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CAPÍTULO III BUSCANDO OS RESULTADOS DA PESQUISA

3.1 Conversando com as mulheres a partir dos dados, vistos sob um

3.1.6 O que mudou na sua vida dessas mulheres com o diagnóstico

Com relação a possíveis mudanças que possam ter ocorrido na vida dessas mulheres com o diagnóstico e o tratamento, duas delas referiram que “passaram a dar maior valor a vida”. E outra acrescenta a essa fala: “continuar lutando pela vida”, uma vez que essa passou a ter um valor maior.

Esta percebe a mudança ocorrida em sua vida, a partir do diagnóstico, de uma maneira negativa, pois para ela o sentimento de inutilidade mostrou-se intensamente presente: “acho que mudou... eles lá em casa acharem que sou uma mulher que não presto mais para nada”. Tal sentimento pode estar relacionado a preocupações como a de não querer ser um incômodo, não depender dos outros, não atrapalhar. No primeiro momento, a mulher pode se sentir frágil e inútil diante das tarefas mais simples, (como demonstra essa mulher). Daí as limitações quanto à realização de tarefas diárias, conforme relata a paciente, uma vez que desempenha muitas atividades domésticas, pois não trabalha fora.

Ao se deparar com as limitações físicas, a mulher também passa a enfrentar fatores sociais de mudança como: dependência e mudança de papéis e de tarefas; o cuidado da família, da casa, deixar ou modificar as atividades rotineiras, o que traz mudança na rotina diária, conforme expressa a terceira mulher pesquisada: “ ... tudo mudou .... mudou minha rotina de vida”. Assim, podem se sentir mais vulneráveis.

Essas dificuldades também são observadas por Fernandes (1997, p.45) que descreve que o comportamento social das mulheres com câncer de mama é afetado, ocorrendo uma disfunção de papéis. Elas deixam seus empregos, restringem suas atividades domésticas e sociais pela ocorrência da doença, e isto contribui para aumentar o comportamento depressivo e isolamento social, pois as mulheres estão

se sentindo inúteis por não desempenharem tarefas que outrora eram suas, decorrendo daí, além do sofrimento físico, o sofrimento moral e o psicológico.

Para uma dessas mulheres não ocorreu mudança em sua vida com o diagnóstico do câncer. Essa resposta pode expressar o desconforto emocional sentido como uma negação da realidade (suprimindo qualquer referência ao problema, negando sua existência), afastamento, minimização (diminuindo sua importância). Essa é uma forma de negação da realidade quando o paciente muda o significado de uma situação estressante, como é o diagnóstico da doença, para manter a esperança, negando os fatos e suas implicações, recusando a aceitar o pior, ou agir como se o que aconteceu em nada lhe importasse.

Se temos, por um lado, o impacto emocional causado pelo diagnóstico, por outro, vemos que a vivência da espiritualidade pode ter contribuído para que essa mulher mantivesse e aumentasse a esperança e a fé, conforme nos relatará posteriormente: “A minha fé em Deus, aumentou mais, mais e mais”; apesar de ter um diagnóstico como esse e de ter sofrido o abandono de seu companheiro e de seus amigos, conforme relatou.

Também pode-se dizer que cada uma dessas mulheres estruturaram uma experiência religiosa particular,no sentido em que Crespi (1999) a define, ou seja, a partir dessa experiência com a doença, foi se configurando uma experiência não tanto como um processo cognitivo, mas sim como uma verdadeira e própria transformação da experiência vivencial, com seus componentes emocionais e intuitivos, conforme os relatos nos demonstram. Ainda segundo esse autor, essa experiência não é consoladora e certificante, o que não foi percebido na vivência dessas mulheres dessa pesquisa. Contrariamente a esta afirmação de Crespi (1999), observa-se que essa experiência foi sendo vivenciada por essas mulheres, cada uma na sua solidão individual, como consoladora e certificante, o que lhes favoreceu tranformar as valorizações negativas, as desestabilizações da angústia, os sentimentos debilitantes e negativos, em novos valores, como observamos nesse relato de duas dessas mulheres: “eu me valorizei mais, dar mais valor à vida e também às pessoas ... acho que fiquei menos egoísta, entendeu ? consigo hoje pensar mais nas outras pessoas”; “mudou assim.... dar mais valor a mim mesma, às outras pessoas, à minha própria vida”. Dessa forma, essa vivência pode ter alimentado a fé e a esperança dessas mulheres em um futuro vislumbrado, apesar

da dimensão incerta do percurso desde o diagnóstico e todo o processo do tratamento.

Observamos que esses dados também são coerentes com as definições dadas por Saad; Masiero e Battistella, (2001) citados anteriormente.

Quadro 8 – O que mudou na vida dessas mulheres com o diagnóstico de câncer da mama?

