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Se no plano etimológico e linguístico, o poder é desde logo um problema na medida em que a sua aplicação e interpretação lexical conduz a grandes divergências, conforme se pode observar através de uma rápida leitura das várias definições dadas pelos dicionários, tudo se complica quando se trata de analisá-lo enquanto conceito. É certo que este constrangimento não é exclusivo do poder, porquanto se apresenta em toda e qualquer análise dos próprios conceitos per si, mas é útil não perdê-lo de vista, como chama a atenção Clegg (1975): “Clear a priori definitions are neither useful nor necessary and that meaning can be sought in patterns of use. Furthermore, it assumes that the quest for a clear and concise definition of any concept is both naive and distorting, as there is no correspondence in the external world to match the multiple significances of utterances. The danger here is that is that neither definition nor use will be carefully examined and power will be taken to be a common sense, transparently clear, concept.”

Acresce a sentença lapidar de Ralf Dahrendorf (1959: 166), da escola liberal e discípulo de Karl Popper, que apesar de relativamente datada parece-nos apropriada para traduzir o essencial deste debate a título de preâmbulo: “No consensus on the definition of power has ever been achieved. Hence each discussion begins anew with a preliminary clarification of the intended usage.”

Nesta linha, a análise da problemática do poder obriga a ter em conta uma premissa básica, que é aplicável, aliás, a todos os ramos do saber no que diz respeito à da definição dos seus respectivos objectos: a percepção da temporalidade, ou dos diferentes tempos, que concorre para o conjunto de códigos inerentes à captura da historicidade, isto é, o princípio que exprime e dá sentido ao modo como os “agentes humanos” concebem a sua relação com o mundo, ou seja, as imagens ou representações, individuais e colectivas, que moldam,

condicionam e determinam o conhecimento sobre o próprio conhecimento13. Significa isto

                                                                                                                         

13  Como sustenta Moreira (1993: 70), “todas as classificações em ciências possuem apenas um valor conjuntural

e histórico. O pacifismo do objecto das ciências clássicas é baseado no tempo decorrido, que faz esquecer as dúvidas da sua afirmação inicial”. De resto, e mais importante ainda, sobretudo se pensarmos em estudos sobre e em contextos africanos, e adoptando a argumentação de Dias (2014), o próprio objecto pode comportar tempos muito diferentes, variados e contraditórios, bem como, em última instância, espaços fragmentados, igualmente diferentes e contraditórios, o que nos remete para o problema dos lugares de enunciação do “conhecimento” e dos próprios “agentes” que o produzem.  

que o corpo teórico que compete entre si num dado momento histórico deve ser valorado apenas no contexto desse preciso momento, e na representação social que lhe é dada, insistimos – pois este é um aspecto crucial, como veremos, para a reapreciação da problemática do poder nos espaços africanos – pelo que não valida necessariamente a sua aplicação em diferentes contextos. Por outras palavras, a teoria negoceia os seus limites com a localização do objecto que pretende investigar. Ora, sendo o poder um objecto de permanente deslocalização (simultaneamente temporal e dimensional, sublinhamos) – devido (i) à forte polissemia que o caracteriza enquanto conceito e (ii) à multidimensionalidade da sua essência, por se manifestar em todas as dimensões da actividade humana – os princípios axiomáticos de que é alvo são regra geral frágeis, porquanto se obrigam a uma constante mutabilidade (que depende do plano de análise ou, dito de outra forma, da proposição subjacente ao posicionamento atribuído ao objecto), pelo que, no limite, vivem sob a ameaça recorrente de dois espartilhos epistemológicos, a temporalidade e a (multi)dimensionalidade, que podem afigurar-se críticos e redutores no caso de não estarem devidamente equacionados.

Estas considerações encontram apoio em Foucault (1979), conforme se pode inferir pelos termos em que coloca o problema ao entender que o poder traduz uma matriz geral de forças ancorada num determinado contexto histórico, o que obriga a uma análise circunscrita a uma dada sociedade, num determinado momento histórico, e inclusive focada sobre as manifestações dessas forças numa “instituição” específica. O discurso segue o paradigma estruturalista que desenvolvemos na secção 1.4.

