Preços Médios Observados CEAGESP
O C OOPERATIVISMO : H ISTÓRIA E F ORMAÇÃO DE C OOPERATIVAS
3.3. Bases para o Cooperativismo
3.3.1. Princípios e Características das Sociedades Cooperativistas
Os princípios básicos e fundamentos de Rochdale são os mesmos que ainda hoje direcionam e norteiam o cooperativismo praticado universalmente. Naquela época, os pioneiros de Rochdale estabeleceram os “Princípios do Cooperativismo”, ou seja, as linhas, que de certa forma, são orientadoras da prática cooperativista no mundo inteiro.
Os objetivos registrados nos estatutos de Rochdale eram visionários, ainda que modestos: abrir um armazém comum; comprar ou construir casas para os que quisessem se auxiliar mutuamente; fabricar artigos com o objetivo de proporcionar trabalho aos membros desempregados ou com salários insuficientes; organizar a produção, a distribuição e a educação no seu próprio meio e com seus próprios recursos; auxiliar outras cooperativas e até propagar a abstinência24. (Carvalho, 2000 – pág. 53)
Podemos refletir sobre o texto registrado por Carvalho, e compreender a abrangência, não só econômica da associação de pessoas, mas o caráter social e de compromisso mútuo estabelecido por este tipo de sociedade. Através do auxílio mútuo encontrado na cooperativa podemos satisfazer necessidades básicas das mais diversas grandezas, viabilizando, muitas vezes, da alimentação até a moradia própria de cada membro associado.
Estes princípios após sucessivos congressos da ACI (Aliança Cooperativa Internacional), foram discutidos, reformulados e aperfeiçoados, e atualmente são os seguintes25:
• Adesão Voluntária e Livre: As cooperativas são organizações
voluntárias, abertas a todas as pessoas aptas a utilizar os seus serviços e assumir as responsabilidades como membros, sem discriminação de sexo, raça, classe social, opção política ou religiosa;
• Gestão Democrática pelos Membros: As cooperativas são
organizações democráticas, controladas pelos seus membros, que participam ativamente na formulação de suas políticas e na tomada de decisões. Os associados, reunidos em assembléia, discutem e votam os objetivos e metas do trabalho conjunto, bem como elegem os representantes que irão administrar e fiscalizar a sociedade. Cada associado representa um voto, não importando que alguns detenham mais cotas do que outros.
• Participação Econômica dos Membros: Os associados contribuem
eqüitativamente para formação do capital das suas cooperativas e controlam-no democraticamente. Se a cooperativa é bem administrada
24 Carvalho, 2000 – pág.53.
e obtém uma receita maior do que as despesas, esses rendimentos (sobras) serão divididos entre os associados, proporcionalmente às operações por eles efetuadas, salvo deliberação ao contrário, da Assembléia Geral dos Associados. Parte ou toda a “sobra” poderá ser destinada para investimentos na própria cooperativa ou para aplicações, sempre de acordo com a decisão tomada na Assembléia Geral.
• Autonomia e Independência: As cooperativas são organizações
autônomas, de ajuda mútua, controladas pelos seus membros. Se estas firmarem acordos com outras organizações, incluindo instituições públicas, ou recorrerem ao capital externo, devem fazê-lo em condições que assegurem o controle democrático pelos membros e mantenham a autonomia das cooperativas.
• Educação, Formação e Informação: As cooperativas promovem a
educação e a formação de seus membros, dos representantes eleitos e dos trabalhadores de forma que estes possam contribuir eficazmente, para o desenvolvimento de suas cooperativas; informam o público em geral, sobre a natureza e as vantagens da cooperação organizada, estimulando o ensino do cooperativismo. É objetivo permanente da cooperativa destinar ações e recursos para formar seus associados, capacitando-os para a prática cooperativista e para o uso de equipamentos e técnicas do processo administrativo e gerencial.
• Intercooperação: Para o fortalecimento do cooperativismo é importante
que haja intercâmbio de informações, produtos e serviços, viabilizando o setor como atividade sócio-econômica. As cooperativas servem de forma mais eficaz os seus membros e dão mais força ao movimento cooperativo, trabalhando em conjunto, através das estruturas locais, regionais, nacionais e internacionais.
• Interesse pela Comunidade: As cooperativas trabalham para o bem
estar e o desenvolvimento sustentado das suas comunidades, através de políticas aprovadas pelos membros e execução de programas sócio- culturais, realizados em parceria com o governo e outras entidades civis.
O aspecto ideológico assume grande importância no processo de construção da cooperativa, se constituindo, talvez, na principal característica deste tipo de sociedade. A ideologia constitui um poderoso fator dinâmico, porque esclarece as situações, dá sentido à ação e introduz segurança. A ideologia é um convite ao “nós”, induzindo a formação de um grupo ou movimento no qual as pessoas se identificam e propõe uma ação comum.
