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Rasurando epitáfios: Rui Manuel Amaral e a escrita de microcontos

No documento Pelos mares da língua portuguesa 2 (páginas 161-165)

5. Virtuosismo intelectual, reflexo da bagagem cultural do escritor [...]. 6. Recurso frequente ao humor e à ironia, modalidades discursivas que alcan‑

çam importância por definir ‑se como atitudes distanciadoras, adequadas à realização do processo de carnavalização da tradição [...]1.

Muito embora ao escrever este artigo a autora se dirigisse diretamente e, sobretudo, ao contexto hispanoamericano, o seu caráter generalizador e ecuménico pode contemplar e aplicar ‑se a qualquer sociedade dita urbana e imersa nos paradigmas literários ocidentais e traduzir ‑se, por conseguinte, ao contexto lusófono.

Em Portugal, o fenómeno do microconto encontra ‑se disperso e carente de alguma estabilidade na produção e ainda mais na receção crítica. Atendendo ‑nos à última década, autores como Luís Ene, Paulo Kellerman, Gonçalo M. Tavares, Afonso Cruz, José Mário Silva, Pedro Paixão, Henrique Manuel Bento Fialho e Joana Bértholo emergiram, alguns deles da total penumbra, como escritores que manifestam preferência pela decantação, brevidade e concisão de formas e conteúdos narrativos. Rui Manuel Amaral faz também parte deste elenco, e é através dele que perscrutaremos algumas das caraterísticas, dentro do território português, definidas por Francisca Noguerol no artigo supracitado.

Amaral, nascido no Porto em 1973, possui, até ao momento, duas publica‑ ções no campo da ficção, Caravana (2008) e Doutor Avalanche (2010). Nelas encontramos pequenas narrativas que vão desde uma linha até às duas páginas, onde desfilam personagens com nomes extravagantes, situações rocambolescas e absurdas e onde predomina o fantástico, o insólito e os desfechos surreais que encobrem qualquer visão objetiva da realidade quotidiana.

Desde este ponto de vista, intercetamos em Rui Manuel Amaral distintos níveis daquilo que podemos considerar como sendo estigmas de subversão ao uso de normas e tópicos ficcionais resguardados pelo cânone literário. Mencio‑ naremos aqui, a modo esquemático, aquelas que consideramos mais pertinentes.

1. Subversão ao nível formal

Constantemente aludido como um género promíscuo no sentido de partilhar inúmeras caraterísticas e imiscuir ‑se com outros subgéneros literários e formas não literárias (poema em prosa, anedota, fábula, aforismo, epigrama, coluna jornalística), o microconto é por si mesmo um discurso transgressor, que foge a taxonomias e que com pouco esforço consegue desatualizar ou, pelo menos, contrariar a fração crítica a ele dedicada. Para comprová ‑lo, basta rastrear as

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inúmeras contribuições teóricas de autores latino ‑americanos surgidas, sobre‑ tudo, nos anos 90 e na primeira década do terceiro milénio que continuamente renovam as suas posições teóricas relativas a este subgénero literário. Citando apenas alguns, Lagmanovich, e mais tarde Irene Andres ‑Suárez, reivindicam no microconto a sua condição ficcional, tratando ‑se de uma minificção cujo rasgo predominante é a narratividade (Lagmanovich, 2006, p. 26). Domingo Ródenas de Moya afirma que o microconto deve cumprir com duas condições, a brevidade e a natureza narrativa (Ródenas de Moya, 2008, p. 78) e Tomassini defende que é uma arte que combina leveza e densidade (Tomassini, 2008, p. 409). Já Violeta Rojo considera ‑o como um degenerado (Rojo, 2010, pp. 241 ‑254) e David Roas declara tratar ‑se de mais uma variante, entre muitas possíveis, do conto literário –e não um subgénero autónomo (Roas, 2008, p. 47). Muito embora se adapte cabalmente à estela do que de modo mais ou menos consensual se pode considerar um microconto, veremos que Rui Manuel Amaral rejeita esta etiqueta nas suas obras, facto que se justifica em parte na postura de alienação em relação à teoria literária gerada à volta deste subgénero literário. Numa entrevista concedida à revista virtual Internacional Microcuentista, afirma:

