Destacamos o papel da publicidade nos processos eleitorais. Segundo a lei peruana, a publicidade está permitida a partir dos setenta dias antes do processo até dois dias antes das eleições. Lembramos que todos os partidos políticos que participam dos processos eleitorais podem ter cinco minutos de exposição por dia em televisão e rádio. De outro modo, no Brasil, o tempo de exposição para cada presidenciável obedece a um cálculo segundo a representação de cada um dos partidos na Câmara dos Deputados. Por exemplo, Geraldo Alckmin, candidato presidencial pelo PSDB, contou com o maior tempo em relação aos seus opositores, com 5 minutos e 32 segundos por bloco (espaço), e 434 inserções67 no primeiro turno. Jair Bolsonaro (PSL) obteve 8 segundos adicionados a 11 inserções, e o PT (contando
65 O termo refere-se à casa onde mora o libertador espanhol Francisco Pizarro. Também conhecido como Palácio do governo do Peru.
66Decorre do art. 14 e parágrafos da Constituição Federal de 1988 e tem o seguinte conteúdo normativo
que resulta da letra do preceito: (a) o sufrágio é universal e o alistamento obrigatório, (b) o voto é direto, secreto, obrigatório e igual para todos. Por outro lado, implicitamente, denota-se que o voto é, também, pessoal.
com o período em que ainda não estava definido o candidato), dois minutos e 23 segundos e 188 inserções. Para o segundo turno, cada um dos dois candidatos contou com 10 minutos de propaganda eleitoral na mídia, divididos em dois blocos, para que pudessem expressar suas ideias e propostas.
Outra etapa da pesquisa de exploração dos contextos eleitorais foi acompanhar os dias (primeiro e segundo turno) das eleições, procedimento realizado apenas no Brasil, em função do desconhecimento, por parte da pesquisadora, dos meandros das votações neste país. Pelo fato de a pesquisadora ter experiência do processo de votação como eleitora peruana, entendeu-se que não seria necessário realizar o mesmo procedimento naquele país.
Visitamos no primeiro turno o Colégio Anchieta, localizado na Zona Norte da cidade de Porto Alegre/RS. Esse momento teve como objetivo observar os eleitores e comparar os processos eleitorais do Brasil e do Peru. Acompanhamos a rotina de um cidadão brasileiro desde que chega ao centro de votação, nesse caso o Colégio Anchieta, até deixar a instituição. Cada cidadão precisa de um documento de identidade com foto ou título de eleitor e a indicação da zona e da seção eleitoral.
Como experiência, nos direcionamos ao segundo andar da escola, procuramos uma sala de aula e aguardamos na fila. Nesse processo, algumas pessoas falavam em quem iriam votar; as vestimentas dos cidadãos nos sugeriram em qual candidato votariam e sua preferência política, principalmente em função das cores usadas e, mais obviamente, de camisetas de propaganda. Observamos o símbolo da camiseta da seleção de futebol brasileira ou apenas as cores verde e amarelo como sinônimos de apoio ao candidato do PSL. Por outro lado, as pessoas vestidas de branco ou de vermelho estavam mais identificadas com o PT. Na fila percebiam-se muitos sentimentos, de alegria, incerteza e até medo. Alguns comemoravam o triunfo do seu candidato sem mesmo ter algum resultado oficial; outros mantinham a esperança no seu candidato, e outros simplesmente iam para cumprir seu dever de votar, parecendo não prestar atenção aos comentários dos outros. Suspiros, gestos, posturas eram algumas das características que os eleitores manifestaram durante o tempo de observação.
No segundo turno, visitamos a Escola Estadual de 1º Grau Visconde de São Leopoldo, em São Leopoldo/RS. Nessa oportunidade, a escolha era apenas entre os dois candidatos à presidência, e as preferências ficavam mais claras. Diferentemente da primeira escola visitada, nesta havia muitas pessoas fazendo selfies e tirando fotos
com a bandeira do Brasil. Mesmo que seja um símbolo de identidade de todos os brasileiros, destacamos que, durante o primeiro turno, o candidato do PSL adotou esse símbolo como o de sua campanha. As fotos tiradas pelos eleitores com a bandeira eram, segundo os comentários deles, de orgulho, esperança e identidade. Outros dos signos que chamaram a atenção foi ver nas ruas, perto da escola, cidadãos com algum símbolo a favor de um dos candidatos. Além das camisetas verde e amarelo, havia livros, bandeiras do Brasil, bottons nas roupas e adesivos.
Durante o processo de observação nas escolas, tanto em Porto Alegre quanto em São Leopoldo, não fomos testemunhas de brigas nem confrontos entre simpatizantes. Já no Peru, nas eleições que aconteceram em abril e junho de 2016, a pesquisadora participou do processo eleitoral no colégio Santa Rosa de Lima- Maryknoll, em que, para cumprir com seu dever do voto, precisa-se da identidade (DNI)68 e do número de mesa. Após uma espera de aproximadamente 40 minutos, ocorre a emissão do voto através de urna eletrônica. Como comprovação de ter participado no processo, o eleitor deve assinar e registrar a impressão digital na lista de eleitores, enquanto a pessoa encarregada da mesa de votação coloca um carimbo na identidade. Os símbolos mais observados foram as cores dos partidos. Para o candidato do Peruanos Por el Kambio (Pedro Pablo Kuckynski), o amarelo, o azul e o rosa, e para a candidata do Fuerza Popular (Keiko Fujimori), o laranja. Quem estava vestido com estas cores manifestava o seu apoio. Durante a espera na fila, o ambiente estava tenso, as pessoas acompanhavam as notícias através do celular. Tentavam seguir os movimentos dos seus candidatos através das redes sociais. Da mesma forma que a experiência no Brasil, não foi observado nenhum ato de violência no colégio.