4 A POLÍTICA DE INCLUSÃO DE ESTUDANTES CEGOS NA EDUCAÇÃO SUPERIOR NA UFRN: DO ACESSO À PERMANÊNCIA
4.1 UM PREÂMBULO: EM TORNO DOS DIREITOS DAS PESSOAS COM DEFICIÊNCIA NA CONTEMPORANEIDADE
Após a Convenção sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência26, inaugura-se no mundo Ocidental um novo paradigma no trato às questões que dizem respeito à pessoa com deficiência, concedendo-lhe a oportunidade de sair da invisibilidade, do ser considerado não- humano, para o de cidadão com direitos humanos. O texto oriundo da Convenção é um
26 Essa reunião contou com a participação de 192 países membros da ONU e de centenas de representantes da
sociedade civil de todo o mundo. No dia 13 de dezembro de 2006, em sessão solene da ONU, foi aprovado o texto final deste tratado internacional, firmado e ratificado pelo Brasil e por mais 85 nações, em 30 de março de 2007.
documento emblemático aprovado pela ONU, cujo objetivo foi equalizar o direito internacional sobre as garantias jurídicas mundialmente das pessoas com deficiência (DHANDA, 2008).
A Convenção da ONU sobre os direitos das pessoas com deficiência foi incluído enquanto documento na legislação brasileira em 2008. Após reunião de liderança durante o processo de elaboração, o Brasil decidiu, soberanamente, ratificá-la com equivalência de emenda constitucional, nos termos previstos no Artigo 5º, § 3º da Constituição brasileira, e, quando o fez, reconheceu um instrumento que gera maior respeito aos Direitos Humanos. (BRASIL, 2012).
Em outras palavras, o Brasil passou a ser signatário da Convenção dos Direitos das Pessoas com Deficiência da ONU em 2007 e para que ela tivesse status constitucional era preciso ser ratificada pelo Congresso Nacional, o que aconteceu em 2008 (DINIZ et. al, 2009; DHANDA, 2008). De acordo com o artigo 5.º da Constituição Federal, que acrescentou o § 3º, quando agregados ao ordenamento jurídico interno conforme votação com quórum qualificado nas duas Casas do Congresso (Câmara dos Deputados Federais e Senado), em dois turnos, os tratados de direitos humanos serão equivalentes a emendas constitucionais27.
Devemos ter em vista que a democratização da educação nos últimos anos vem ganhando destaque no contexto brasileiro, acompanhada da ampliação das medidas de acesso e de inclusão no ensino público superior, através da instituição do Programa de Apoio a Planos e Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) pelo Decreto nº 6.096 de 24 de abril de 2007. Esta proposta e o desdobramento da necessidade de uma política nacional de assistência estudantil que oferecesse sustentação à adoção de políticas afirmativas28 no âmbito da democratização do ensino superior passou a ser concretizada com
27 Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes:(...) § 1º - As normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais têm aplicação imediata. § 2º - Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte. § 3º Os tratados e convenções internacionais sobre direitos humanos que forem aprovados, em cada Casa do Congresso Nacional, em dois turnos, por três quintos dos votos dos respectivos membros, serão equivalentes às emendas constitucionais. (Incluído pela Emenda Constitucional n.º45, de 2004).
28
28 Políticas afirmativas: inicia-se no Brasil permeado de várias conceituações refletidas nos debates históricos dos países em que foram desenvolvidas. O termo originou-se nos Estados Unidos nos idos de 1960, os norte- americanos atravessaram momentos de reivindicações democráticas internas, sobretudo em prol do movimento dos direitos civis, cuja bandeira abordava a igualdade de condições a todos. Assim sendo, as legislações segregacionistas em vigor no país passaram a ser revogadas, e o movimento negro emerge como uma importante atuação composta por líderes nacionais, sustentados por grupos liberais e progressistas brancos, com o objetivo da expansão da defesa de direitos. Neste âmbito, é que surge a concepção de uma ação afirmativa, pois o Estado
o advento do Plano Nacional de Assistência Estudantil (PNAES) pelo Decreto nº 7.234 de 19 de julho de 201029.
Neste panorama, destacamos o surgimento do Programa Nacional de Assistência Estudantil, cuja criação teve como finalidade prover os recursos necessários para transposição dos obstáculos e superação dos impedimentos ao bom desempenho acadêmico, visando a adoção de "estratégias de combate às desigualdades sociais e regionais, bem como a ampliação e a democratização das condições de acesso e permanência dos jovens no ensino superior público federal" (MEC - Portaria Normativa nº 39, de 12 de dezembro de 2007).
Esta política abrange todas as áreas dos direitos humanos, incluindo ações que propiciem desde as ideais condições de saúde, o acesso aos instrumentais pedagógicos necessários à formação profissional nas mais diferentes áreas do conhecimento, o acompanhamento às necessidades educacionais especiais, até o provimento dos recursos mínimos para sobrevivência do estudante.
O Plano Nacional de Assistência Estudantil proporcionou a consolidação do REUNI (PDE, 2007, p.27), que tem como principal objetivo, garantir a expansão democrática do acesso ao ensino superior em universidades públicas. A proposta dessa expansão democrática possibilitou o ingresso de uma diversidade de estudantes demandando assim uma atenção específica, na medida em que presenciamos uma sociedade na qual os preconceitos e as discriminações se materializam, não sendo diferentes na esfera da universidade.
Neste caso, podemos explicitar uma diversificada população de pobres, negros, indígenas, mulheres, o público LGBTTTI30, inclusive as pessoas com deficiência, todos são cidadãos que pleiteiam o direito a educação. É importante destacar, que essas populações se encontravam à margem desse sistema, e hoje, se fazem presentes na universidade ocupando espaços que, majoritariamente, pertenciam à elite da sociedade.
é solicitado compulsoriamente assegurar dispositivos legais antissegregacionistas. Ademais, o Estado deveria adotar uma posição com o escopo de otimizar as condições da população afrodescendentes. Convém pontuar, que os Estados Unidos possuem mais de cinquenta anos de vivências, pois a ele é facultado realizar analiticamente por longo prazo a execução e influência dessa política.
29 O Programa Nacional de Assistência Estudantil – PNAES, executado no âmbito do Ministério da Educação,
tem como finalidade ampliar as condições de permanência dos jovens na educação superior pública federal.