Me parece un poco reduccionista clasificarlos como libros de microrrelatos, en el estricto orden, porque no fueron escritos con las reglas previamente establecidas (como la extensión de los textos, por ejemplo) o pensados para ese género literario específico. (Dublín, 2011, p. 1)

Assim sendo, caraterísticas do microconto tão caras para críticos como Lauro Zavala e Andres ‑Suárez como são a concisão e a eliminação do supérfluo e do acessório para a ambicionada decantação linguística não são ferramentas imprescindíveis para o autor. Aqui encontraríamos a forma mais flagrante, em Rui Manuel Amaral, de transgressão à conduta de escrita microficcional e que se traduz numa insubmissão à própria subversão. Dito de outro modo, o que se denota nos seus textos é um claro retrocesso e homenagem ao conto de tradição oral, com todas as suas implicações discursivas, tal como refere Rita Patrício:

Este vagar discursivo [peculiaridade dos microcontos de Amaral] resulta da recorrência de repetições lexicais, do uso insistente de paráfrases, da abundância de excursos a atrasar a narração, da acumulação polissindética de detalhes, muitos deles redundantes, cujo valor decorre precisamente da sua estranheza e irrelevância na narrativa e da sua inserção num elenco de pares que vai contrariando ou mesmo inviabilizando a história, prometida, mas nunca cumprida, ao leitor. (Patrício, 2011, p. 143)

Deste modo, em ficções cuja extensão não passa de uma página e meia, como “Nada mau para uma orelha que até era um pouco corcunda” (Amaral, 2010, p. 81) deparamo ‑nos com frases e expressões como “Passou um segundo, e depois dois segundos, três segundos, quatro segundos, cinco segundos, seis segundos, sete segundos, oito segundos, nove segundos, dez segundos, onze segundos”, provocando no leitor sensações de estranhamento pelas súbitas suspensões da ação em textos tão reduzidos de extensão como são os microcontos.

Outro nível de transgressão formal localiza ‑se na presença constante de notas de rodapé que, para além de quebrarem o efeito estético de leitura de ficções (relembrando os textos utilitários e obrigando o leitor a procurá ‑las nas páginas contíguas), conferem mais fragmentação à leitura e, ao contrário da sua função comummente utilizada, não servem para esclarecer ou fornecer informações relevantes, mas sim para desnortear o leitor:

Os autocarros

De algum tempo a esta parte, dir ‑se ‑ia que os autocarros me tomaram de ponta. Quando estou numa paragem, aceleram ou passam ao largo. Ando a ler o “Inferno” de Strindberg nas minhas viagens entre casa e o escritório. Já ouvi as pessoas dizerem que os autocarros são muito perspicazes. E que, tal como certos animais, são capazes de prever toda a espécie de acontecimentos funestos. Amanhã vou tentar enganá ‑los com um romance muito lindo de...*

* Trata ‑se, de facto, de um romance muito lindo no qual se conta a história de três homens que decidem fazer uma viagem de barco, durante 15 dias, através do lago Léman. Obviamente, não sou tolo ao ponto de dizer o título. (Amaral, 2008, pp. 89 ‑90)

Como podemos ver neste texto, a nota de rodapé não atualiza nem acrescenta valor de significação ao corpo do texto, deixando vazios de matéria pelo menos na trajetória que o texto tinha definido, como o título e o autor da obra aludidos. Será neste ponto, então, que encontraremos um segundo nível de desvio em termos estruturais que presta auxílio nessa carnavalização dos códigos literários canónicos.

2. Subversão ao nível de conteúdo e temática

Dentro desta matéria, localizamos cinco procedimentos, que seguidamente analisaremos com algum pormenor: a) rutura com as expetativas do leitor; b) o recurso ao fantástico, ao absurdo e ao nonsense como provocações à estabilidade da lógica e da razão que nos preside; c) privação do caráter moral e de finais conclusivos e consequentes; d) revisitação e reescritura paródica de tópicos literários específicos; e) desautomatização de expressões idiomáticas.

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