TIPOS TEXTUAIS
6.2. POSICIONAMENTOS DISCURSIVOS E IDENTIDADES SOCIAIS
Fairclough (2001) destaca que as identidades sociais se constroem através de posições discursivas, ressaltando que essas posições se estabelecem mediante relações sociais negociadas entre os participantes. Assim, ele apresenta três aspectos dos efeitos construtivos do discurso, correspondentes a três funções da linguagem:
a. Função identitária – Faz referência à maneira e intensidade com que “o discurso contribui [...] para a construção do que variavelmente é referido como ‘identidades sociais’ e ‘posições de sujeito’ para os ‘sujeitos’ sociais e os tipos de ‘eu’” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 91, destaques do autor).
b. Função relacional – Diz respeito às relações sociais entre os participantes de um discurso, à maneira como elas são negociadas e representadas.
c. Função ideacional – “Relaciona-se [...] aos modos pelos quais os textos significam o mundo e seus processos, entidades e relações” (FAIRCLOUGH, 2001, p.92). Liga-se à construção dos sistemas de conhecimentos e crenças.
É fácil perceber que essas três funções da linguagem corroboram a visão de sujeito defendida pela ACD. A construção de identidades sociais tanto ocorre em um discurso específico como lhe é direcionada. Por conseguinte, situar identidades sociais em um texto, acompanhando seu ethos, suas “faces”, é uma forma de estabelecer as relações entre as diversas vozes que nele são representadas.
Desde que o gênero que estudamos se caracteriza como um texto de produção complexa, em que o editor seleciona e retextualiza a fala do locutor, verificamos que as identidades sociais do locutor são construídas através da manipulação de sua fala pelos diferentes editores. Essa construção de identidades indica tanto o posicionamento ideológico do produtor textual como seu modo de manipular os leitores.
[120] “É chato você ter que fazer força para trabalhar”.
Cazé Pessanha, apresentador de TV, que não quer renovar com a Globo porque seu quadro não vai ao ar (T – 09/11/01).
[73] “Minha experiência na emissora não foi o que eu esperava. É chato ter de fazer força para trabalhar, e é isso o que acontece”.
Cazé Pessanha, apresentador, que não vai renovar seu contrato com a Rede Globo (I – 07/11/01).
[121] “Quero é sair daqui”.
Cazé, apresentador de TV, que não terá seu contrato renovado com a Globo (V – 07/11/01).
Nos exemplos acima, as seleções e retextualizações são bem subjetivas. Confirmemos as variações: “É chato você ter que fazer força para trabalhar!” [120]; “Minha experiência na emissora não foi o que eu esperava. É chato ter que fazer força para trabalhar, e é isso o que acontece” [73]; “Quero é sair daqui” [121]. Até mesmo os fragmentos da fala sublinhados, que muito se aproximam entre si, apresentam duas diferenças sintáticas básicas: o uso do sujeito explícito, “você”, e a substituição de conectores, “de” e “que”. No caso do pronome “você”, verificamos que o locutor opta por utilizá-lo de forma indeterminada (ou mesmo fazendo uma transferência de atribuição): “É chato você ter que fazer força para trabalhar”. Já o editor, ao identificar o locutor, anula essa escolha discursiva: “Cazé Pessanha, que não quer renovar com a Globo porque seu quadro não vai ao ar” [120].
Os editores (re)contextualizam a fala, quase sempre, segundo sua visão de mundo. Essa tarefa pode ser tão pessoal, que não há garantias de que o contexto do evento comunicativo amplo foi registrado realmente, para que o leitor faça sua interpretação ou leitura. Segundo as palavras de Orlandi (2001, p. 76, destaque da autora), “o leitor tem sua identidade configurada, enquanto tal, pelo lugar social em que se define ‘sua’ leitura, pela qual, aliás, ele é considerado responsável”. Nessa perspectiva, o leitor, diante dos exemplares textuais, fica lesado em sua posição ou lugar social em que deveria definir sua leitura, e, conseqüentemente, como os locutores, em sua identidade.
Nos (re)contextos dos exemplos [120], [73] e [121], observam-se diferentes graus de subjetividade ou afastamento em relação ao evento-tema gerador da fala. Considerando-se o exemplo [120], em “Cazé Pessanha, apresentador de TV, que não quer renovar com a Globo porque seu quadro não vai ao ar”, o editor deixa explícito através de uma escolha lexical, o verbo “querer”, que a decisão de renovar o contrato é do apresentador, e não da emissora. No entanto, essa escolha lexical perde relevância, porque, de forma implícita, se suscita uma questão: qual o interesse da emissora pela renovação do contrato se o programa “não vai ao ar”? Já no (re)contexto do exemplo [73], “Cazé Pessanha, apresentador, que não vai renovar seu contrato com a Rede Globo”, considerando-o isoladamente, a questão do poder de renovação fica ambígua, não se sabendo se ele não vai renovar porque não quer ou porque não é do interesse da emissora. No último exemplo, [121], “Cazé, apresentador de TV, que não terá seu contrato renovado com a Globo”, o locutor perde, totalmente, sua subjetividade e o contrato é topicalizado.
