sistema geral de
164 Tomar forma no informe/Tomar impressão no fluxo/Tomar sentido no insensato
- apud M. Blanchot, A Parte do Fogo, p. 64
165 Cf. De l’amitié comme mode de vie. Apud F. Ortega, Para uma política da amizade, pp.38-40
dominação, para romper com o continuum da destruição realista, lucrativa.166
Os Fóruns Sociais Mundiais têm exprimido uma transição interessante entre a radicalidade expressiva e protestatária e a organização representativa, estágio confuso em que a narrativa dos eventos ainda se apresenta como um desafio por não caber nos modelos existentes de informação. Eles não possuem uma “cúpula”, não se encerraram com algum documento final do evento, como a imprensa desejaria, concentram centenas de propostas, mobilizações e reflexões que não são sintetizadas e tomadas sob a responsabilidade de um Conselho Consultivo, mas permanecendo em aberto para que os mesmos que as lançaram as assumam ganhando “a adesão que seus méritos lhe valerem”.167 Sobre a dificuldade dos
jornalistas em cobrir eventos assim pronunciou-se G. Schwartz, articulista da Folha, ao observar que o Fórum de Porto Alegre não possuía “lide” jornalística, ou seja, não era resumível em um parágrafo; quando se busca informações sintéticas a respeito - O quê? Quando? Onde? Como? Por quê? - os manuais de navegação e cobertura da grande imprensa fracassam.
A informação sobre o Fórum espelha um estilo de organização social que não se encaixa em modelos habituais de representação e mobilização [...] Nenhuma narrativa é satisfatória. [...] No lugar da rede de informação que alguém controla e orienta, a informação é ela mesma uma rede que desafia permanentemente nossa capacidade de descrever e contar.168