Revisão bibliográfica Capítulo
Categoria 13 – Qualidade sanitária do ar 13.1 Garantia de uma ventilação eficaz
2.2. Qualidade do ar interno nas edificações
2.2.4. Qualidade do ar interno em ambientes residências
A qualidade do ar interno residencial é cada vez mais reconhecida como um importante determinante da saúde, estando associada aos efeitos agudos e crônicos de saúde. Os poluentes do ar interno, quer se infiltrando a partir do exterior ou produzidos por fontes internas, têm sido associados com uma vasta gama de efeitos na saúde (HÉROUX, CLARK, RYSWYK, 2010). Portanto, há estudos que estabelecem ligações entre a presença de contaminantes no ar dentro das habitações e alguns problemas de saúde dos moradores, sendo que a redução deste tipo de poluição interna deve ser objeto de uma estratégia que implica certo número de medidas, como o controle da fonte poluidora e outras medidas complementares (LAJOIE, LECLERC e SCHNEBELEN, 2007), conforme item 2.3.6.
De acordo com Logue, Mckone, Sherman et al. (2011), muitos ambientes residenciais não atendem às diretrizes baseadas na saúde para níveis de exposição crônicos das substâncias químicas, sendo que as orientações destas diretrizes ainda são excedidas em uma minoria considerável de casas. Enquanto que Dingle e Frankling (2002); Park e Ikeda (2006) afirmam que as casas tipicamente novas têm as maiores concentrações de formaldeído e COVs emitidos por materiais de construção ou móveis novos utilizados dentro delas.
As normas e critérios para a qualidade do ar aceitável existem há muitos anos para ambientes internos industriais e ambientes ao ar livre. No entanto, em período mais recente, a atenção geral tem sido atraída para os potenciais perigos que a presença de contaminantes do ar representa para ambientes internos não industriais, que no caso dos edifícios residenciais têm sido notados a partir de vários fatores como:
a) A presença de um conjunto de produtos sintéticos utilizados na construção dos edifícios e na produção de móveis;
b) A utilização de sistemas de aquecimento ou refrigeração, que se não forem instalados ou projetados corretamente podem liberar subprodutos de combustão;
c) O reconhecimento de que a exposição prolongada às concentrações de contaminantes químicos, mesmo que sejam baixas, pode resultar em efeitos tóxicos retardados aos moradores; e
d) A percepção de que uma proporção muito elevada de tempo é gasta dentro de casa pelas pessoas.
De acordo com as diretrizes traçadas pelo Centro de Controle de Doenças e Presevenção e pelo Departamento de Habitação e Desenvolvimento Urbano dos Estados Unidos (CDC, 2006), os poluentes atmosféricos gerados dentro de uma habitação fazem parte de três categorias:
a) Aqueles formados em processos de combustão;
b) Aqueles derivados de materiais de construção e móveis;
c) Aqueles relacionados às atividades humanas, animais ou vegetais.
As concentrações de contaminantes da primeira e última categoria tendem a variar com o tempo; as concentrações da segunda categoria tendem a ser mais constantes, principalmente se as taxas de troca de ar permanecerem constantes. A seguir, estas categorias serão melhor definidas.
2.2.4.1. Processos de combustão
Os fornos e outros aparelhos de combustão podem ser fontes de poluentes internos, como o monóxido de carbono, especialmente se eles não passarem por manutenção rotineira ou não forem devidamente ventilados. Por isto, os contaminantes gerados devem ser liberados para o exterior, sendo que o vazamento e mau funcionamento desses aparelhos podem causar emissões para o interior. Contaminantes associados com fogões e lareiras incluem monóxido de carbono, óxidos de azoto e de enxofre, aldeídos, hidrocarbonetos aromáticos e policíclicos. No caso do fogão a gás, é uma grande fonte potencial de subprodutos da combustão e se suas emissões não forem sempre ventiladas, podem contribuir para os níveis internos de monóxido de carbono, óxido de nitrogênio e formaldeído.
Outros aparelhos, como os aquecedores à querosene, utilizados para gerar calor nos espaços domésticos, se não forem ventilados, revelam um potencial para níveis
elevados de novos contaminantes. Em particular, o uso impróprio de querosene com alto teor de enxofre ou de aparelhos mal projetados pode resultar em emissões de óxidos de enxofre, bem como alguns outros subprodutos de combustão anteriormente mencionados.
2.2.4.2. Produtos de construção e mobiliário
Os polímeros sintéticos utilizados em mobiliário e materiais decorativos podem degradar-se lentamente, liberando pequenas quantidades dos constituintes originais
ou subprodutos de reação. Cortinas, tapetes, tecidos, e a grande maioria dos produtos
que contêm fibras sintéticas ou artificiais, são fontes de uma variedade de contaminantes orgânicos e, potencialmente, microbiológicos.
O formaldeído é liberado de laminados de madeira, de placas com partículas e de espumas isolantes de ureia-formaldeído, as quais, possivelmente, são fontes de outros produtos gasosos. Materiais fibrosos como o amianto e a fibra de vidro, presentes em alguns materiais de construção, podem ser liberados para o ambiente interno durante as modificações na estrutura da edificação.
2.2.4.3. Atividades humana, animal e vegetal
A variedade de contaminantes que resulta da atividade humana é extremamente ampla. O tabagismo é uma das principais fontes de poluição humana no ar interior, pois, enquanto os próprios fumantes se sujeitam ao domínio da fumaça, transeuntes podem ser involuntariamente expostos às quantidades significativas de partículas inaláveis, como monóxido de carbono, óxidos de azoto e inúmeros contaminantes orgânicos prejudiciais. Mais de 50 componentes da fumaça do cigarro são conhecidos por causar efeitos adversos para a saúde, sendo 12 deles suspeitos carcinógenos.
