Onde fica, então, o ponto de chegada, no caso, o sentido da fronteira, no Diário de Luís de Albuquerque?
É importante notar que Albuquerque concluiu o Diário de viagem quando já estava instalado na capital, Vila Bela, portanto, em 1775. Ou seja, entre as anotações em campo e a redação final do texto, há um espaço de mais ou menos três anos. Nesse tempo, a escrita é perpassada pela memória, desenvolvendo um modo mais rico de interpretação visual enriquecida pela descrição como uma forma de evidência dos fatos narrados alimentados pelos traçados dos mapas dos quais Albuquerque não se furtava. Para ele, o mapa falava mais que as palavras, tal a necessária precisão dos traços e caminhos muito úteis aos viajantes. E é o mapeamento que oferece a complexidade cultural em que a diversidade é, não só do espaço geográfico, mas, principalmente, do humano.
Ao sentido do político e das relações de poder que traçaram os limites da soberania portuguesa pelos balizamentos naturais dos rios Paraguai e Guaporé, os textos
oficiais oferecem o lugar da constituição do espaço de memória em que um povo em processo de expansão territorial entra em contato com outros povos já estabe‑ lecidos e de culturas diferentes. No confronto das relações de força e de sentido se constroem as identidades. E é dessa forma que Mato Grosso se constitui dentro de uma configuração política, social e econômica que visa à expansão de territórios dos países conquistadores à necessidade de alargamento de fronteiras para além ‑mar. Na passagem e nos espaços momentaneamente ocupados recai a ação de mobilidade administrativa, rigorosamente controlada pelo discurso do administrador que exerce a ação política de assegurar o que está dito e construir um novo poder, desta feita, descentralizado. Nesse jogo se regula o sentido da fronteira e da colonização.
Assim, o movimento dos (des)limites geram os aglomerados populacionais às margens dos rios e nas fronteiras múltiplas que geram o discurso do acon‑ tecimento da conquista. Esse movimento pode significar a delimitação e a posse, mas também o apagamento e a construção dos lugares de memória que se estabelecem e se transformam, produzindo os sentidos pelos quais Mato Grosso vai significar para o Brasil na fase de sua configuração territorial. Assim nos deparamos com textos que são, conforme José Horta Nunes (1996, p. 53), provedores de descrições e comentários, textos quase sem fronteiras, misto de narração e documento oficial, como acontece no Diário de Albuquerque. Narra e descreve, em situação oficial, para além do simples traçar limites. Constrói uma memória outra que é o discurso de consolidação, como se nota em Carta ao Marquês de Pombal, de 1774: “he certo que a vantagem política de ocuparmos as margens ocidental do rio Madeira [...] facilmente poderiamos sustentar a posse della e ocupalla com forças” (Castrillon ‑Mendes, 2000, p. 32).
No enunciado, a retórica inaugura uma história determinada à forma de construção do país. Representa a imagem da terra, pois são descrições minuciosas, servindo, não só de fontes de informação, mas de pontos precisos para os traçados dos mapas e as consequentes estratégias de ocupação. Podemos dizer que tais textos pretendem não só explicar os fatos que surgem do processo de ocupação, mas estabelecem a relação do colonizador com o colonizado, dão cunho científico e efetivo aos atos políticos e administrativos da colônia. Ao relatar, re ‑interpreta o que está posto, apropriando ‑se do já nomeado e criando um novo espaço discursivo que toma o lugar daquele existente. Essa condição faz pensar que o sentido das diversidades e das culturas no Diário de Albuquerque é, acima de tudo, ato de legalidade política, algo a ser respeitado pela eficácia do imaginário. Entretanto, não se respeitaram os “tratos” em todo o processo de manutenção dos limites das posses das terras conquistadas. O (des)respeito aparece a partir das evidências e da trama dos relatos construídas pelos/nos próprios relatos. Por isso, Luís de Albuquerque é uma figura destacada no período colonial, pois levou o exercício
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da diplomacia em todas as suas extensões, o que lhe valeu as glórias de anexar à cartografia nacional a maior extensão territorial conquistada no período, conforme descreve em Carta a Pombal: “[...] seria hum prejuiso certo e muito consideravel o estabelecer huma obra semelhante que deve ser de solidez e duração num sitio que inundará completamente nas cheias grandes” (Castrillon ‑Mendes, 2000, p. 34). Conhecer fornece ao administrador o estatuto de também poder legislar, dentro dos limites que lhe é preceituado, criando um espaço fechado entre dois pontos geograficamente distantes. Estar em meio às culturas de fronteiras não é só estar nos limites geopolíticos de uma região, mas é construir novas culturas. Daí termos o administrador sujeito ao juridicamente determinado pela Instrução, que produz o efeito de sustentação mútua dos discursos produzidos na colônia. Desta forma, pode ‑se considerar, à guisa de conclusão deste artigo, que o para‑ digma dos relatos de viagem com o qual os ficcionistas e historiadores dialogam não é somente o de aventureiros e tampouco os do tipo imaginoso como os de Hans Staden. Os relatos oficiais podem se constituir em minucioso inventário escrito ao sabor dos acontecimentos ou de interesses comerciais determinados. Formam ‑se “interlocutores preferenciais de uma prosa que se desejava capaz de definir o próprio país, inventariar suas paisagens e populações, mapeá ‑lo, enfim” (Süssekind, 1990, p. 60). Vemos que essa tendência ao gênero surge a partir do século XVIII e começa a ter força no XIX, quando seria praticado com maior intensidade, garantindo o período inicial da ficção brasileira.