A título de parêntesis, anotamos que a multidimensionalidade do poder é reconhecida em todas as sociedades mesmo nas mais “rudimentares”, conforme sublinha Balandier (1969: 43). Este princípio, aplicado em contextos africanos, apela à revisão crítica de conceitos como autoridade (cf. Albuquerque, 1985: 1017-1019; Cabral, 1983: 493-495) – que representa, em traços gerais e como mera aproximação conceptual, a obediência pelo consentimento assente na legitimidade de quem manda – fidelidades horizontais, que estão na génese do anticolonialismo dito moderno, ou fidelidades verticais, expressas em diversas construções ideológicas adoptadas pelos “nacionalismos independentistas” e até mesmo pelo sovietismo, como de medida de legitimação do poder nos Estados soberanos que ocupou, após também ter recorrido à horizontalidade como fundamento do seu proselitismo no combate contra o capitalismo ocidental (cf. Vasconcelos, 1983: 57-72).

Para concretizar a relação íntima entre autoridade e legitimidade, ainda que de forma

genérica porquanto a sua aplicação nos contextos africanos é mais complexa14, recuperamos o

contributo de Robert MacIver, um sociólogo da escola realista: “By authority, we mean the established right, within any social order, to determine policies, to pronounce judgements on relevant issues, and to settle controversies, or, more broadly, to act as leader or guide to other men. When we speak of an authority we mean a person or body of persons possessed of this right. The accent is primarily on right, not power. Power alone has no legitimacy, no mandate, no office. Even the most ruthless tyrant gets nowhere unless he can clothe himself with authority” (1947: 82-83).

O problema da temporalidade e da (multi)dimensionalidade traduz assim um obstáculo

epistémico com particular relevo na área da ciência política15, cuja autonomia disciplinar é

justificada precisamente pela problemática do poder, reconhecido de forma unânime como o pilar estruturante dos fenómenos políticos e, por conseguinte, numa perspectiva stricto sensu, como um denominador comum desta área de conhecimentos.

Neste contexto, entende-se pois as preocupações metodológicas de Balandier (1969: 20-28) para reclamar o reconhecimento científico da abordagem antropológica no campo da ciência política, ao estabelecer desde logo um conjunto multidimensional de matrizes de orientação teórica, designadamente a genética, a funcionalista, a tipológica, a terminológica, a estruturalista e a dinamista. Não cabe aqui discuti-las em pormenor, se bem que determinados aspectos de algumas delas serão convocados para este debate.

Acresce o fenómeno da chamada “falta de autenticidade” do poder que nos remete para o paradoxo entre a realidade formal e a realidade material e para o problema do “poder normativo dos factos”, o que, na prática, constitui uma segunda barreira epistemológica a merecer sérias reservas metodológicas. Dito de forma simples, trata-se do fenómeno da

                                                                                                                         

14   Basta recordar que a força normativa da esfera religiosa e do mundo da magia (o domínio do ritual e do

simbólico), e das respectivas funções identitárias, ditas étnico-religiosas, e repercussões na vida das sociedades africanas, das mais “tradicionais” às mais “modernas”, raramente são objecto de análise nos modelos teóricos da filosofia política e da ciência política, dois ramos do saber que, como sucedeu com muitos outros, permaneceram confinados ao “provincianismo ocidental” que dominou o conhecimento durante o longo monólogo africanista até à afirmação da autonomia multidisciplinar dos estudos africanos. A expressão “provincianismo ocidental” é do sociólogo francês Raymond Aron (1991), um dos primeiros autores a insurgir-se contra esta cumplicidade histórica, que Balandier virá também a denunciar.  

15  A problemática do tempo histórico e do tempo estrutural, à qual Balandier (2014) se refere ao inscrevê-los no

institucionalização do modelo de conduta real, preconizado na realidade, que não coincide com o modelo normativo adoptado pelo poder, isto é, expresso pelo direito positivo. Ao institucionalizar-se, pela força reiterada da sua prática, o modelo de conduta real adquire força normativa, embora virtual, porque é aceite sem oposição, apesar de não estar legalmente

enquadrado16.