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6 INTUIÇÕES TEMPORAIS EM EXPERIMENTOS COM SETE

6.1 Rain Storm over the Sea

Dentre os céus costeiros de Constable, merece menção Rain Storm over the Sea (Figura 50), pintura realizada em algum momento entre 1824 e 1828, imprecisão baseada em publicações do elenco de referências bibliográficas desta investigação.

Nessa pintura, fica evidente a ênfase da composição na medida em que se nota que Constable determina quase a totalidade da área do suporte pictórico para a representação do céu. Restrito a apenas uma sexta parte da superfície pintada, o horizonte delimita um mar negro e uma pequena nesga de terra. No entanto, quando me refiro a um mar negro, é puro sentimento. Tecnicamente, como artista e pintor, tenho capacidade de perceber não se tratar de um resultado em preto exclusivamente. Posso imaginar a operatória de Constable, a fusão de pigmentos, as mesclas com azuis. Se fosse eu a fazê-la, talvez selecionasse tintas ultramarinho escuro, talvez cobalto escuro ou, quem sabe, azul da Prússia ou todas. Afinal, as qualidades estão à mercê da percepção de um mar compatível com a tempestade que cai sobre ele.

Figura 50 – Rain Storm over the Sea (óleo sobre papel, 1824-1828)

Entretanto, pouco importa essa pequena extensão pintada, pois a maior superfície representa uma precipitação de nuvens cumulus, em um derrame de chuvas e feixes de luz, em que impera a instabilidade, sugerindo um acentuado dinamismo à pintura, para mim, signo de sua temporalidade.

Na história de suas criações, sabe-se que Constable tinha por hábito a escolha de momentos com muita claridade sobre as paisagens, situação em que o sol favorecesse a composição por meio de sua luminosidade. Rain Storm over the Sea não segue a predileção por aquelas condições atmosféricas em que Constable reproduzia seus rincões da juventude. Acompanha um período de pouco entusiasmo na vida do pintor, momento em que se viu obrigado a levar sua esposa doente para viver em uma zona costeira, Brighton, em prol de sua saúde. Portanto, naqueles anos, seu estado de espírito pode ser uma justificativa suficiente para a representação de uma atmosfera com tão pouca luminosidade.

Seguindo a mesma elaboração cromática usada para o mar, ao compor o céu, Constable se vale das cerdas dos pincéis para promover uma fusão de tintas tão grosseira quanto penso ser a violenta tempestade que tenta representar. No apuro da percepção, noto o acréscimo provável de pigmentos púrpura, que resultam em tons de magenta para aquela variedade cromática. A partir da expressividade do pintor, pode ser suposto, para aquela paisagem, um passado menos instável. Penso assim baseado na apreciação dos efeitos de claridade, por meio dos brancos, às vezes misturados aos magentas e aos azuis, aplicados ao fundo. Percebo que a fatura pictórica foi composta de tons luminosos, inicialmente, para, depois, camadas opacas mais escuras. Por fim, seja com tons claros ou escuros, diversas pinceladas deixam suas marcas por sobre o conjunto, sugerindo a direção das chuvas torrenciais em suas verticalidades, como também diagonais, que trazem à mente supostas correntes de vento.

Sinto que a noção de temporalidade surge quando associo que a tempestade está por sobre uma paisagem que antes estava em um curso menos instável. Em outras palavras, acredito que os fenômenos naturais novos surgem por sobre um tempo mais tranquilo, um passado de condição atmosférica menos revolta. A tempestade que se sobrepõe configura um presente que elimina o passado, porém deixa indícios da história daquela região através da materialidade das camadas de tinta, sobretudo as iniciais, luminosas, que persistem em aparecer por trás da expressiva sobreposição das pinceladas enérgicas de Constable.