A própria atividade metabólica humana influencia na qualidade do ar, reduzindo a concentração de oxigênio e aumentando o nível de dióxido de carbono. A respiração, transpiração e digestão de alimentos adiciona vapor de água, bem como substâncias produtoras de odor para o ambiente interno. Uma grande variedade de agentes biológicos pode estar presente no ambiente interno de uma casa como, por exemplo, microrganismos de pessoas, animais e insetos; além da flora microbiana que pode ocorrer em superfícies úmidas ou em água parada. Há ainda, os restos de pólen,
esporos, células e insetos que estão presentes na poeira proveniente tanto do ar interior como do ar exterior.
Muitas substâncias encontradas no local de trabalho também podem ocorrer no ambiente doméstico, como resultado das atividades de hobby ou artesanato. Além disso, os trabalhadores expostos a produtos químicos no local de trabalho podem trazer estes contaminantes para casa, através de seus vestuários. Em algumas circunstâncias, este pode ser um meio pelo qual quantidades significativas de substâncias potencialmente nocivas são introduzidas no ar interior.
As recomendações para um ambiente doméstico são desenvolvidas levando-se em consideração que as pessoas podem estar em casa até 70% do seu tempo e para alguns segmentos da população, como as crianças, os velhos e os doentes, esse percentual pode ser muito maior. Além disso, alguns indivíduos podem se encontrar em risco especial de poluição do ar interior, que são aqueles cujos processos fisiológicos, ou não, estão totalmente desenvolvidos ou estão se deteriorando, ou para os quais as alterações patológicas ou fisiológicas prejudicam a capacidade de superar os efeitos adversos da exposição a um poluente.
2.2.4.4. Outros produtos
Outras fontes de vários produtos químicos inorgânicos e orgânicos são os purificadores de ar, ceras de móveis, vernizes, produtos de limpeza, tintas, inseticidas, desodorantes e outros produtos frequentemente utilizados nas casas. De acordo com Sack et al. (1992) em torno de 31 COVs, potenciais poluentes do ar interno, foram analisados em um total de 1.159 produtos de consumo doméstico. Entre estes produtos (sendo 14,4% para uso automotivo; 9,2% para limpeza; 39,9% para pintura; 6% para equipamentos de limpeza e 9,6% para lubrificação) foram emitidas substâncias em altas concentrações como hexano, tri-cloroetileno, tetra-cloroetileno, tetracloreto de carbono, entre outros.
Em meio a todas estas fontes de contaminação, uma das soluções que reflete as diretrizes de qualidade do ar interno em habitações é a necessidade de especificar as taxas de ventilação para estes ambientes, como uma das estratégias que pode ser adotada para controlar a presença de contaminantes do ar interno. Outras
possibilidades incluem as especificações para o projeto do edifício, levando-se em conta os seus materiais e produtos de consumo. Em muitos casos, medidas para minimizar a exposição aos contaminantes químicos podem ser tomadas pelos moradores, motivados por uma campanha de educação pública, que pode ser uma importante estratégia para alcançar a qualidade aceitável do ar interior.
Por outro lado, é importante destacar que parte dos poluentes existentes dentro das habitações provêm do ar exterior, devido à troca de ar contínuo entre os ambientes nestas edificações e o meio externo. Os poluentes importantes desta categoria incluem monóxido de carbono, óxidos de nitrogênio, óxidos de enxofre, partículas em suspensão, ozono (e outros oxidantes fotoquímicos) e chumbo (FPACEOH, 1995).
Na tabela 7 são relacionados os principais contaminantes internos em edifícios residenciais e suas fontes.
Tabela 7: Principais contaminantes de ambientes internos e suas fontes.
Contaminantes Principais fontes emissoras Concentrações típicas Alergênicos Poeiras, pelos de animais, partes de insetos ML/ AV Dióxido de carbono Atividades metabólicas, combustão de veículos
motorizados nas garagens 2000 – 3000 ppm Monóxido de carbono Queima de combustíveis (fogões a lenha,
aquecedores a óleo ou a gás), fumo de tabaco e atividades metabólicas
5 – 50 ppm Formaldeído Painéis de partículas, materiais isolantes e
mobiliário, fumo de tabaco 0,01 – 0,5 ppm Microorganismos Pessoas, animais, plantas e sistemas de ar
condicionado ML/ AV
Dióxido de nitrogênio Queima de combustíveis (veículos motorizados) 10 - 120µg/m³ Óxidos de enxofre Queima de combustíveis (veículos motorizados) 0 - 15µg/m³ Compostos orgânicos
voláteis (substâncias orgânicas)
Adesivos, solventes, tintas, materiais de
construção, revestimentos sintéticos, produtos de limpeza, combustão, fumo e outros.
N.A
Ozônio Reações fotoquímicas (computadores e demais
materiais eletrônicos) 0 – 10 ppb
Partículas Produtos de combustão, poeiras 10 - 1000µg/m³ Pólens Árvores, relva, ervas daninhas e outras plantas ML/ AV Radônio Solo, materiais de construção (pedra e concreto) 0,01 – 4 pC/liters
Aerosois Produtos de consumo N.A
Esporos Fungos e bolores N.A
Amianto e fibra sintética Materiais retardantes de fogo e isolantes 0 – 1 fibra/ml Mercúrio Fungicidas, pinturas, termômetro ou lâmpada
quebrada ML/ AV
Amonia Atividade metabólica, produtos de limpeza N.A
Fonte: SPENGLER, SEXTON (1983). Legenda:
2.2.5. Diretrizes e normas para concentrações dos contaminantes em