SUJEITOS CATEGORIA VERBALIZAÇÃO FREQUÊNCIA

1, 4 Maior valor à vida

“Valorizei mais a minha vida”.

“Mudou... dar mais valor a vida”. 2

1 Continuar

lutando “Continuar lutando porque não sei até quando este tratamento vai”. 1

2 Sentir-se inútil “Acho que mudou... eles lá casa, acharem que eu sou uma mulher que não presto mais para nada”.

1

3 Mudança de

comportamento

“... tudo, tudo mudou na minha vida, minha maneira de pensar, minha maneira de me comportar...”.

1

3 Mudança na

rotina de vida

“... tudo mudou... mudou minha rotina de

vida”. 1

4

Maior

valorização de

si “... mudou... dar mais valor a mim mesma”.

1

5 Não forneceu resposta

3.1.7 O que essas mulheres perceberam que as ajudou a enfrentar o diagnóstico e o tratamento ?

De modo geral, as pessoas não costumam estar preparadas para perder sua identidade como seres humanos saudáveis.

A doença atinge a pessoa toda no seu corpo, no seu espírito, nos seus sentimentos, no seu modo de ser e de se relacionar com os outros.

Conforme enfatiza Fernandes (2003, p.29) o diagnóstico de câncer da mama traz consigo traumas psicológicos, perda da auto-estima, sensação de fracasso. Diante de uma doença grave e estigmatizante, a descoberta gera angústia, medo, tristeza, desesperança conforme as mulheres pesquisadas demonstraram ao receber o diagnóstico de câncer da mama e da necessidade de serem submetidas a tratamentos desconfortáveis. Nesse momento cicatrizes emocionais foram feitas.

O tratamento quimioterápico foi mencionado por todas as cinco mulheres participantes desse estudo, como sendo o mais agressivo ao corpo e foi apontado como um dos momentos mais difícies a ser superado.

O sofrimento por ter câncer e a perspectiva de morte caminham de mãos dadas. A inevitável finitude e o sofrimento que o câncer frequentemente pode acarretar como conseqüência da doença e a antecipação do final da vida favorecem questionamentos pessoais e existenciais de significados e propósitos que se fazem presentes: qual o sentido dessa experiência ? Qual o propósito de minha vida ?

Existem momentos em que a dor é tão grande que a pessoa sente-se incapaz de carregá-la sozinha. Em quem buscar alívio ? Como atravessar esse deserto ? Com quem dividir o peso e a dor da doença ? O que um acontecimento como esse fala de Deus ?

Para quatro das cinco mulheres que contribuíram para esse estudo por várias vezes, Deus aparece como Aquele com quem dividiram o peso e a dor da doença. Conforme observamos nos relatos: “Deus ... acho não tenho certeza que quem mais me ajuda é Deus”; “... essa força que eu peço e sinto que tem me ajudado”; “Peço a Deus que me ajude, que me dê forças e Ele tem me ajudado a agüentar tudo isso”.

Segundo Paloutzian (1996) recorrer a Deus em situações difícies é uma das formas mais conhecidas de ajuda da religião, e temos vários estudos alguns dos quais foram citados ao longo dessa dissertação, que confirmam resultados positivos em termos de conforto e alívio de tensão.

No Antigo Testamento se transmite que é a Deus que se deve recorrer nas noites escuras da vida, pois Ele é o Senhor da Vida, “ Eu sou o Senhor que te cura” (Ex 15,26). Esta busca de Deus também está presente nos Salmos, como por exemplo: “Então Senhor até quando ?” (Salmo 6,3-4). “ Senhor, não me abandones, meu Deus, não fiques longe. Depressa ! Socorro ! Senhor, minha salvação (Salmo 38, 22-23); e nas verbalizações das mulheres participantes desse trabalho: “Deus .... acho não, tenho certeza que quem mais me ajuda é Deus”; “.... se eu não batalhar contra essa doença ninguém vai batalhar ... ninguém. Só eu e Deus que tem me ajudado....” ; “ essa força que eu peço e sinto que tem me ajudado ....” , “Peço a Deus que me ajude, me dê forças e Ele tem me ajudado a agüentar tudo isso ....”.

Que lugar ocupa o Sagrado nesses momentos ? Qual o lugar da fé, da confiança numa força além da própria, que pode ser vital na esperança de continuar vivendo ?

Observamos que a fé e a crença aparecem ocupando o lugar de uma força vital que apóia e contribui para alimentar a esperança em dias melhores, com planos, com perspectiva de futuro, enfim para continuar vivendo apesar de um doença como o câncer. Pôde-se também verificar que, na solidão individual de cada uma dessas mulheres, foi se processando, conforme descreve Croatto (2001), a construção de uma experiência religiosa, ou seja, buscaram uma experiência de ligação com o transcendente - Deus.

