Nestas propostas não se ‘essencializa’ o género, não se descuram outras variáveis (ver Figura 1) como a classe e a “raça”, a idade e a etnia, a nacionalidade, a orientação sexual e a capacidade, já que se parte do mesmo princípio que Flavia Dzodan resume eloquentemente quando
pRogRAmA mANuAIS pRopoSTA
A declaração universal dos direitos do Homem • igualdade de direitos e oportunidades (crianças, idosos, mulheres…) • direito à diferença (linguística, religiosa, étnica…) • direito à liberdade de expressão e de culto • figuras emblemáticas na defesa dos direitos e liberdades (NelsonMandela, Mahatma Gandhi, Germaine Greer, Betty Friedan,Martin Luther King…) • … Conviver com a diversidade • Mobilidade e fluxos migratórios • imigração/emigração • refugiados (políticos, religiosos, económicos, étnicos,...) • políticas de imigração Cidadania e Multiculturalismo • respeito pelos direitos humanos (atropelos a esses direitos – áfrica e ásia) • crimes contra os direitos humanos (nazismo/ comunismo) • distinção entre “más políticas” e “boas políticas” • imigração • a união europeia
Cidadanias, Interseccionalidade e Othering • The Universal Declaration of Human Rights, 1948 • The International Convention on the Elimination of All
Forms of Racial Discrimination (ICERD), 1965/69
• The Convention on the Elimination of All Forms of
Discrimination against Women (CEDAW), 1979/81
• The Convention on the Protection of All Migrant
Workers and Members of their Families (CMW),1990
• The Convention on the Rights of Persons
with Disabilities, 2006/08
• The Fourth World Conference on Women: Action for
Equality, Development and Peace, 1995, Beijing, China
• heróis e heroínas (why we need them) • viver (com) a diversidade
• tolerar os intolerantes?
Humanitarianism (“No distinction made in the face of suffering or abuse on grounds of gender, sexual orientation, tribe, caste, age, religion, ability, or nationality”)
New Humanitarianism (war by any other word…)
Multiculturalismo crítico (“direct challenge to liberal
or benevolent forms of multicultural education”)
A Europa
• de quem e para quem?
• as mulheres e o poder (should we be proud of
Margaret Thatcher and Angela Merkel?)
• a crise financeira e os/as jovens • emigração/imigração
• resistência/s
Quadro 3:
12º Ano – CIdAdAnIA E MuLtICuLturALISMo
afirma que: “My feminism will be intersectional, or it will be bullshit – and I’m not interested in bullshit” (citada por Jessica Valenti em 2014)19. Não se ignora que as alunas e os alunos estão na aula de Inglês com opções, motivações e investimentos que podem
19 “O meu feminismo há de ser interseccional, ou será uma treta – e eu não estou interessada em tretas” (Flavia Dodzan, s/d, citada por Jessica Valenti, 2014). Disponível em http://www.theguardian.com/commentisfree/2014/nov/24/when-everyone-is- a-feminist [consultado em 10.01.2015). Tradução da autora.
ser influenciados pelo género enquanto sistema de relações sociais e práticas discursivas, mas não se esquece, igualmente, que a aula de Inglês pode apresentar às alunas e aos alunos ‘outros mundos’ mais livres e iguais. O que se propõe é uma abordagem gender sensitive,
lhe fazer frente, numa perspetiva com muito de situacional já que fará depender as ações pedagógicas e educativas dos tipos concretos de discriminação.
Nestas propostas exploram-se três dos domínios de referência constantes do programa de ensino de Inglês para o ensino secundário: quatro por ano, num total de oito, já que alguns se repetem. Apesar dos objetivos de aprendizagem do programa, positivos e com capacidade de desbravar caminhos e horizontes, nos manuais, a tradução das finalidades e propostas programáticas é, habitualmente, um conjunto de “interesses, preocupações e necessidades” genéricos e “universais”, que poderão dificultar o princípio da abertura de novos horizontes culturais ou, nas palavras de Michael Byram, defendendo uma intercultural competence, definida como “[the] ability to ensure a shared understanding by people of different social identities, and their ability to interact with people as complex human beings with multiple identities and their own individuality”, a possibilidade de as alunas e os alunos aprenderem a ver “relationships between their own and other cultures, (…) acquire interest in and curiosity about ‘otherness’, and an awareness of themselves and their own cultures seen from other people's perspectives.” 21 (2002: 10) De facto, no tema de 10º ano – “Os Jovens na Era Global” e no de 11º ano – “O Jovem e o Consumo”, em Portugal e nos ‘países de expressão inglesa, ser-se jovem é ser- se ‘consumidor’ (de moda mainstream, de tecnologia de informação “I” – ipad, ipod, iphone,
Figura 1.
