6.1 A ESCOLA ENQUANTO ORGANIZAÇÃO
6.1.2 Processos decisórios e hipocrisia organizacional
Os processos decisórios são aspectos amplamente discutidos na literatura sobre as organizações (NÓVOA, 1995; MORGAN, 1996; ENRIQUEZ, 1997; KANAANE, 1999; BRUNSSON, 2007), principalmente como aspecto decisivo da qualidade do clima, como se vê no capítulo dos resultados. Decidir significa resolver, deliberar, determinar, é o que acontece a todo instante dentro das organizações, sendo, assim, atividade crucial para a eficiência delas. Por se tratar a organização de um conjunto de interações humanas, está sujeita a condições internas e externas, isto é, a conflitos, divergências de valores, diferenças de convivência que acabam por gerar desentendimentos e atos de violências, comprometendo a “saúde” da organização como um todo (MINAYO, 1994). Cabe aos seus gestores saber “conduzi-la” para os resultados que querem produzir.
Para Nóvoa (1995), a modernização do sistema educativo passa pela sua descentralização e pelo investimento nas escolas como lugares de formação. As escolas têm de adquirir uma grande mobilidade e flexibilidade, incompatível com a inércia burocrática e administrativa que as tem caracterizado. O poder decisório deve estar mais próximo dos centros de intervenção, responsabilizando diretamente os atores educativos.
Tratar dos processos decisórios na organização escolar remete às metáforas analisadas por Costa (1996), já que se trata de um processo que ocorre dentro da organização (arena
política), que está hierarquicamente submetida a outros órgãos cujas ações burocráticas
devem seguir. As decisões ou escolhas deveriam envolver os diferentes indivíduos (democracia) que compõem a cultura da organização, para conseguir garantir a ordem necessária ao espaço escolar (anarquia), de modo a controlar a sua efetividade (noção de
empresa). Estas imagens organizacionais estão consubstanciadas na literatura sobre as
organizações por outros pesquisadores (NÓVOA, 1995; MORGAN, 1996; ENRIQUEZ, 1997; LIMA, 2008).
A organização escolar é encarada como uma instituição dotada de autonomia relativa, como um território intermediário de decisão no domínio educativo, que não se limita a reproduzir as normas e os valores do macrossistema (SILVA, 2001), mas que também não pode ser entendida exclusivamente como um microuniverso dependente do jogo dos atores sociais em presença (NÓVOA, 1995). Analisando melhor a organização escolar, nela verifica- se uma série de contradições em sua estrutura organizacional e suas ações. Prega a democracia e não age como tal. As decisões algumas vezes não são tomadas coletivamente, criando uma gestão centralizada, quando muitas vezes se sente sobrecarregada e se queixa de não dar conta dos problemas, já que não tem a participação dos pais, dos responsáveis e da comunidade. Prega a liberdade e age com repressão. Assim, a organização escolar, isto é, os seus decisores, encontram-se num enorme vazio em que tenta dar conta de seus problemas, pregando uma coisa e agindo de outra forma.
Essas e outras incoerências resultam da chamada hipocrisia organizacional, assim denominada por Brunsson (2007). A hipocrisia organizacional é justificada pela necessidade de sobrevivência e funcionamento da organização e decorre essencialmente da necessidade de legitimidade delas. Entretanto, esse conceito emerge na literatura como um juízo de realidade desprovido de sentido pejorativo ou moral. Tais contradições já foram anteriormente tratadas por outros autores, sob outras perspectivas teóricas como Teixeira (1962) e Sander (1977). Anísio Teixeira (1962), por exemplo, se dedicou a examinar as contradições entre os valores proclamados e os valores reais nas instituições escolares brasileiras. Ao tratar da política educacional, evidenciou o hiato entre o que se preconiza e o que se pratica efetivamente nas escolas, com base nas condições coloniais. Já Sander (1977), ao apresentar o formalismo educacional, referiu-se à discrepância entre as exigências da lei e sua aplicação prática na vida escolar, ou seja, o desacordo entre teoria e prática, entre norma prescrita e conduta real. Isso decorre de a sociedade passar pela condição transicional chamada de prismática. Por sua vez, Brunsson (2007) considera que a hipocrisia organizacional aparece como uma forma de “desatar o nó” existente nos conflitos intergrupais, conferindo à organização flexibilidade para solucionar seus conflitos. Para Costa (2007), a hipocrisia organizacional se dá pelo seu caráter irregular, em que os interesses e ações são desconexos, disjuntivos, ou seja, há uma descoordenação e incoerência entre o discurso, a decisão e ação. Contudo, essa dupla face adotada pela organização constitui uma solução e não um problema, já que ela resulta em vantagens. A hipocrisia organizacional acontece, devido às pressões, às normas e às exigências que ocorrem em seu interior, muitas vezes inconsistentes e contraditórias,
tornando-se, assim, parte da cultura das organizações. Ou seja, a organização apresenta o projeto necessariamente com objetivos e estratégias previstos, entretanto, as ações efetivadas não correspondem às ações anunciadas pelos intervenientes.
Tomando por base as imagens organizacionais (COSTA, 1996, 2007), bem como o conceito de hipocrisia organizacional (BRUNSSON, 2007) verifica-se que a escola está revestida desta dupla face, isto é, sua estrutura organizacional (aspectos legais, burocráticos e políticos) e, por outro lado, as ações para o alcance de seus objetivos, ao mesmo tempo em que lhe foi conferida uma autonomia decretada (BARROSO, 2004). Isso faz perceber que a organização escolar sofre pressões para atender a demandas sociais, muitas vezes contraditórias para dar “conta” à sociedade, que adere a projetos como estratégia, fazendo assim com que ela adote essa postura, por isso mesmo, necessária, legítima e benéfica para o desenvolvimento da organização (COSTA, 2007). Se os segredos do sucesso, segundo Brunsson (2007), são a honestidade e o tratamento razoável, e se pode fingir que isso existe, então dará ilusão do alcance dos resultados. A hipocrisia organizacional acontece porque poucas são as pessoas que acompanham a execução de um projeto ou programa (aplicação de recursos, ações, decisões). Então, essas contradições camufladas entre discursos e ações acontecem para demandas contraditórias do seu meio social, até porque os executores das ações não são os grandes decisores. Portanto, as discussões acerca da hipocrisia organizacional tornam-se fundamentais para se compreender o funcionamento da organização escolar, isto é, o que elas se propõem e o que elas realizam.