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3. Cor e Conservação

3.5 O caso de Lisboa

3.5.2 Projectos de cor em Lisboa

Em Lisboa, a normativa cromática surgiu por volta de 1869 através da reinterpretação de alguns regulamentos higienistas aplicados noutros países europeus. A dicotomia entre a aplicação livre da cor e a sua regulamentação associa-se aos instrumentos de gestão urbanística através de estatutos de âmbito regional e nacional. Os três primeiros regulamentos cromáticos de Lisboa foram: o Código de Posturas da Câmara

Municipal de Lisboa de 1869, o renovado de 1893 a 1926 e o Regulamento Geral da Construção Urbana para a cidade de Lisboa de 1930 a 1936.

Inicialmente a Câmara Municipal de Lisboa criou um Conselho de Arte e Arquitectura que censurava toda a documentação pormenorizada, bem como as pinturas e esculturas a aplicar no espaço público; este Conselho controlou a imagem da cidade e definiu os tons claros como as cores regulamentadas. Em 1936 foi criado o Serviço de Arquitectura da

Câmara Municipal de Lisboa, ao qual todas as intervenções cromáticas e revestimentos de

fachadas se deveriam submeter tecnicamente. As cores permitidas mantinham-se nos tons claros e quando era justificável a Câmara Municipal poderia impor uma cor específica.

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Durante o Estado Novo, iniciou-se um debate em torno da homogeneização cromática de Lisboa; nesse período, segundo o Regulamento Geral da Construção Urbana, a Câmara Municipal de Lisboa desenvolveu o restauro e reabilitação cromática de alguns edifícios da Baixa e da Avenida da Liberdade, repintando-os de amarelo-ocre.

Durante os anos 40 este foi um tema central de discussão em Lisboa. Se por um lado Eduardo de Carvalho defendia a homogeneidade cromática para as zonas de arquitecturas coesas (Baixa e Praça do Comércio) e a policromia para a zonas dissemelhantes (edificados pombalinos); por outro lado Cottinelli Telmo defendia a necessidade e utilidade de um planeamento controlado da cor, reprovando a excessiva aplicação dos amarelos e a obrigatoriedade de esquemas regionais de cor no âmbito do estilo Português Suave.

Já em 1949, numa série de conferências desenvolvidas pelo grupo Amigos de Lisboa – contando com pintores, arquitectos, escritores e jornalistas –, foi novamente posto em debate o tema da cor nesta cidade, questionando-se sobretudo a imposição municipal de colorir a Baixa de amarelo. Este grupo contestou as opções da Comissão Estética da

Cidade de Lisboa (de 1934), que impedia a liberdade cromática e defendia o amarelo-ocre

como a cor de referência, tendo-se apelidado esta iniciativa de “febre amarela”. Nos debates realizados, a querela variava entre o amarelo e o branco, sendo este último preferido pela maioria; um dos casos de excepção foi o do pintor Carlos Botelho que defendia uma Lisboa policromática. Os arquitectos participantes, Cristino da Silva e Paulino Montez, centraram-se nas questões técnicas e projectuais da arquitectura e da cidade, defendendo a aplicação de materiais naturais como forma de colorir genuinamente a cidade. Os pintores Armando de Lucena e Martins Barata sustentaram o branco como a cor indicada para Lisboa, tal como o escultor Diogo de Macedo e os escritores Norberto de Araújo e Gustavo Matos Sequeira, defensores de uma cidade alva e de tons claros. No final do ciclo de conferências, Cristino da Silva e Martins Barata destacaram-se como apologistas dos azulejos para o revestimento e coloração das fachadas de Lisboa. Depois do ciclo ter terminado o debate permaneceu através do jornal Diário Popular, onde frequentemente se publicavam artigos sobre a imagem cromática da cidade.

Toda esta discussão entre amarelo e branco, entre monocromatismo e policromatismo, deu lugar a uma preferência maioritária pelo branco, daí que (teoricamente) esta cor se tenha tornado a referência cromática de Lisboa, tanto para edifícios históricos como para os correntes.

Décadas depois, em 1988, de acordo com os debates em torno do tema A Cidade

79 Nery publicou um artigo intitulado “A cor de Lisboa”, defendendo um ponto de mudança na estratégia de (re)planear cromaticamente as cidades. Este artigo surgiu numa altura em que a capital se preocupava cada vez mais com as questões da reabilitação da cidade, daí que Eduardo Nery tenha questionado a falta de preocupação com as questões da cor. No mesmo documento o autor criticou o facto de (por volta de 1985) se terem substituído os revestimentos tradicionais da cidade pelas novas tintas trazidas com a industrialização, massificando-se a imagem de Lisboa em vez de a qualificar esteticamente. Questionou a ausência de critérios e harmonia na aplicação de cores, bem como a falta de uma reflexão colectiva neste domínio, justificando assim a necessidade de um projecto de planeamento cromático para a cidade, sobretudo nas malhas mais sólidas e nas zonas históricas. Concluiu o seu artigo com uma proposta de intervenção cromática para Lisboa, defendendo uma estratégia baseada em directrizes orientadoras sem impor cores específicas. A sua proposta sustinha-se através de várias etapas: recolha rigorosa das cores dos edifícios e registo das mesmas, pesquisa histórica e cronológica dos materiais de revestimento e cores utilizadas ao longo do tempo, elaboração de paletas cromáticas sintetizadoras, defesa da harmonia da cor como princípio do restauro cromático e compilação das informações recolhidas para posterior utilização pedagógica e industrial.