Fotografia da autora
que Barbara Houston (1985: 131) caracteriza do seguinte modo:
"What differentiates a gender-sensitive
strategy from a gender-free one is that
a gender-sensitive strategy allows one
to recognize that at different times and
in different circumstances one might
be required to adopt opposing policies
in order to eliminate gender bias.”
20 Ou seja, esta perspetiva não se vê como uma matriz genérica a aplicar em toda e qualquer circunstância educativa, uma espécie de ‘sexismómetro’ ou de ‘tira-sexismo universal’, antes chama a atenção para a importância de professoras e professores, alunas e alunos aprenderem a fazer sentido da cultura sexista em que vivem e de, igualmente, aprenderem a como20 “O que distingue uma estratégia sensível ao género de uma isenta de género é que a estratégia sensível ao género permite- nos reconhecer que, em momentos e circunstâncias diferentes, poderemos ter de adotar medidas opostas a fim de eliminar os preconceitos de género” (Barbara Houston, 1985: 131). Tradução da autora.
21 “A capacidade de assegurar um entendimento comum entre pessoas de diferentes entidades sociais e a capacidade destas de interagir com terceiros, seres humanos complexos, com múltiplas identidades e individualidade própria”, “relações entre a cultura própria e as alheias, […] a ganhar interesse e curiosidade sobre ‘o outro’ e uma consciência de si próprias e de si próprios e respetivas culturas, vistas pelas perspetivas de terceiros” (Michael Byram, 2002: 10). Tradução da autora.
de formas muito específicas de cultura de massas, tipo VH1 e MTV e de psicologia simplificada, em torno do mito resiliente do
generation gap), ‘empreendedor’ (finanças
e negócios promissores como business
etiquette consultant) e ‘bem comportado’
(voluntariado transatlântico, subculturas de guião turístico e rebeldia com a generosidade e o risco do tamanho do slogan na t-shirt XS). Urge, então, fazer a mais elementar das perguntas pedagógicas e educativas: porquê? Rotula-se um problema ubíquo, name brand
obsession, por exemplo (numa visão desde
logo eurocêntrica e limitada do universo de falantes de inglês), e reduz-se a análise a uma questão individual, a um defeito de personalidade, a uma ‘característica’ das raparigas e, em menor grau, de alguns rapazes, de imediato ‘suspeitos’. Secundarizada fica, neste caso, a análise crítica do poder dos media e, especificamente, da publicidade, sobre raparigas e rapazes mas, mais uma vez, sobre as raparigas em particular, no processo de glamorização do consumo a que John Berger aludiu nos seguintes termos: “glamour cannot exist without personal social envy being a common and widespead emotion”22 (1972:148). Será fundamental, numa época em que os valores de consumo pautam as relações do quotidiano, investigar pedagogicamente esta realidade, questionando a presença de propaganda a marcas em material pedagógico, e a presença, sem contraditório, de textos que proclamam que “a consumer culture is considered to be the natural product of a healthy, advanced, capitalist society”23 e o facto da ocasional página atenta aos
malefícios do consumismo e da publicidade continuar a ser ilustrada, como as outras, por uma multiplicidade de rostos de raparigas sorridentes.
Neste quadro, é difícil a comparação produtiva com outras realidades, com outros modos de ser jovem: cá como lá. Ou seja, todas as ideias preconcebidas que as alunas e os alunos tinham sobre os seus pares, falantes de inglês e, por comparação, sobre si próprios, poderão sair reforçadas com a autoridade conferida pelo manual.