A Poesia de Armando Artur 2 Breve biografia
O PRECONCEITO DO RISO
Entre o silêncio das mãos e o olhar daqueles que em vão procuram encontrar na corda bamba a explicação da fome e da loucura, cabem mil e uma razões
para o preconceito do riso.130
A expressão que abre como título, e é reiterada em fecho do poema, O Preconceito do
Riso, remete para a impossibilidade de alcançar a felicidade. Por aqueles a quem não se
permite rir (um dos atos primários do homem), cujo paradoxo se expressa entre o silêncio das
mãos e que em vão procuram encontrar na corda bamba – afinal os mais desprotegidos. Esta
situação verifica-se porque cabem mil e uma razões, para jamais poder rir, perante o inexplicável: a fome e a loucura.
Vejamos no poemaPAPEL EM BRANCO, o duro labor do ofício de poeta:
Frente a frente estou eu Com o papel em branco. Para este inadiável duelo Entre mim e o papel,
Invoquei a memória da terra e dos homens E as sílabas relampearam no verso do papel.131
O ato de escrita é metaforicamente um inadiável duelo (frente a frente) entre o poeta e o papel, que permanece em branco. A expressão memória da terra e dos homens torna-se mediadora entre o poeta e o papel, isto é, tema da sua escrita. Tal como afirma J. Paul Sartre, a função do escritor é fazer com que ninguém possa ignorar o mundo e que ninguém se possa dizer inocente.132
O fecho do poema, as sílabas relampearam no verso do papel revela a realização do ato de escrita. A referência às sílabas que compõem palavras demonstra o seu cuidado na busca pela musicalidade do verso; o verbo relampear, luz repentina própria do relâmpago, faz referência a efeitos mágicos, tal como a lâmpada de Aladim que remete para o sonho, concretização dos desejos e para a esperança.
130Artur.A. (2004:36). 131Ibidem.
3.3. Sonho
A literatura é de fato uma representação da realidade, como podemos ver nas afirmações de Coutinho:
O literário ou o estético inclui precisamente o social, o histórico, o religioso, etc. – A literatura, como toda arte, é uma transfiguração do real, é a realidade recriada através do espírito do artista e transmitida através da língua para as formas que são gêneros e com os quais ela toma corpo e nova realidade.133
Para António Cândido, a literatura desenvolve em nós a quota de humanidade, na medida em que nos torna mais compreensivos e abertos à natureza, à sociedade, ao semelhante.134
É visível que a obra do escritor moçambicano assume uma função social, ao reivindicar o direito ao sonho, tal como no poema:
(DESFILE: AS CRIANÇAS CANTAM E SONHAM… …AS CRIANÇAS VIVEM!)
Mas quem ousa a amordaçar o sonho destas crianças que vivem, marcham e cantam se constroem já o seu destino nos maravilhosos cânticos das suas aparições? mas quem?
se o verde luminoso dos seus olhos
segue o ritmo da certeza inspirado no seus passos
se as odes com que elas se expõem nasceram na vontade e alegria de viver …
quem? …135
O tema do poema, anunciado no título, é um desfile de crianças. O uso da interrogação pretende um tom dramático, pois as perguntas e respostas sugerem um diálogo do sujeito que indaga um interlocutor e que este lhe responde. O que pretende o poeta com este jogo teatral? Colocar em evidência o assunto do poema, uma situação aparentemente feliz, o desfile de crianças, cantando em marcha (ao ritmo da certeza e seus passos). Revela, no entanto, uma
133Coutinho, A. (1976:23-24). 134Cândido, A. (1995.249). 135Artur, A. (1986:29).
enorme contrariedade, alguém (mas quem?/ quem?…) não identificado, é responsável por ousar amordaçar o sonho daquelas crianças.
O poema apresenta um mundo onírico, infantil, no qual estão inseridos o canto, o sonho e a vida, vocábulos que recordam momentos de felicidade, vividos pelo coletivo (desfile de crianças). A imagem de transformação, de renascimento simboliza o verde
luminoso dos seus olhos: apesar da contrariedade, reside sempre a esperança.
A poesia de Armando Artur vai ganhando novas formas de onde emerge um discurso intimista, de aliança com o cosmos. O poema transforma-se, vai ganhando vida através de uma viagem onírica. O eu-poético vive intensamente em busca de esperança, tal como é apresentado no seguinte poema:
(AGORA DURMO ACOCORADO)
Se este é o tempo de abrir meu coração
(…)
fa-lo-ei
como um pássaro impaciente
(…)
hoje o meu sonho
tem a forma dum papagaio que voa até se desprender no horizonte.
nele se marca o tempo de espera ─ a derradeira hora inadiável. (agora durmo acocorado Às portas da mudança.)136
O título do poema possui ecos da poética knopfliana, como já referimos anteriormente, de O Escriba Acocorado137 mas de abordagem poética diferente. No referido poema de
Knopfli, sobressai a figura ancestral e mítica do escriba (de cócoras), que permanece ad
eternum como pedra em frente ao papiro. Artur presentifica uma situação pessoal, utilizando a
simbologia da adjetivação “acocorado”, agora durmo acocorado, ou seja, em estado de alerta junta a expectativa de mudança, exigindo a sua vinda.
136Artur, A. (1990:8). 137Knopfli, R. (2003:448).
(…) no halo intemporalque é, do tempo,
o nexo único. Nesse olhar de não ver tudo se inscreve, repensa e adivinha: teus limites
O sonho ganha forma de viagem por meio do voo, expressa na hipálage pássaro
impaciente (o poeta é que se mostra impaciente), e simboliza o sonho de liberdade. O sonho
transforma-se em papagaio (referência ao universo infantil), que voa por meio da imaginação
até se desprender no horizonte. Com o desaparecimento do papagaio no horizonte, marca-se o
fim da infância. O sujeito poético, nos últimos quatro versos do poema, assume as suas responsabilidades, esperando tranquilo (agora durmo acocorado) e seguro Às portas da
mudança.
Ao incidir na simbologia do sonho, o poeta reitera, ao longo de seus textos, imagens de repressão e miséria, procurando superar tais flagelos através do renascer do sonho. Nesta perspetiva, analisemos o poema: