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Ao estudar a vida das mulheres quebradeiras de coco babaçu refutamos a ideia, que por muito tempo permeou a historiografia: de que a mulher era um sujeito histórico homogêneo, ou seja, a história dessas mulheres comprova as inúmeras formas de viver, de se expressar e de organização feminina, apesar de que também foram tratadas, muitas vezes, sob a ótica da homogeneidade. Para lançar um olhar diferenciado sobre a vida e a luta das mulheres quebradeiras de coco babaçu será necessário recorrer à crítica feminista, pois sob o olhar da epistemologia feminista é possível abandonar os argumentos naturalistas, a neutralidade científica, que se desenvolveu a partir da perspectiva masculinista, e a dimensão universal cominada ao conhecimento científico.

A crítica feminista é importante pela desconstrução que realiza dos parâmetros erguidos sobre bases positivistas e essencialmente androcêntricas de fazer ciência. A crítica feminista, ao defender a desconstrução de um sujeito único e universal, será imprescindível ao estudo das novas práticas sociais e políticas desenvolvidas pelas mulheres quebradeiras de coco babaçu, pois traz à tona novas vozes coletivas, ávidas por transformações sociais profundas que lhes possibilitem visibilidade e inclusão na agenda de políticas públicas.

Como afirma Kimberlé Crenshaw (2002, p. 173), as diferentes vulnerabilidades, intrinsecamente ligadas ao gênero, não podem mais ser suscitadas para negar proteção dos direitos humanos das mulheres e as diferenças entre as mulheres não podem permitir, que problemas de direitos humanos das mulheres sejam relegados e nem que as mulheres não recebam a devida proteção do regime dos direitos humanos. Nesse sentido, o conceito de interseccionalidade é imprescindível para que a proteção do regime dos direitos humanos seja estendida a todas as mulheres, não importando a diferença existente entre elas, pois a proteção dos direitos humanos, com enfoque no gênero, permite compreender como gênero se intersecta com os demais marcadores de gênero.

A interseccionalidade afirma que coexistem várias vulnerabilidades, violências e discriminações que ocorrem de modo simultâneo, na vida das pessoas, ou seja, a interseccionalidade permite vislumbrar as desvantagens e os mecanismos excludentes que

incidem na vida de diferentes grupos de mulheres62. Logo, como defende Crenshaw (2002, p. 173), a interseccionalidade será útil para articular e responder às necessidades das mulheres quebradeiras de coco babaçu, permitindo entrecruzar as vulnerabilidades de raça e gênero, imprescindíveis para compreender toda a expropriação e violência sofridas pelas mulheres que se dedicam à atividade extrativa do babaçu.

Relatos estereotipados eram comuns antes do processo de organização em movimentos sociais, nos anos 90 (SILVA NETO, 2008, p. 64). Essas trabalhadoras rurais também foram alvo de representações folclóricas ou pictóricas, que as confundiam com a natureza, com a paisagem das áreas dos babaçuais, com o imaginário exótico que a floresta exercia (ALMEIDA, 1995, p. 19; ROCHA, 2006, p. 11-12), quando vistas e descritas como um grupo homogêneo, desprovidas de especificidades, mas incluíam as mulheres na história, significa dar enfoque às experiências vividas no cotidiano, concedendo espaços a novas maneiras de considerar o papel feminino nos processos de transformação social, fundando os pensamentos em sujeitos concretos ao invés de idealizações abstratas: “isto introduz um novo relativismo na análise, dando margem para a integração da experiência das mulheres na história” (AGUIAR, 1997, p. 24).

Essa nova forma de produção do conhecimento científico, calcada no modo feminista de pensar, promove a ruptura com os modelos hierárquicos de fazer ciência e com várias pressuposições da pesquisa científica, logo, a crítica feminista precisa “descobrir seu próprio assunto, seu próprio sistema, sua própria teoria e sua própria voz” (SHOWALTER apud RAGO, 1998, p. 10). É a construção de uma nova linguagem, com a feitura de seus próprios argumentos, partindo de suas próprias premissas e essas são as bases que justificam de maneira geral esta dissertação.