Essas mulheres falam de uma experiência onde mencionam uma conexão com algo maior que percebem que apóia, trazendo conforto, paz e esperança na travessia desse vale, conforme observa-se no relato da segunda mulher pesquisada: “ ....Deus me trouxe paz, conforto e esperança”; “Deus ... acho não, tenho certeza que quem mais me ajuda é Deus”; também da quarta mulher: “ ... essa força que eu peço e sinto que tem me ajudado “; e na quinta mulher: “Peço a Deus que me ajude, que me dê forças e Ele tem me ajudado a aguentar tudo isso”.

A vivência dessa experiência pode ter contribuído assim para fazer suportar sentimentos debilitantes como os relatados por essas mulheres: desamparo, angústia, medo, sofrimento, como também pode ter contribuído para uma troca de estado de humor negativo para um estado positivo, conforme os diversos estudos apontam - uma contribuição favorável da experiência religiosa no campo da saúde.

O que um acontecimento dessa natureza manifesta sobre Deus, essa força procurada e apontada por essas mulheres, que vem ao seu encontro como auxílio ?

Ao ouvir os relatos dessas mulheres na vivência dessa experiência com a doença parece que a presença de Deus vem tecer, na história própria de cada uma delas, para dar-lhes um fio a mais. É um fio a mais que, nesse ponto, faz o arrematamento, unindo o que estava solto, frouxo, fragmentado, para aí, cada uma delas, na solidão individual de sua vivência, se construir, se renovar.

São Paulo, em uma de suas cartas aos Tessalonicenses diz: “não deveis entristecer-vos como os outros que não têm esperança” (Ts 4, 13). O Deus que essas mulheres experienciam durante o trajeto nesse trecho de suas vidas, não é o Deus espião de suas idas e vindas, ou o juiz que julga, reprova e condena, mas o Deus da Esperança, em quem confiam e Dele esperam o auxílio na travessia desse

trecho íngreme, cuja presença e a força alimentam a fé de poder chegar ao destino esperado - a vitória sobre a doença e a continuidade da vida.

Desse modo, observa-se que essas mulheres sentiram que poderia haver um futuro: não que conhecessem em detalhes o que as esperava, mas puderam confiar em termos gerais que as suas vidas não acabariam no vazio.

A vivência da experiência dessas mulheres nos remete ao que comunica o Papa Bento XVI, em sua Encíclica sugestivamente chamada: “Salvos pela Esperança”, em novembro de 2007:

Somente quando o futuro é certo como realidade positiva, é que se tornavivível também o presente ...A fé é só uma inclinação da pessoa pararealidades que hão-de-vir, mas que estão ainda totalmente ausentes; eladá-nos algo. Dá-nos já agora algo da realidade esperada, e esta realidadepresente constitui para nós uma “prova” das coisas que ainda não sevêem. Ela atrai o futuro para dentro do presente, de modo que aquele jánão é puro <ainda não>. O fato de este futuro existir, muda o presenderramam-se naquelas presentes e as presentes nas futuras. A fé comfere à vida uma nova base, um novo fundamento, sobre o qual o homem se pode apoiar. (Carta Encíclica do Sumo Pontície, 2007, p.76)

Finalmente, outros autores como Gimenes (2003), Pessini (2004), Hardvig (2000); Saad, Masiero e Battistella (2001) além de vários outros estudos, alguns dos quais foram relacionados nessa pesquisa, vêm demonstrando a importância da espiritualidade como forma eficiente de apoio para lidar com situações, quando estas vêm sobrecarregar os recursos habituais utilizados pela pessoa para responder a essas situações. Ou seja, diante de situações estressantes e de ameaça à vida, como o diagnóstico de câncer de mama, a busca pela fé em Deus, como pai presente, que conforta, que alimenta a esperança em dias melhores, ajuda a minimizar o impacto negativo da doença, proporcionando uma melhor qualidade de vida e bem-estar emocional.

Quadro 9 –O que ajudou essas mulheres a lidarem com diagnóstico e tratamento?

SUJEITOS CATEGORIA VERBALIZAÇÃO FREQUÊNCIA

1, 2, 4, 5 Deus

“Deus e as outras pessoas.”

“Deus... acho não, tenho certeza que quem mais me ajuda é Deus...”

“... se eu não batalhar contra essa doença ninguém vai batalhar... ninguém. Só eu e Deus que tem me ajudado...”

“... essa Força que eu peço e sinto que tem me ajudado...”

“Peço a Deus que me ajude, me dê forças e Ele tem me ajudado a agüentar tudo isso...”

5

1 Esperança “... Acho que a esperança em dias melhores.” 1 3 Ajuda “... então por ter bastante ajuda espiritual, isto

tem me ajudado bastante...” 1

3.1.8 Qual a relação dessas mulheres com a fé até o momento em que