Portanto, a partir dessa reflexão, para evidenciar a temporalidade expressa em Rain Storm over the Sea, eu poderia recorrer à filosofia da arte de Dewey, em especial, sua visão sobre as fases consecutivas do fluxo contínuo da experiência estética. No entanto, creio que a

materialidade em si venha a ser o mais relevante, frente a essa pintura, para garantir a ideia de impermanência que busco assegurar. Sendo assim, quero me valer do exemplo de Rain Storm over the Sea para aproveitar contributos teóricos einsteinianos, abordados no segundo capítulo desta investigação.

Segundo a Teoria da Relatividade Geral de Einstein, é a distribuição de matéria que determina o espaço-tempo. Portanto, como consequência da materialidade dos corpos, o espaço-tempo apresenta-se a posteriori, e sua realidade é dela dependente. Ocorre que, como toda representação, Rain Storm over the Sea sugere a presença de uma tempestade sobre um mar e, da mesma maneira, o espaço-tempo também é representado. Inicialmente, Constable teve, em suas mãos, um suporte neutro para sua pintura. A partir da distribuição das camadas de tinta, sua expressividade ganhou corpo, assim como a ideia dos fenômenos atmosféricos sobre a paisagem marinha. Conforme detalhado anteriormente, o uso dos recursos técnicos, aliado ao sentimento do pintor, conferiu uma sequência de ações que culminaram na materialidade da pintura terminada. Diante de seu resultado, a experiência apreciativa, em geral, torna-se capaz de perceber que o que está representado é uma tempestade que se abate sobre um mar naquele instante presente. Porém, pela luminosidade, que persiste em se manter visível, é possível também imaginar um passado menos turbulento para aquela paisagem, um momento anterior de ausência das torrentes de chuva, com vento menos afoito, um mar menos negro etc. Sendo assim, na medida da disposição das camadas de tinta sobre o suporte, ou seja, através da materialidade da pintura de Constable, ficam determinadas as representações da paisagem e do espaço-tempo.

Em suma, as tonalidades, os empastes e as marcas das cerdas dos pincéis sugerem a impermanência dos fenômenos na pintura, constatação que esta tese busca. A analogia se dá por Einstein acusar que a distribuição de matéria determina o espaço-tempo, e Constable, por representar a natureza e o espaço-tempo, com a materialidade de sua arte.

Por outro aspecto, neste momento do texto, devo admitir que não tive a oportunidade de apreciar a pintura Rain Storm over the Sea pessoalmente. Toda esta reflexão baseia-se em minha experiência estética diante de reproduções fotográficas da pintura. Por conseguinte, vem carente de vivenciar as qualidades próprias de um exemplar da linguagem pictórica, além de lidar com dimensões diferentes da original, cujas medidas são 22,2 x 32 cm.

Todavia, busquei investigar várias publicações que trazem essa imagem em fotografias impressas ou digitalizadas, na intenção de evitar equívocos. Imagino que algum engano possa existir, quando me refiro à pintura, no bojo de minhas considerações apreciativas. Apesar de a

experiência estética ser algo de âmbito subjetivo, é certo que algumas qualidades não devem ter sido alcançadas por mim, as quais eu poderia ter tido acesso, caso a oportunidade da experiência fosse diante da própria pintura.

No entanto, quero ressaltar que Rain Storm over the Sea, mesmo em reprodução fotográfica, oferece indícios da temporalidade que me interessam para esta investigação. Nesse âmbito, não há dúvidas de que Constable deixou as marcas das pinceladas impressas sobre a tela. Elas são de um vigor tão expressivo que a fotografia o sugere e, nesse caso, consegue ser indicial desses efeitos, mesmo que em intensidade alterada.

Por fim, quero encerrar sugerindo para os leitores desta tese que incluam, em seus planos, a visitação à Royal Academy of Arts em Londres, onde essa obra prima se encontra em exibição, desejo que nutro realizar. Nessa oportunidade, certamente, a noção de impermanência deverá estar mais evidenciada e, de posse do conhecimento que esta tese defende, a experiência estética revelará mais valores para esse precioso exemplar da pintura de Constable.