Um grande avanço na história das mulheres foi às contribuições das historiadoras feministas, quanto ao descrédito das correntes historiográficas que pregavam existir um sujeito humano universal. Essas correntes tentavam acomodar as mulheres numa história que as excluía, consequentemente, a incoerência era visível, revelando-se inevitável a ruptura com esse modelo, ou seja, houve a “desconstrução das noções de razão, de conhecimento, de indivíduo, mostrando os efeitos dos arranjos de gênero que estão por trás de fachadas universais” (VAITSMAN, 1994, p. 38).

62 MANUAL DE AÇÃO POLÍTICA. Mulheres negras e ação política: participação democrática nos processos de desenvolvimento, garantia de direitos e efetividade de políticas públicas. Realização: Crioula. Rio de Janeiro, 2010.

As contribuições entre o movimento feminista e a história das mulheres foram importantes para romper com a ideia de que mulher deveria ser pensada como se fosse uma categoria homogênea, mesmo que existissem e atuassem em contextos distintos, mas, essa identidade comum não era possível, pois entre as mulheres existiam também múltiplas identidades, como as “mulheres negras, índias, mestiças, pobres, trabalhadoras, muitas delas feministas, reivindicaram uma “diferença” – dentro da diferença” (SOIHET et al., 2007, p. 287). Passou-se, então, à postura de que havia diversidade dentro da categoria mulher, sendo impossível uma identidade única e universal, acreditando-se na existência de múltiplas identidades (SOIHET, 1997, p. 91), ou seja, as mulheres são diferentes entre si, têm necessidades diversas, pensam de forma distinta uma das outras e vivem em contextos dos mais variados, logo são portadoras de culturas, valores, maneiras de entender o universo totalmente diversificado, então, como colocar todas as mulheres ocupando um mesmo lugar, sem enxergar as suas visíveis diferenças?

Com o enfoque nas diferenças, foi revelado o conflito existente entre a história das mulheres e a corrente historiográfica que privilegiava a polarização de um sujeito humano universal, cedendo espaço ao questionamento das hipóteses que orientavam as ciências humanas (SCOTT apud SOIHET et al., 2007, p. 287), e com isso, foram desnudadas as múltiplas diferenças que existiam dentro da diferença, e dessa forma, há diferenças entre mulheres, entre homens, porém não se pode esquecer as desigualdades e as relações de poder entre os sexos. Nesse momento, as teóricas feministas propuseram que o sujeito histórico fosse analisado considerando suas determinações culturais, inserido em um campo recheado de complexas relações sociais, culturais, sexuais e étnicas, estando sob esse novo olhar, a mulher deveria ser vista de acordo com a sua identidade construída social e culturalmente, inserida nas relações sociais, sexuais e étnicas, conforme os paradigmas dominantes e os saberes instituídos (RAGO, 1998, p. 5).

Sob esse prisma de análise, a categoria gênero como construção social e analítica na academia encontra um campo fértil para seu desenvolvimento, pois desnaturaliza as identidades sexuais e advoga a favor da extensão relacional do movimento, que distingue as diferenças sexuais. Desse modo, o gênero foi a categoria analítica/histórica da qual lançaram mão os(as) historiadores(as) para teorizar a questão da diferença sexual, durante os anos 70. De acordo com essa categoria, gênero ressalta o aspecto relacional entre as mulheres e os homens, não podendo analisá-los considerando-os em separado.

Os estudos de gênero irão, assim, ressaltar a necessidade de abandono do caráter fixo e permanente de oposição dual entre masculino e feminino, com a desconstrução hierárquica

dos papéis, ao invés de aceitá-la como natural. Essa categoria analítica/histórica, portanto, exerce atração sobre os pesquisadores(as), pois possibilita “um novo olhar sobre a realidade, situando as distinções entre as características consideradas femininas e masculinas no cerne das hierarquias presentes no social” (PISCITELLI, 1991, p. 1); sob essa perspectiva analítica, é possível fazer uma leitura que desconstrua as tradições do pensamento social/cultural que vigoram na sociedade ocidental, no que concerne às relações entre os sexos, desmistificando a ideia de que há hierarquia entre os sexos, e que essa hierarquia é um dado natural e não um produto de uma construção sociocultural.

Para as ciências humanas, o gênero permite a construção do sexo social anatômico, fornecendo a construção do que vem a ser um modelo de homem e mulher e dos seus papéis dentro de cada sociedade, que é desenvolvida a partir da estrutura sociocultural de cada povo, grupo ou comunidade. A expectativa em relação a determinado modelo masculino e feminino, imposto pelos padrões hegemônicos, parte dessa construção sociocultural inserida em contextos diferenciados e não a partir da determinação anatômica dos sexos.