Com a chegada dos anos 90 a consciência e a importância dada às questões da cor (no domínio dos núcleos históricos e da arquitectura patrimonial) aumentaram substancialmente; neste período o caso prático de referência foi o Projecto Integrado do

Castelo de S. Jorge (fig. 3.10). Embora durante esta década se tenham desenvolvido muitos

debates em torno da relação entre cor e núcleos históricos, muitas das ideias ficaram aquém, registando-se um fraco desenvolvimento prático. Os planos de protecção da zona histórica de Lisboa dedicaram-se muito pouco às questões cromáticas, limitando-se a um levantamento das cores predominantes e à elaboração de um pequeno relatório sobre as percentagens das cores e os tipos de revestimentos identificados.

Figura 3.10: Paleta proposta pelo Projecto Integrado do Castelo (fonte: José Aguiar, Cor e Cidade Histórica)

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Na década de 90 destacou-se ainda a exposição de tema “Lisboa: luz e cor na

cidade europeia”, realizada em 1993 no Instituto Franco-Português pelos coloristas

franceses Annick e Jean Desmier. O material recolhido e analisado na exposição, foi depois compilado e editado (fig. 3.11). Também em 1993 a Câmara Municipal de Lisboa, através da Direcção Municipal de Reabilitação Urbana, promoveu um encontro intitulado “A Cor de

Lisboa”, que se realizou na Sociedade Nacional de Belas Artes e promoveu a reedição dos

textos da Conferência de 1949, dos Amigos de Lisboa.

Um ano depois Lisboa foi escolhida como a Capital Europeia da Cultura e neste contexto criou-se a iniciativa Sétima Colina, na qual o trajecto entre o Largo do Rato e o Cais do Sodré foi reabilitado, requalificando-se a imagem cromática dos edifícios adjacentes a este percurso. Porém a resolução não foi a melhor e os edifícios intervencionados, que deveriam reabilitar a imagem daquele troço de cidade, foram renovados através de desadequadas técnicas e materiais modernos, ignorando-se o testemunho histórico e patrimonial que estes possuíam e prejudicando o ambiente urbano e arquitectónico envolvente. Com esta intervenção os vestígios históricos e as cores características foram removidos e substituídos por opções modernas e particulares, afirmando-se o gosto de cada um contra a importância da opinião colectiva e transformando os edifícios em construções indefesas sem identidade. Pode dizer-se que nesta iniciativa as questões cromáticas foram insignificantemente abordadas, considerando-se a intervenção irresponsável face às características de linguagem arquitectónica dos edifícios. O projecto Sétima Colina poderia ter constituído uma óptima oportunidade para a reabilitação cromática e edificatória do núcleo histórico de Lisboa.

No fundo, durante a década de 90 desenvolveu-se inconsciente e sistematicamente a repintura de edifícios e núcleos históricos de modo incorrecto. A Cordoaria Nacional e o Coliseu dos Recreios são casos exemplificativos; se o primeiro contrariou a relação entre

Figura 3.11: Estudos cromáticos em Lisboa desenvolvidos pelos coloristas Annick e Jean Desmier: fachadas do Campo das Cebolas (fonte: Annick e Jean Desmier, Lisboa: luz e cor na cidade europeia)

81 cor e arquitectura através da fragmentação cromática deste edifício tão uno, o segundo foi intervencionado numa perspectiva moderna e monocromática contra a autenticidade arquitectónica do edificado.

Dada a falta de sensibilidade na recuperação da imagem original dos edifícios e núcleos históricos, subentende-se que nos anos 90 o conhecimento na área da conservação e restauro era pouco consistente. Porém, na segunda metade desta década começaram a estudar-se os materiais e métodos tradicionais para que estes constituíssem um instrumento fulcral na reabilitação e conservação do património arquitectónico e urbano de carácter histórico.

Em 1996 criou-se o Regulamento Municipal das Edificações Urbanas (RMEU) para Lisboa através da Direcção Municipal de Planeamento e Gestão Urbanística, restabelecendo-se a Comissão Municipal de Estética Urbana (CMEU) com o objectivo de orientar a imagem exterior das novas construções. Ao invés de determinar cores particulares para a cidade, esta comissão designou que os elementos de revestimento dos edifícios (materiais ou tintas) deveriam respeitar uma paleta de tons claros e harmoniosos com a cromaticidade da envolvente. Também neste ano foi definida, pela mesma Direcção Municipal, uma proposta de Normas para Acabamentos em Edifícios Existentes nas Áreas

Históricas Habitacionais.

Como defende Michel Toussaint44, no que diz respeito à cor “A cidade capital

continua a pecar pela ausência de estudos sérios, completos, registos sistemáticos, e voga ao sabor dos interesses momentâneos ou de vontades pessoais”.

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