Embora tenhamos observado diferentes práticas discursivas nas (re)contextualizações da fala do locutor, uma prática foi comum entre os editores: a de proteger as “faces”. Resta-nos identificar se foram as “faces” do locutor ou as da instituição. Aparentemente, as “faces” do locutor foram protegidas, pois se restringe a ele a questão decisiva, o poder de renovar o contrato, ou ao próprio contrato, nesse último caso, o poder “de ele mesmo se renovar”. Contudo, mediante uma análise mais acurada e considerando-se a prática social, percebe-se que, como efeito de sentido possível, o que ocorreu foi a proteção das “faces” da emissora, pois, ao não explicitar seu poder para renovar o contrato, ela é mantida à distância, quase ausente, passando a imagem de que as pessoas, e apenas elas, e não as instituições, é que têm o poder de decidir sobre seus próprios destinos.
Um gênero define-se em função de seus aspectos formais e como um tipo de atividade em particular. No primeiro caso, diante da combinação de características, procedimentos, relações, estruturação etc. em que concorrem as propriedades comuns e similitudes dos elementos em consideração. O segundo caso, o de um tipo de atividade em particular, pode ser mencionado em termos de uma seqüência estruturada de ações e de envolvimentos dos participantes, quando as posições dos sujeitos são, socialmente, construídas e reconhecidas. Verificamos, nos exemplos analisados, que ao sujeito-locutor, Cazé, nos três casos, foram atribuídas posições diferentes pelos processos de retextualização e (re)contextualização desenvolvidos pelos editores.
Na visão dialética apresentada por Fairclough (2001), da relação entre discurso e subjetividade, os sujeitos tanto são posicionados e constituídos no discurso, como também são transformadores à medida que se envolvem na prática contestadora e redefinidora das estruturas discursivas (ordem do discurso) que os posicionaram. Se tomarmos os locutores como sujeitos dos dizeres que lhes atribuem no gênero textual ‘frase’, verificamos que aspectos dessa visão dialética, defendida pela ACD, ficam prejudicados em relação ao sujeito-locutor, tendo em vista não lhe ser possível contra-argumentar, contestando a retextualização e a (re)contextualização elaboradas pelo editor.
Fairclough afirma que os sujeitos, mesmo sendo posicionados ideologicamente, têm possibilidades de agir de maneira criativa, no sentido de executar suas próprias conexões, considerando as diversas práticas e ideologias a que se expõem, e transformar e redefinir tanto essas mesmas práticas e, até, ideologias, como as estruturas posicionadoras. Entretanto, é importante acrescentar, considerando, principalmente, o gênero ‘frase’, que “o equilíbrio entre o sujeito ‘efeito’ ideológico e o sujeito agente ativo é uma variável que depende das condições sociais, tal como a estabilidade relativa das relações de dominação” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 121, destaque do autor).
As relações de dominação estabelecem assimetrias que marcam as interações mediante grandes diferenças de poder e, como tal, também marcam os discursos com variados graus de opacidade (KRESS, 1998; PEDRO, 1998a). As assimetrias entre os participantes nos acontecimentos discursivos, por exemplo, entre os locutores e os editores no gênero em estudo, são determinadas a partir do poder que se confere a um dos participantes, por sua posição na prática discursiva para controlar, em contextos socioculturais particulares, a produção, a distribuição, o consumo textual e, conseqüentemente, a forma dos textos.
Assim, não nos restam dúvidas, quando afirmamos que o gênero ‘frase’ é construído a partir de uma relação assimétrica, em que o editor, corroborado por sua prática discursiva, detém o poder de criar representações em que os atores sociais, no caso específico dos sujeitos- locutores, são posicionados segundo a imagem ou identidade que esse editor quer veicular e sustentar.
Se a imprensa não existisse, seria preciso não inventá- la (BALZAC apud BERGER, 2002, p. 277).
Neste capítulo, serão enfocados os processos constitutivos do gênero ‘frase’, a retextualização e a (re)contextualização, tendo-se por base, inicialmente, as idéias de Brémond e Brémond (2002) sobre a uniformização das ofertas, ou seja, como as grandes agências noticiosas controlam o que o público recebe.
Ainda, para o desenvolvimento deste capítulo, é crucial que se entendam os critérios da edição. Os textos, às vezes, são recortados para “caberem nas seções”. O verbo “caber”, aqui, com um duplo sentido, um, concreto, referente ao espaço físico, outro, abstrato, relativo ao “espaço” ideológico (BERGER, 2002). Em suma, o editor retira palavras ou as substitui por sinônimos, “limpa” e “enxuga” o texto, a fim de fazer com que ele tenha o “tamanho” adequado para a coluna ou seção. Nesse contexto, muitas vezes, o locutor tem sua fala descaracterizada, pois, via de regra, o editor passa a ter domínio sobre o discurso que cita (MOUILLAUD, 2002).