FAMÍLIAS PARTICIPANTES DO PROGRAMA FOMENTO
3 CONTRIBUIÇÕES PARA COMPREENSÃO DAS DINÂMICAS SOCIAIS DAS COMUNIDADES QUILOMBOLAS
3.2 QUILOMBO E COMUNIDADES QUILOMBOLAS CONCEITOS E CONTEXTOS
A primeira referência de definição conceitual do termo quilombo remonta ao período colonial (1740), definindo quilombo como “toda habitação de negros fugidos, que passem de cinco, em parte despovoada, ainda que não tenham ranchos levantados e nem se achem pilões nele” (ALMEIDA, 2002, p. 47). Segundo o autor, este conceito ficou “frigorificado” no imaginário social e se ampara nos seguintes elementos: a fuga; uma quantidade mínima; isolamento geoGráfico; a moradia habitual; a presença do pilão, símbolo da subsistência e da capacidade de reprodução (ALMEIDA, 2002, apud BENEDETTI, 2014).
A partir da década de 1980, com o cenário de abertura democrática e de organização de movimentos sociais que pautavam o respeito à diferença cultural e à reivindicação do movimento negro,31 que se organizava desde a década de 1970, repercutem em um conjunto de marcos e políticas do final da década de 1980 em diante.
O marco legal da Constituição Federal de 1988 reconheceu direitos e o caráter pluriétnico da população brasileira. Rompendo com a representação vigente
29 Embora a partir da segunda metade da década de 1970 passou a ser utilizada “raça” como uma
“variável” (ANJOS, 2003).
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Foi somente na segunda metade da década de 70 que a raça (ou a cor), como atributo social elaborado, passou a ser tratada como esquema classificatório e um princípio de seleção racial que está na base da persistência e reprodução de desigualdades sociais e econômicas entre brasileiros brancos e não-brancos (HASENBALG, 1992).
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Surgem no sentido de contemplar a abordagem da questão racial não pautada pelos demais movimentos sociais na época.
de uma sociedade homogênea, passando a reconhecer a diversidade cultural, assim como rompeu com a “tutela” do Estado sobre territórios tradicionalmente ocupados (indígenas e quilombolas). Em seu Artigo 68, Ato das Disposições Gerais e Transitórias (ADCT), estabelece dispositivo jurídico com reconhecimento de direito aos remanescentes de quilombos que estejam ocupando suas terras.
Reconhece-se, porém, que a luta do Movimento Negro em torno da afirmação de uma identidade negra e de políticas para reparação à escravidão é muito anterior ao debate constituinte, assim como não se encerra com este dispositivo, pois coube à legislação complementar a definição dos procedimentos administrativos para o processo de titulação das terras das comunidades de remanescentes de quilombos (CAMPOS, 2009; RUBERT, 2008).
Conforme Rubert (2008), a partir do ADCT iniciaram-se estudos antropológicos para geração de laudos a fim de comprovar o direito por terras de quilombolas perante a constituição. No RS são identificadas comunidades e realizados os primeiros laudos antropológicos em 1994, constituindo-se também como importante marco de visibilidade perante agentes públicos do Estado e sociedade civil. Juntamente com a atuação de vários agentes que chamaram atenção para as comunidades remanescentes de quilombos no RS32, assim como as ações do Movimento Negro e os tensionamentos das mobilizações pela reforma agrária (RUBERT; SILVA, 2009).
Considera-se que os quilombolas tornaram-se agentes sociais visíveis para ações de políticas públicas especialmente a partir de um cenário de crescente visibilidade do grupo social, tanto no contexto Federal como do RS33, a partir dessas ações, acentuando-se a partir do início deste século (PEGLOW; ZANELLA, 2017). No RS, diversas políticas públicas se efetuaram e esta perspectiva emergente das reivindicações foi aos poucos relativizando as noções que tornavam ausentes da esfera pública estes grupos sociais, assim como veio a “redesenhar” o mapa do RS, visto os rasgos que guarda de “um estado alçado ao estatuto de unidade federativa europeizada” (RUBERT, 2008, p. 167).
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Conforme (RUBERT, 2008) a diversidade dos processos de formação dos territórios de quilombos certamente relaciona-se com o tipo de relação social que os gerou: a escravidão permeada pela servidão. Os quilombolas têm sua origem como população subordinada e escrava nos espaços relativos às estâncias, tendo sua relação de invisibilidade sido reforçada pelos processos de colonização por imigrantes europeus e com a modernização da agricultura.
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A definição de critérios e conceitos de “remanescente de quilombo”, para superar a cristalização dos conceitos ainda com base no período colonial, avançando para uma concepção contemporânea de quilombo, tornou-se tema de estudos e debates jurídicos, com participação da Associação Brasileira de Antropologia (ABA), como também de mobilização do movimento negro (Leite, 2000). Expressando-se normativamente através do Decreto Federal nº 4.887, de 20 de novembro de 2003.
Art. 2º Consideram-se remanescentes das comunidades dos quilombos, para fins deste Decreto, os grupos étnico-raciais, segundo critérios de auto- atribuição, com trajetória histórica própria, dotados de relações territoriais específicas, com presunção de ancestralidade negra relacionada com a resistência à opressão histórica sofrida.
1º Para fins deste Decreto, a caracterização dos remanescentes das comunidades dos quilombos será atestada mediante autodefinição da própria comunidade (BRASIL, 2003).
Ressaltado a partir do Decreto, o reconhecimento do direito à propriedade não somente daqueles que ainda residem nas terras de ascendência escrava, mas os que delas foram expropriados. Isso ampliou e incluiu de forma mais significativa os quilombolas, principalmente os que por diferentes motivos se viram obrigados a abandonar os quilombos (RUBERT, 2008). A comunidade que se autodefine, a partir da sua identidade coletiva e não individual, pois a certificação da comunidade e a titulação dos territórios se dão através de procedimentos coletivos na forma de associação comunitária.
Nesse sentido, o termo “quilombolas”, é utilizado no presente estudo, em uma abordagem sociocultural (identidade), relacionado às populações ligadas a comunidades remanescentes de territórios de quilombos, sem que se considere como delimitação uma dimensão unicamente étnica. Além disso, o termo “comunidade”, quando se refere a remanescentes de quilombos, tem uma conotação de trocas materiais e simbólicas, além das relações territoriais, como fronteiras espaciais fixas (RUBERT, 2008; 2012).
Como marco político, identifica-se também a reivindicação e afirmação de um modelo específico de desenvolvimento, não calcado no modelo desenvolvimentista dominante. Uma das propostas é o etnodesenvolvimento, voltado para etnias minoritárias, os povos e comunidades tradicionais, que tem como princípio a radicalização da participação da população, respeito e diálogo a partir das diferenças culturais e de poder nas diferentes arenas ou esferas públicas específicas
(DOS ANJOS; LEITÃO, 2009). Nessa perspectiva, valoriza-se o perfil específico de cada comunidade e o seu protagonismo na construção de modelos de desenvolvimento alternativos, a partir da sua diversidade, constituindo-se como referência para as políticas públicas para as comunidades tradicionais.