A categoria histórico/analítica de gênero admite ver que o desenvolvimento das categorizações do masculino e do feminino como uma construção social, ou seja, a cultura constrói o gênero, determinando as atividades e comportamentos que devem ser desempenhados pelos sexos masculino e feminino. A utilização do conceito de gênero é importante para desconstruir a explicação natural sobre a diferença existente entre os comportamentos e os lugares ocupados por homens e mulheres na sociedade, conferindo uma explicação pautada na natureza, somente serve para privilegiar os homens, sob um modelo universalista, e discriminar as mulheres, pois a sociedade coloca barreiras para a inserção social e exercício de cidadania de mulheres nos mesmos parâmetros dos homens.

A relevância em se escrever sobre a vida das mulheres quebradeiras de coco babaçu se deve à sua importância na construção de uma nova realidade com a divulgação da privatização de terras, e consequente expropriação violenta dos/as camponeses/as e antigos/as posseiros/as, na quebra dos paradigmas patriarcais63 e na luta pela aprovação das leis do babaçu livre64, com vistas a assegurar a reprodução física, social, cultural, política,

63 De acordo com Lia Zanotta Machado (2000, p. 3), o patriarcalismo não se refere a um momento histórico específico, mas é uma forma de organização ou dominação social que pode ser verificado em contextos históricos diversos, desde que haja dominação exercida por uma única pessoa. O termo patriarcado, segundo Carole Pateman (1993, p. 39), é o único conceito que se refere especificamente à dominação da mulher pelo homem, concedendo direito político ao homem somente pelo fato de ser homem.

64 São leis pensadas a partir das lutas organizadas das mulheres quebradeiras de coco babaçu para terem acesso livre à extração do coco. As Leis do Babaçu Livre são majoritariamente municipais e existem em 17 municípios dos Estados do Maranhão, Piauí, Pará e Tocantins. A primeira Lei do Babaçu Livre promulgada foi no município de Lago do Junco, no Maranhão, Lei nº 005, de 22 de agosto de 1997, a qual autoriza o Chefe do Poder

econômica, jurídica e ambiental desse segmento social, que se autoidentifica como população tradicional65. Carole Pateman (1993, p. 167) comenta que “a sociedade civil como um todo é patriarcal”, e não se mostra de forma diferente entre as mulheres quebradeiras de coco babaçu nas suas relações familiares, privadas e em âmbito público, uma vez que as mulheres quebradeiras tiveram que ultrapassar barreiras construídas socialmente para poderem se organizar em inúmeras associações, cooperativas e em movimento social.

As relações de gênero, até então produzidas no cotidiano das mulheres quebradeiras, precisaram ser repensadas, pois ao verem sua atividade sofrer intensamente com o cercamento aos babaçuais, saem em busca de estratégias que promovam a reconfiguração das suas relações no dia-a-dia, da atividade extrativa do babaçu e das relações com o Estado, e com os proprietários de terras. O cotidiano das mulheres quebradeiras, dessa forma, é ímpar dentro da sociedade; com lutas e conquistas, que são próprias do grupo, não sendo compartilhadas por outros segmentos sociais, expressando a diferença existente dentro da categoria histórica da mulher, o que reforça a concepção de que existem diferenças dentro do universo composto pelos diversos femininos.

Os conflitos enfrentados por essas mulheres começaram dentro de seus lares, pois encontraram resistência dos membros da família, como filhos e, principalmente, maridos e companheiros, que não compreendiam o novo papel que precisam desempenhar para garantir a continuidade da extração do babaçu (SOUSA, 2005, p. 11), e sua reprodução sociocultural específica. As palavras da quebradeira de coco Antônia Brito, que vive no Município de Lago do Junco, Região do Médio Mearim, Maranhão, expressam as dificuldades enfrentadas dentro de casa:

A própria família, os marido, que quando eles, às vezes, não queria aceitar essa saída de deixar a casa, deixar os filho. Porque são trabalhador e sempre a mulher foi considerada a responsável pela família. Hoje isso tem diferença. Já tem marido que já compreende isso. Que as mulheres viaja, que eles acham que eles também têm que contribuir. Principalmente quando ele faz parte da organização local ou mesmo da organização municipal, como a cooperativa, como o sindicato. Hoje eles já entende isso de outra forma66.