Segundo Dias & Silveira26, “a ideologia não somente expressa juízos de fatos, mas também juízos de valor, aponta objetivos, indica os meios a alcançá- los, mostra o processo a seguir, desenha um futuro possível e suscita novas esperanças. A doutrina cooperativa não é uma imposição, mas um apelo à mudança na maneira de pensar e o comportamento da atividade econômica e social, que nos leva a uma sociedade e a um sistema econômico alternativo, mais solidário, justo e autônomo, democrático e participativo.”
O grande caminha para a auto-suficiência e o pequeno precisa se organizar, pois o processo comercial que cada vez mais envolve o pequeno tende a deixá-lo ao sabor das decisões tomadas pelos grandes agentes econômicos interessados.
E a cooperativa, talvez seja, a melhor forma para fazer frente a este processo. Para isso é importante que as pessoas que fazem parte de uma cooperativa, sejam parceiros da cooperativa, pis esta não sobrevive sem a participação do associado. Onde quando não está bom ele corre para a cooperativa e ao contrário quando o mercado lhe é favorável, o associado por alguns centavos ele acaba não participando do processo.
Então eu entendo que a solução para o pequeno é a cooperativa. Uma cooperativa séria, transparente, mas que principalmente tenha participação do associado. É neste momento que se forma o sucesso da cooperativa, através da participação do associado e da confiança deste, em quem está na direção da cooperativa. (Ângelo Pegoraro27)
Portanto, esta forma de organização não obedece aos parâmetros convencionais, encontrados na maioria das empresas que nos cercam, mas trata- se de uma nova forma de visualizar e enfrentar os obstáculos que são comuns há
26 Jacira Dias e Giane Silveira, Educadoras da Fundação Solidariedade, Porto Alegre-RS (Jornal
Mundo Jovem – 2001, pág.11)
27 Sr. Ângelo Pegoraro, Prefeito Municipal de Vacaria e Presidente da Cooperativa Tritícola Mista
vários indivíduos, que em cooperação se associam e os enfrentam, por vezes encontrando soluções.
Para Dias & Silveira (2001), esta forma de empresa possui algumas características fundamentais, das quais podemos citar, com o objetivo de melhor distinguí-las.
A variabilidade do capital social, representado por cotas-partes, que obedecem a uma limitação do número de cotas-partes do capital para cada associado (menos de 1/3 do capital total), facultado, porém, o estabelecimento de critérios de proporcionalidade ao movimento financeiro de cada associado, se for considerado melhor para o cumprimento dos objetivos sociais; Estas cotas-partes do capital possuem inacessibilidade a terceiros, estranhos à sociedade cooperativa;
Outra característica, muito referenciada é a singularidade do voto (cada associado, um voto), onde cada associado tem direito à voz e a voto, independente do número de cotas partes que possuir. Podendo as cooperativas centrais, federações ou confederações de cooperativas, a exceção das que exercem atividades de crédito, operar pelo critério da proporcionalidade;
Diferentemente das empresas tradicionais, o “Quorum” para funcionamento e deliberação da Assembléia Geral, baseado no número de associados presentes e não no capital;
A autogestão, com participação direta dos associados em todas as etapas do processo de administração e tomada de decisão. Cada um deve assumir responsabilidade solidária com o grupo, desde a escolha do local, elaboração participativa dos projetos, administração dos recursos, etc. Portanto os direitos e deveres de todos os associados são os mesmos (nas decisões, nos compromissos e nos serviços prestados pela cooperativa) e a neutralidade política e indiscriminação religiosa, racial e social. Portanto marca então a ausência de qualquer forma de discriminação
O retorno das sobras líquidas do exercício – no caso os “lucros”, pertencem aos cooperados e podem ser aplicados para o desenvolvimento da cooperativa através de serviços comuns ou distribuídos aos associados. Esta distribuição pode ser efetuada conforme a participação econômica do associado, ou proporcionalmente às operações realizadas pelo associado com a cooperativa, salvo deliberação em contrário da Assembléia Geral. Desta forma se aumentam
os rendimentos dos associados, adicionando valor ao volume de produto trabalhado, entre o cooperado e cooperativa.
A prestação de assistência técnica, educacional e social aos associados e, quando prevista nos estatutos, aos empregados da cooperativa, visando buscar melhorias sociais aos associados e comunidade, e é uma importante característica das cooperativas, pois possibilita acesso a diferentes serviços, que são oferecidos a toda cooperativa;
A ocupação de espaços de mercado por cooperativas vem se mostrando outra forte característica que é a disciplina ou o afastamento da ação dos intermediários, defendendo desta forma o preço justo dos produtos nos mercados, o que vem em benefício tanto do produtor quanto do consumidor.