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O projeto para uma psicologia cientifica

No documento MATERNIDADE Experiências traumáticas (páginas 30-35)

3 ESTUDOS SOBRE TRAUMA

3.2 O projeto para uma psicologia cientifica

No texto “Projeto para uma psicologia científic ” (1895), public do somente em 1950, o pai da psicanálise delineou o aparelho psíquico e definiu esboços de vários conceitos que foram mais bem desenvolvidos posteriormente. O texto marca o início da saída de Freud do campo da Neurologia, iniciando uma nova forma de pensar o psiquismo. Já é possível nesse texto vislumbrarmos a noção de trauma uma vez que o delineia como consequência de algo externo ao aparelho psíquico. O

trauma é descrito no Projeto como algo que invade e se instala através da ruptura da b rreir de proteção exercendo “su ção p togênic até muito tempo depois de ocorrido o evento”. (LEJARRAGA, 1996).

O aparelho psíquico seria, então, capaz de transmitir e de transformar uma energia determinada. Freud construiu um pensamento teórico de natureza hipotética, que nega as bases anatômicas iniciando, assim, a elaboração de sua metapsicologia. Consistem nos sistemas phi, psi e ômega. No sistema phi os neurônios são permeáveis à passagem de energia (Q). São neurônios condutores e não retentores de Q, servindo para a percepção, por isso não se alteram a cada nova passagem de Q, mantendo intacta essa função. Estão em contato direto com o mundo externo e recebem os estímulos através dessa fonte, porém são protegidos pelos órgãos dos sentidos que funcionam como telas protetoras que permitem a passagem de apenas frações de Q exógena. No sistema psi os neurônios não são tão permeáveis e podem sofrer modificações pela excitação. A permeabilidade dos neurônios é definida pela resistência das barreiras de contato, ou seja, quanto maior essa resistência, maior a impermeabilidade nesse contato para passagem de Q. Por essas características, esse sistema é definido como um sistema de memória, pois se altera permanentemente com a passagem de energia, deixando marcas ou traços mnêmicos nos neurônios psi. Portanto, percepção (phi) e memória (psi) são funções que se excluem mutuamente (FREUD, 1895). Como explicar, então, no mesmo aparelho, a memória com características de impermeabilidade e a percepção com a noção de permeabilidade? A explicação dada por Freud na época consistiu na teorização de um sistema com características e funções múltiplas. O sistema psi

está relacionado aos estímulos endógenos, sofrendo pressão constante dos mesmos, provocando, através do chamado trilhamento (Bahnungen) ou facilitações, modificações do percurso em determinadas direções e não em outras e que tornam possível o aparecimento da memória como um processo de repetição de percursos facilitados. A repetição de um determinado percurso, ou seja, a memória, vai se dar em função de facilitações que foram deixadas por percursos anteriores. Bahnungen constitui a memória já que ela se faz através das diferentes facilitações ou trilhamentos por onde a Q pode passar. Se todos os caminhos ou trilhamentos fossem igualmente possíveis, ou seja, se a Bahnungen fosse a mesma em todas as direções, não haveria a preferência de um caminho sobre o outro e, portanto, não

haveria memória. Garcia-Roza (2008), parafraseando Lacan, considera que a origin lid de do “projeto” está n noção de Bahnungen:

O recurso a essa noção não nos remete a uma psicologia da aprendizagem que faz do hábito a função básica da aprendizagem. Bahnungen não deve ser entendido como um efeito mecânico do hábito, ele é invocado como prazer da facilidade, e será retomado como prazer da repetição. (GARCIA-ROZA, 2008, p. 137).

A memória concebida nessa época apresenta um dinamismo, à medida que implica uma preferência na escolha dos caminhos. A memória não é uma repetição mecânica. Ela é constituída pela trama das representações (Vorstellungen), ou melhor, de uma articulação significante.

Os processos que ocorrem nos sistemas phi e psi são inconscientes. Para explicar os processos conscientes, Freud definiu o sistema ômega. Os neurônios desse sistema são excitados juntamente com os da percepção (phi) e nos primeiros são produzidas as sensações conscientes de prazer e desprazer. Portanto, os neurônios dos sistemas phi e psi lidam com quantidade de Q exógena e endógena, respectivamente e estariam no pressuposto inconsciente e os do sistema ômega, que tem como característica a percepção ligada à qualidade, estariam compondo o posterior sistema percepção – consciência. Os neurônios ômega se relacionam com os phi e os psi da seguinte forma: recebe estimulo de phi e fornece a psi os signos de qualidade e realidade.

À época já havia um consenso entre a magnitude do estímulo e a resposta desencadeada. A inovação de Freud seria na transposição dessa noção para o campo das psicopatologias. Segundo ele as representações hiperintensas observadas nas neuroses histéricas e obsessivas demonstram a existência de uma quantidade energética excessiva envolvida nesses processos. Porém, houve necessidade de amadurecer o conceito de quantidade para se desenvolver a noção de intensidade, baseado na hipótese econômica do funcionamento psíquico. Há uma tendência do aparelho psíquico a manter constante não a quantidade de energia neurônica (Erregungsgrösse), mas seu nível de intensidade (Erregungssumme), portanto, o seu funcionamento é baseado numa regulação da intensidade energética. É fato que esse momento dos escritos de Freud as terminologias poderiam se mostrar confusas, porém, fica claro que ao citar intensidade, o que se espera é dizer de algo que está sujeito a aumento ou diminuição e que, apesar de

implicar a quantidade, não é redutível a ela. Em certos casos, a intensidade é considerada como expressão qualitativa de uma quantidade. (GARCIA-ROZA, 2008).