Parcialmente, considera ‑se que a correspondência oficial constrói narrativas que se sustentam mutuamente, se tocam nas semelhanças e diferenças configura‑ tivas da fronteira, inscrevendo ‑se no que poderíamos denominar de discursos da soberania de um país estabilizado dentro de uma relação colonial, constantemente atravessado por outros sentidos que são produzidos em situação regulada pelo conhecimento afetado sócio ‑historicamente. Os relatos oficiais se fazem no plano da oficialidade do político e do jurídico ‑administrativo, preceituando as linhas mantenedoras das ações na colônia.
Percebem ‑se especificidades que definem as fronteiras da escrita voltada para o científico, numa figuração inicial do narrador caracterizado como viajante oficial e no tipo de relações possíveis entre o relato oficial e a possibilidade da crônica, voltados para a função de ‘ilustrar’. Importa não só a experiência que deve guardar as marcas do que acabou de experimentar, mas o relatório circunstanciado, o registro escrito, as correções nos mapas e nas cartas. Em outras palavras, vale o vivido transformado em escrita no calor do movimento, a escrita ao ritmo da viagem (escrita ‑em ‑trânsito) que faz rever os sentidos colonialistas que ainda nos atravessam, refletindo um mundo de ilusórios discursos de igualdade e de liberdade.
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PELOS MARES DA LÍNGUA PORTUGUESA 2
raquel trentin oliveira1
Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil
Em Fado Alexandrino (1983), minha análise recai sobre a articulação entre narração e focalização, as alterações de focalizadores (mudança de pessoa) e de objetos focados (mudança dos referentes da percepção, do enquadramento espaço ‑temporal), a natureza afetiva, sensorial e cognitiva da focalização, as relações semânticas resultantes de sua configuração. Nesta intervenção, no entanto, ater ‑me ‑ei apenas à análise de um breve excerto do romance, com a finalidade de refletir sobre a focalização como atividade mental (Margolin, 2009) e sua relação com o leitor.
Em geral, o romance não privilegia exatamente a narração de ações que estão a acontecer com as personagens, mas ações que aconteceram no seu passado e que são acessadas por meio da memória; ou melhor, privilegia a ação da mente das personagens. A distância das personagens em relação ao passado, no entanto, é muitas vezes subtraída. Esta é a impressão criada na abertura do romance, que inicia pelo passado – o dia do regresso do soldado, e não pelo presente – o reencontro com seus colegas militares 10 anos depois, ocasião em que contou tal história.
Saiu a arrastar a mala, misturado com os colegas, do edifício desbotado do quartel, e distinguiu logo, do outro lado das grades, no passeio, uma espécie de monstro marinho de caras, de corpos e de mãos, que se agitava, aguardando ‑os, no meio‑ ‑dia cinzento da Encarnação, em que os semáforos boiavam ao acaso, suspensos
1 Docente da Universidade Federal de Santa Maria, RS, Brasil, pós ‑doutoranda da Universidade de Coimbra,
sob a supervisão do Prof. Dr. Carlos Reis. O texto desta comunicação integrou o plano de trabalho do projeto de pós ‑doutorado da autora, que recebeu apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior do Brasil (processo n. 10298/13 ‑8).