II. CONSIDERAÇÕES PRELIMINARES
3. Processo
3.1 Classificação tradicional do processo
3.1.2. Processo de execução
O termo execução “significa a adequação do que é ao que deve ser: o juízo faz conhecer o que deve ser; se o que deve ser não é conforme com o que é, necessita-se da ação para modificar o que é no que deve ser; nesse sentido, já que logicamente a ação pressupõe o juízo, tal ação aparece como algo que vem depois (ex-sequitur) e se resolve em um cumprimento”93.
Segundo Chiovenda, execução processual:
“é a atuação prática, da parte dos órgãos jurisdicionais, de uma vontade concreta da lei que garante a alguém um bem da vida e que resulta de uma verificação; e conhece-se por execução o complexo de atos coordenados a esse objetivo.”94
A finalidade do processo de execução, na concepção clássica, é atuar praticamente a norma jurídica concreta que disciplinou a situação em litígio, quando da discussão no processo de conhecimento, à exceção, naturalmente, dos processos executivos embasados em título extrajudicial.95
A preocupação da doutrina moderna volta-se para a busca de mecanismos jurídicos capazes de dar ao processo de execução a efetividade que dele se espera. A demora da entrega da prestação jurisdicional é sentida em qualquer processo, seja de conhecimento, cautelar ou executivo. Não há como discordar, entretanto, que “para os usuários da tutela jurisdicional talvez seja mais frustrante
93 Francesco Carnelutti, “Instituições do processo civil”, vol. 1, trad. Adrián Sotero de Witt Batista, Servanda,
1999, p. 21..
94 “Instituições de direito processual civil”, trad. Paolo Capitano, Bookseller, Campinas: 1998, p. 346. 95 Zaidem Gerage Neto, “O processo de execução no Brasil e alguns tópicos polêmicos”, in “Processo de
execução e assuntos afins – v. 2”, Sérgio Shimura e Teresa Arruda Alvim Wambier (coord.), São Paulo: RT, 2001, p. 749.
essa demora quando referida ao processo de execução”, conforme observado por Donaldo Armelin.96
Outra característica que não se deve negligenciar é a presença de atividade cognitiva também no processo de execução. Conforme ressaltado por Kazuo Watanabe, “inexiste ação em que o juiz não exerça qualquer espécie de cognição; até mesmo na ação de execução por título judicial, o juiz é ‘seguidamente chamado a proferir juízos de valor’”.97
Durante o curso do processo de execução o juiz aprecia e decide diversas questões, como aquelas atinentes à penhora (oferecimento de bens, sua penhorabilidade), à higidez do título executivo, ao excesso de execução (adequação da penhora ao valor do crédito) etc. Aliás, as matérias argüidas pelo executado visam, muitas vezes, a levar o juiz a proferir sentença de extinção do processo de execução, o que é atividade cognitiva (ex: quando o executado alega ilegitimidade, impossibilidade jurídica do pedido etc.).
Processo de execução tem mérito, malgrado a dissensão doutrinária existente.98 O mérito da execução é a satisfação do credor, que é realizada no mundo empírico. Assim, o processo de execução não está voltado ao julgamento de mérito; isso não impede, contudo, que ele exista ou mesmo que haja cognição. E não se trata do conhecimento realizado nos embargos de executado, que, como se sabe, constituem outro processo, de natureza cognitiva.
96 “O processo de execução e a reforma do Código de Processo Civil”, in “Reforma do Código de Processo
Civil”, Sálvio de Figueiredo Teixeira (coord), São Paulo: Saraiva,1996, p. 680.
97 “Da cognição no processo civil”, 2a. ed., São Paulo: Central de Publicações Jurídicas, 1999, p. 37.
98 “É um preconceito que leva a pensar que o mérito seja idéia inerente e exclusiva do processo de
conhecimento, não guardando pertinência com o executivo. (...) Há o mérito, representado pela pretensão executiva deduzida mediante a demanda inicial. (...) O que é certo que não há ali é a sentença de mérito.” (Cândido R. Dinamarco, “O conceito de mérito em processo civil”, in RePro 34, São Paulo: RT,1984, pp. 36 e 37.)
Não se deve ignorar, também, a presença, no processo de execução, das garantias processuais, como o contraditório e a ampla defesa. Afinal, reconhecida a natureza jurisdicional da execução99, assim como assentada sua natureza de processo judicial, há que haver contraditório no processo de execução por força de imposição de norma constitucional (art. 5o., LV, da Constituição Federal de 1988). E, malgrado certa discrepância de parcela da doutrina, que insistia em negar a existência de contraditório, ou em considerá-lo “excepcional”100, efetivamente ele também orienta a conduta do juiz no processo de execução.