Executivo Municipal a tornar a atividade extrativa do babaçu uma atividade livre no município e dá outras providências (SHIRAISHI NETO, 2006, p. 38). Apenas o Estado do Tocantins possui a Lei Estadual nº 1.959, de 14 de agosto de 2008, que dispõe sobre a proibição da queima, derrubada e do uso predatório das palmeiras do coco de babaçu e adota outras providências.

65 Dona Dijé, ao proferir sua palestra durante o evento da empresa de geotecnologias FOCO.Santiago.Cintra, autoidentifica a si e as suas companheiras quebradeiras de coco babaçu como integrantes da categoria populações tradicionais ao afirmar que: “O Decreto 6040 ele é um decreto de povos e populações tradicionais, porque nós se definimos como tal, ninguém pode chegar e dizer pra mim: Dijé, tu é isso. Quem tem que definir sou eu. Não é a academia que tem que chegar e dizer o que que eu sou, como antigamente era feito”. Disponível em: http://pulaomuro.blogspot.com/2011/12/pedra-de-rumo-importancia-da.html. Acesso em: 03 fev. 2012. 66 PROGRAMA GLOBO CIÊNCIA. Episódio: O caminho entre razão e emoção. Exibido pelo Canal Futura. Ano 2008. Apresentado por Alexandre Henderson. Disponível em:

Percebemos pela fala da quebradeira de coco, Antônia Brito, que a mudança precisou ocorrer no ambiente privado para depois se expandir ao público, mas que seus maridos, companheiros ou filhos não eram participantes ativos dentro do movimento a situação era conflituosa, mas se maridos, companheiros ou filhos fossem ativos na luta dentro do movimento, compreenderiam melhor e apoiariam a mulher na sua participação como liderança política. Nesse sentido, o conflito nas relações familiares ganha corpo e se intensifica quando a ausência da liderança de seu ambiente doméstico embaraça a divisão do trabalho assumida pelo grupo nas atividades dentro de casa.

No momento em que há apoio à liderança dentro de seu lar, esta fica fortalecida, segura, como podemos comprovar pelo depoimento de Maria Alaídes de Sousa67, concedido à pesquisadora Maria Ildthe Alves Sousa, por ocasião da elaboração de monografia para conclusão do curso, com temática chamada: “Realidade Brasileira a Partir dos Grandes Pensadores Brasileiros”, apresentada à Universidade Federal do Maranhão e à Escola Nacional Florestan Fernandes, em 2005:

Após o reconhecimento da minha família e cônjuge de que lutar era o caminho certo, ganhei parceiros, me senti fortalecida, contando que a formação de consciência foi dado por conta da continuidade das primeiras conquistas obtidas há 20 anos atrás, é considerável. Hoje, um processo bem mais evoluído quando os filhos participam dos movimentos, no sentido de se formarem novas lideranças e dar continuidade ao processo histórico (SOUSA, 2005, p. 22).

De acordo com Jeni Vaitsman (1994, p. 40) ao escrever sobre identidade, casamento e família na pós-modernidade, o questionamento das relações sociais com fundo patriarcal foi consequência das transformações operadas em nível macrossocial e histórico, mas também se deve a um processo construído nas microinterações do cotidiano, que fazem parte das situações locais, contextuais, as quais definem formas e conteúdos específicos dessas profundas mudanças. Segundo Maria Alaídes de Sousa, as mulheres quebradeiras também imprimiram resistência em sair de casa e lutar por seus direitos:

Nas cooperativas nós não tivemos muita sorte de como mulher ser as diretoras. Porque ainda tem aquela de nós dizer assim: eu num posso porque eu num posso sair

http://www.youtube.com/watch?v=GsPjWz1i1_U&playnext=1&list=PL3CBED82347F443F6. Acesso em: 30 mai. 2011.

67 Casada, mãe de 07 filhos, 03 netos, quebradeira de coco babaçu, foi vereadora com dois mandatos pelo Partido dos Trabalhadores – PT, sócia da AMTR – Associação das Mulheres Trabalhadoras Rurais de Lago do Junco e Lago dos Rodrigues, da Cooperativa dos Pequenos Produtores de Agro extrativista de Lago do Junco – COPPALJ, militante da ASSEMA e Organizações locais (SOUSA, 2005, p. 8).

de casa. Na hora de administrar a prensa vem a primeira situação: analfabetismo e também grudada em casa68.

