• Nenhum resultado encontrado

Procedimentos para o tratamento e para a análise das informações

3. Método

3.5. Procedimentos para o tratamento e para a análise das informações

A etnografia é uma metodologia empregada para acompanhar o cotidiano e a forma como os sujeitos atribuem sentidos às suas atividades em contextos específicos. Ela se caracteriza por estudos longitudinais, mais ou menos longos, recorrendo à observação direta (Vienne, 2005 e Anderson-Levitt, 2006).

Como esta pesquisa se baseia nos pressupostos de Vygotski (1995 e 2000) para uma perspectiva histórica e social do psiquismo humano, para compreendê-lo é importante localizar as condições concretas de vida do(s) sujeito(s) investigado(s), segundo suas particularidades culturais. Assim, este trabalho segue a tendência dos estudos que recorrem aos princípios da etnografia e que se pautam na perspectiva histórico-cultural visando captar “[...] a coreografia nas ações coletivas, com foco especial na dinâmica interativa, de modo a se poder tecer fios invisíveis entre protagonistas de um dado evento” (SMOLKA & GOES, 1997, p. 11).

Ao destacar a prática discursiva no contexto escolar, tais estudos consideram igualmente como fundamentais “[...] a teoria e a prática no contexto educacional, articulando as dimensões micro-(cotidiano) e macro-(relações estruturais e funcionais) da instituição escolar” (SMOLKA, 1991, p. 52).

A análise do discurso realizada a partir dos fundamentos teóricos de Vygotski (2000) e Bakhtin/Volochínov (1999) levou em consideração a materialidade discursiva expressa no enunciado concreto dos sujeitos em relação.

As condições de produção e os sentidos produzidos nos discursos e nos textos escritos foram evidenciados procurando articular as várias dimensões que atuam na produção destes sentidos.

61 O objetivo inicial era realizar apenas dois níveis de análise: o macroscópico, visando conhecer a realidade da comunidade e da escola no contexto geral, utilizando para tal as informações referentes à cultura lúdica da população local entre duas gerações; e o

microscópico, visando analisar as situações do brincar na brinquedoteca.

Porém, dada a riqueza, a complexidade e a ambigüidade das informações coletadas, decidiu-se criar um nível intermediário de análise, o mesoscópico, que visa explicitar e compreender os sentidos produzidos em relação ao brincar e à brinquedoteca para, posteriormente, compreender os seus ecos no cotidiano escolar.

Essa opção decorreu também da grande quantidade e variedade de informações recolhidas no período das observações, exigindo recursos metodológicos diferentes para cada nível de análise. Vejamos cada um destes níveis:

A análise macroscópica, para a compreensão do contexto da pesquisa e da cultura lúdica da população local que freqüenta a escola. Para isto, foram levadas em consideração as informações obtidas sobre a comunidade, as famílias e as crianças, através da análise de documentos e de fichas dos alunos, bem como de questionários enviados às famílias das crianças que freqüentavam a escola. Estes foram ordenados e categorizados em gráficos.

A análise mesoscópica, para a compreensão das significações produzidas em relação ao brincar e à brinquedoteca, no contexto escolar, para saber como estas influenciavam na organização e na expressão do brincar. Para tanto, foram analisadas informações advindas de documentos da escola, da observação do seu cotidiano, da participação em reuniões e, sobretudo, de entrevistas realizadas com a equipe pedagógica da escola.

E, finalmente, a análise microscópica, para a compreensão do que se passa e como se passa o brincar na brinquedoteca escolar. Para isto, foram analisadas informações obtidas por meio de observações descritas no diário de campo e via filmagens. O programa informático Transana 2008 foi utilizado como ferramenta para a transcrição dos episódios selecionados para as análises.

A elaboração de tabelas serviu como um recurso metodológico que possibilitou uma visão aglutinadora de informações e de categorias que foram aparecendo e sendo analisadas ao longo da pesquisa. Estas podem ser encontradas nos (anexos de 7, 8, 9, 10 e 11).

Integrar estes diferentes focos para olhar a complexidade da realidade pesquisada foi um dos princípios que guiou as análises. Para analisar as informações foi utilizado o

62 método de análise de indícios proposta por Ginzbourg (2007 e 1980) e a análise de discurso com base nas contribuições do círculo de Bakhtin.

No que diz respeito à análise microscópica, feita a partir de episódios, as trocas discursivas caracterizadoras das relações sociais foram enfatizadas através de detalhes de situações observadas.

O recorte de episódios interativos consiste

[...] em uma forma de conhecer que é orientada para minúcias, detalhes e ocorrências residuais, como indícios, pistas, signos de aspectos relevantes de um processo em curso (...) centrados na intersubjetividade e no funcionamento enunciativo-discursivo dos sujeitos; e que se guia por uma visão indicial e interpretativo- conjetural (GÓES, 2000 a, p.21).

Através dessa análise busca-se descrever e analisar o “como acontece” e não somente o “que acontece”, e vem sendo utilizada nos estudos psicológicos e educacionais, com destaque para as pesquisas de Pino (1996, 2005), Góes (1993, 1997, 2000 e 2000a), Smolka (1991), Smolka e Nogueira (2002), Meira (1994) e Zanella (1997).

Depois do processo de descrição e de categorização das informações fornecidas pelas filmagens, os episódios selecionados foram transcritos visando uma descrição detalhada dos enunciados, dos movimentos e expressões gestuais dos sujeitos em relação, a fim de gerar interpretações plausíveis dos micro-processos envolvidos na atividade. Eles são constituídos por turnos (Smolka, 1991) resultantes dos enunciados dos sujeitos durante as interlocuções42.

Porém, é importante salientar que os episódios escolhidos são recortes do fluxo de interações num contexto específico, e assim não esgotam a complexidade do processo analisado.

É tarefa das análises adentrarem na complexidade dos dados empíricos. Estas, conjuntamente com a interpretação teórica, devem possibilitar uma reelaboração da perspectiva teórica assumida e uma compreensão mais ampla e elaborada do real.

Os indicativos de análise foram as falas e as expressões gestuais depreendidas no decorrer das atividades lúdicas, considerando-se:

-as atividades que acontecem;

42. Devido às questões éticas, os nomes de todos os sujeitos envolvidos na pesquisa são fictícios. No anexo 14, encontra-se uma lista com os nomes que foram atribuídos aos adultos envolvidos na pesquisa e suas correspondentes funções na escola.

63 -como acontecem; as características das relações entre as crianças e a relação destas com os materiais lúdicos nas negociações referentes a jogos, brinquedos, brincadeiras, fantasias e espaços compartilhados, levando em consideração os lugares sociais, as relações de gênero, as emoções e afetos, e processos de criação.

-mediação/intervenção dos adultos e como as crianças reagem a essas intervenções;

-experiências e aprendizagens possíveis