Direito ao contraditório que, como se sabe, envolve informação (dar-se ao executado conhecimento da ação e dos atos processuais) e possibilidade de
reação. As intimações do executado e a admissão, por exemplo, de defesas
incidentais como a objeção de não-executividade, constituem exemplos de contraditório no processo de execução.
O contraditório no processo de execução, segundo majoritária doutrina, seria “eventual”, “parcial” ou “atenuado”. Afirma-se não existir, no processo de execução, contraditório com a mesma presença que se observa no processo de conhecimento, porque na execução parte-se de uma certeza de direito (ainda que relativa) que constitui exatamente o objeto do processo de conhecimento.
Há, por outro lado, quem não veja restrições ao contraditório na execução. Afinal, somente se poderia restringir o contraditório na execução caso houvesse na lei alguma limitação à informação dos atos executivos ou à reação a eles, de modo que é correta a conclusão de Paulo Lucon:
99 Em sentido contrário, sustentando a natureza jurissatisfativa da execução, por se tratar de atividade
meramente conseqüêncial, v. Celso Neves, citado por Kasuo Watanabe (ob. cit., p. 39).
100 Mandrioli, Frederico Marques, Tarzia, Moacir Amaral dos Santos, entre outros, cf. Sandro Gilbert
Martins, “A defesa do executado por meio de ações autônomas – defesa heterotópica”, São Paulo: RT, 2002, nota 67, pp. 52-54.
“Importa reconhecer, portanto, que o contraditório terá a intensidade vinculada ao modelo constitucionalmente traçado para o processo, não apresentando, em sede executiva, limitação alguma. Daí parece correto assinalar que o contraditório na execução se apresenta de forma plena – e, se assim não for, o processo é nulo –, tendo as partes ampla informação e poder de reação aos atos executivos, mesmo que esse momento seja posterior à realização dos atos ou das decisões e mesmo que essa reação, por vezes, também tenha restrições quanto à verticalidade da cognição”101.
Embora se reconheça a existência de atividade cognitiva, de contraditório e de mérito, não há coisa julgada no processo de execução. É que seu resultado se dá, normalmente, no mundo fático, quando ocorre a satisfação do direito.102
Não é a sentença do art. 795 do CPC que realiza a finalidade substancial do processo de execução – ou seja, a satisfação (que é atingida por atividades realizadas no mundo empírico). Essa sentença tão-somente declara a extinção da obrigação satisfeita103, com efeitos ex tunc.104
Afasta-se o reconhecimento de coisa julgada material porquanto ela é “reputada, como realmente deve ser, atributo da sentença de mérito, isto é, a que acolhe ou rejeita o pedido do autor”, de modo que “a coisa julgada não se faz presente no processo de execução, no qual a lide não é composta pelo
101 Paulo Henrique dos Santos Lucon, “Execução, condições da ação e embargos do executado”. In:
“Processo civil - Evolução 20 anos de Vigência”, José Rogério Cruz e Tucci. (Org.). São Paulo: Saraiva, 1995, p. 214; Carlos Alberto Carmona, “Em torno do processo de execução”, in “Processo civil - Evolução 20 anos de Vigência”, José Rogério Cruz e Tucci. (Org.). São Paulo: Saraiva, 1995, p. 17; Sandro Gilbert Martins, ob. cit., pp. 57/59.
102 Para Sandro Gilbert Martins, no entanto, se na execução há mérito, “é forçoso reconhecer que a sentença
que extinguir o processo nos termos do disposto nos arts. 794 e 795 do CPC deve ser considerada sentença de mérito” (ob. cit., p. 131).
103 E, no rigor da técnica legislativa, seriam desnecessários os incisos do art. 794, pois “bastaria estabelecer
que a execução se extingue quando se extingue a dívida exequenda...” (José Carlos José Carlos Barbosa Moreira, “Notas sobre a extinção da execução (o art. 794 do Código de Processo Civil em confronto com suas fontes históricas”), in RePro 71, p. 10/11.
104 Leonardo Grecco, “O processo de execução”, v. 1, p. 242, apud Sandro Gilbert Martins, ob. cit., nota 101,
pp. 131/132. No mesmo sentido, José Miguel Garcia Medina, “O art. 795 do CPC”, in RePro n. 88, São Paulo: RT, 1997, pp. 239/251.
julgamento e sim pela satisfação da pretensão do credor”.105 Ademais, para que exista coisa julgada material é necessário que tenha havido cognição plena e exauriente, o que não ocorre no processo de execução, no qual a cognição é rarefeita.