Maria Alaídes de Sousa, que à época do depoimento acima, no ano de 2001, era vereadora no Município de Lago do Junco, no Maranhão, revela a naturalização dos papeis dentro do contexto vivenciado pelas mulheres quebradeiras. Ao mencionar a expressão “grudada em casa”, se refere ao papel de mãe, de cuidadora do lar, que deveria ser desempenhado apenas pela mulher, de acordo com a naturalização dos papeis femininos e masculinos. Nesse ponto recorro à crítica feminista para explicar a resistência da mulher quebradeira em sair de casa, e se dedicar também a outras atividades, ocupando espaços no âmbito público.

É por intermédio do questionamento, elaborado pela crítica feminista acerca dos papeis desempenhados por homens e mulheres, que se inicia o abandono às universalidades e balizas fixas, que naturalizam as ações pautadas no sexo biológico. A crítica feminista a que recorro possibilita historiar os conceitos trabalhados, se divorciando de definições estáticas e valores culturais que acreditam em modelos congelados e inerentes à natureza feminina, o que segundo Yuderkys Espinosa Miñoso (2009, p. 38), o feminismo latino-americano há algumas décadas desenvolveu um pensamento crítico e uma política voltada para as desigualdades de raça e classe, visando a porcentagem significativa das mulheres que vivem na região, sendo importante salientar essa questão, pois o multiculturalismo, as inúmeras identidades que emergiram e as reflexões sobre o sujeito das novas políticas são preocupações centrais do feminismo em nível mundial (MIÑOSO, 2009, p. 39).

Conforme enfatiza Lourdes Bandeira (2008, p. 211), a crítica feminista se volta para evidenciar a tomada de consciência individual e coletiva das mulheres para se tornarem sujeitos históricos, ou seja, o entendimento de que a mulher deveria ocupar espaços subalternos em relação aos homens cede lugar à construção de uma nova consciência histórica, produzida por novas relações de gênero, contrapondo-se aos modelos hegemônicos, fugindo de uma ordem simbólica dominante ao desenvolver pensamentos através de temporalidades múltiplas. Os conceitos, segundo a crítica feminista, deveriam ser tomados de acordo com o contexto, conforme a sua construção histórica e cultural, e essa nova visão é elaborada a partir da categoria de análise de gênero.

68 DOCUMENTÁRIO MULHERES DO BABAÇU. Realização: Ministério do Meio Ambiente – MMA; Secretaria de Coordenação da Amazônia – SCA; Coordenadoria de Agroextrativismo – CEX. Produção: Viodeografia. Setembro, 2001. Duração: 21 min. e 29 seg., son., color.

Por meio da análise, tendo como base a categoria histórico-analítica de gênero, é possível partir da premissa de que a reconstrução de conceitos deve se fundar na historicidade para a transformação das estruturas sociais. Assim, a categoria histórico-analítica de gênero,

representou um aporte decisivo às abordagens menos descritivas, consolidando-se como uma categoria analítica, cuja densidade conceitual tem sido fundamental não apenas para uma nova/outra prática de produzir ciência, mas sobretudo para as transformações das estruturas sociais (BANDEIRA, 2008, p. 211).

A partir da análise pautada na crítica feminista é possível entender a reelaboração das relações de gênero no universo das mulheres quebradeiras, momento em que as mulheres quebradeiras, por meio de transformações que se iniciaram dentro de casa, levaram às mudanças nos papéis naturalizados do modelo dominante “ser mulher e ser homem” e lograram afirmar e valorizar a identidade coletiva de mulher quebradeira de coco babaçu, tanto para si mesma, como para seus filhos, maridos e companheiros. O reconhecimento concedido pelo texto constitucional à pluralidade de práticas sociais deu azo ao aparecimento de grupos sociais que até aquele momento estavam encobertos politicamente pelo Sindicato de Trabalhadores Rurais – STR’s, pois nos STR’s, os componentes são homogeneizados, as diferenças não aparecem ou são reprimidas, logo, encontrar o lugar das mulheres quebradeiras no interior dos sindicatos foi um trabalho árduo, que foi necessário inserir as questões relacionadas ao extrativismo do babaçu, que representou uma mudança nos paradigmas internos dos sindicatos, tendo em vista que eram, essencialmente, masculinos.