O sistema neuronal deve manter as vias de escoamento de energia afastadas da fonte de excitação, ou seja, organizar uma fuga do estímulo. Entretanto, os estímulos endógenos não podem ser liberados pelo aparelho neuronal, da mesma maneira que os estímulos exógenos são através da fuga. Mas a energia endógena tentará sua descarga através dos caminhos motores (semelhantes aos estímulos exógenos) que, não conseguindo totalmente, provocará a chamada alteração interior. Como exemplo disso, presenciamos o choro ou a agitação motora do bebê em situações vivenciadas de intenso desprazer. Nesse sentido, a descarga energética endógena não sendo total, faz emergir a ideia da lei da constância, que vem a ser a tolerância a uma quantidade residual de energia capaz de realizar ações mais específicas para a satisfação dos estímulos internos. Dessa forma, o sistema neurônico procura manter a quota de Q num nível o mais baixo possível ao mesmo tempo em que procura se proteger contra qualquer aumento da mesma, ou seja, a mantém constante. Entendemos, portanto, que a descarga não alivia a tensão de psi, porque o estímulo endógeno persiste e o sistema ômega percebe o desprazer. “Nenhum desc rg pode produzir result do livi nte, visto que o estimulo endógeno continu ser recebido e se rest belece tensão em psi ” (FREUD, 1895, p. 370).

É o que Freud define como Drang e será mais tarde um dos constituintes da elaboração do conceito de pulsão. Por ora o que Freud afirmou é que essas tensões endógenas não eliminadas ou não reduzidas estão ligadas as necessidades corporais ou ao estado de urgência de vida tal como a fome (Not des Lebens).

Nesse caso, o estimulo só é passível de ser abolido por meio de uma intervenção que suspenda provisoriamente a descarga de Q no interior do corpo; e uma intervenção dessa ordem requer a alteração do mundo externo (fornecimento de viveres, aproximação do objeto sexual), que, como ação específica, só pode ser promovida de determinadas maneiras. O organismo humano é, a princípio, incapaz de promover essa ação específica. Ela se efetua por ajuda alheia, quando a atenção de uma pessoa experiente é voltada para um estado infantil por descarga pela via de alteração interna, como, por exemplo, o grito da criança. Essa via de descarga adquire, assim, a importantíssima função secundária da comunicação, e o desamparo inicial dos seres humanos é a fonte primordial de todos os motivos morais. (FREUD, 1895, p. 371).

Os primeiros encontros entre a mãe e seu filho de certo são intermediados por experiências traumáticas que terão conotações estruturantes, contudo, podem se apresentar também de uma forma devastadora infringindo um aspecto danoso. Considerando que nessa situação há uma forma inter-relacional inédita, esse trauma pode se instalar para ambos os lados, o que por vezes explica o quanto a relação mãe-bebê pode se tornar extremamente ambivalente.

No exemplo da criança, que chora e agita os membros quando é tomada pela sensação da fome, há uma descarga motora para alívio dessa tensão, mas ela não é suficiente o bastante para a obtenção do alimento. Porém ela é determinante para que se configure uma demanda que, sendo atendida pelo outro semelhante, introduz o sujeito n troc simbólic É noção de “Nebenmensch” (o próximo), onde lterid de se impõe como tr umátic s intervenções do “Nebenmensch” tem função de amparo e ligação, mas o indivíduo não a detecta de imediato, sendo sempre uma descoberta traumática nos primórdios da vida psíquica (MELLO, 2012, p. 102).

Outra questão importante explicada por Freud através do aparelho neuronal de memória de 1895 é a vivência da dor. Todos os dispositivos de proteção que impedem a passagem de grande quantidade de Q (endógena ou exógena) fracassam quando há a presença da dor. Os estímulos endógenos são os que frequentemente se apresentam como de maior intensidade porque são constantes (pressão continua endógena). “ dor fic ssim c r cteriz d como um irrupção de Q excessivamente grande em phi e psi.” (FREUD, 1895, p. 359).

Além da quantidade, a dor possui também uma qualidade que é dada pelo sentimento de desprazer em ômega. Na vivência da dor a imagem do objeto hostil é reinvestida, surgindo o estado de desprazer que procura uma descarga. Esse estado de desprazer Freud denominou de afeto e não é propriamente a dor. O afeto é decorrente do reinvestimento da imagem do objeto hostil através da repetição daquela percepção (Q de intensa quantidade) que provocou a dor. O afeto é, portanto, a reprodução da vivência da dor ou o desprazer.

Fic notório que no “Projeto” o princípio d inérci possuí verd deir interface com o princípio do prazer, pois evitando o desprazer o aparelho psíquico reduz o estímulo tendendo à inércia. Esse princípio será revisado mais tarde, em 1920, com a lógica do “ lém do princípio do pr zer”, qu ndo Freud percebe que

certas experiências traumáticas podem escapar ao princípio da constância provocando desprazer e compulsão à repetição.

No documento MATERNIDADE Experiências traumáticas (páginas 30-35)